Baralho de Cartas 42

Oi Ricardo! 

No decurso veraneante, tento trabalhar no escritório de Xabregas. Montei mais quatro estantes de livros, o que deixa aquilo perigosamente confortável a parecer mais um casa do que escritório. Um dos aspetos miríficos da ocupação profissional sem patrões é, precisamente, esta sensação doméstica, mas sobretudo poder dispensar os colegas canalhas. Não aturar esses poderes intermédios, os capatazes, os fascistas caga-tacos. Em cada ínfima possibilidade de fugir da mira deles, afastemo-nos dos canalhas, não lhes damos alimento, que apodreçam na sua jaula infecta. Demorei demasiado tempo a identificar os prevaricadores e a proteger a minha preciosa energia das relações tóxicas (à parte a expressão imbecil), é mesmo uma questão de auto-proteção. 

À hora de almoço ataco um bitoque cheio de nervo. Sucedem-se concertos dos U2 no ecrã da churrasqueira e uma pintada com o imperativo «chora agora» na parede da Casa Pia chama a minha atenção. O homem da grelha conta que é groupie dos U2, já assistiu a 48 concertos em todo o lado, inclusive pagou três mil euros para ir vê-los por 15 minutos no Super Bowl. A sua forma de conhecer o mundo dá-se, assim, através das tour dos U2, o que me pareceu um mote existencial honesto e exequível. 

Ontem fui visitar o X. ao hospital e saí, perturbada. Ninguém está preparado para ver um rapaz, belo e livre, subitamente apanhado nas malhas de tão grave tragédia. Depois de um coma quase morte, amputaram-lhe as pernas a pela canela, e todos os dedos à excepção dos polegares. E o absurdo: não foi uma amputação causada por bombas ou minas antipessoal. O paludismo pode ser mortífero como um morteiro, e corriqueiro como uma gripe. Criou-lhe lesões gravíssimas nas extremidades. Duro demais. Entre os três (fui com o meu grande amigo K.) tivemos uma conversa bonita e forte. Depois de se morrer, ou quase morrer, ou mudar de corpo, não há tempo para ninharias. X. descreveu-nos a sensação de estar “do outro lado” e de ser sugado por uma palhinha. O apecto cómico da narração é que, lá ao longe onde ninguém sabe a localização, as vozes da televisão ligada nos canais massacrantes continuavam a fazer ouvir-se. A televisão não dá tréguas aos desvalidos nos hospitais, quanta gente deve morrer a ouvir o Domingão, o Preço Certo ou o Dois às 10!  Não acredito que a arte salve mas pode, ao menos, inscrever a dor, universalizá-la, retirá-la da fragilidade individual e da condição impotente para uma comunicação extra-eu, extra-vida. Acredito que ele venha a conseguir levar esta experiência-limite para a arte e expressá-la com a fúria da sobrevivência. 

Por estes dias, 42 pessoas deram à costa algarvia quando decorria a feira do marisco em Olhão, num barco de cinco metros, após cinco dias e cinco noites no mar engolidor de corpos. O mar está cheio de cadáveres corajosos, mas estes valentes naufragados serão certamente deportadas, ironicamente, por pessoas que carregam nas suas memórias histórias de migração clandestina portuguesa.

Já nem sequer existimos, escreves tu no Facebook. Sempre que te leio a perder o pé da força que acredito que tens, desejo raptar-te para o mundo dos vivos, como sonhei que o tempo recuava antes da malária chegar ao estado de infeção, no caso do X. E na coluna do café, a voz de Jorge Palma dá o desenlace irreparável: «eu a obedecer e tu a mandar, os dois na triste peça, os dois à espera do fim».

Repito-me nestas cartas, so boring!

Doris Salcedo, A flor da piel, 2014 Doris Salcedo, A flor da piel, 2014

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(Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

por Marta Lança
Mukanda | 14 Outubro 2026 | Baralho de Cartas