Sarah Maldoror e o cinema africano

Sarah Ducados (1939- 2020) nasceu em Guadalupe e recuperou do fantástico livro Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, o apelido-pseudónimo Maldoror. Filha de mãe francesa e de pai antilhano, o seu nome aparece ligado ao cinema africano, jutamente com Souleymane Cissé, Med Homdo, Safi Faye ou Kwah Ansah, mostrando-nos que não existe uma forma particular de fazer cinema em África, mas sim diversidade de filmes, de narrativas e estilos.

Na Paris de 1956, foi uma das fundadoras do grupo de teatro Les Griots, promovendo a negritude através de adaptações do filósofo existencialista Jean Paul Sartre e do poeta Aimé Césaire.

Estudou cinema em Moscovo com uma bolsa de cinema da União Soviética (1961-62), no Studio Gorki, onde conheceu Ousmane Sembene. Numa altura em que havia poucas realizadoras negras, inaugurava um percurso cinematográfico de grande qualidade e persistência.  

Sarah MaldororSarah MaldororFoi assistente de Gillo Pontecorvo no emblemático filme Batalha de Argel (1965), que ganhou o Leão de Ouro em 1966. Colaborou com William Klein, no documentário Festival Panafricain d’Alger (1969) e com Chris Marker, na rodagem de Sans Soleil (1983).

Tendo sido companheira de Mário Pinto de Andrade (1928-90), com quem teve duas filhas, envolveu-se na luta pela independência das colónias africanas. Com uma visão que conjuga estética e política, os seus filmes contam estórias na denúncia das injustiças. África esteve sempre no seu horizonte. Carnaval na Guiné-Bissau (1971) e Carnaval no Sahel (1977), a Ilha do Fogo em Cabo Verde, a Tunísia, o Senegal, temas como o racismo, questões de género e o papel da mulher na luta pela libertação, são alguns tópicos dos seus trabalhos. 

Realizou em 1972 o famoso Sambizanga que, tal como Monangambê (1971), é inspirado na obra de Luandino Vieira (Samizanga em “A Vida Verdadeira de Domingos Xavier”, e Monangambé a partir do conto “O fato completo de Lucas Matesso”). Do escritor, a cineasta retém “o diálogo íntimo, do sujeito angolano silenciado, cuja história é contada numa perspectiva alternativa e contestatária do colonizador opressor”, escreve Maria do Carmo Piçarra em Angola, o Nascimento de uma Nação. Curiosamente no período da guerra colonial houve bastantes produções de ficção em Angola. Desde finais dos anos 60, foram feitas filmagens sobre a guerrilha anti-colonial pelo Departamento de Informação e Propaganda do MPLA. Os filmes de Sarah antecipam um cinema de intervenção que se consolidaria com a independência do país. 

Sambizanga. 1972. Angola/França Sambizanga. 1972. Angola/França Monangambê é a sua primeira longa-metragem, filmado em três semanas perto de Argel, com não-actores e militantes do Movimento de Libertação de Angola no exterior (em Argel e Brazzaville) e o actor argelino Mohamed Zinnet. Sambizanga foi filmado durante sete semanas em Brazzaville, CongoSambizanga (sobre guerra de libertação em Angola, no período 1961-1974), tornou-se um dos mais importantes filmes sobre a resistência africana. Mário Pinto de Andrade, um dos grandes símbolos dessa mesma resistência e marido da autora, foi co-argumentista. A história centra-se na procura de uma jovem mulher pelo seu marido preso, e culmina num conto de separação e brutalidade que, através da perícia de Maldoror, torna-se muito afirmativo. De notar ainda, vinte anos mais tarde, outro filme sobre mulheres sobreviventes do conflito armado no documentário Les oubliées, realizado por Anne-Laure Folly.   

 

Figuras da negritude também a interessaram. Sobre Aimé Césaire fez Máscara das palavras (1986), e já em 1976 realizara Martinica, Aimé Césaire, um homem, uma terra escrito por Michel Leiris. E ainda um filme com este e outro poeta da negritude, Leopold Senghor, a discutirem os trabalhos de Léon Damas.

Sarah Maldoror fez pesquisa cinematográfica sobre a História africana. “A História tem sido escrita por outros e não por nós, diz a autora numa entrevista de Beti Ellerson, de 1997. “É necessário defendermos a nossa própria história, e que a tornemos conhecida – com todas as nossas qualidades e defeitos, nossas esperanças e desesperanças.”

 

Foi a cineasta homenageada no primeiro FIC Luanda (Festival Internacional de Cinema), em 2008, e nessa altura pôde revisitar Angola, país que tanto ocupou a sua criação. Depois da independência viera apresentar o filme (1979), no funeral do seu companheiro Mário Pinto de Andrade em 1990 e já depois do fim da guerra em 2004. 

Aqui um excerto da nossa conversa em Luanda (2008): 

O seu regresso a Angola está cheio de simbolismo. Como tem sido?

Para mim voltar a Angola é regressar ao passado e ver o resultado daquilo pelo qual os jovens da minha geração lutaram e os grandes sacrifícios que fizeram pelo seu país. Seja Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade ou Viriato da Cruz, toda a gente acreditou na libertação. Então é bom que seja possível e se realize o sonho dos sacrificados. Já não há guerra. 

E acha que se realizou?

Ainda há muito para fazer. Mas a cidade está melhor, há muita construção, as estradas estão melhores, há sinais de mudanças.

O que tem a dizer aos jovens cineastas e que farão o cinema do futuro?

É preciso lutar. Contra a falta de produção, é preciso organizarem-se. Já existe um festival. Num festival toda a gente tem o direito de saber o que se passa, o que resulta ou não. Qual o lugar do cinema angolano, é a primeira coisa a saber.

Existe um cinema africano?

Não, o cinema é internacional. Mas digo que os realizadores africanos deviam fazer filmes para si. É evidente que os europeus fazem filmes antes demais para eles, não estão interessados em nós. É necessário defender a sua própria cultura. Os angolanos devem defendê-la. Tenho trabalhado com autores africanos, franceses, antilhanos. Filmer na Martinica, uma homenagem ao Aimé Césaire. Filmei muito em Cabo Verde (ilha do Fogo), conheço outros países lusófonos. Para mim o cinema não tem fronteiras. 

Qual o papel dos festivais de cinema em África?

Ajuda a organizar. Podemos ganhar público, ver filmes a que de outra maneira não teríamos acesso, sessões para as crianças que fazem com que venham a gostar de cinema. Se não houver festivais em Africa isto não anda para a frente. É preciso recuperar as salas de cinema para o cinema, fazer com que as crianças ganhem gosto, recuperar o hábito social de ir ao cinema.

 

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texto divulgado pelas filhas, Annouchka e Henda:

 

As vozes dos perseguidos e dos rebeldes, na pessoa da cineasta Sarah Maldoror, pioneira do cinema pan-africano, deixou de estar entre nós, dia 13 de Abril. A sua obra cinematográfica radiosa é o reflexo de uma valente combatente, curiosa relativamente a tudo, generosa, irreverente, preocupada com os outros, levando a poesia para além de todas as fronteiras.

Sarah Maldoror nasceu em 1929, filha de pai de Guadalupe e mãe do sudoeste da França (Gers). Mais tarde escolheu o nome do artista Maldoror em homenagem ao poeta surrealista Lautréamont. Toda a sua vida, os seus gestos e as suas escolhas não serão mais do que um eco dessa primeira decisão.

Depois de se iniciar no teatro, funda, em 1956, Les Griots que foi a primeira companhia composta por atores africanos e afro-caribenhos “para pôr fim aos papéis de serva”, disse ela, e “para tornar conhecidos artistas e escritores negros”. O cartaz da sua primeira encenação, Huis clos, é da autoria do artista cubano Wifredo Lam. Seguem-se peças de Aimé Césaire A tragédia do rei Christophe ou Jean Genet Les nègres, dirigida por Roger Blain. Essa dimensão teatral e o seu desejo de transmissão de outras culturas constituirão o foco da sua concepção da criação.

Em 1961 vai para Moscovo estudar cinema, sob a direcção de Mark Donskoi. É aí que ela aprende a concepção do quadro, do trabalho em equipa e da constante disponibilidade perante o imprevisto: «Estar sempre pronta a descobrir o que pode estar atrás da nuvem» dizia ela.

Depois desta estadia soviética junta-se aos pioneiros dos movimentos de libertação africanos, na Guiné, Argélia e Guiné Bissau, ao lado do seu companheiro Mario Pinto de Andrade, poeta e político angolano e fundador do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA) e o seu primeiro presidente. Desta união, duas filhas nasceram Annouchka em Moscovo e Henda em Rabat. Esta dimensão política ocupa um lugar central na sua obra. Assim se referia «Para muitos cineastas africanos, o cinema é um utensílio da revolução, uma educação política para transformar as consciências. Ela situava-se na emergência de um cinema do Terceiro Mundo procurando descolonizar o pensamento para favorecer as mudanças radicais na sociedade».

Faz a sua iniciação cinematográfica em Alger, ao lado de Gilo Pontecorvo com A batalha de Alger (1965), seguindo-se William Lein para o Festival panafricano de Alger (1969).
O seu primeiro fime Monangambee (1969), adaptado da novela de Luandino Vieira O completo de Mateus trata da incompreensão entre o colonizador e o colonizado. Sublimado pela música do Chicago Art Ensemble esta obra prima vai alcançar vários prémios, entre os quais o de melhor realizador no Festival de Cartago.

Em Sambizanga (1972) – cenário de Maurice Pons e de Mario Pinto de Andrade, ela apropria-se , através do trajecto político de uma mulher cujo marido morre por tortura política na prisão, da luta do movimento de libertação angolano.
Este filme, amplamente reconhecido constitui uma das maiores obras do cinema africano e reconfirma a sua reputação de artista engajada.

Instalada em Paris, dedica-se ao formato de documentário que lhe permitem definir através de retratos de artistas (Ana Mercedes Hoyos), poetas (Aimé Césaire; Leon G Damas), de percursores (Toto Bissainthe), o horizonte necessário para a reabilitação da História Negra e das suas figuras mais marcantes, entre outras. Os retratos de Miro, Louis Aragon ou Emmanuel Ungaro testemunham o seu ecletismo.

Sarah Maldoror dedicou a acuidade do seu olhar ao serviço da luta contra as intolerâncias e as estigmatizações de todo o tipo (Un dessert pour Constance, a partir de uma novela de Daniel Boulanger) ressaltando a importância fundamental relativamente à solidariedade entre os oprimidos, à repressão política, e à cultura, como único meio de progresso de uma sociedade. Quando da sua última intervenção no Museu Rainha Sofia (Madrid Maio de 2019), repetiu que as crianças deveriam ir ao cinema, ler poesia desde jovens, para construir um mundo mais justo.

Sarah Maldoror celebrou o compromisso do artista e da arte como um acto de libertação. O seu amigo, o poeta Aimé Cesaire, dedicou-lhe estas palavras:

A Sarah Maldoror…
qui,
caméra au poing,
combat l’oppression,
l’aliénation
et défie
la connerie humaine

Nous resterons toujours attentifs au nuage, promis !

Vamos ficar atentos para a nuvem, prometo!

por Marta Lança
Afroscreen | 13 Abril 2020 | Aimé Césaire, Guadalupe, Sarah Maldoror