O legado musical e intervencionista de Zeca Afonso

O legado musical e intervencionista de Zeca Afonso José (ou Zeca) Afonso é uma referência nacional. Entre as vozes de contestação ao regime do Estado Novo, a ditadura que já se prolongava desde 1928 em Portugal, era ele que encabeçava. Era precisamente a partir da arte, da composição lírica, da música que expressou a sua indignação em relação ao estado do país, fazendo-o de forma tão sagaz e subtil que foi fintando a austeridade da censura. Após a queda do regime, manteve-se firme e vincou as promessas de Abril, que asseverou até 1987, ano em que faleceu, vítima de esclerose lateral amiotrófica. No entanto, o seu legado perdura e é, cada vez mais, um alimento para a alma de quem não é só português, mas de quem respira e usufrui da liberdade.

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24.02.2021 | por Lucas Brandão

Pôr pedras nos assuntos: a Câmara do Porto e o monumento ao “Ultramar”

Pôr pedras nos assuntos: a Câmara do Porto e o monumento ao “Ultramar” O passado colonial português é ainda hoje uma cortina de fumo, um quase tabu, um não assunto. Sobre o colonialismo português gravita um enredo de silêncios comprometidos, onde se aliam adesões instantâneas a versões adocicadas da história e formas de organizar publicamente uma narrativa que não convém que se discuta. E uma das formas de contornar a discussão, de omitir os problemas, de prolongar os impensados, é impor a visão única no meio da praça, no meio da rua, encorajando os transeuntes a não pensar para além do que lhes salta imediatamente ao caminho. É a velha estratégia de pôr uma pedra no assunto e organizar publicamente o esquecimento, num processo naturalmente mais grave para as suas vítimas diretas.

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23.02.2021 | por Hugo Monteiro

Teodoro Obiang, o presidente de um país rico com população pobre

Teodoro Obiang, o presidente de um país rico com população pobre A realidade dos habitantes equato-guineenses é desastrosa. Atualmente grande parte da população vive em barracas de ferro e metal com dificuldades de acesso a água potável e de acesso a saneamento básico nos arredores das grandes cidades, pois viver na cidade é muito caro e pressupõe um nível de vida muito acima do salário médio nacional. Malabo rivaliza com Luanda como uma das capitais africanas mais caras do continente. Além de viverem mal, vivem oprimidas.

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23.02.2021 | por Álvaro Amado

"Portugal e o Futuro"

"Portugal e o Futuro" A Pátria discutia-se a sério, pela primeira vez. Se antes o “Ultramar” parecia um tabu intransponível, tanto nas forças apoiantes do regime como mesmo nos diferentes campos ideológicos e políticos da oposição ao regime, agora a discussão sai da Assembleia Nacional e dos círculos restritos do regime para se tornar pública e inevitável. Spínola anuncia uma “encruzilhada” do regime e do problema ultramarino.

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22.02.2021 | por Luís Farinha

Os carabineros devem deixar de existir

Os carabineros devem deixar de existir O assassinato de Francisco Martinez por Carabineros colocou sobre a mesa uma das questões mais quentes mas menos abordadas dos tumultos de Outubro no Chile: a da mobilização anti-polícia e a necessidade de abolir a polícia. O assassinato de Francisco ressurgiu como um dos aspectos mais constantes mas negligenciados do ciclo de revoltas que começou em 18 de Outubro de 2019, nomeadamente a mobilização anti-polícia.

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22.02.2021 | por Felipe Lagos Rojas

Aruká, o último guerreiro

Aruká, o último guerreiro Nada disto sai à luz num mundo virado para o próprio umbigo. Como sempre, os indígenas são sombras, os pobres que nem vale a pena recordar para não doer na consciência. Enquanto nas grandes cidades – as modernas, as evoluídas, as informadas – todos se fecham em casa esperando que tudo passe numa passividade doentia, os invisíveis reagem e atuam. Não por serem diferentes. É que para eles, a paralisia não é um estado metafórico, é a morte em si mesma. Salve a vida. Salve todos eles. Salve amoé Aruká!

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22.02.2021 | por Pedro Cardoso

Joacine, uma estrela de cinema na Berlinale

Joacine, uma estrela de cinema na Berlinale Joacine Katar Moreira a declamar, a discursar e a não gaguejar. Mudança, curta-metragem do luso-guineense Welket Bungué assume-se como filme-dança experimental mas por estes dias vai ser notado e comentado por ter a deputada Joacine como protagonista. Uma curta que foi selecionada para o Festival de Berlim, mais especificamente para a secção Forum Expanded, espaço para as obras de ensaio e de radicalismos extremos, já a começar online no começo do próximo mês e, depois, num segundo momento, em junho nos vários cinemas da capital alemã.

Palcos

22.02.2021 | por Rui Pedro Tendinha

Diário de um etnólogo guineense na europa (dia 6)

Diário de um etnólogo guineense na europa (dia 6) Esse tal de André Tontura vendeu ódio contra os tugas ciganos e os tugas pretos e os pretos que não são tugas, e lucrou com muitos votos, ele mandou uma tuga preta chamada Jassine para a sua terra, mas os chefes tugas disseram: "Pá, isso é normal, é liberdade do expressionismo alemão". Liberdade do Expressionismo alemão é um estilo inventado por um tal pintor chamado Hitler. Mas não acabou bem, porque virou nazismo. Mas “está tudo bem assim e não podia ser doutra forma”, como dizia o antigo chefe tuga Salazar, os chefes tugas de hoje lavaram essa ação do tonto do André Tontura.

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21.02.2021 | por Marinho de Pina

Diário de um etnólogo guineense na europa (dia 5)

Diário de um etnólogo guineense na europa (dia 5) Os amigos tugas dos chefes dos tugas estão a despedir muitos tugas, coitados, e quando isso acontece sempre mandam os tugas coitados emigrar. Por exemplo, há não muitos anos, um chefe tuga chamado Caço Coelhos também fez o mesmo, deu muito dinheiro aos seus amigos tugas donos dos bancos e despediram os tugas coitados e mandaram-nos emigrar. “Vá!, todos para o Norte, emigrem para a Europa, saiam da Tugalândia.”

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21.02.2021 | por Marinho de Pina

Para lá do plátano

Para lá do plátano         O meu otimismo pode ser desconcertante, desconfortável, incompreensivo, pode deixar mais dúvidas que respostas mas é por aqui a minha confiança, segurança, os meus alicerces como resposta ao desafio que a vida me colocou. Tenho confiança, por olhar para o lado, para o passado, de que a tendência é dos corpos melhorarem; bem e mal cruzam-se mas o olhar e a sua vontade levam a ver em tudo ganhos e, nos passos atrás, ganhar balanço para dar dois à frente.

Corpo

21.02.2021 | por José Maria Belo

Transferência de conhecimento tecnológico africano em Portugal durante a Modernidade: pessoas escravizadas e cultivo de arroz nos rios Tejo e Sado

Transferência de conhecimento tecnológico africano em Portugal durante a Modernidade: pessoas escravizadas e cultivo de arroz nos rios Tejo e Sado Historiografias demasiado simplificadas têm (re)desprovido as pessoas escravizadas e os seus descendentes de qualquer papel histórico transformador; porém, alguns autores, como Judith Carney, Edda Fields-Black, Peter Wood e Daniel Littlefield, colocam o movimento de pessoas escravizadas da África Ocidental no centro de transferências tecnológicas e alterações agroecológicas associadas ao cultivo de arroz no continente americano. No lado europeu do Atlântico, esta linha de investigação não foi ainda desenvolvida. Propomos uma hipótese de pesquisa que procura superar a divisão colonial natureza-sociedade e o que tal implica de objetificação acrescida da pessoa negra escravizada, uma vez reduzida à sua condição metabólica. O nosso estudo contribui para uma abordagem crítica da história socioambiental do/a subalterno/a nas sociedades esclavagistas. A história largamente desconhecida do arroz no Sado e no Tejo está ligada à história por contar das pessoas negras escravizadas em Portugal. Este artigo oferece uma primeira formulação destas conexões.

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18.02.2021 | por Joana Sousa, Manuel Bivar, Miguel Carmo, Pedro Varela e Ricardo Ventura

Reforçar os alicerces: contra o apagamento da memória

Reforçar os alicerces: contra o apagamento da memória Os acontecimentos destes últimos seis anos deram uma maior acuidade às observações de Gilroy. Simultaneamente, tornaram cada vez mais evidente que, não obstante o progresso real alcançado, as tentativas de manter privilégios baseados na desigualdade estrutural e sistémica, no tocante à classe, ao género ou à raça, se tornaram ainda mais obstinadas. Tentativas que vão de mãos dadas com os esforços, inúteis, mas devastadores, de negar a História e impor o apagamento da memória.

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18.02.2021 | por Paulo de Medeiros

Carta de apoio a Mamadou Ba e ao anti-racismo político em Portugal

Carta de apoio a Mamadou Ba e ao anti-racismo político em Portugal Nas últimas semanas, tem havido uma escalada das tensões políticas em Portugal, na sequência de manifestações públicas de organizações de extrema-direita que também ameaçaram ativistas. A 11 de agosto, Mamadou Ba e outras nove pessoas (ativistas anti-racistas, antifascistas e LGBT deputadas e líderes sindicais) receberam um email enviado por um movimento neonazi que os ameaçava, e às suas famílias, que, caso não abandonassem o país em 48 horas, haveria consequências.

Mukanda

17.02.2021 | por vários

De um “lugar de dor”, esta curta-metragem resgata as mulheres

De um “lugar de dor”, esta curta-metragem resgata as mulheres “Ressignificar” é o resultado de um projeto criativo que aliou a arte ao desenvolvimento humano. Da autoria de Iolanda Oliveira, esta curta-metragem, selecionada para o Festival Horizontes e para o Lift-OFF Sessions, é um elogio ao universo feminino, sem pretender determiná-lo, porque «uma mulher é pura imensidão»; um trabalho que tenta “trazer consciência para algo muito puro que nos habita e transcende qualquer pressão de imagens ideais e modos de estar em relação, proliferados pelos mass media”. Iolanda Oliveira, formada em artes plásticas, estuda atualmente psicologia, e este projeto é resultado da sua vontade de fazer a ponte entre estas duas áreas e de, “através da arte, conseguir trabalhar temas sobre o desenvolvimento humano.”

Afroscreen

16.02.2021 | por Flávia Brito

Ventura e o Apocalipse Betinho

Ventura e o Apocalipse Betinho Com demasiada facilidade surgem diabolizações várias do povo de Ventura. Ignorante, rude, pagão, iletrado, associal, infiel à memória histórica de Abril, etc. Os passos desta caricatura são tão curtos que acabam por dizer tanto acerca de quem os diz como de quem pretendem retratar: Ventura enquanto projeção dos demónios da metrópole. Do outro lado, ainda outra caricatura: Ventura, qual flautista de Hamelin, leva para fora da polis os deserdados da esquerda. Versão obreirista: a esquerda “pós-moderna” traiu a classe. Versão cosmopolita: famintos de cultura e estado social os pobres correm para os braços do seu carrasco.

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16.02.2021 | por Luhuna de Carvalho

Dias vagarosos, sem vagar

Dias vagarosos, sem vagar Viver o isolamento social e o decretado estado de emergência num espaço aberto e rural, acompanhando a agitação diária da infância, contradiz, e quase que insulta, o filme de terror sem autor nem nacionalidade, a que assistimos sete dias por semana, 24 horas por dia. Partilhar os dias com uma menina de três anos — feliz por ter os pais só para si e com as alegrias próprias à idade — torna esta experiência bela, onírica e plena de contradições. Respiremos, pois, os que ainda podem, durante o filme.

Mukanda

14.02.2021 | por Marta Lança

A curadoria do desconforto

A curadoria do desconforto No seu livro, Applebaum reproduz uma conversa telefónica em que Stenner lhe disse que “a ‘predisposição autoritária’ que identificou não é exactamente a mesma coisa que uma mente fechada.” ​“Seria melhor descrita”, explica, “como uma mente simplória: as pessoas costumam ser atraídas por ideias autoritárias porque a complexidade as incomoda. Não gostam da divisão. Preferem a unidade. Uma ofensiva repentina de diversidade — diversidade de opiniões, diversidade de experiências — deixa-as irritadas. Procuram soluções numa nova linguagem política que as faça sentirem-se mais seguras e protegidas.” Os populistas conhecem bem esta psicologia e é com base nela que constroem as suas tácticas: alimentam o desconforto e o medo e com poucas mensagens, curtas e simples, “vendem” segurança e protecção.

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12.02.2021 | por Maria Vlachou

Philipp Hartmann: «enquanto existirem pessoas determinadas a lutar pelo cinema, este sobreviverá»

Philipp Hartmann: «enquanto existirem pessoas determinadas a lutar pelo cinema, este sobreviverá» No final o cinema sempre sobrevive. A minha esperança e otimismo, o qual tentei depositar no filme, é que enquanto existirem pessoas determinadas a lutar pelo cinema ou demonstrar o seu grande amor por ele, este sobreviverá. Pode ser um ato de resistência, e seguramente o é, mas espero que seja o caminho do sucesso na luta. Mas agora, com a pandemia, a situação será mais complicada, porque depende do nosso regresso à “normalidade” e de quanto ajuda os Governos estarão dispostos a dar para os proteger, ou os salvaguardar, quem sabe, de uma próxima pandemia.

Cara a cara

12.02.2021 | por Hugo Gomes

As cores do racismo português: do colonialismo à actualidade

As cores do racismo português: do colonialismo à actualidade Se num período inicial os filósofos ou os autores de livros de viagens elaboraram representações raciais, foram depois os médicos e os cientistas, especialmente antropólogos físicos, a contribuir para essa concepção. Algumas das teorias raciais produzidas anteriormente e em outros países foram adaptadas às populações ultramarinas portuguesas. A política definiu categorias e a ciência engendrou estratégias para apoiar. As cores de pele escuras estiveram associadas ao feio e negativo e as claras ao bonito, inteligente e positivo. Umas foram identificadas com quem era dominado e outras com quem dominava.

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11.02.2021 | por Patrícia Ferraz de Matos

Questões raciais no debate cultural

Questões raciais no debate cultural Em que medida a presença de artistas negros apenas em exposições destinadas ao tema não geram uma dupla reificação: uma redução do artista e de sua obra a apenas um aspecto de sua identidade? É suficiente reunir a produção de artistas negros, apenas por sua etnia? Ou, ainda, a redução de uma exposição à discussão racial não acaba por perder de vista uma série de singularidades formais e conceituais diversas, além de especificidades de linguagem e da especificidade desse assunto dentro da produção de cada artista?

Palcos

11.02.2021 | por Leandro Muniz