Três comentários ao filme Enjoy Poverty, de Renzo Martens

Marta Lança

A propósito de organizações humanitárias, saqueadores de recursos e das boas intenções de quem se desloca a África para denunciar tudo isso, relembro quando, em 2009 no Dockanema, festival documental de Maputo, passámos o filme Enjoy Poverty, do artista holandês Renzo Martens.

A perversão da “ajuda” internacional talvez só seja novidade para os ingénuos, mas este filme demonstra-a nos seus piores pesadelos. Ou será o modo perverso como o faz? No contexto de um país que vive essencialmente de ajuda externa como Moçambique, houve quem saísse da sala do Instituto Franco-Moçambicano extremamente zangado e incomodado (sobretudo os so-called expats). Essa atitude provocadora, que ainda causa mossa, não deixa de ter o seu interesse. Considero este filme um importante agitador enquanto exercício estético-interventivo, porém, está longe de dispensar graves problemas éticos.

Durante dois anos, qual Conrad, Martens viaja pelo profundo Congo, ferida aberta do xadrez de interesses mundiais em mais uma das suas guerras civis. De câmara à mão, propõe-se a escarafunchar na indústria da pobreza que beneficia quase toda a gente à excepção dos supostos destinatários da mesma, os “pobres”. Desde empresas que enriquecem à custa de recursos que os pobres não podem aceder nem reivindicar — ouro e coltan— , até às ONG’s que empregam bem intencionados jovens (com falta de trabalho na Europa), passando pelos media que vendem as imagens do horror e ainda, peça nunca em falta nestes cenários, os especialistas em resolução de conflitos.

Na lógica de colmatar as falhas do sistema e atenuar as feridas da guerra, a miséria é escancarada para recolha de fundos e as situações de dependência —  no intuito da subsistência das organizações — são perpetuadas. Somando tudo, é-nos desmostrada como a vulnerabilidade dos africanos é bastante rentável, e como é necessário, nas relações de poder, manter esse desequilíbrio da balança.

Assim, este artista lança um programa de emancipação que é uma caricatura dessa mesma situação. Faz a pergunta fundamental: “a quem pertence a pobreza?” e explica aos pobres congoleses que essas “imagens de pobreza” são os mais lucrativos recursos dos seus países. Em plena floresta monta um letreiro em néon que ilumina a frase Enjoy poverty, lembrando os pobres que eles também deviam desfrutar, colhendo os frutos da sua própria pobreza. Disfarçado com este propósito, incentiva fotógrafos locais a fotografarem, em lugar das imagens naives de casamentos e alegrias que não pagam contas a ninguém, cadáveres, mulheres violadas e crianças subnutridas a definhar nos hospitais, com a objectiva bem focada nas feridas e doenças, sem esquecer o destaque ao logotipo do patrocínio e da organização. E eles, os pobres congoleses, convencem-se de que, sim, também poderão lucrar com a indústria de desenvolvimento.

Porém, o filme mostra a perversidade total: é que a esses fotógrafos locais é-lhes vedado o acesso ao mercado internacional das imagens, porque isso destabilizaria a captação de recursos, e a expectativa que esta gente criara será, igualmente, frustrada. Porém, o artista holandês, por cima de tudo isso, perfaz a personagem do infiltrado, denunciador da colisão de interesses e modos de vida, não deixando de se integrar na indústria assistencialista pela porta tão pouco higiénica da arte.

O artista provoca para angariar polémicas na Europa, escandalizar ONGs e todos os bem intencionados deste mundo. O artista, na figura do implacável anunciante de verdades sobre miséria alheia, acaba por ser tão explorador como todos, fazendo uma denúncia também ela oportunista - pois no fundo é o seu trabalho artístico que capitaliza com a perspectiva de apontar o dedo à realidade do Congo, e esta assimétrica relação. Ele é apenas mais um elemento da equação. Mas, sobretudo, irrita a sua postura cínica de rasura da esperança ou da possibilidade da mudança. Como se as contigências daquelas pessoas nunca se alterassem, como se não tivessem qualquer agência sobre a sua vida. Como se houvesse um fatalismo na exploração.  

Ora relembre-se este diálogo entre Martens e um trabalhador, enquanto o artista oferece comida aos seus filhos esfomeados:
”- É impossível que a tua situação venha a mudar. Nunca vais ter um salário melhor. Lá na Europa não queremos que o algodão ou o café sejam mais caros. Há quantos anos trabalhas aqui?
- Dez anos. 
- Tens televisão? Electricidade? Água corrente? Uma bicicleta? Um rádio? Um fato? Sapatos?
- Não.- responde o trabalhador consecutivamente às missivas.
- Então penso que, se em dez anos não conseguiste obter nada disso, não acredito que alguma vez terás essas coisas. Se não mudou até agora, a tua vida nunca vai mudar, vais ser pobre para sempre.” 

E o homem diz apenas que Deus existe enquanto agradece múltiplas vezes aquela refeição.

É tudo muito horrível neste filme, mas há qualquer coisa de inquietante e inusitado nesta frontalidade. Talvez seja um murro importante para certos estômagos, sobretudo para fazer a crítica à indústria de desenvolvimento, há tantas décadas a contribuir para a alienação de responsabilidades e a autosustentar-se. Não há melhor desenvolvimento do que a auto-determinação, sabemos, mas os obstáculos para pô-la em prática vêm de todos os lados. O facto de nos pôr a pensar nisso tudo, concede alguma relevância a este filme, na medida em que irrita pessoas que se sentem caricaturizadas. Porém, e apesar da arte muitas vezes o consentir, a sua ética é extremamente questionável e os meios não justificam os fins. 

 

Ricardo Falcão 

A guerra, a fome, a pobreza, a instrumentalização, fazem parte de um teatro de horrores a que nos habituámos

Subscrevo todos os pontos enunciados pela Marta Lança. Eu mesmo, em 2010, possivelmente depois de ver o filme no CCB, escrevi algo. Lembro-me de ter ficado perturbado com o filme, de me ter sentado numa sala de exposição onde o filme passava em loop, e ter ficado colado ao lugar, atónito. O primeiro impacto do filme deixou uma impressão muito forte. Felizmente tive oportunidade de vê-lo mais vezes e até de olhar para ele com mais atenção.

É verdade que a maior crítica ao filme é a sua participação plena da lógica que denuncia, mesmo que sob a forma de meta comentário. É verdade que Martens acabando o projeto volta à sua vidinha de artista europeu. Mas aquilo que acontece antes e depois do filme já não é o filme em si mesmo. Este vale por colocar a normalidade da indústria humanitarista em suspenso, mostrá-la como perversão. É sem dúvida desconfortável, e problemático também, tal como é desconfortável e problemático ouvir um general português à frente do contingente internacional no Congo – durante vários anos – assumir para uma plateia de académicos e militares que nas altas esferas do comando militar sabia-se que funcionava um esquema de corrupção entre os capacetes azuis e os militares congoleses em processo de ‘desarmamento’, ou ouvir falar dos projetos de conservação em lugares onde o Estado mal existe – para não dizer que não existe de todo – minados pela corriqueira. Martens escolhe a falta de empatia como marca para o seu personagem no filme. Porque será? Será o facto da empatia ser uma das imagens de marca do humanitarismo? Não sei se Martens é niilista ou maquiavélico, como diz a Joana Feio, ou se Enjoy Poverty! É uma encenação de uma encenação, no sentido em que a guerra, a fome, a pobreza, a instrumentalização, fazem parte de um teatro de horrores a que nos habituámos. A falta de empatia exacerba o cinismo, primeiro que tudo porque não estamos perante a típica moral da denúncia, que se faz de indignação e superioridade moral, mas também, nesta lente moral de Martens, padece de hipocrisia. Seja como fôr, Renzo Martens, apostado em enojar-nos, ganha o dia! Segue um texto (adaptado) daquilo que escrevi em 2010.

“Que sei eu do Congo? Não muito. Ouvi recentemente falar dos Sapeurs de Brazzaville, ouvi os Staff Benda Bilili, vi uma história de violação e assassinato, conflito e morte, na fronteira leste, com o Ruanda. Conheci o David Wabeladyo Paye, fundador do alfabeto Mandombé, a partir de uma revelação de Simon Kimbango. E, como doutorando em Estudos Africanos, ouvi falar aqui e ali de coisas, informações esparsas e histórias que não têm uma origem identificável ou são (sequer) imediatamente compreensíveis. Por entre tudo isso, muitas imagens que se assemelham a outras imagens ‘em África’. Nada disto tem a ver com Enjoy Poverty, apesar de Enjoy Poverty ter tudo a ver com o problema de representar África. Neste caso, a indústria de produção de representações que evoluiu em torno de conflitos, situações problemáticas, fome, malnutrição, violações, uma indústria que não só promove as suas ‘marcas’ como as suas pessoas. Quão irónico é que a presença das Nações Unidas na chamada «gold belt» seja instrumental para a exploração feita pelo capital estrangeiro? Quão irónico é o facto dos lucros não poderem ficar na terra de onde são extraídos? Em certo sentido, este é um filme sobre a incapacidade de contrariar esta lógica. Para se safar é preciso ter o acesso às pessoas certas, seja para vender fotografias ou bens da plantação. Isso está vedado ao comum congolês. Quão irónico é ter um tipo dos médicos sem fronteiras indignado pela presença de um fotógrafo congolês manipulado por Martens a tirar fotografias “mais valiosas” de mortos e violência e ouvir o fotógrafo profissional explicar ao mesmo Martens o tipo de fotos que se vendem, e a quem? As mesmas fotos, lidas por um lado como vil exploração pornográfica da morte, podem ser, no outro, ‘comunicação estratégica’. O que muda? Quem tira a fotografia apenas. Renzo Martens leva a manipulação ao extremo para conseguir o efeito pretendido, mostrar a contradição humanitarista. Para os africanos que instrumentaliza para os seus propósitos - ou assim parece na montagem que faz - Martens não tem qualquer falsa esperança a dar. Que dizer ainda de um Martens vestido em caqui de safari a fazer transportar caixotes, com neons, pela selva, enquanto vira a câmara para si e entoa uma canção e deixa no espectador a sensação de estar num filme do Tarzan? Quem não viu o ocasional turista europeu por terras africanas à caça numa reserva silvo-pastoral no norte do Senegal, em veraneio sexual nas costas de Saly, ou na Langue de Barbarie, o português de sessenta anos para quem a guerra em Moçambique são bazófias e para quem o encontro com o Botswana é um encontro com o selvagem? Martens não é nenhum destes mas parece, propositadamente, caricaturá-los a todos. A caça de Martens é por cadáveres. Lembro-me de uma sensação de estranheza parecida ao ver Las Hurdes de Luis Buñuel, onde nada era exatamente o que parecia, com as suas estranhas associações entre forma e significado. O filme de Martens está cheio de pequenas ironias, como o gosto requintado do dono da plantação por fotografias de pessoas famintas - como as que trabalham nas suas plantações; ou a frase do fotógrafo italiano que reclama a propriedade das fotografias que tira, ao mesmo tempo que nos é dado o comentário implícito à indústria das imagens que ajuda a escolher que fotos têm valor ou não têm valor - se o fotógrafo italiano, que reclama as fotos como “suas” porque tem o poder de escolher quais são boas e quais não são, sabe que a indústria valoriza um certo tipo de fotos, pagando por elas, quem escolhe afinal? qual é o critério de escolha? Martens é o oposto de um David Attemborough, sobretudo porque quer fazer-se notar e à contradição que anima o culminar do seu projeto: uma instalação de neons numa aldeia na selva - Enjoy poverty!”


Joana Areosa Feio

#Brincar-ao-niilismo-em-África?#

A partir de um post no Facebook, num desabafo que fiz sobre representações em fotografia sobre África e os africanos, cansada de prémios tendo como base meninos subnutridos, choros, roupas gastas, vidas rotas e afins, o Ricardo Falcão recomenda-me o “Enjoy Poverty” do Renzo Martens. A Marta Lança viu o filme e partilhou um texto que escreveu em Moçambique sobre o mesmo e então eu decidi não o ver, mudando de ideias poucas horas depois. Hoje, um dia depois do visionamento, incomoda-me não ter uma ideia coesa sobre o filme, por existirem cenas de que gostei muito, muito mesmo. Os comentários ao filme, quer da Marta quer do Ricardo, este último escreveu também sobre o filme há uns anos, são muito interessantes e concordo com eles. Inscrevo-me inteiramente na crítica ao assistencialismo, que expõe os esquemas de corrupção e negociatas ligadas a um certo humanitarismo – que favorece quem? – o que é resumido de modo acutilante pelo autor do filme, que nos brinda com a frase: «a quem pertence a pobreza?». Foi disto que gostei. Destaco também a sua chamada de atenção para tópicos tão importantes como a pobreza de uns ser vendida para enriquecimento de outros, que estes outros, como por exemplo pessoal de ONGs ou jornalistas brancos credenciados, se assumam enquanto donos do que representam, isto é, as fotos das pessoas que retratam seriam mais deles que dos representados, como chega a afirmar um repórter no filme. Estes e outros atores que a obra retrata surgem-nos enquanto donos das fotografias, donos portanto dos corpos – da pessoalidade? – capturada. No filme, assistimos ainda a diálogos neocoloniais que Martens denuncia ao falar com um dono de plantações de café, que surge como o grande chefe de toda a estrutura, que inclui os habitantes destes complexos colonialistas. Este homem, aliás, aprecia esteticamente as fotografias dos «seus trabalhadores», a quem não faz contratos condignos, gosta de olhar para os seus corpos nus e musculados em trabalho, momentos que emolduram o seu escritório de patrão. É também muito pertinente a visita acompanhada aos campos de refugiados e a pergunta incómoda sobre a obrigação de existir um logo em lonas que protegem as habitações da chuva : «Se não houver logo na lona, não a distribuem? Se não houver logo, molham-se?» [cito de cor], pergunta o artista a uma responsável de um outro campo de refugiados.

É ainda muito pertinente a visita a um hospital, na qual o seu diretor explica a Martens e a um grupo de fotógrafos locais que a autorização de fotografar e publicar as fotografias dos doentes é dada apenas a alguns, aqueles que são exteriores ao contexto, pois os atores locais, nunca chegariam ao «mercado» internacional, que valoriza a desgraça e o horror, explica-lhes Martens: «quanto pior, melhor». Haveria sempre alguém externo que saberia muito melhor que os próprios locais dizer «o que é ´o africano`, como é, quando é, em que frame e com que zoom». Quanto mais sangue, melhor.

Porém, Martens vai longe de mais e explico já porquê.

Se vibro na 1ª parte do filme e em grande parte da 2ª, encolho-me na altura em que este quer encenar o que critica usando pessoas de carne e osso. Critica o dar e depois tirar, por parte de uma série de atores e instituições com fins suspeitos «a tal indústria do assistencialismo» de que falam o Ricardo e a Marta,  abordagem que me remete para o conceito de keep while given desenvolvido pela antropóloga Annette Weiner. 

Se concordo com a crítica do artista às representações que vendem da «má-nutrição, mulheres violadas, das cenas de guerra, com a crítica à falsa ajuda de certas missões que enriquecem quem?, não me sinto confortável com o facto de Martens se achar um justiceiro ao decidir elucidar – trazer a verdade; trazer à (sua) verdade – as pessoas com quem se relaciona. Fá-lo para denúncia, certo. Mas fá-lo também de modo a enriquecer o seu próprio projeto artístico, o que é contraditório com tudo o que afirma, inúmeras vezes no filme: que não acredita que nada vá melhorar na sociedade que visita, que acredita que não há esperança possível para aquela população. Então o que está ali a fazer? Está a desenvolver o seu projeto artístico em prol de quê? Da esperança que não existe? 

O que mais me incomoda é o  modo cruel, maquiavélico e manipulador com que usa os habitantes com quem se relaciona, que passam a personagens do sue projeto; eu não acho que os meios justifiquem os fins. Acho particularmente pornográfico o diálogo que tem com um pai de família em que afirma em jeito de tough love paternalista «nunca vais ter mais nada do que isto» [cito de cor], enquanto lhe fornece uma enriquecida refeição bem como aos seus filhos, ao mesmo tempo que cose um logo da UNICEF na sua filha subnutrida. A sério, Martens? Fica-me na boca o sabor de que é um Indiana -Jones-que-quer-brincar ao niilismo em África, assumindo para si a missão de matar a esperança por onde passa – haverá crime maior? -  brincando ao Deus do ceticismo com/sobre pessoas em situação de vulnerabilidade.

Como observa – e bem - o Ricardo Falcão em texto facebookiano – Martens «escolhe a falta de empatia para criticar certo humanitarismo». Concordo. Porém, sem empatia não há existe relação social, não há sequer Humanidade. Não seria, portanto, anormal para este artista, agarrar numa criança moribunda, alimentá-la durante uns meses e depois matá-la de novo aos poucos, em prol da mensagem que quer ver passar no seu grandioso projeto artístico. Para mim, Martens ultrapassa todos os limites lá para os fins do filme, com a tal cena que descrevi atrás. Chega, a esta altura, a afirmar algo como «vim ensiná-los a ver como viver a vida». Ok, pode ser ironia, autoironia, mais uma encenação ou até uma denúncia usando-se a si mesmo, que perde o valor para mim não tivesse interferido com a vida de pessoas reais, pela manipulação. O filme poderia ser brilhante – tem momentos brilhantes -  se não fosse eticamente deplorável. 

por Ricardo Falcão, Marta Lança e Joana Areosa Feio
Afroscreen | 5 Janeiro 2019 | arte, Congo, Enjoy Poverty, indústria desenvolvimento, recursos