Baralho de Cartas 18

Bom dia Ricardo!

Atravessaram-se semanas silenciosas entre nós ou ruídos não contabilizáveis. Quanto mais tempo passa, mais difícil se torna escrever porque se agiganta a suposta importância do que terei a contar, perante só querer dizer: 

— Olá! Ainda aqui estou na desvairada valsa da idade. 

Durante o tempo em que não te escrevi, as minhas paisagens foram mudando tal como as camas em que dormi: na cama em casa materna; em beliches de crianças atuais; no colchão insuflável do meu novo escritório em Xabregas, de onde te escrevo com os Dead Can Dance, “How Fortunate The Man With None”, a suspirarem numa coluna que preenche o ar destes 30 metros quadrados. Nem imaginas a felicidade de ter um espaço só para mim, finalmente, depois de tantos anos a trabalhar em cafés com a CMTV por cima a gritar-me os crimes do país profundo e a gastar dinheiro em rissois e pão-de-Deus. O escritório talvez me discipline e me formalize, ou até me funcionalize, já que sou vizinha de um despachante e de uma advogada. Agora finalmente posso dizer “vou para o trabalho!” 

O escritório fica nuns prédios feios, pior que taveiradas e, da janela, avisto umas vivendas tristes na encosta de Marvila e uma escadaria tão íngreme que ninguém se lhe atreve. Neste momento, dois homens pendurados no prédio tratam da manutenção de umas fachadas (há trabalhos de acrobacia)! Lá em baixo, as caras vincadas dos lumpens no café, na sua feiura digna e com espessura, contrastam com a cidade gourmetizada. Há sempre uns quantos sem-abrigo, ou moradores de rua, concentrados nesta zona oriental da cidade, aquartelados no Beato com cama e refeição. Deparei-me com uma petição contra eles, vociferando insegurança e sujidade no bairro. Andam por aí, personificando as doenças generalizadas do capitalismo. Cabeças despenteadas e dedos grossos a contar moedas e a segurar o pacote de vinho barato. Sei lá que pessoas terão sido com as vidas passadas esfaceladas na violência do presente. Guardam nos olhos mistérios e venenos que talvez o Herberto Helder extraísse em poemas, evocando a sua “alegria desesperada”. 

O comboio atravessa-me a vista, o que me faz pensar numa perspetiva dentro e fora, que é condição do comboio. Para acordar, como dizes. Para seguir a linha, como o walk the line, na voz grave e profunda de Johnny Cash. Creio que gosto de comboios na medida do meu privilégio, porque se tivesse de andar enfiada neles a toda a hora para cumprir exaustas jornadas de trabalho, seria menos provável o romantismo pelos comboios.  

Christian Marclay, The Clock, 2010. Vídeo-instalação.Christian Marclay, The Clock, 2010. Vídeo-instalação.

Também dormi num hotel em Leeds, passando pela working class Manchester. Desesperada sem adaptador de tomada, não conseguia acabar a minha apresentação, o que me levou ao pub pejado de britânicos comunicativos, imperiais e tapetes. Senti-me muito confortável naquele ambiente alcóolico de fim do dia. Também apreciei o ambiente académico entre os ingleses, raros, que aprendem línguas latinas. Muito gentis, puseram-me como keynote speaker e  depois “trocámos muitas figurinhas”, como se diz no Brasil. Um pôs-se a defender a slow academia o que será fácil para ele pois, ao que parece, está prestes a reformar-se, comentaram os outros a quem é exigida publicação de papers a metro. O campus universitário da carismática universidade de Leeds parecia cenário de série, nas mil cenas que já vimos de estudantes no Great Hall a receber aplausos na conquista do canudo. Trinta mil libras de propinas por ano, e quem sustenta os estudos no pós-Brexit são estrangeiros, disseram-me, sobretudo chineses que vão doutorar-se, em regime quase formatura militar, pelo progresso da China. 

Contei-te no whatsapp que andava em fase de ponderações, mas afinal, e digo-o com convicção, venceu o amor. “Não desistir” pode ser um belo verbo. Nada fica igual mesmo que se volte ao ponto de partida (Il Gattopardo aqui não serve). Já o destino pode ser decidido em trinta segundos, entre um bafo de cigarro e a decisão que se tem de proferir. 

O destino pode ser uma palavra monossilábica.  

Enfim, tenho confiança nos recomeços. Já estive um pouco mal e agora estou forte, a atenção aos outros e um calendário encorpado mantêm-me à tona. Serei sempre aquela autómata a dar conta das demandas, mas faço por ser feliz.     

Também dormi no quarto de visitas na casa de uns queridos amigos que se mudaram para as tuas Caldas da Rainha. Uma bela casa, com limoeiros e um ateliê espaçoso. Da cidade, gostei da frescura húmida, dos prédios baixos, da praça da fruta, das horas passadas no café Bocage, dos olhos brilhantes e impacientes dos estudantes, dos passadiços da ESAD. Recusei dinheiro a uns homens transtornados, enquanto estruturava mentalmente a crítica aos identitarismos, de frente para o parque infantil no jardim D. Carlos. Imaginei a tua rotina: o Ricardo a levar a filha à escola, o Ricardo a ler na patinagem da filha, a apurar a sopa, a passear os cães, a abrir a livraria em Óbidos. Sei pouco sobre ti, mas talvez saiba muito mais do que algumas pessoas que creem conhecer-te. No entanto, baldei-me ao almoço que combinámos, desculpa. Temi que o excesso de realidade tornasse as cartas mais constrangedoras. 

Mas almocei com uma amiga que me contou os últimos meses, minutos, segundos do pai que lhe morreu nos braços. Descreveu os descompassos da respiração, a apneia e o último sopro. Usou a imagem de um peixe fora d’água aflito (engraçado porque tu falaste de um peixe a bater o rabo na areia como imagem para a falta de ritmo entre cartas). Apesar de já ter visto uma pessoa a consolar outra nos momentos finais, é sempre mistério. Quem está prestes a morrer levará consigo o olhar, as carícias e palavras de quem lá estava, a seu lado, para o lugar dos grandes enigmas. E pode deixar cá ficar uma palavra final. Essa palavra demorará a sair da cabeça de quem testemunha a «passagem» daquela pessoa. Somos tão passageiros… I see the stars come out of the sky, canta a Siouxsie.

Uns dias depois das hélices eólicas da A8, apanhei a A2, a morder cajus crus na camioneta low cost, para a terra dos Mão Morta. Talvez a minha energia provenha mesmo do movimento, mais concretamente da trepidação. Nas ruas nada libertinas de Braga, os sinos lembram a graça anacrónica de uma cidade de arcebispos e igrejas porta sim porta sim. Abro o programa da capital da cultura e eis a promessa: Braga soa a amanhã. O progresso e o futuro podem funcionar bem como marketing, mas os materialistas dialéticos duvidam dessas ficções do capital.

Eis o norte altivo, do dinheiro, da moral e da família. Sento-me ao balcão de um restaurante onde o prato é servido e aquecido no microondas à nossa frente. O norte das generosas doses de comida caseira. Pelo cair da noite, reparo mais nas roupas pretas e nas caras marcadas. As ruas frias e húmidas dão uma certa líbido à cidade, mas há algo deprimente nas ruas e avenidas quando, à noitinha, as lojas fecham e as pessoas ficam por ali a olhar para as montras com fome de consumo - felicidade nunca satisfeita. 

As lojas fechadas nas cara deles, como se lhes fosse negada uma função vital. 

Na sala de teatro secular surpreendeu-me que a peça onde participei (na dramaturgia), Limbo, de Victor de Oliveira, sobre os resquícios de impérios coloniais, consiga ainda tocar nas memórias e dores de tantas pessoas. Portugal é mesmo um país mal resolvido com a sua história. 

Para além das minhas andanças, entre os nossos últimos contactos caiu mais um governo, desta vez por conflitos de interesse. Em causa a empresa familiar do primeiro ministro. Isto é o tipo de informação que daqui a três meses já não nos vamos lembrar, por isso fixo-a para que não esqueçamos da noção vigente de política enquanto facilitadora de negócios. Qual bem comum e causa pública? Espera-nos aturar mais uma deprimente campanha eleitoral e assistir à subida dos porcos fachos. No que toca ao voto sou um bocadinho monótona: escolho gelado de morango e chocolate e voto sempre no mesmo partido. A cada telejornal, uma nova polémica ou tragédia eclipsa a do dia anterior, numa total desconexão da realidade sufocante de quem está no aperto, pressionado pelo cálculo e ansiedade. Todos têm de estar alerta, a fintar a crise como podem.

Se ao menos tivéssemos a garantia de que ninguém nos rouba a vida interior….

Christian Marclay, The Clock, 2010. Vídeo-instalação.Christian Marclay, The Clock, 2010. Vídeo-instalação.

 

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por Marta Lança
Mukanda | 28 Abril 2026 | Baralho de Cartas