Luanda, um estado de urgência

fotografias de Sérgio Pinto Afonso

 

A cidade acorda e faz-se à vida

É uma luz branca, a do amanhecer em Luanda. Uma luz que realça os castanhos, os verdes e ocres dos edifícios. Dos barracões de zinco um rádio roufenho sacode já as canções potentes que competem com o grito dos cobradores “mutamba-mutamba-aeroporto-aeroporto”. A cidade mantém por pouco tempo uma serenidade ensonada, que será caos de trânsito e de outros mambos. Como as pessoas que descem dos bairros periféricos para o centro, é um ser em movimento, ondas frenéticas até a maré baixar. 

Acordo com essa imensa luz branca e ruídos a entrarem violentamente pelo quarto. Desço à rua e dou continuidade aos problemas que começaram em casa. Vou trabalhar com aquela garra de que tudo é essencial fazer-se, nada redundante. Compro um presente de casamento, dou um mergulho na ilha, demoro uma hora para a mais simples deslocação. Fujo da polícia de trânsito e dos seus argumentos e “pentes”. Largo o Starlet na primeira esquina.

Na luta para apanhar o candongueiro não interessa quem chegou primeiro, nem se é mais-velho, moça, grávida, criança ou mutilado, é a lei do empurrão. Ninguém confia em ninguém,  as relações nunca estão consolidadas, nunca se sabe onde ficámos, qual é mesmo a vibe do mwadié, mas há muita alegria e disponibilidade… Na cidade tensa, as coisas são para quem for mais forte. O pessoal insulta-se e diverte-se com as ameaças: “vou lhi bater!, vou lhi matar!” A cavalgar por dentro, esgotamentos resignados de “é a vida do angolano”…

Entro e amplia-se o kuduro do Dog Murras: “ou mi mata ou quêêêê!!!” saímos da confusão e agora vamos olhar./ não fala de gasosa, não fala mais de guerra porque já acabou / eu quero ouvir o meu povo / a casa tá onde?

Percorro as ruas de pó com os candongueiros em fila lenta acompanhando os passos. Nos arredores do mercado dos congoleses são muitos os objectos, as gentes, a informação, uma sumptuosidade ditada pelos tecidos majestosamente assentes nas ancas e na cabeça. Nos gestos de comer e de tratar dos filhos. No modo como os objectos circulam nas montras ambulantes e fazem a coluna direita e as bundas imponente. Na voz e no riso, que se prolonga sempre.

Um país agora tecnocrata acorda para a sua história e confronta os fantasmas continuando algumas violentações ao equilíbrio das pessoas. Os herdeiros do desequilíbrio são uma juventude empolgada, que ri muito e gesticula num recontar teatral das situações “lixadas”, para não dizer pior.

Aos 30 anos já se é velho, sobretudo quando se nasceu na guerra. Não há horizontes largos, nem grandes histórias, só curtas e alucinantes. Podemos estar aqui como amanhã já ter emigrado ou ter desaparecido. Não há tempo para grandes pensamentos sobre o estar vivo, as necessidades são imediatas: arranjar condições para sobreviver, trabalhar na permanente reorganização do caos, fazer dinheiro, desfrutar o dinheiro. Uns com mais ambição que outros, sem frustrações porque as expectativas são poucas. Todos com intensidade. 

Não se procure Luanda para fazer ajustes de contas, ou articular realidades e desejos para a vida. Num lugar onde se luta para comer e por um tecto, ou para facturar milhões, mudam as prioridades, vingam o precário, improviso ou os compadrios.

Cada dia é uma nova cidade a acontecer.

Meio dia e já cansado

Um azul chumbo, uma luz de pedra sem solução. Um mergulho a meio do dia na Ilha para refrear as possíveis acelerações. Desejo pensar um pouco para além da linha do horizonte. Que nos reserva a vida para lá disto? Mas a espiritualidade é logo cortada pelas comidas maionésicas dos bares chiques junto à praia, o ambiente tropical construído por pulas de caipirinha na mão, saias leves e coloridas a combinar com a salada de marisco, excitados com o momento económico do país.

Estamos em 2005 e esta é uma certa Luanda. Os que estão fora têm a sensação de perder qualquer coisa. Ou preferem cristalizar a imagem de uma cidade: onde foram felizes, onde sofreram muito.

Há cidades que, apesar da aparente velocidade, estão cansadas e velhas, e por isso fazem do seu passado o rendimento para o presente, vão buscar à memória o sustento do futuro. Mais do que uma cidade do presente, Luanda é um estado de urgência. 

A mais-valia nessa luta é poder reinventar-se a cada dia, um laboratório de experiências, sem que os cientistas loucos, como bons loucos, assumam as consequências trágicas. Não lhes interessa lembrar o passado – doloroso - nem obrigar-se à lucidez do futuro. As soluções e reacções têm de ser imediatas: contornar os esquemas, encontrar novas respostas. Consome-se e vive-se como se o mundo acabasse amanhã. E há-de acabar, é certo.

A paisagem urbana muda a cada segundo, apetece registrar tudo. Esta súbita mudança inscreve-se na nossa pele. As pessoas são o reflexo das tensões das cidades. É uma cidade tensa com pessoas incrivelmente maleáveis. Para lá desta parte transformadora e prometedora em que o tempo actua, há todo um país de base que, venham os regimes que vierem, permanece nos gestos e nas necessidades.

Todos a monte e fé em deus

Da África tribal e aldeã, fugindo às guerras, à fome e às parcas condições de vida, milhões de africanos vieram para as cidades e aí se estabeleceram. Da terra imensa de sanzalas e campos sem fim, as pessoas concentram-se nas periferias onde pousam as suas imbambas para uma vida nova. Os musseques, como as favelas, não são os problemas mas soluções para encaixar vidas no corpo monstro da grande cidade. A ela se adaptam e tentam encontrar zonas de felicidade e caminhos secretos, até nos mais dantescos cenários.

Apesar disso, a solução faz parte do problema e torna-se problema acrescido.

Nos bairros periféricos de Luanda vive-se um espírito comunitário que atenua as carências. Os princípios bairristas passam pela coscuvilhice entre vizinhança, o cuidar do filhos uns dos outros, pela defesa das ruas e por concertar aquilo que ninguém faz por eles. Basta ver os canos à mostra remendados por várias mãos, e as puxadas de electricidade num consumo equilibrado entre todos.

Nos musseques vive-se com um sentido muito prático, mas também há-de ser nostálgico das vidas nas províncias anterior à fuga para as cidades.

Pode-se fechar os olhos a realidades mais incómodas, mas elas virão gritar-nos ao ouvido o seu fulgor ou terror a meio da noite.

Os predadores

Já se sabe, amplia-se o Terceiro Mundo, sofistica-se em crescendo o Primeiro e, embora cresçam separadamente, chocam no mesmo espaço. O que incomoda neste estranho convívio é encontrar motivos de interesse, combinações improváveis e histórias para livros, em quase todos os ambientes. Os novos-ricos trazem comportamentos das suas origens humildes, os pobres quando fazem festas esbanjam como ricos. Mas nem tudo se resume a uma questão de escala, nem a velhas dicotomias com que é apreciada a sociedade, nem nenhum submundo desta velha história é assim tão intragável, bom, às vezes sim.

No reerguer do país espezinham-se os maus acontecimentos em 30 anos de Independência… A longa guerra civil e outras atrocidades foram emudecidas com o calar das armas, desconseguindo todavia de elidir vícios instalados e traumas ou destronar os magnatas.

Todos, sem excepção, estão concentrados neste vigoroso presente.

Chegam alguns predadores possuídos pelos aminoácidos das oportunidades. É o início de uma série de projectos e negócios, desenha-se as regras com que o capitalismo selvagem se entranhará sem dó nem piedade. Paz consolidada, vontade e dinamismo, espírito de reconstrução. Investe-se no país com potencial de crescimento económico, rico em recursos naturais onde ninguém sai a perder. Antídoto contra as economias gastas noutros lugares do planeta, o petróleo ainda não trai os cifrões e está assegurado o lucro para os mesmos bolsos. É altura de jogar as cartas certas, de apanhar os nichos de mercado por explorar. Os investidores, de armas e bagagens, põem a própria paisagem a render e acionam os planos de desenvolvimento onde outros (ou os mesmos) dantes ensinavam a engatilhar armas. Um modelo de desenvolvimento pré-comprado num material bastante singular: o betão descartável.

 

Tempos de entusiasmo em que os angolanos dizem “as nossas riquezas, o nosso petróleo, os nossos diamantes, o nosso palácio” mesmo que nada mude na vida de uma imensa maioria. Tempos em que não param de chegar as mais insólitas personagens – terra que sempre atraiu aventureiros. O poliglotismo cresce na babel do bisness - português nos seus vários sotaques, bastante mandarim, hindu do comércio, árabe, algo de hebreu, inglês das reuniões e da tecnologia, espanhol das ong’s, umbundo e quimbundo das quitandeiras e quínguilas, lingala dos zairenses estilosos, francês de petrolíferas e vida cultural, e algum russo restou para os branquinhos-lixívia nas praias da Ilha.

Abre-se a economia, tolerantiza-se as relações internacionais em diálogo com antigas potências inimigas. Se até 1993 os EUA apoiaram a Unita e tentaram por todos os meios dividir Angola, são agora aliados com quem se vai mantendo um diálogo de parceria estratégica em lume brando, que se viria a fortalecer com o Obama. É assim com a África do Sul. Nada de misturar ódios anteriores, a capacidade para superar os conflitos e tensões é um dom do povo angolano.

O sistema pode estremecer mas não cai. São as mesmas elites na base do poder, com novos termos e discursos, em paralelo à espectacularização da política em curso no globo. Nesta mesma família, ser competente a mentir é um requisito!

Luanda é cidade de “crescimento acelerado”, dizem os que  dão nomes a fenómenos do pulsar da vida e do negócio. De facto erguem-se prédios, novos condomínios, bancos, escritórios e hotéis, e as torres tomam o espaço da brisa da baía até perdemos a ventilação.

Os louvores nacionalistas ganham forma numa Angola que ginga no Mundial de futebol - gritámos todos em coro e dançamos muito com os Palancas Negras quando foi o golo do Akwá que os apurou para o Mundial - e se prepara para as eleições.

Se houver abrandamento da economia o lema continuará a ser: “Sempre a Subir!”. O que interessa é o que se faz ver lá fora, o mundo ver Angola acontecer, mesmo que negligencie o que tem a fazer cá dentro.


As más-línguas. Como se habita a cidade

Há quem esteja desconfiado. Um angolano que mal sai de casa desenha assim a configuração de Luanda: “a cidade assenta em duas coisas: esgoto e petróleo. O país são doze milhões de estátuas de pensadores (o medo, a intimação, a subordinação) na base de uns quantos generais ou outros poderosos e, no topo da pirâmide, está o grande tubarão.”

Diz-se também “eis aqui o Dubai de África”. Cada um usa as suas metáforas para tentar descrever o que mexe com todos. Arriscam-se comparações à procura de um modelo próprio. O que se vê nas ruas é a permanente labuta, o movimento, carros barulhentos e gestos indecisos de alguns transeuntes, contrastando com as zungueiras muito expeditas que - com os alguidares à cabeça e os panos multifuncionais de carregar crianças, impor divisões, embrulhar para fugir aos fiscais - parecem cumprir o serviço num perfeito espírito de missão: é preciso arranjar o que (dar de) comer aos filhos, para hoje. É a grande batalha do comércio, o reino da “economia informal”, falam os cientistas sociais.

A cidade é uma imensa praça pública, onde o convívio é prioridade e comer sozinho inconcebível. Uma cultura da exposição onde tudo se joga numa vida para fora. Exibir dinheiro, exibir necessidade: os bilos de rua, a guerra, o poder, a vida sexual, o mundo do glamour. Formas de afirmação em que o ego é chamado a demarcar-se, todo o angolano tem a sua forma singular de banga - “eles têm de nos sentir!!!” - e então vai de ter garagens para cinco carros, adquirir peça única na indústria da alta costura, gastar 5 mil dólares numa noite, comprar anel de diamante para oferecer, de um coro, à dama, construir vilas-fantasia como Talatona, discursos fantasiosos, distinções, galões de honra, heroicizar mortos que já não incomodam.

Também se vive para dentro, nos clãs respectivos, nas divisórias sociais escancaradas nas casas atrás de muros altos e farpados, o conforto medido a preço inflaccionado, os condomínios privados para esconder o desconforto e mesmo assim pode até nem haver água canalizada (e sempre o bem primário do gerador), a inexistência de parques para passear, passeios para transitar. E o pó miudinho que se intromete nos pés e vai subindo até ficarmos com uma película de poeira diariamente afogada nas canalizações.

Já vem de tempos antigos a simulação. Pepetela conta em Luaandando que 1730 foi ano de chuvas nunca antes vistas de tão longas, com direito a infecções gerais, varíolas e escorbuto. Tudo isso mais o cheiro pestilento, era preciso disfarçar. Quem podia, fazia da sua casa um bunquer do ambiente em redor. Hoje, a Tv cabo tem a mesma função, ajuda a que o mundo inteiro habite este país, sem ter que se levar com a dura realidade dos bairros mesmo ao lado. É mesmo aqui ao lado.

 

O regresso a casa e a promessa da viagem

Os lugares nocturnos de desolação e amparo. Entre as paredes amarelas com naprons e duas garinas de olhos presos à novela, num volume que tudo deve às leis de ruído.

Nas barracas da Chicala, enquanto comemos exaltadamente o choco e o cacusso, pode-se até lamentar o estado do país - mas sempre a rir e com cervejas a chegar mais rápido que o pensamento - surge uma prostituta com as mamas quase à mostra a cantar uma música de dor de amor. Sofre-se muito de amor em Luanda. A voz do Bob Marley faz-se ouvir como esperança mil vezes retomada.

De regresso a casa, a interminável subida pela penumbra das escadas, extensão da vida privada, onde em cada patamar podem acontecer coisas: raparigas trançam cabelo, galinhas são decapitadas, churrascos, lavagem de roupa, crianças a brincar que entram na tua casa, namorados adolescentes apanhados no flagra, conversas privadas e carícias, música e troca de impressões sobre o gang do bairro, reuniões de vizinhos. As empregadas cozinham as últimas fofocas. Os maridos saem cedo e voltam cansados, a más horas, provenientes de casas de amantes ou copos. A caixa de elevador, que fora depósito do lixo, pode servir de cubículo também.

Tantas vezes falta a luz que a cerveja tem de se beber rápido para não aquecer. Para dormir é uma luta com ataques de mosquitos palúdicos. O cansaço invade-nos e, nos prédios altos de Luanda, vive-se um entusiasmo às vezes maravilhoso. Rir e dançar continuam infalíveis reservas de sobrevivência. Os cânticos ecoam entre a cachaça, a cerveja, a liamba e a promessa das províncias. Havemos de partir por essas estradas, conhecer o país tantos anos vedado.

Nesta exaltação ainda acreditamos que não vão transformar Luanda num bisnesscenter.

Ainda conseguimos amar a cidade na turbulência, apesar do desamparo em que as pessoas vivem, do tumor nocivo que não remedeia a vida de ninguém. Conforta-nos os focos de resistência ao estado predador. E o que resiste mais é o lado caloroso, as pessoas familiares, as grandes cumplicidades, o parecer que sempre aqui estivemos, a capacidade de acreditar. Porque à nossa Luanda não lhe faltam histórias para contar e para isso a cidade tem de estar à altura dos seus cidadãos.

Tudo isto não passa de uma banalização do cenário. Aquilo que era espanto e enigma, e quase perigoso por desconhecido, é agora, apenas e felizmente, uma cidade com as suas particularidades, com coisas prazeirosas e cansativas à vez. Resta perceber se viver aqui é um bálsamo de juventude ou o mais forte veneno para envelhecer rápido. Movemo-nos entre a atracção e repulsa, como tudo o que é vivo, explosivo e intenso.

O azul claro, doce e sereno da baía, não me deixa vislumbrar a mesma cidade que acabo de descrever, a tal que reboliça, remexe, revolta-se, gesticula e vomita-se a si própria, para depois cruzar os braços em resignação.

Fazer o quê? São os problemas que estamos com eles.


Luanda, 2005

 

por Marta Lança
Cidade | 9 Setembro 2010 | crescimento, juventude angolana, luanda, pós-guerra