Baralho de Cartas 14

Ricardo,

A partilha de algumas vivências, silêncios magoados e outras substâncias que te moldaram - e de que foges - fez-me pensar no terreno escaqueirado de onde te lançaste ao mundo. Creio que não será tua tarefa apanhar cacos. Tampouco a vida medra de grandes atos reparadores. Então procuremo-la na liberdade, arrancando-lhe as vestes solenes de velha ambição ética, e de slogan dos liberais e abrileiros, para a viver como práxis e condição. 

Reparo que, nas nossas diferentes construções familiares, temos uma coisa em comum: os pais não foram à guerra. No caso do meu, isso não se prende a nobres razões de ser refratário ou desertor, mas tão só porque levou uma pedrada em Alfama quando era puto e ficou sem uma vista. Assim se escapou de ir matar e ser morto. E engraçado estar a falar nisso porque, ainda esta semana, acompanhei o meu pai que estava precisamente a perder a visão da vista que lhe resta, a uma operação bem sucedida com a mãozinha mágica da oftalmologista. Ele cumpre os seus rituais de solidão. De manhã, faz o paredão da Costa e, pela tarde e noite fora, lê e vê televisão (só política internacional, que martírio!). Então, voltar a ver em condições é o melhor que uma pessoa pode ter nestas condições. 

Como andas? Tenho ideia que, lá nas primeiras cartas, nos propusemos a registar um sopro mínimo dos dias para o futuro, a partir das bombas que nos explodem nas mãos ou de pequenos nadas minimamente dignos de registo. Digo-te já que ando com uma dessas bombas a mastigar-me e não posso esperar, como bem avisa o mestre Godinho, que a solução seja «servida em boião com um rótulo: veneno, é para tomar desde pequeno às colheradas». É preciso tomar medidas. 

Neste aniversário chego praticamente ao fim da década dos 40. Estarei a ficar obcecada com a idade? Doravante já não és o que queres ser, mas aquilo que te acontece. Ou será ao contrário? Mete um bocado medo, aviso-te já que já me apanhas apenas com um ano de atraso. A verdade é que a identidade burocrática não parece coincidir com a minha idade mental: ainda toco flauta como uma adolescente freak, não me visto à senhora, exponho as gafes sem problemas, aspiro à revolução contra as cabeças quadradas. Talvez me entregue a menos excessos, claro, até porque as ressacas custam mais a curar. E novos medinhos vêm surgindo. É que tenho mais provas da finitude. Começaram a morrer-me pessoas basilares, com quem partilhei infância, juventude, juras e aventuras. Nos últimos anos, foram-se quatro amigos fundamentais, por doenças, acidentes e suicídios, muito triste, o que vale é que ainda conto com um número considerável de amigos, muito mais vivos do que mortos. 

No filme As cartas do Rei Artur (da amiga Cláudia Rita Oliveira), vemos o Cruzeiro Seixas de 94 anos a lamentar que, com a sua geração inteira na cova, não tem bem a certeza se lhe apetece continuar por cá. Deve ser duro, de facto, quando nos encontramos num deserto onde afetos e referências se conjugam no pretérito perfeito. Se lá chegarmos… Então, é melhor ir aprendendo a lidar com as perdas avassaladoras sem nos escancararmos todos, até porque a vida, desde há uns anos, perdeu o travão e os natais e verões sucedem-se sem recuperarmos convenientemente, nem dá tempo para cumprir as promessas de fim de ano. Espero ainda atravessar um enorme manto desconhecido. Façamos o luto para as pessoas não nos ficarem entaladas, mas agarrar ainda mais a vida. Conforta-me pensar que a morte de uns dá origem a novos sinais. Não numa relação causa-efeito, mas associo secretamente os gestos potenciadores que me aparecem a pequenas recompensas do nigredo.

Ateia me confesso a encontrar respostas no divino…   

Dou por mim em balanços: Que tipo de desenho terá o meu percurso? A metáfora de movimento parece a mais apropriada: circunferências que, ao se abrirem e chocarem, criam outras tantas de vários tamanhos, produzindo múltiplas intensidades de ondinhas e ar. Como quem atira ao charco umas quantas pedras em simultâneo, no imprevisto. Ou então um permanente hipertexto, o que dificulta o regresso ao texto inicial. 

Uma pintura tradicional chinesa é capaz de mostrar simultaneamente a perspetiva da montanha e o fluxo do movimento. Que talentos discretos têm os asiáticos! 

E tu, qual seria o teu desenho?

Referes o corpo desabituado. Sim, há uma potência que se liberta ao regressar ao lugar do prazer. Uma energia adormecida que é despertada no reencontro com a memória sensível do corpo. Faz lembrar as crianças, quando estão a testar os limites do corpo, ficam intimidadas, levam tempo a experimentar e, quando conseguem, é bonito vê-las a vencer a intimidação. Finalmente brincam à vontade naquilo que se julgavam incapazes. Uma vez na fruição e na segurança do seu próprio corpo, torna-se irrelevante o tempo que perderam a ganhar confiança, porque esse terá sido o tempo necessário para a força do momento vivido. 

No Poema à Duração, Peter Handke…

quando, na criança,

que já não é criança nenhuma

– talvez já seja um ancião –,

volto a encontrar os olhos da criança.

A criança e a anciã continuam a descobrir os limites do corpo e da matéria que está por vir. Em estados extremamos das nossas metamorfoses mantêm o espanto das possibilidades. 

The New Albers, 2002, Ghada AmerThe New Albers, 2002, Ghada Amer

Por ora, continua a interpelar-me o projeto (volúvel) de agarrar o quotidiano, essa biomassa de pequenos-grandes acontecimentos. Torná-lo mais aventureiro e promissor. Porém, o quotidiano só existe personalizado, informando os dias de alguém, então será o sujeito que o vive, neste caso eu, a responsabilizar-se por fazê-lo acontecer, dar-lhe propósito e, em querendo, transformar essa matéria veloz e trituradora em narrativa. A mestria está em saber escolher pensar a partir daí, sem nos tornarmos um desses foleiros de Facebook que dão retoques líricos a qualquer banalidade, e ainda se julgam profetas.

Percebo muito bem a tua luta interna debaixo do cobertor silencioso dos outros. É um jogo sempre frustrante, o das expectativas. Pesa-nos, esmaga-nos quando não há disposição ao diálogo dentro de uma casa. O mutismo converte-se em mal-entendidos, em fugas para a frente e em coisa nenhuma. Sou da conversa, dos abraços, da música a propor imagens para os dias e a desatenção alheia doi no que nos vai calando… O silêncio vira monstro de olhos rancorosos e cegos e, de repente, dás por ti sem a faca e o jeitinho para furar cada um desses olhos que, involuntariamente, te controlam, num “laço frágil e destruidor”. Depois, a indiferença toma o lugar de tudo.

Ando de volta de candidaturas chatas, prazos a apertar, edito um livro sobre cinema na Amazónia, escrevo uma reportagem aprofundada sobre Procriação Medicamente Assistida, motivada por ter passado uma década nessa epopeia obsessiva, frustrante e que nos arrasa as finanças. O ano vai bem lançado em compromissos, e só apetece esconder-me num cofre de água verde, com sons aquáticos, e por lá ficar hibernada.

 

Ler Carta 13 do Ricardo, Ler Carta 1da Marta, Ler Carta 11 do Ricardo, Ler Carta 10 da Marta, Ler Carta 9 do Ricardo, Ler Carta 8 da Marta. Ler Carta 7 do Ricardo. Ler Carta 6 da Marta. Ler Carta 5 do Ricardo. Carta 4 da Marta. Ler Carta 3 do Ricardo. Ler Carta 2 da Marta.  Ler Carta 1 do Ricardo.

(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)


 

por Marta Lança
Mukanda | 1 Abril 2026 | Baralho de Cartas