Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 1
Língua, identidade, democracia e futuro num arquipélago que continua a inventar-se
Vi o jogo dos Tubarões Azuis contra a La Roja no Mundial num café na Amadora. Nas paredes, entre cachecóis do Benfica e fotografias antigas amareladas, a bandeira cabo-verdiana cobria metade de um espelho. Quando Cabo Verde falhava uma oportunidade no jogo, o pessoal levantava-se frustrado, nas defesas de Vozinha invocava-se Deus, a mãe: «Ah, nha mãi!» Um mandava mensagens para França, outro gravava as reações para parentes nos Estados Unidos, um casal viera de Roterdão visitar família em Portugal… A maioria, creio, seriam portugueses de origem cabo-verdiana que acompanham com imenso fervor este Mundial, o mais especial de todos, na estreia da sua seleção. Era muita fé naquele jogo, muita ambição acumulada e quase incredulidade por estar no Mundial. Durante noventa minutos viajei à Praia, Mindelo ou São Filipe e, no final do jogo, a emoção que não cabia no café deu origem a manchetes como: «Goleiro cabo-verdiano Vozinha teve atuação memorável na estreia histórica de sua seleção na Copa do Mundo da FIFA, com grandes defesas diante do poderoso time espanhol.»
É possível que nenhum país se veja tão bem num jogo de futebol como Cabo Verde naquele empate a zero contra a Espanha. Um país pequeno diante de uma potência, organizado, resistente, sem grande espalhafato, a defender-se com o corpo todo («Vozinha defendeu um chuto de Ferran Torres; depois, esticou as mãos para desviar um cabeceamento perigoso de Laporte»). Cabo Verde no centro da indústria dos bilionários, o esplendor do espetáculo futebolístico.
O futebol ajuda a ter algumas miragens, como a de uma pequena nação africana, atlântica, crioula e diaspórica a chamar a atenção e obrigar o mundo a reparar nela. O professor moçambicano Elísio Macamo referiu, no podcast Na Terra dos Cacos, o «doping sistémico», a propósito das dificuldades acrescidas das seleções africanas: desinvestimento, muitos miúdos a jogarem descalços em campos de areia, falta de apoio organizado. Apesar do esforço sobre-humano - ou por isso mesmo - há mais força de vontade, e Macamo coloca até a hipótese de Cabo Verde ganhar o Mundial de Futebol: «E se, depois de Marrocos ter chegado às meias-finais no Qatar, em 2022, coubesse aos estreantes “Tubarões” ser a primeira seleção africana a chegar a uma final do Mundial?»
Seria um sonho para toda a África! Sobretudo depois das desprezíveis declarações do presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, sobre a expansão da Copa do Mundo da FIFA e a classificação de alguns jogos como “desinteressantes” as quais foram publicamente repudiadas por várias federações de futebol africanas e não só.
Voltando ao jogo Cabo Verde/Espanha de 15 de junho. Os insultos ao árbitro, as gargalhadas, os comentários técnicos, a ansiedade e a celebração decorriam sobretudo em crioulo caboverdiano. Dava para distinguir palavras em badiu, a cadência do sanpadjudu e o crioulo de Lisboa, que mistura expressões de cá e de lá. Então, a beleza e a euforia do momento residiam igualmente na língua que toda a gente fala em Cabo Verde e na diáspora cabo-verdiana: a língua das mães, dos mercados, dos táxis, da música, dos amores, dos ralhetes, das discussões entre casais, do convívio entre amigos; no fundo, a língua em que a vida acontece. No entanto, esta língua caboverdiana continua a disputar o seu lugar pleno no Estado, na escola, na justiça e na escrita oficial.
Cabo Verde vive em crioulo, mas administra-se em português - uma ideia repetida há décadas sob diferentes modos que resume uma das várias contradições do país.
(Sobre o debate em curso da língua cabo-verdiana, pode consultar-se no BUALA mais de duas dezenas de artigos aprofundados.)
Cabo Verde sempre foi um país interessante para pensar o mundo. Já o poeta João Vário (Mindelo, 1937-2007) olhou para o horizonte a partir do Porto Grande e percebeu que aquelas ilhas não eram um ponto isolado de sofrimento e desgraça - que nem vem nos mapas - mas sim o centro de um diálogo universal, marcado por uma densidade intelectual e cosmopolitismo muito próprios. Enquanto a literatura da sua época cantava a dor da seca, da fome e da partida, ele queria arrancar de Cabo Verde o papel de vítima.
Frequentemente apresentado como sucesso democrático africano, com os Tubarões Azuis, Cabo Verde ficará ainda mais na moda, aumentando o turismo de resort no Sal e na Boa Vista - o que levanta problemas de sustentabilidade - ou até atraindo quem queira conhecer a fundo a sofrida e maravilhosa história das ilhas.
Identidade e democracia num arquipélago que sempre se reinventou
Livre da maldição dos recursos, não lhe couberam nem petróleo, nem diamantes, nem rios caudalosos, nem grandes riquezas minerais. Assim, investiu na educação, construiu uma democracia estável, assente na alternância partidária, instituições relativamente sólidas, nomeadamente uma administração pública funcional. E reconhecimento internacional. Visto de fora, Cabo Verde desafia muitos determinismos sobre África. Num continente tantas vezes reduzido, por preguiça ou racismo, a imagens de guerra, fome ou corrupção, Cabo Verde tornou-se uma espécie de exceção atlântica, o bem-comportado que vai progredindo à sua escala, projetando uma influência simbólica muito superior à sua mínima dimensão territorial.
Uma das interrogações persistentes de Cabo Verde é debater a sua identidade. Na história, na literatura, entre artistas, nos fóruns políticos parece estar sempre a ressurgir a pergunta: “Quem somos? Atlânticos, crioulos, africanos, macaronésios, europeus?” Uma discussão que atravessa a língua, a escola, a relação com África, a memória da escravatura, a diáspora, o turismo, a cultura e até o futebol. Essa capacidade de discutir a sua identidade e problemas sem, até agora, destruir a democracia é um grande mérito caboverdiano. Num tempo de polarizações violentas, tentações autoritárias e regressos nacionalistas, Cabo Verde vai mudando governos através do voto, produzindo consensos mínimos sobre o essencial. A democracia no país estará muito longe de ser perfeita - a verdade é que nenhuma o é - mas tem sabido preservar o pacto cívico. A eleição de mulheres para lugares centrais da vida política confirma uma maturidade que muitos países maiores gostam de proclamar e nem sempre praticam.
Porém, esta narrativa da estabilidade e da excepção - o “bom aluno de África” - corre o risco de esconder contradições e problemas agudos. Destaco alguns, sendo o principal as desigualdades de rendimento, património e bem-estar mas também regionais - há hierarquias entre ilhas “de primeira” e “de espera”. É difícil a mobilidade interilhas e a coesão nacional num território que depende de aviões e barcos para ligar os seus territórios, produzindo acessos assimétricos: consultas, escolas, trabalho, produtos, visitas e oportunidades. Está tudo mais concentrado na Praia e nas ilhas turísticas, Sal e Boavista. A crise da habitação afeta toda a população, mas pesa particularmente sobre os mais jovens. A violência urbana preocupa pais, famílias e bairros inteiros. O arquipélago continua a ser utilizado como plataforma do tráfico internacional e aumentou o consumo de drogas - crack nos bairros pobres; cocaína e outras substâncias entre as classes médias e altas. O turismo sexual cresce em várias ilhas, com especial incidência no Sal - recentemente foi desmantelada uma rede de exploração sexual de menores que envolvia estrangeiros, residentes e cidadãos cabo-verdianos.
O governo do PAICV recentemente eleito, cumprindo a alternância democrática, abre novo ciclo de expectativas perante os difíceis desafios de melhorar a habitação, os transportes e o desemprego jovem, o que ajudaria a estancar a emigração. E desenvolver muito mais a cultura, uma das grandes forças de Cabo Verde. Amílcar Cabral dizia, nos anos 1960, que “o povo não luta por ideias, nem pelas coisas que estão na cabeça dos homens. O povo luta para conquistar benefícios materiais, para viver melhor e em paz, para ver a sua vida avançar e garantir o futuro dos seus filhos.” Com Cabral, acreditamos que a política não serve para alimentar partidos, carreiras, vaidades, burocracias ou pequenos poderes autossatisfeitos. A política deve concentrar-se na prioridade total de melhorar a vida das pessoas. É nessa bitola da vida concreta que qualquer governo democrático deve ser avaliado: na casa onde se dorme, nos salários, na qualidade das escolas, hospitais e transportes. Na possibilidade de caminhar nas ruas sem medo. Na liberdade de as mulheres ambicionarem ser o que quiserem, sem ficarem condenadas ao papel de cuidadoras e de mães solteiras (um padrão consecutivamente repetido entre cabo-verdianos). Há ainda muito por fazer para reforçar a confiança pública e aprofundar a transparência.
Passadas as celebrações dos cinquenta anos de independência e conquistado esse lugar de respeito internacional, as interrogações internas são muitas. O que fazer com o sucesso democrático? A estabilidade é muito boa, mas não basta. A quem chega o crescimento e a prosperidade? Se há salários de trabalhadores hoteleiros que equivalem ao preço de uma noite nesse mesmo hotel, a quem beneficia afinal o turismo, a única indústria nas ilhas? Existe um pensamento estratégico sobre cultura ou esta tem sido tratada como mero ornamento? A língua materna continuará a ser tolerada como «língua dos afetos», institucionalmente secundarizada? Há condições para a juventude ficar nas ilhas ou segue no vapor di imigrason? A diáspora é apenas fonte de remessas e fábrica de saudades, ou será chamada a participar realmente na reinvenção do país?
A “diferença” de Cabo Verde
Historicamente, as ilhas estavam desabitadas - seriam mesmo?, a investigação está em curso - quando os portugueses e outros europeus ali chegaram no século XV. De qualquer modo, não existia um reino conquistado, uma população autóctone ou uma língua dominante anterior à colonização. A sociedade cabo-verdiana nasceu, assim, no coração brutal do mundo atlântico: escravização de africanos, comércio colonial, circulação de mercadorias, corpos e línguas entre continentes. Antes de ser país, menos ainda Estado, Cabo Verde era um ponto de rotas, um porto de partidas e chegadas. Entreposto de escravizados, laboratório de vidas, escala de navios. Antes de se fundar como povo ou comunidade, foi um encontro profundamente desigual entre colonizadores europeus e populações africanas arrancadas às suas terras, obrigadas a esquecer línguas, hábitos e modos de vida. Esta origem singular e traumática marca ainda a sociedade caboverdiana.
Também no império português Cabo Verde ocupou a posição ambígua de “colónia diferente”. Durante o colonialismo, muitos cabo-verdianos foram incorporados na administração portuguesa e enviados para outras colónias, sobretudo para a Guiné-Bissau e Angola, ao mesmo tempo, que milhares de ilhéus eram empurrados para a duríssima exploração - sob escravatura e, mais tarde, serviçais por «contrato» - nas roças de São Tomé, essa deslocação para sul foi particularmente violenta. A proximidade relativa de certas elites ao poder colonial coexistiu com fome, abandono, desigualdade e violência. Durante muito tempo, o arquipélago foi apresentado como uma ponte entre continentes, uma sociedade mestiça, harmoniosa, mais próxima de Portugal do que de África. O luso-tropicalismo encontrou em Cabo Verde um dos seus laboratórios preferidos, depois do Brasil: a suposta prova de que o colonialismo português teria sido integrador, doce, miscigenador, quase familiar. Um mito conveniente para Portugal que pesa na herança de Cabo Verde.
Uma curiosidade: A visita de Gilberto Freyre ao arquipélago e as suas conclusões precipitadas provocaram uma profunda desilusão na intelectualidade cabo-verdiana, muitos esperavam precisamente o aval científico do «mestre», sobretudo os Claridosos. Sobre isso, veja-se o que escreveu Baltasar Lopes nos apontamentos emitidos pela Rádio Barlavento após a visita de Gilberto Freyre, posteriormente publicados sob o título “Cabo Verde visto por Gilberto Freyre” (1956).
A história dá-nos, de facto, algumas pistas para perceber que a mestiçagem não aconteceu num campo neutro de afetos livres. Nasceu atravessada pela escravatura, pela hierarquia racial, pela violência sexual, pelo poder económico e domínio colonial. A ideia de harmonia racial serviu para esconder conflitos, silenciar a negritude e afastar Cabo Verde do continente africano, consolidando a imagem do cabo-verdiano como um «preto especial»: africano suavizado, mais civilizado, mais atlântico, mais próximo da Europa.
Outro marcador de diferença na questão colonial é o facto de Cabo Verde não ter vivido uma guerra de libertação no seu território, como Angola, Moçambique ou Guiné-Bissau, embora muitos cabo-verdianos se tenham juntado (e fundado) ao PAIGC de Amílcar Cabral, contribuindo decisivamente para a luta pela independência.
A pergunta «Cabo Verde é África?» é, ao mesmo tempo, absurda e reveladora. Absurda porque, geográfica, histórica e politicamente, Cabo Verde é África. Reveladora porque a dúvida nasce da colonização do imaginário, ou seja, de séculos de associação entre África e atraso, selvajaria, pobreza, desordem ou brutalidade. Vem do desejo de escapar à categoria racializada onde o mundo colonial colocou os africanos e da necessidade de algumas elites se sentirem distintas dos «irmãos da costa», dos «africanos», porque «os crioulos são diferentes». O problema então, mais do que África, é aquilo que muitos cabo-verdianos foram ensinados a pensar sobre África. As heranças coloniais são eficazes quando interiorizadas pelos próprios colonizados, muitas vezes para se protegerem da violência do mundo.
De várias maneiras, a ideia de excecionalidade cabo-verdiana foi sendo interiorizada, mas baralhou muitas mentes ainda por descolonizar. A ambiguidade crioula contém essa armadilha. Nos últimos anos, artistas, investigadores, jornalistas e ativistas têm regressado a esta ferida mal resolvida de forma corajosa, sobretudo entre as novas gerações. A relação com África.
África tinha impérios, línguas, cidades, sistemas políticos, comércio, cosmologias, pensamento, arte, espiritualidade e conflitos muito antes da expansão europeia. Mas muitas histórias nos países africanos são contadas a partir da chegada dos europeus, o que dificulta a construção de autoestima coletiva (não quero dizer nacional, com o peso que terá essa ideia). Se a história cabo-verdiana começa apenas na escravatura, então começa num gesto de amputação. É claro que nas ilhas cabo-verdianas, povoadas desde 1460 por europeus e povos da África Ocidental, é difícil averiguar muita coisa sobre as origens. «O cabo-verdiano vai até ao século XV e cai no mar. Nós não sabemos quem são, de onde vieram ou a etnia dos nossos tetravós», disse há poucos anos Mário Lúcio Sousa numa entrevista. O processo histórico das ilhas afro-atlânticas distingue-se efetivamente de outros territórios colonizados por ocupação e esmagamento de populações locais, a própria crioulidade incorpora esse corte das «raízes ancestrais», a sua memória começa no momento em que foi violentado.
Língua do futuro
Ora, se não dá para ir muito atrás, é preciso construir a partir do futuro.
E o crioulo, uma das grandes criações do arquipélago, diz muito sobre essa reinvenção e futuro. Pessoas impedidas de conservar nomes, parentescos, idiomas e memórias inteiras criaram um modo de se entender. Uma língua nascida da violência colonial, sim, mas também da invenção popular, da necessidade de sobrevivência, da inteligência quotidiana, mistura e resistência. O crioulo é, assim, simultaneamente ferida e cura, onde uma história traumática se transformou em possibilidade de comunidade - e de comunicação.
Por isso, o debate sobre a oficialização da língua caboverdiana é tão instigante. À primeira vista, parece uma discussão técnica: ortografia, variantes, gramática, ALUPEC, legislação ou ensino bilingue. Mas tem implicações profundamente políticas: que língua tem o direito de representar o Estado? A língua em que o povo vive ou a língua herdada da administração colonial? E como fazer justiça à língua materna sem empobrecer a pluralidade interna do próprio crioulo cabo-verdiano?
O português é a língua oficial de Cabo Verde. Seria absurdo negar o seu valor como instrumento de comunicação internacional, acesso académico, circulação literária, relações diplomáticas e ligação a outros países. Claro que o português deve continuar a ocupar um lugar central no arquipélago, maior isolamento seria um erro crasso. O problema está em a língua caboverdiana continuar a ser tratada como se fosse apenas de uso doméstico, afetivo e informal, enquanto o português é associado ao prestígio, à escola, ao Estado, às leis, ao jornalismo, às instituições académicas e à literatura. Esta hierarquia produz insegurança linguística e desigualdade escolar. E a sensação de que a língua de casa não cabe no mundo, mas naquele café da Amadora coube muito bem.
O debate, porém, está longe de ser simples. Há defensores da oficialização plena do crioulo, entre eles o Presidente José Maria Neves, que a associam aos cinquenta anos da independência e à necessidade de completar a soberania cultural. Há linguistas como Manuel Veiga, figura central neste processo, que há muito defendem a construção do bilinguismo e a valorização institucional da língua materna. Existem experiências, estudos, gramáticas, dicionários, materiais didáticos, produção literária e instrumentos de normalização suficientes para mostrar que não se trata de um capricho identitário.
Há resistências e hesitações legítimas, outras nem por isso. Alguns receios têm a ver com uma norma oficial favorecer a variante de Santiago ou a de São Vicente, esmagando a riqueza das restantes ilhas. Outras temem que o ALUPEC, apesar de concebido como alfabeto unificado, seja sentido como artificial, distante das práticas espontâneas de escrita e leitura. Outras ainda receiam que a oficialização enfraqueça o domínio do português e dificulte a circulação internacional dos cabo-verdianos. Hesitações normais.
A pergunta «qual crioulo cabo-verdiano?» não deve ser descartada. Cabo Verde é também arquipelágico na língua. O de Santiago não é igual ao de São Vicente, nem ao do Fogo, Santo Antão, São Nicolau, Maio, Boa Vista, Sal ou Brava. Cada ilha guarda uma música própria, um vocabulário particular, ritmos, entoações, marcas de história e de orgulho. Oficializar uma língua num arquipélago tão diverso exige delicadeza política, tal como a discussão sobre o Novo Acordo Ortográfico a exigia. A unidade não pode ser construída à custa da diversidade, mas a diversidade também não deve servir de desculpa eterna para manter a língua materna numa espécie de sala de espera constitucional. Na velha ordem simbólica: o crioulo é para a emoção e o português para o poder.
Toda esta discussão pode igualmente ser vista como uma questão de classe. Quem domina mais o português escolar parte com vantagem. Quem cresce em casas com livros, pais escolarizados e facilidade de circulação entre códigos linguísticos aprende cedo a mover-se entre mundos. Quem chega à escola sabe falar apenas a língua de casa pode sentir, logo no primeiro dia, que a sua inteligência foi suspensa até conseguir expressar-se na língua autorizada. O problema é pedagógico, mas também íntimo, se uma criança aprende que a língua da mãe não serve para o conhecimento aprende igualmente algo doloroso sobre a mãe, a casa e o lugar social de onde vem. A professora Ana Josefa Cardoso tem desenvolvido, a partir da diáspora portuguesa, um trabalho notável sobre as questões da aprendizagem em língua materna em territórios com grande presença de pessoas de origem cabo-verdiana, como o Vale da Amoreira.
A oficialização da língua caboverdiana, se acontecer, não resolve magicamente a desigualdade, porque nenhuma lei resolve sozinha séculos de hierarquia. Mas pode deslocar o centro simbólico do país e dizer às crianças que a língua em que sonham também pode pensar. Que a língua em que as avós contam histórias também pode escrever ciência, justiça, teatro, filosofia e matemática. Pode permitir que a escola deixe de ser uma fronteira brusca entre a casa e o Estado, completando uma parte da independência.
E sim, sou portuguesa e gosto muito de ouvir falar português em muitas partes do mundo. Mas conheço a história que está por detrás da lusofonia, como procurei explicar há alguns anos no ensaio «A lusofonia é uma bolha». Não sou purista da língua portuguesa e a criatividade do português do Brasil ou de Angola e de tantos lado tem-me mostrado a maravilha desse caldo cultural, sempre em mudança e em disputa, que a língua transporta.