Baralho de Cartas 16
Bom dia Ricardo!
Regresso à estação perto do rio, onde cheira a metal e se labuta para gerir as cheias e travar um tsunami (pesadelo e fascínio das crianças). Erguer um dique implica perfurar a terra com máquinas ainda mais pesadas do que a malta do trabalho pesado, e talvez fechar o metro por um par de meses. Mitigar catástrofes, cumprir planos de emergência, aprender socorrismo são skills urgentes a adquirir. “O ‘novo normal’ é lidar com cataclismos”, dou por mim a dizer às crianças, como se lhes explicasse que não têm outra hipótese senão preparar-se para os possíveis fins. De qualquer coisa, por ora ainda abstrata, que morre devagar. Talvez desta ilusão de vivermos num mundo dominado pela paz, desenvolvimento e progresso.
Longe de mim passar-lhes a cultura do medo, da culpa e de qualquer forma de ansiedade, nem a climática. Mas como se faz para transmitir a mensagem que a sociedade está profundamente assente em desigualdades e, ao mesmo tempo, dar-lhes esperança?
Neste inverno de temporais e de provação, apesar da estridência das janelas fustigadas pelo vento feroz do rio, senti-me sempre a salvo… Quando chovia em Luanda, aí sim, eram chuvas mortíferas, sinónimo de perda, destruição de casas, estradas e cólera. Outros dramas. Por aqui passou a “depressão Martinho”, e desta vez não derem nome feminino à depressão, como habitualmente. Desconheço porque hão de os meteorologistas associar a depressão às mulheres.… Mas enfim, a Primavera lá chegou ao Hemisfério Norte (o instante preciso em que o Sol cruza o plano do Equador celeste…). Pode parecer banal mas, entre tanta volatilidade, meia dúzia de aspectos ficam garantidos até setembro: os dias serão maiores que as noites; choverá menos (ou quase nada) e estamos bem abastecidos de água; vamos ver os jardins e as pessoas a rejubilar.
Já as planícies a sul, onde passei os dias carnavalescos, pareciam agradecer as copiosas chuvas deste ano de 2025. Foi regenerador ouvir os risos soltos de crianças aos saltos no trampolim, ou ensaiando uma escola autogerida - embora uma delas não consiga deixar de mandar e tem de ser “a professora” ou “a diretora” da escola auto-gerida. Claro que as indomáveis brincadeiras das crianças dão-me um trabalho estafadíssimo de gestão das refeições e dos ânimos. É impressionante como as bocas pequenas estão sempre esfaimadas (sobretudo de porcarias), e dão forma a novas reclamações a cada hora. Temos de conhecer mutuamente a nossa faceta de mediadores de conflitos de gente amuada.
Volto a falar contigo desde a cidade. E olha que já acumulo saudades tuas, mesmo sem nunca termos estado frente a frente. Entretanto, a geopolítica deu umas voltas manhosas na via letal, e custeia-se o armamento expansivo e intensivo do continente europeu, em táticas belicistas e amplamente destrutivas, de «cada um por si e deus contra todos», como o título do livro do Herzog sobre o qual escreveste.
Entretanto, passo dias agitados em que a configuração de vida pode mudar a qualquer instante. Pondero alterações de rotinas e de apegos, cenários novos, etc. Custa que as companhias dos dias, noites, férias, trabalho, problemas, e tudo o mais, de um momento para o outro sejam removidas, transferidas para o cardápio nostálgic, à mão de um telemóvel que se põe a regurgitar “memórias” - as nossas peles velhas largadas nas estradas.
Imagina esta cena infantil-sinistra: Estás num carrossel cada vez mais veloz, que subitamente decide não parar e o que era divertido passa a ser uma tortura. Não consegues sair do cesto que gira sobre si mesmo, ou da girafa alta em andamento. As tuas pernas curtas não te permitem descer sozinho. Era nesse carrossel que eu me sentia até conseguir antecipar uma saída airosa, antes que o carrossel implodisse ou esmagasse os putos todos.
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Petit à Petit, Jean Rouch, 1971
Trouxeste o Jean Rouch à conversa. Engraçado que, no seu filme Petit a Petit, as cartas enviadas pelo protagonista, tal como as nossas, dão conta das complicações da vida moderna europeia. Nesse processo, Damouré pratica uma espécie de etnologia transversa, aplicando aos selvagens parisienses os métodos de classificação e objetificação que o colonialismo impôs aos africanos. Mas terá sido necessário pôr um tipo africano a medir os crânios dos citadinos europeus, para perceber o racismo da antropometria?
Uma das críticas mais fortes de Jean Rouch é precisamente os retratos unidimensionais que os cineastas europeus produziram sobre África. Tomo isto para a vida em geral - é preciso tempo para ver, acompanhar e estar predisposto para outra coisa que não necessariamente o que se ia ver. E essa coisa de “é preciso sair da ilha para ver a ilha”, quando lá estamos só queremos viver com “eles” não sobre “eles”.
Depois houve algumas críticas ao próprio Rouch e ao olhar etnográfico - a quem serve o olhar etnográfico? Há uns tempos, escrevi um artigo sobre isto a partir do escritor, antropólogo, realizador e adorado amigo Ruy Duarte de Carvalho. As reflexões do Ruy sobre o posicionamento e a condição de quem produz as imagens, aproximam-se das discussões em torno da legitimidade de quem narra, que hoje identificaríamos como “lugar de fala”. Se, por um lado, essas imagens podem ser problemáticas quando filmadas por europeus, por outro, se feitas por pessoas oriundas da própria cultura retratada, oferecem abordagens diferentes, mais complexas e enraizadas, mas, nesse caso, deixariam de ser etnográficas? Um cinema que se ocupa de situações atuais e problemas específicos, elementos culturais vivos, como fazem os realizadores africanos, pode ou não ser considerado etnográfico? Historicamente, o filme etnográfico tem sido instrumento de exotização e domesticação da diferença; alimenta festivais e instituições que reproduzem uma visão estetizada e colonial de culturas consideradas “outras”. A recusa em apresentar essas sociedades como “etnografáveis” era, assim, uma tomada de posição contra um olhar que fixa, separa e define, propondo antes um cinema que filma os sujeitos nas suas contradições e impasses. Que se interesse menos em “documentar tradições” e mais em compreender como essas tradições se movimentam e se confrontam com os projetos de futuro. Bom, tal como o Ruy pensou para o filme, podemos tentar nós manter um olhar comprometido com o real, numa ideia de ética, escuta e arte que se disponha às mutações de um determinado presente.
Bom desculpa, já estou numa deriva qualquer aborrecida.
Ler Carta 15 do Ricardo, Ler Carta 14 da Marta, Ler Carta 13 do Ricardo, Ler Carta 12 da Marta, Ler Carta 11 do Ricardo, Ler Carta 10 da Marta, Ler Carta 9 do Ricardo, Ler Carta 8 da Marta. Ler Carta 7 do Ricardo. Ler Carta 6 da Marta. Ler Carta 5 do Ricardo. Carta 4 da Marta. Ler Carta 3 do Ricardo. Ler Carta 2 da Marta. Ler Carta 1 do Ricardo.
(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)