Baralho de Cartas 5

Marta,

Leio-te no café da estação. É o último lugar onde se cruzam os abonados pela sorte e os que ainda a julgam do seu lado. Na mesa ao lado da minha, um homem magro, com um kispo três tamanhos acima, estende um lençol de apostas sobre a mesa. Lotaria, euromilhões, totoloto, raspadinhas. Faz contas no telefone. Tem o olhar nervoso, as mãos trementes, parece perdido na possibilidade de se escapar pelo frenesim dos números. 

As aventuras, os riscos, as travessias que me contas ter passado, levam-me a imaginar o espírito vivo e intrépido que te habita. Só tenho a minha fantasia, imagino-te uma infância forte como um caniçal. Com a Francisca gosto de correr no parque, de adivinhar nuvens e pintar. Pintava antes de me virar para as letras, mas construir uma imagem dava-me uma angústia que me tirava o ar, como se caísse para fora de bordo. Na escrita sinto outro apoio, há um léxico, uma gramática, mesmo que sejam para escavacar, consigo, nos dias bons, usá-los como remos e canoa. Com a Francisca pinto sem angústia, só prazer. 

Perguntas-me o que nomearia deste tempo. Ir ao seu encontro é o que procuro. Nem me adiantar demasiado, nem ficar para trás. A maior parte do tempo estou em lugares imaginários, a pairar sobre o nada, enquanto o real me bate nos olhos vendados. Acredito, fervorosamente, que temos de tentar quebrar a melancolia do tempo, uma soturnidade que paira como um feitiço em redor dos corações, espatifar esse relógio imóvel que nos deixa plantados sobre nós mesmos. Os que julgam estar à frente do tempo deixam as lutas do presente nas suas costas, atiramos-lhes uns calhaus para que se voltem.

Fernand Léger, la fin du monde filmée par l'ange 1919Fernand Léger, la fin du monde filmée par l'ange 1919

Tento arrancar a penumbra das faces que me ameaçam, delimitar o cinzento que cobre os céus e a terra, descobrir a monstruosidade que me ocupa. As insónias desarmam-me. Deixam-me a pensar na verticalidade dos homens. Quando assim é, a repetição é a única arma de que disponho, entre as tarefas do quotidiano repito uns versos, umas leituras, como quem conjura um feitiço contra a dormência. Tenho muita dificuldade em simbolizar as coisas que me são próximas. A sensação de me desmaterializar, de habitar num sonho de outro ser, impotente quanto ao meu futuro, só se inverte quando começo a dar carne ao mundo, a descrever o que vejo.

Estamos sobre a terra, mas os corpos continuam a querer viver na massa líquida de onde saíram há milhões de anos. A água deixa-nos a alma enrugada, na água passamos com tudo, uma morte rasteira que escorre conforme à gravidade. Seguir o princípio do fogo deixa-nos a cabeça alinhada com os astros, tentamos escapar à humidade onde tudo se confunde. O mundo é deslocação, como lembras na última carta, e a disponibilidade de que fala a Silvina é um combate contra esta queda que procura os lençois freáticos, Bachelard diz que é uma morte onírica, o que vai de encontro à fantasmagoria presente. O homem vive enleado na sua própria queda, numa fala que o fecha em círculos cada vez mais pequenos. O acaso, por vezes, leva-nos no encalço de outra coisa, talvez entrássemos na casa uns dos outros, como falavas, mas a água escolhe quase sempre os mesmos caminhos.

Anteontem deitei-me com o que sobrou de uma conversa, fechei os estores, vi um vestido verde, baloiçava na aragem morna, estava tão cansado que o deixei cair na memória como um decalque, o sono soltou-se inesperado, uma madeixa do longo cabelo que adormece os homens. Na manhã seguinte entrei num autocarro na direção contrária da gravidade.

 

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(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

por Ricardo Norte
A ler | 28 Janeiro 2026 | Baralho de Cartas