Baralho de Cartas 27

Marta
A luz emagrece nos buracos das persianas enquanto espero que o vento volte as paredes do avesso. Lembro-me do Cesariny, do homem intensamente livre na praia mais pequena, nas dunas mais pequenas, no poço mais pequeno… Esse homem que sem saber arrasta uma época sem calendários. O Mário andava com ele, sem saber se era o caminho ou ele quem havia de cessar, e por isso andavam. Não ficavam a ver os delgados raios que mosqueam o quarto, encurralado no tempo a conta-gotas, na vida esfarelada dos acamados, para quem tudo está diluído, triturado, não vá um grumo entupir-lhe as veias. Lá fora a “gorda luz encosta-me à parede”, os prédios ladeiam os passos de duas mulheres, com um balde numa mão e um aspirador na outra, as casas já não são para se viver nelas, saqueiam o tempo das que limpam, tranquilizam os corpos dos que as exploram. É principalmente a música que as chama, vejo no ritmo com que andam, nos risos que permeiam a conversa, nos braços fortes que pulsam vontade de dançar. De onde vêm estas mulheres, queria falar com elas, dizemos “bom dia” e continuamos em direções opostas. Tenho lido mais do que escrevo, revejo poetas que amo, palavras que batem com o ritmo dos remos. O dia vai se adensando quando não o penso, os monstros, se não lhes dou atenção, são uma suspeita abaixo da superfície. Ando a ler o Cesariny, tantos tambores no seu falar, tanta coragem de largar a pele da serpente muda e fascinada, para chegar ao canto da cigarra. A invisível onda de calor mistura-se com a vibração sonora, um gato passa, tudo se enleia no balançar das omoplatas.Esboço um sorriso largo por te lembrares de mim aos domingos, quando o tempo cai em densas golfadas, deixo-te um poema da Luisa Neto Jorge que me lembra esse ondear:

Tremem os cerros os favos entumescem / às meias horas caida sombra a sombra / E a gorda luz encosta-me à parede.

Marie-Louise Von Motesiczky, Photograph of George Lewis painting a window frame, 1982Marie-Louise Von Motesiczky, Photograph of George Lewis painting a window frame, 1982

 

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 (Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)


por Ricardo Norte
Mukanda | 1 Julho 2026 | Baralho de Cartas