Baralho de cartas 10
Olá Ricardo!
Por falar em construir um universo mental que nos protege da realidade, ao pensar nas casas coletivas por onde andei, conjecturo uma personagem-arquétipo que dá alento e nervosismo. A possibilidade da sua existência tranquiliza-me quanto ao momento atual e fase de vida. Vou chamar-lhe Júlia. A Júlia não é uma daquelas miúdas adorno bonitinho de franja curta que liam textos filosóficos para homens mais velhos, como no Cinema Novo. Pode até ter uma leve fragrância de Rivette, uma voz altiva da Janis Joplin, magreza da Pj Harvey, atrevimento Björk, qualquer coisa do tem-te-não-caias da Alice e da Etelvina, mas não lhe deve faltar futuro e talvez até desenrasque dinheiro.
Descrevo-a. É morena e rija. Casaco vermelho, capuz por dentro, t-shirt preta de decote médio num peito que não amamentou, brinco pendente em triângulo. Júlia encara tudo como possibilidade e, quando fala, fixamos o seu dente inferior torto. Aquela imperfeição bela e misteriosa magnetiza as conversas. O dente e o seu olhar intenso e vagamente irónico, que parece estar sempre a desafiar. O entusiasmo com que fala produz uma combustão à sua volta. Veste a pele de justiceira dos problemas de certas partes do mundo. Abre o coração a paixões e aos quotidianos em lugares distantes. Não se assusta, talvez porque pense através de coisas concretas. Será improvável ouvi-la falar de pediatras, de trabalho ou de outros enfadonhos assuntos. Júlia partilha coisas extraordinárias, ou que parecem extraordinárias, tipo cardar lã, construir em adobe, dançar cúmbia, ordenhar búfalas, fugir da polícia, chás para matar maridos possessivos. Lê as reportagens do Mapa e os ensaios do Luhuna e põe em prática excertos dos livros dos Tiqqun. Discute o poder destituinte, esperneia contra a gentrificação e o patriarcado. Já viveu com o pessoal da ZAD em França, com as zapatistas no México, com as refugiados saharauis, já teve visões epifânicas com o ayahuasca e dançou o samba no Beco do Rato. Passou temporadas nas comunidades auto-geridas no Alentejo e nas montanhas bolivianasPercebe as diferenças das línguas do interior da China e a importante afirmação identitária do crioulo caboverdiano. Foi pescar para o Portinho da Arrábida e tomou pastilhas no Boom. Faz o design do panfleto da próxima festa, dá o seu tempo às hortas urbanas e cantinas sociais. Sabe todos os esquemas para arranjar guito. Defende o poliamor mas é sensível à complexidade dos ciúmes, esse resquício da privatização da vida. Anda a desenhar um mapa poético para mudar o sistema sem tomar o poder, redescobrindo a confiança e a alegria na ação direta coletiva. Mas não ignora a brutalidade da violência colonial perpetuada pelas bombas de Israel e EUA.
A Júlia inspira-nos a sair da paralisia catastrofista e das grilhetas do patriarcado. A Júlia está em todo o lado e em nós, é a liberdade concentrada daquelas infinitas mulheres que nunca puderam fazer nada se não cuidar dos outros. De todas as que foram reprimidas.
Jeanne Moreau, Jules eet Jim (1962)
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(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)