"há o mal, logo, a dignidade existe", entrevista a João Vário

João Varela nasceu no Mindelo, estudou Medicina em Coimbra e Lisboa e doutorou-se em Antuérpia, Bélgica. É investigador no domínio do cérebro e diplomado em Medicina Tropical e Micologia Médica. Entre as suas experiências, contam-se as pesquisas no Sudoeste de Angola, nos Huíla, em Cabinda e no Lesoto (1986-89). Regressa a Cabo Verde em 1998, depois de mais de 40 anos no estrangeiro, e é actualmente Professor Catedrático de Citologia e Fisiologia Celular no ISEC Mar. Criou, no Mindelo, a Academia de Estudos de Culturas Comparadas no intuito de promover a reflexão crítica sobre as áreas da cultura e humanidades tendo como base a revista AnaisEnquanto escritor, assina com os heterónimos João Vário, Timóteo Tio Tiofe e G.T. Didial numa obra subdividida tanto nos objectivos como na linguagem. Os temas que a atravessam são “o mal, o perdão (ou a misericórdia), o sofrimento e o carácter imponderável da verosimilhança.”1 Assume que um criador se torna obsessivo com as mesmas ideias ao longo da vida, é prova dessa continuidade o extenso poema, reunido em doze livros, que tem como nome ExemplosA sua atitude entusiasta na vida e rigor no trabalho, só é traída pelo tempo que nunca chega para dar conta de tantos projectos, artigos e reflexões de uma cabeça como estas. É um homem atento a todas as formas de contemporaneidade, mas com a bagagem cultural dos clássicos, da estética e da ciência. A voz crítica e exigente com o seu país, irónica [“Estas terras tornaram-se, na nossa recente mitologia, terras de sabura e morabeza. Morabeza compreendo mas sabura porquê, quando há tanta carência, aflição e despojamento à volta?”2], é a sua forma de manifestar um amor profundo e preocupação por estas terras e gentes. São as “vicissitudes do sofrimento e da ternura”. É notório que João Varela merecia um reconhecimento mais dignificante perante a grandeza e dimensão da sua obra.

Sem perder tempo, o professor inaugura a conversa com o último dos seus projectos: um negócio de cortiça em Cabo Verde derivado da plantação de sobreiros na ilha de Santa Luzia e, com algum humor à mistura, aproveita ainda para nos pedir dinheiro para investir.

DF – Professor, fez um projecto muito bem arquitectado para a Universidade pública de Cabo Verde, que provinha de uma emergência para preparar o homem para a produção de alguma riqueza, de bens e serviços. Que relação tem esse seu projecto com a Universidade que existirá daqui a uns anos?

JV – Nenhuma, porque este país é um país bizarro.

Eu vou escrever uma série de artigos que vão provocar algum alvoroço. Já é a terceira comissão instaladora. Neste país há um hábito horrível: discute-se interminavelmente mas não se vai a lado nenhum. Estamos a discutir a Universidade em Cabo Verde há uma série de tempo, a Guiné pensou na Universidade, já tem Universidade e reitor, e não passou este tempo todo a discutir. Aqui não há nada disso. Quando o Correia e Silva foi nomeado para presidir essa terceira comissão, telefonou-me a dizer que me convidava para adido cultural porque sou a pessoa que mais escreveu sobre a universidade. Eu disse-lhe: “vocês metem-se imediatamente num sarilho se me convidarem porque eu não concebo a Universidade se não houver investigação”. Porque este é o problema, nós só podemos conquistar algum lugar ao sol se investirmos na investigação neste país. Nunca mais me telefonou.

No simpósio de Amílcar Cabral eu ia apresentar um trabalho sobre uma lacuna no pensamento de Amílcar Cabral, uma herança que ficou no espírito dessa gente que está no poder, todos herdaram essa falta: não há em Amílcar Cabral nenhuma referência à investigação científica. É o único homem cabo-verdiano que fez investigação [estudou agronomia] e espanta que não haja nenhuma referência.

Dou um exemplo ilustrativo, no ano em que fugi de Portugal.

DF – Em que ano?

JV – Acho que foi em 1966, recebi um dia uma nota dizendo que eu era mobilizado para a guerra. Era o destino de todos os jovens médicos, esperavam que nós tivéssemos a licenciatura para nos apanhar. Isso não fazia muito sentido. Então, decidi deixar Portugal sorrateiramente; sabia que não podia fugir de outra maneira. Quando cheguei à fronteira pensava que o documento de mobilização devia estar por toda a parte. Assim que me deram o documento de saída, perguntando o que eu ia fazer lá fora, respondi que ia como emigrante cabo-verdiano trabalhar na Holanda (nessa altura já aí havia vários emigrantes cabo-verdianos a trabalhar como operários). Acho que foi a única razão para me deixarem passar; até ao último momento, até o comboio sair, estava à espera que me apanhassem.

E então, nessa altura, as firmas farmacêuticas ofereciam aos estudantes de medicina uma viagem de estudo e, como me tinham oferecido, pedi o passaporte nesse quadro. Disse a um professor que queria estudar patologia do sistema nervoso, e ele aconselhou-me, após terminar o curso, ir para a Antuérpia para o Instituto de Patologia do Cérebro. Numa visita de estudo visitei o tal instituto onde contavam trabalhar, mas não tinha ainda nem bolsa nem possibilidade de subsistência. Soube que Pedro Pires tinha chegado a Paris clandestinamente (Mr. Mopan) e contactei-o para dizer que ia para a Bélgica fazer investigação do cérebro, a especialidade que escolhera, e se me podiam arranjar uma bolsa, e ele disse-me “mas nós não precisamos de cientistas”. Isto é típico dessa gente, não há nenhuma ideia de investigação para este país.

 

DF – Então, do seu projecto, já com as áreas de investigação todas planificadas, não vão aproveitar nada.

JV – Eu não sei o que vão fazer, seja como for há uma coisa da qual não podem prescindir: é o organigrama. Discutem muito a Universidade mas não têm um organigrama, o único válido e consistente é o meu.

DF – Não acha que a falta de universidades é crucial neste país, traduzida, por exemplo, na ausência de massa crítica, de estudantes universitários com certas leituras, e de uma certa sensibilidade. Isso reflecte-se no jornalismo.

JV – Já o tenho dito várias vezes, muita coisa mudará aqui quando houver uma Universidade de Letras, que implemente a teoria estética. Qualquer indivíduo pensa que pode escrever o que lhe aprouver, não há ninguém que tenha coragem de dizer que isso não pode ser. Para escrever não basta escrever bem o português, há uma coisa de que eles não fazem ideia: a articulação das frases, há uma falta de sentido em muito do que se escreve. Estou a escrever um texto sobre isso que vai provocar muito rumor, mas é de propósito, porque isto é um charco.

DF – Mas não podemos estar só a diagnosticar as insuficiências quando se calhar não há de facto condições, nem formação para haver sensibilidade estética para as pessoas poderem fazer boa crítica.

JV – Claro, as coisas não aparecem por geração espontânea. Nós temos de ter gente que prepare as pessoas e há uma via para essa progressão, é ter uma cadeira de teoria estética, as pessoas têm que ter cultura. Nessa altura teremos gente com capacidade de análise crítica.

Eu tentei, numa série de artigos em Anais, dar ideia do que chamo “teoria estética”. Agora, vou fazer uma coisa que se vai chamar “A Procissão do Livro” com o grupo dos Micadinenses do Norte da Baía [ou o «grupo do Arco»]: eu, o Vasco Martins, o Germano de Almeida e o Tchalé Figueira.

Será um carro alegórico desfilando pelas ruas que, no tocinho, exibe este meu enunciado: “Não se pode ser manhento e culto ao mesmo tempo, salvo o diabo por deformação profissional”. 

Chamo a isso o “princípio da mais-valia inversa”, os nossos compatriotas são capazes de gastar muito dinheiro numa jantarada mas incapazes de gastar mil escudos para comprar um livro, são manhentos.

O Tchalé e o Vasco escreveram uns textos sarcásticos que serão acompanhados pelo novo género musical: a merdrada (vamos lançar não pedradas mas rolos de merda neste charco). O altifalante vai destilar passagens do nosso manifesto que diz o seguinte: “nós sonhamos com uma república moderna de Cabo Verde em que deixará de haver bláblólogos e bláfilólogos” (entenda-se gente que passa o tempo a dizer blá-blá e uma vez que o estado da nação é um bluff…), “em que o cidadão não será mais tratado como pedacinho de merda” (um indivíduo vai a um hospital ou a qualquer repartição pública e é assim que é tratado), “onde o dirigente será um verdadeiro cavalheiro” (que assume a palavra dada, pois a palavra de um cabo-verdiano vale menos do que um…micrograma de merda). Isto está muito mau aqui, ninguém se preocupa com a palavra dada, é uma coisa horrível.

DF – É o princípio da desresponsabilização, em que a palavra já não conta nada.

JV – Nós sonhamos com uma república em que o dirigente não será mais um “passador de pau” que passa o tempo a contar histórias da carochinha. Propomos uma adivinha: qual é coisa qual é ela que pediu asilo político neste país e que, apesar de reiterada oposição de gente como Germano de Almeida, Vadinho Velhinho, Arsénio de Pina e João Varela, obteve esse estatuto? É a asneira. Está generalizada neste país. Temos de acabar com isso.

DF – Quando escreveu os reparos estéticos “O Acaso e o Espírito” (1980-2000) nos Anais, falava de novos movimentos artísticos, em 1999 sentia que a cultura estava a passar uma fase bastante prodigiosa a nível da dança, do teatro, na pintura, poesia, música e ficção.

JV – Vou fazer uma conferência que se intitulará “Tendências recentes da criação artística em Cabo Verde”. Há toda uma gente (aponta para o Toni Tavares) que pertence a um movimento novo, porque aquele que os precedeu é o movimento claridoso e esses eram ficcionistas.

DF – Mas acha que se pode falar em movimento hoje em dia?

JV – É um movimento do Micadinismo. Eu não gosto do nome Mindelo que é uma cidade no norte de Portugal. Nós não temos nada de original neste país, este povo que se crê tão original não tem nada de original. Quando digo que sou de Cabo Verde dizem ah, Senegal, por causa do cabo, mas é um contra-senso porque este país não é nem um cabo nem verde, é um arquipélago.

[Micadinia era também o nome de um prémio da AECC (Academia de Estudos de Culturas Comparadas) com um grande sentido simbólico: “Em Micadinia aprenderemos a modéstia, a humildade, o comedimento e a parcimónia – para edificar a dignidade e maturidade, dois sinais de arte e essência de vida”.] 

É, portanto, um movimento Micadinista. Pode-se falar de uma coerência porque há cultores de disciplinas que não existiam no movimento claridoso, indivíduos de cena (ao lado do João Branco), bailarinos, ceramistas, quem cultive baixo e altos relevos, batike, tudo isso é novo.

Associo também os escritores a este movimento porque têm uma característica própria: inteiramente nova a ideia de se deixar uma obra, uma bibliografia, já o escritor claridoso escrevia um livro e ficava-se por aí. Tem de se trabalhar na perspectiva de deixar uma obra, com profissionalismo. Há razões para se falar em movimento.

DF – Em termos de linguagens artísticas, acha que há verdadeira experimentação? Já não é tão fácil a catalogação de que se trata de um autor de Cabo Verde, como existia no movimento da Claridade, a preocupação em se debruçar sobre a identidade cabo-verdiana. O novo artista já pode pensar-se em termos universais e fazer experiências estéticas.

JV – O artista estava preocupado com a sua condição de cabo-verdiano mas isso deixou de existir, a condição inevitável do artista já nada tem a ver com a sua condição telúrica mas antes com a condição humana.

Podemos pegar na obra de Tchalé, ele vai às origens, toda a rua da Praia está na obra dele, a referência das personagens com determinada psicologia, mas o que é novo aqui é o tratamento disso, e aí é que se deve buscar a originalidade dessa expressão artística, não nas personagens que são tipificadas (pois são obviamente cabo-verdianos).

DF – A nossa expressão plástica está muito subjacente à pintura, enquanto por exemplo Angola, Moçambique e outros já estão na instalação, numa outra dimensão. A sua expressão plástica já é de tal ordem que são chamados para estar no mundo.

JV – Querem dizer que já estão mais avançados do que nós?

DF – Sim, no que toca à experimentação e universalidade.

JV – Eu entendo que devemos buscar aqui a expressão artística daquilo que podemos ter de específico. Lembro-me de que, quando regressei a São Vicente, a Bela Duarte disse-me que os nossos montes tinham cores diferentes – só uma pintora me podia chamar a atenção para isso –, a própria pedra é diferente, ou basalto ou pedra de areia.

[Aurélio Gonçalves dedicou algum tempo às colinas, esta (Mindelo) é uma cidade de colinas, mais do que Lisboa.]

Nós poderemos meter-nos nas instalações mas isso será por moda, o artista deve guiar-se por necessidade interior. Eu fiquei surpreendido ao constatar que nós temos dois pintores COBRA neste país, como chegaram a fazer essa pintura? Talvez por diversas influências, a afinidade é uma coisa imperdível, mas tudo tem de existir por imperativos interiores. Porém, a instalação é uma coisa que eu não considero decisiva neste século.

DF – Mas tem a ver com a nossa relação com o continente africano, onde a cada olhar vemos uma instalação, por exemplo nos mercados do Senegal, Moçambique ou mesmo no nosso Sucupira. Alguns artistas africanos trabalham com instalações, artistas da África do Sul, de Angola (refiro-se António Ole). Cabo Verde está muito fechado na sua condição arquipelágica e precisa de observar o mundo, encontrar-se e actuar. Não temos muita coisa de artes plásticas.

JV – Tem de haver formação. O Centro de Artesanato, que funcionou durante algum tempo como pólo de formação, desapareceu. E quando se vai ao Centro Cultural do Mindelo, aquilo é lastimável, faz pena ver o que eles expõem porque não há ninguém que diga: “vocês não estão ainda preparados para fazer nenhuma exposição”, apresentam coisas inacabadas.

DF – Parece que há uma falta de ligação entre as coisas, a nossa condição faz-nos ficar muito isolados, quando se está numa cidade da Europa sente-se que as pessoas podem engendrar projectos juntos, aqui é “eu fico na minha, vou fazendo a minha obra”, há muito individualismo.

JV – O cabo-verdiano não se deu conta de que a única forma de progredir é realmente trabalhar em grupo.

DF – Em relação ao continente africano no caminho para a democracia e a propósito de um texto seu intitulado “Ética e Moral nas Sociedades Negro-africanas” (Anais, Volume 2, nº 1 - Abril 2000) onde dizia, apesar da sua crença optimista no futuro, que África ainda não estava preparada para a democracia devido a uma certa ausência de sentido do bem comum na prática política e na ideia do semelhante. Depois das colonizações e de tanto sofrimento, assiste-se a uma violência económica, social e cultural, à tal exclusão humanitarista de que falava. O que pensa agora?

JV – Eu tenho muito orgulho neste continente. Estou a trabalhar numa coisa há 30 anos que se chama Estoriadas que penso ser o ponto mais alto da minha poética. Quero transmitir aos meus irmãos africanos o orgulho em serem africanos. Porque este continente é de uma riqueza extraordinária. Estive a ver um vídeo, uma coisa simples, sobre o Carnaval na Guiné, é de uma sumptuosidade deslumbrante que só vejo no meu continente, e já viajei muito. A dança africana atinge por vezes uma complexidade única.

DF – Mas a nível dos governantes e dos poderes, e da forma como têm sido geridos todos os conflitos…

JV – É desolador. África por vezes deixa-nos sem nenhuma esperança, mas por isso é preciso transmitir o orgulho de um continente que tem um passado brilhantíssimo. Assisti ao pior e ao melhor em Angola, creio que é próprio das civilizações, há momentos em que se fica surpreendido, quando a civilização parece estar a caminhar para o pior atinge cumes inusitados em matéria de cultura e de criatividade. Isso é um dos paradoxos da condição humana.

DF – É o caso também de muitos sistemas repressivos onde a criatividade, por oposição, é fortíssima. Mas a nível de ética, dizia que a ideia de misericórdia não estava muito presente no continente africano por não ter a herança do cristianismo.

JV – Eu sou de algum modo discípulo de Paul Ricoeur, acredito que só nos apercebemos da ideia do mal com o cristianismo. Os gregos ocupavam-se da ética mas não se ocupavam da moral. É uma coisa muito importante para a evolução do espírito no Ocidente porque a moral aparece com a ideia de que o mal existe e é o cristianismo que traz essa ideia. África não teve essa lição.

DF – Mas a ética, não a moral, está presente em África nas relações com o Estado.

JV – Existe a relação do cidadão com o Estado onde reside a ética, mas o avanço considerável dá-se com a moral. Eu dizia, nessa palestra – há muitos aforismos na minha obra – que “há o mal, logo, a dignidade existe” porque penso que o limite para o mal é a dignidade.

DF – Na sua obra de ficção tenta trazer da literatura africana a parábola.

JV – Sim, concebo uma parabolização da literatura.

DF – Acha que tem o reconhecimento merecido pelos seus conterrâneos?

JV – Não. Faço coisas complicadas, devia fazer coisas divertidas. O Germano diz que eu sou o Pessoa da literatura cabo-verdiana, no sentido em que talvez só após a minha morte se perceba o alcance da obra. Tudo o que escrevo tem um fim determinado, cada um dos Exemplos trata de um assunto particular. No final do filme “A Paixão de Cristo” há um plano sobre a perplexidade da multidão. A perplexidade serve para precaver da temeridade, é uma construção do espírito que nos faz assistir a coisas que não conseguimos interpretar.

DF – No Estado Impenitente da Fragilidade existe o drama de estar num sítio onde se perde sempre algo e de voltar à ilha depois de toda a aprendizagem na Europa. Há no protagonista uma obsessão pela celebridade e por deixar vestígios das suas descobertas, pela escrita de uma obra. É um romance autobiográfico?

JV – Não, só em alguns aspectos. Conheci a Noruega, nos meses de frio estava tudo em casa e, assim que vinha algum calor, dançava-se muito nos restaurantes. Também a presença de mulheres que passaram pela minha vida, que eu colhi na rua ao vê-las andar à minha frente, pois a parte mais bonita da mulher são as pernas.

DF – Mas em relação a um certo estado de insatisfação constante?

JV – Sempre senti insatisfação, na adolescência era assombrado pela ideia de morte. Também como cientista tem que se ser um homem insatisfeito, à procura da luz que ilumine o caminho dos outros.

DF – Sente-se um pouco a voz de Herberto Hélder naquela solidão. “Um homem, é verdade, pouco sabe da vida. E de si próprio que sabe ele senão que pode matar-se?” ou “Esta cidade nutre-se de insegurança, de desvario e mudança. Ela cria à minha volta uma pobreza inapelável e pede-me um coração velocíssimo.”

JV – Há reminiscências do H. Hélder num dos Contos da Macaronésia. Publiquei nos Anais um texto seu extraordinário, “Ofício de Poeta”, uma vez mandei-lhe um livro com uma dedicatória “espero que tenha a mesma intensidade de emoção que eu tive ao ler os Passos em Volta.”

DF – Quais são os projectos em que anda a trabalhar?

JV – Tenho um projecto de investigação sobre algas, no interesse da luta contra a sida, da confecção de próteses dentárias, para cuidar das mulheres desdentadas desta terra, e de pasta de dentes. Gostaria de ver um dia todo o meu espólio organizado num Instituto Didial das Ciências Biológicas aqui no Mindelo. Na minha família há muitos médicos e tenho muito material importante. Estou a estudar o acaso, talvez se ganhar o Prémio Nobel, da Literatura ou da Medicina, ou porque não os dois (risos), ou com o dinheiro do projecto das algas, consiga fundar o Instituto (comentário à saída).

DF – Tem imensos livros…

JV – Não tenho muitos livros, tenho uma biblioteca.

 

(revista Dá Fala nº 1, Mindelo 2005)

  • 1. Introdução a Exemplo Coevo, Livro 9 in Exemplos Livros 1-9, ed. pequena tiragem, 2000.
  • 2. “Exemplo Coevo: uma forma de ver João Vário ou de como João Vário se vê”, Nôs Terra, 22/4/99.

por Marta Lança e António Tavares
Cara a cara | 30 Junho 2026 | Cabo Verde, Dá Fala, João Varela, João Vário, Mindelo