Baralho de Cartas 11
Marta,
Gostava de conhecer a Júlia, de lhe perguntar sobre as búfalas e pedir umas dicas para arranjar guito. Ouvir as suas aventuras, e saber como se escapou ao bafiento braço da lei. Ela, que nunca se assusta, toparia à distância o meu embaraço, o desequilíbrio corporal e o modo como as palavras se atropelam, como se embolam umas nas outras, deixando apenas ver uma grande inabilidade para a conversa. Na verdade, sempre me faltou confiança para abordar desconhecidos. No caso da Júlia, depois de tudo o que ouvi dela, ainda seria pior. Mas não é preciso ser uma aventureira destemida para me atrapalhar. Pareço suspenso por um frágil fio quando interpelo uma mulher. O desejo que se move na penumbra, as possibilidades de desencontro, tornam-me uma espécie de funâmbulo. Cada passo é dado contra a vontade de ter os pés no chão. Tenho pensado nesta fractura nas visitas às Laranjeiras.
Estamos cada um de um lado diverso da montanha. Tudo o que fazemos é imaginar o outro, desenhá-lo com os lápis que temos à mão. Enquanto isso, o mundo muda na vertente sul do mesmo monte. Pensar que o encontro é ver a escarpa que estava oculta, é abalroá-lo, atropelá-lo, com uma ilusão. Não há como escapar à face escarpada do monte que nos está destinado. Abrimos túneis com dinamite nas cordilheiras terrestres, furamos a pedra com gigantes berbequins, mas não há pólvora que nos permita atravessar esta serrania. A Agustina diz que são duas ideias incompatíveis, a de homem e a de mulher, que a incompatibilidade obedece a uma técnica de travagem. Há fronteiras que os nossos amados comboios não atravessam, e, apesar dos mitos de fusão, ainda bem que não o fazem. É esse penhasco que peia o fogo que galga o monte desenfreado. É um país que se esconde na outra vertente do desejo. Atiro-lhe pequenas anotações em papéis amarrotados.
P.S. Trocámos umas mensagens sobre os nossos anos selvagens, nessa altura abordaria a Júlia com mais facilidade, o Punk e as drogas confiavam-me mais ao acaso. O desejo de alcançar alguma coisa nova crescia, como escreveu Benjamin, permitiam-me ter subitamente penetrado, com a ajuda delas, o mundo mais oculto e geralmente mais inacessível das superfícies.
Untitled, Donald Locke,1993
ML Sou de 1976…
RN Nesse ano foi onde perdi a consciência. Drugs. Lots. Tive sorte, apesar de tudo
ML Escreveste sobre esses tempos?
RN Há dois anos atrás comecei a tentar dar-lhes forma, pareciam mergulhados num nevoeiro impenetrável. Escrevi um par de textos, vou enviar-te um.
ML Espero que não seja só na culpa.
RN Não, não, o que me interessava relembrar era a potência que continham.
ML Tenho saudades de drogaria suave.
RN A languidez do haxixe dava à violência da minha adolescência uma indiferença terna e assustada. Perto do almoço, o terreiro da escola parecia um lago com animais sonolentos a apanhar sol. As raparigas deixavam cair a cabeça no colo umas das outras em meias luas de cimento, pareciam dormir até o riso despontar num soluçar desgovernado. O calor espelhava-se no cascalho, amolecia o alcatrão, afiava o horizonte como um gume. Estava sempre desprevenido. O êxtase tinha uma cadência onírica, era lento e viscoso no contacto com o real. Havia nisto uma luxúria próxima da burguesia, as luzes que se arrastavam em corredores dourados, o torpor dos gestos, a empatia vaidosa pelos afiliados, e um desamor aos que fugiam da aventura. A errância, no entanto, era a sua nobreza. As coisas espelhavam-se, encadeavam-se num tear quebrado. O ondular de uma camisa tanto me levava à náusea como ao arroubo embevecido. As palavras eram um carro sem caminho por onde andar. A fantasmagoria fazia de mim um monge do contingente. As raparigas deitadas nas meias luas com o cabelo a arrojar no chão. Era um jardim quente alimentado por uma luz bamba e amarela. Andavam à minha volta como cavalos. Olhava-as por um vidro fosco. Tudo me espreitava sem que soubesse como.
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(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)