Baralho de Cartas 12
Ricardo,
Gostei tanto de ler os teus textos sobre os pensamentos perdidos das ganzas… quase senti saudades desses teus pensamentos desaparecidos, que nunca lerei. Será que há um perdidos e achados para os nados-mortos da consciência?
A novidade desta semana é sonora. Uma potente coluna que expande a música no horizonte, empurra o silêncio e abre espaço no ar. E uns auscultadores sem fios que permitem a quase total alienação dos meus contemporâneos em redor, conectando-me a átomos dos corpos e às nuances respiratórias daquilo que escuto. São mensagens antiquíssimas e muito sábias, mesmo se às vezes ingénuas. Por estes dias, é o ofício da escuta que me anima. Algumas opiniões e divagações dos podcasts, mas sobretudo muita música. Toda a música. Neste momento, só ela merece a minha atenção. Narradora de todos os tempos, a música induz os nossos passados emocionais e tanto traduz com precisão o que nos oprime, como potencia a subversão numa catarse inconsequente e necessária, libertando no cuspo a náusea e a violência históricas.
Na sua dupla fase, a música é a mais esclarecedora companhia.
O coelho branco apressado leva-me de canal em canal, de site em site, e quase me perco no hipertexto infinito de temas e álbuns, navegando por imagens e sons produzidos nas décadas revolucionárias. Os imaginários colectivos e imersivos de 1960 e 1970. Marchas ritmadas de jeunesse, em transe explosivo, aos pontapés, cabeças e ombros a abanar num rock supra-nacional. Antes do CD e dos bons amplificadores, das mil subcategorias e nichos musicais. Antes das redes sociais nos informarem o que devemos gostar. Havia uns cartazes coloridos e os amigos que se apaixonavam por uma nova descoberta. Antes de se usar lanternas de telemóvel nos concertos a substituir o romântico isqueiro. Em estado experimental e sob todas as formas, a liberdade ecoava com estridência, e viamos abrirem-se nos prédios asas de anjos com guitarra elétrica e capa de vinil. A felicidade seria, aliás, o simples acontecer da corrente elétrica que atravessava o mundo num impulso coletivo. O princípio do prazer sobreposto ao princípio da realidade porduzindo dissidências sexuais e existenciais, corpos oferecidos à celebração, batuques vibrantes. Como a beleza exponenciada pelo movimento! Guitarras e teclados sintetizados entrelaçam ritmos latinos e africanos em paisagens sonoras mitológicas. Jovens fecham-se em garagens a ensaiar com a banda expurgando revoltas sem rosto, ou em trocas de silêncio nada constrangedores.
O mercado de rebeldia mexia então com outros elementos, em nada semelhantes aos dos mercados de capitais.
Por cá soubemos desses anos, contados como coisas do tempo dos nossos pais. A revolução russa, a revolução chinesa, os movimentos de descolonização africanos, os guerrilheiros latinos. Muita luta em nome de ideias. Muitas mortes em nome de ideias. Parecia até haver antídotos eficazes e o entusiasmo não se justificava. É que é muio melhor morrer por ideias do que morrer às mãos dos loucos da história. Mundos desabando para o novo emergir. A efervescência social investida contra os autoritarismos e os preconceitos da educação familiar, escolar, administrativa. Contra o poder.
Alguns desses vapores fervorosos chegaram-me mediados por músicas, filmes e livros que contaram do Black Power, dos hippies, da Pop Arte, do Maio de 68 e suas reverberações, das imolações da Primavera de Praga, do Poor People’s March em Washington, das manifestações antiguerra em Berlim, Londres ou Tóquio, dos estudantes a insultar as ditaduras no Brasil, na Argentina, em França, em Portugal, do assassinato de Amílcar Cabral, do golpe de Pinochet e do suicídio de Allende. Dos empolgados discursos panafricanistas às novas relações mundiais. Dos países que ressurgiam das lutas de libertação. Das práticas coletivas de vida a questionar fascismos nacionais e domésticos. Contaram do fulgor do 25 de Abril, dos que vieram da província para a cidade, que trabalharam muito, estudavam à noite e chamavam boite às discotecas. Dos que conseguiram estudar, e da maioria que não teve esse direito, sobretudo as mulheres - nem estudar nem ganhar o seu próprio dinheiro. Dos que emigraram a salto, da libertação dos presos de Caxias, da reforma agrária, dos regressados do exílio com euforia, dos regressados de África com uma mão à frente outra atrás. Todas essas histórias do tempo dos nossos pais, contadas como se fosse tudo gente solidária, lutadora, do lado bom da história. Romantizamos as revoluções deles, formámo-nos nelas. Mas também há um certo paternalismo levemente ressabiado nesse conto de fadas. Que não iríamos aguentar as privações, privilegiados e afortunados que somos, utentes de uma liberdade concedida e não conquistada, que espezinhamos, da qual até nos entediamos, pós-utópicos a pensar nos pós-humanos e nas sabedorias ameríndias sem lutar por vida melhor aqui mesmo, no nosso corpo, na nossa casa, na nossa cidade e hemisfério de ação.
Não lamento como essa geração, o seu passado, os seus dilemas, possibilidades e escolhas nos endoutrinaram, induzindo-nos um modelo a comparar, eternamente fantasioso. Precisamos de saber, lembrar sempre, como custaram certas conquistas. Ninguém faz tábua rasa do tempo anterior que nos gerou, mas as questões geracionais assentam numa rocha de incompatibilidade, de atração e repulsa, de culpas e ressentimentos, tantas vezes estéreis, tantas vezes. Filhos e pais de uma substância tão mutante como os cenários que vemos desfilar nos comboios. Mas se apenas colocarmos o “nosso tempo” por oposição aos deles - ou a qualquer outro - resultam diagnósticos perecíveis. Quase perdemos o direito a renunciar a herança das lutas perdidas. Ou gritamos ou mergulhamos no mutismo que nos varre da história.
Por enquanto, fico a ouvir música de todos os tempos, até do porvir, com a corrente elétrica incorporada em mim, apesar destes auscultadores sem fios. Os ritmos nada suaves que escuto devolvem-me a fúria e obrigam-me a engolir pela goela a sopa de letras das canções de amor e escárnio.
Há pouco entrou um “bacano” aqui na tasca a pedir trocos e a dizer que teve três dias sem tomar metadona. Esta é a Lisboa da estação e eu espero que Lisboa volte a acender-se para ti. E para mim que ando atrás da minha sombra. Não desistas de contar o que te mói e adensa.
Composição VIII (1923), Vassíli Kandínski
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(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)