Baralho de Cartas 12

Ricardo, 

A novidade desta semana é a mediação do som. Tenho uma potente coluna que expande a música no horizonte, abrindo espaço no ar a empurrar o silêncio. E uns auscultadores sem fios. Permitem a quase total alienação da vidinha em redor, ao mesmo tempo que me conectam a átomos de corpos e a nuances das respirações daquilo que escuto, mensagens muito antigas e sábias. Por estes dias, entrego-me então ao ofício da escuta. Pessoas que opinam em podcasts, mas sobretudo muita música. Toda a música. Neste momento, só a música me merece atenção. Narradora de todos os tempos, a música tanto traduz com precisão o que nos oprime como potencia a subversão. Nessa dupla fase, conseguimos cuspir a náusea e a violência, numa catarse inconsequente e necessária.

É a mais esclarecedora companhia. 

Através da música, que induz os nossos passados emocionais, pesquiso lutas que movimentaram imaginários, colectivos, massivos, e perco-me num hipertexto infinito de temas e álbuns. Um coelho branco apressado leva-me de canal em canal, de site em site. Navego por imagens e sons produzidos na revolucionária década de 1960 - marchas ritmadas de jeunesse, em transe explosivo, aos pontapés, cabeças e ombros a abanar num rock supra-nacional. Antes do CD e dos bons amplificadores, das mil subcategorias e nichos musicais, antes de se usar lanternas de telemóvel nos concertos que substituíram o  isqueiro, tão romântico. Antes das redes sociais, quando os cartazes coloridos nos informavam do que devemos gostar. Em estado experimental e sob todas as formas, a liberdade ecoava com estridência, e viamos abrirem-se nos prédios asas de anjos com guitarra elétrica e capa de vinil. Jovens fechados em garagens, a ensaiar com a banda para expurgar a sua revolta, ou em trocas de silêncio que nada tinham de constrangedor. A histeria, a festa, e a felicidade com o simples acontecer da corrente elétrica, atravessavam o mundo como um impulso coletivo. O princípio do prazer sobrepunha-se ao da realidade, libertando e amplificando dissidências sexuais e existenciais. Corpos pintados e oferecidos à celebração, batuques vibrantes e a consciência cultural da beleza exponenciada pelo movimento. Os sons das guitarras elétricas e dos teclados entrelaçados com ritmos latinos e africanos, criando paisagens sonoras híbridas e pós-humanas.

O mercado de rebeldia mexia com números em nada semelhantes aos dos mercados de capitais.

Por cá soubemos desses anos contados como coisas dos tempos dos nossos pais. A revolução russa, a revolução chinesa, os movimentos de descolonização africanos, os guerrilheiros latinos – tantas e tantas mortes implicadas, mas em nome de ideias. Parecia até haver um antídoto eficaz que aniquila o veneno  capitalista e colonialista. A efervescência social investia contra os autoritarismos e os preconceitos da educação familiar, escolar, administrativa. Contra o poder. O entusiasmo não precisava até de se justificar. Esses vapores fervorosos chegaram-me mediados, por músicas, filmes e livros que contaram do Black Power, dos hippies, da Pop Arte, do Maio de 68 e suas reverberações, das imolações da Primavera de Praga, do Poor People’s March em Washington, das manifestações antiguerra em Berlim, Londres ou Tóquio, dos estudantes a insultar as ditaduras no Brasil, na Argentina, em França, em Portugal, do assassinato de Amílcar Cabral, do golpe de Pinochet e do suicídio de Allende. Dos países que renasciam depois de lutas pela independência e empolgados discursos panafricanistas, às novas relações mundiais. Contaram das práticas coletivas de vida a questionar fascismos nacionais e domésticos, do fulgor do 25 de Abril, dos que vieram da província para a cidade, que trabalharam muito, que estudavam à noite e chamavam boite às discotecas. Dos que conseguiram estudar, e da maioria que não pode estudar, sobretudo as mulheres, que nem estudar nem ganhar o seu próprio dinheiro podiam. Dos que emigraram a salto, da libertação dos presos de Caxias, da reforma agrária, dos regressados do exílio com entusiasmo, dos regressados de África com uma mão à frente outra atrás. Todas essas histórias do tempo dos nossos pais. Contaram como se obviamente fosse gente solidária, lutadora, do lado bom da história. Contaram tudo isso num certo paternalismo levemente ressabiado. Que não iríamos aguentar as privações, privilegiados e afortunados, utentes de uma liberdade concedida e não conquistada, que espezinhamos, da qual até nos entediamos, pós-utópicos a pensar nos pós-humanos e nas sabedorias ameríndias sem lutar por vida melhor aqui mesmo, no nosso corpo, na nossa casa, na nossa cidade e mundo. 

Não lamento como o passado dessa geração me endoutrinou, fazendo ter uma espécie de modelo com o qual comparar. Mas não quero ser herdeira de lutas perdidas. Aliás, as questões geracionais assentam numa rocha de incompatibilidade, de atração e repulsa, de culpas e de ressentimentos estéreis. Filhos e pais de uma substância mutante como o cenário nos comboios. Só podem resultar diagnósticos perecíveis sobre o «nosso tempo», se o colocarmos por oposição a outro, ou gritamos ou mergulhamos no mutismo que nos varre da história. Por enquanto, fico a ouvir música de todos os tempos, até do porvir, com a corrente elétrica incorporada em mim, apesar destes auscultadores sem fios. Os ritmos nada suaves que escuto devolvem-me a fúria e obrigam-me a engolir pela goela a sopa de letras das canções de amor e escárnio. 

Gostei tanto de ler os teus textos sobre os pensamentos perdidos das ganzas… quase senti saudades desses teus pensamentos desaparecidos, que nunca lerei. Será que há um perdidos e achados para as nados-mortos da consciência? Há pouco entrou um bacano aqui na tasca a pedir trocos e a dizer que teve três dias sem tomar metadona. Esta é a Lisboa da estação. 

Espero que Lisboa volte a acender-se para ti. E para mim que ando atrás da minha própria sombra. Não desistas de contar o que te mói e adensa.

Composição VIII (1923), Vassíli KandínskiComposição VIII (1923), Vassíli Kandínski

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(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

por Marta Lança
Mukanda | 15 Março 2026 | Baralho de Cartas