Porque demorámos tanto a escutar as Vozes da Afrodiáspora?

Propósitos e problemáticas do encontro «Vozes da Afrodiáspora» 

Comentário prévio: O conjunto deste texto introdutório e os artigos que se seguem de Aida Gomes, Kitty Furtado, Noemi Alfieri, Rui Cidra e Telma Tvon, tinham como destino de publicação um caderno que Diogo Ramada Curto (1959 - 2026) estava a preparar, com o entusiasmo, rigor e vivacidade característicos com que dirigiu a Biblioteca Nacional, enquadramento no qual me desafiou, enquanto coordenadora do BUALA, a pensar esta mesa-redonda. Perante a perda inesperada e tão trágica de um amigo e intelectual tão necessário, e sabendo como ele prezava o trabalho do BUALA, os textos vão sair por aqui, sem invalidar que outras publicações. Agradeço muito aos envolvidos. Agradeço em primeiro ao Diogo Ramada Curto, por nos trazer a a um lugar de concentração de saber, memória e história. É com particular apreço que o BUALA colabora com instituições culturais que procuram estar à altura das questões mais urgentes do nosso tempo, e não apenas da gestão protocolar da respetiva agenda.


A proposta deste encontro nasceu de um conjunto de questões previamente lançadas pela organizadora como um campo de escuta para a mesa-redonda Vozes da Afro-diáspora, realizada na Biblioteca Nacional, a 11 de novembro de 2024: que vozes emergem hoje da produção afro-diaspórica em Portugal? Em que condições históricas, institucionais e afetivas se produzem? Que tensões atravessam os discursos da representatividade, da pertença e da cidadania num país marcado por desigualdades estruturais que não podem desvincular-se da matriz colonial e linha de cor?

Mais do que procurar respostas fechadas, propôs-se o movimento de pensar a partir da música — enquanto prática profundamente enraizada na experiência diaspórica, da literatura, do cinema, e de outras formas de criação como modos de inscrição no presente e de reconfiguração da memória coletiva. Para além de expressão estética, são arquivos vivos, tecnologia de sobrevivência e linguagem política, capaz de articular o íntimo e o coletivo, o bairro e o mundo, a herança e a invenção.

É neste horizonte que se inscrevem as quatro colaborações convidadas, distintas nos seus campos e registos, mas convergentes na forma como interrogam a produção cultural afro-diaspórica enquanto prática crítica.

Telma Tvon traz a escrita enquanto gesto performativo e de sobrevivência. Entre o rap, o poema e o freestyle, a improvisação surge como método e como ética: escrever para existir, para deixar rasto, para contrariar o apagamento. A sua voz afirma a criação como prática de resistência quotidiana, onde a celebração e a luta coexistem, e onde o “nós” se constrói contra a solidão imposta por estruturas de exclusão persistentes.

A intervenção de Aida Gomes introduz um mal-estar fundamental: o da representatividade tardia e ambígua das pessoas negras na esfera cultural portuguesa. A partir da literatura e da reflexão ensaística, convoca a pós-colonialidade não como rótulo confortável, mas como campo de tensões ainda por resolver — onde o cânone, a memória histórica e a própria ideia de inclusão permanecem atravessados por silenciamentos estruturais. O seu texto lembra-nos que a emergência de vozes negras não é apenas uma conquista simbólica, mas também o sintoma de um atraso histórico que importa nomear.

Kitty Furtado, ao pensar o Cinema Negro em Portugal, desloca a discussão para o plano da imagem e da contra-esfera pública. O cinema surge como prática transnacional e descolonizante, capaz de produzir contravisualidades que desafiam narrativas hegemónicas sobre identidade nacional, raça e pertença. Entre o arquivo e a experimentação, entre o íntimo e o político, estes filmes constroem novas gramáticas do olhar e reclamam o direito à autorrepresentação — sem, contudo, aceitarem a clausura temática que muitas vezes acompanha a rotulagem identitária.

A contribuição de Rui Cidra regressa à música para a pensar como prática social situada, inscrita em geografias urbanas marcadas pela racialização e pela desigualdade. Ao mapear tanto as continuidades transnacionais das músicas trazidas pelas migrações africanas como as criações híbridas das gerações afrodescendentes nas periferias urbanas, mostra como o som, a língua e o corpo se tornam formas de cidadania não normativa. A música aparece aqui como espaço de pertença, mas também como instrumento de reivindicação do direito à cidade e ao reconhecimento.

Por fim, Noemi Alfieri propõe uma reflexão sobre a poesia de autoria afrodescendente e imigrante em Portugal, com particular atenção aos circuitos editoriais independentes. Partindo da literatura — e da poesia em especial — analisa as tensões entre representatividade, liberdade criativa e expectativas identitárias impostas pelo mercado editorial e pela academia. Destaca o papel da editoria independente e dos projetos coletivos como espaços de maior abertura, experimentação e construção de redes transnacionais de partilha, onde a escrita se afirma como gesto político, arquivo de experiências diaspóricas e prática de resistência. A sua abordagem sublinha ainda a centralidade da língua enquanto campo de disputa — entre variantes do português e línguas consideradas minoritárias — e a importância da oralidade, da performance e do ativismo linguístico na poesia contemporânea, sobretudo no trabalho de mulheres afrodescendentes, cujos percursos continuam marcados por desigualdades estruturais, mas também por fortes convergências na luta por justiça cultural e social.

Em conjunto, estas seis intervenções, contando com a minha, não oferecem um retrato homogéneo da afro-diáspora em Portugal. Pelo contrário, revelam-na como campo plural, atravessado por diferenças geracionais, estéticas e políticas. Mas é precisamente nessa pluralidade que reside a sua força: na capacidade de pensar o presente português a partir das margens, de interrogar os seus consensos e de imaginar outras formas de comunidade, memória e futuro comum.

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Este texto parte do universo das diásporas africanas para alargar a conversa às práticas artísticas e culturais enquanto lugares de produção de sentido, memória e disputa simbólica no espaço público português.

Vivemos hoje um momento paradoxal. Apesar de um ambiente político marcado pelo crescimento de discursos xenófobos e fantasias identitárias cada vez menos envergonhadas, até muito desavergonhadas, e apesar de persistirem contextos supostamente esclarecidos onde a ignorância continua a desfilar com segurança institucional e com assento parlamentar, é inegável que existe maior atenção pública às questões de representatividade (pelo menos a falta de representatividade será sinalizada). Podemos também notar  um interesse crescente pelos discursos e pela produção de autores e artistas racializados.

Se durante muito tempo nos faltaram traduções e era escassa a circulação do pensamento negro e afrodiaspórico, nos últimos anos assistimos à publicação, em Portugal, de autoras e autores fundamentais como Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Achille Mbembe, Felwine Saar, Audre Lorde, bell hooks, Angela Davis, Françoise Vergès, Gayatri Spivak, Toni Morrison, James Baldwin ou Ta-Nehisi Coates. As universidades abrem projetos e linhas de financiamento dedicadas ao colonialismo, ao pós-colonialismo e à decolonialidade. Multiplicam-se ciclos de cinema de memória, filmes africanos, colóquios e programações artísticas sobre a questão colonial. Os estudos decoloniais ganham força como novo cânone académico, o que por vezes significa que aquilo que durante décadas foi descartado como “militância” passou subitamente a adquirir legitimidade depois de devidamente embalado em linguagem universitária. Os arquivos coloniais vão sendo repensados por académicos e artistas. As artistas e investigadoras Mónica Miranda, Sónia Vaz Borges e Vânia Gala representaram Portugal na Bienal de Veneza em 2024, Raquel Lima foi a primeira intelectual portuguesa a receber o Prémio Emma Goldman, em 2026. O Teatro Griot continua forte pela mão de Zia Soares, numa produção regular de dramaturgias e elenco de pessoas racializadas. Talvez se possa dizer que os fenómenos de música e cruzamentos disciplinares mais criativos, e até da dança, vêm de pessoas afrodescendentes. No audiovisual é alarmante a necessidade de acesso aos meios de produção para se fazer cinema, séries com abordagens de dentro, exemplos positivos foram programa Pitch me, e a recente série “Novas narrativas da caça”. E E, consoante o nosso algoritmo, temos acesso a um sem fim de reels que nos explicam em 30 segunda várias vertentes das teorias feministas e anticoloniais, com exemplos concretos que dialogam com as nossas vidas.

Tudo isto pode dar a ilusão de que um debate vigoroso sobre decolonialidade, reparação e restituição está plenamente em curso nas esferas académicas e culturais, e até mediática, alinhado com uma ideia de democracia mais justa e socialmente inclusiva. E, de facto, há debates, conferências, ciclos e mesas-redondas suficientes para deixar qualquer consciência liberal momentaneamente tranquila.

Este interesse crescente resulta, em parte, da reflexão pós-colonial que Portugal tem sido pressionado a fazer - com as duras tensões e instrumentalização que conhecemos - mas resulta sobretudo do facto de que, para além das narrativas individuais de superação e protagonismo, os coletivos de afrodescendentes, artistas e associações se fizeram ouvir. O ativismo antirracista fortaleceu-se, a contestação tornou-se mais visível nas ruas e nas redes, e as desigualdades no acesso à habitação e à ascensão social passaram finalmente a merecer algum espaço mediático, ainda que muitas vezes tratadas como um assunto recente, ou só quando há “uma raiva descontrolada”, e não como problemas estruturais antigos. Há mais denúncia, global e local, as lutas têm-se globalizado, e menos submissão ao velho síndrome do “bom imigrante”, educado para obedecer, agradecer e calar. Uma grande diferença geracional e da natureza das lutas é o aparecimento do Movimento Vida Justa que tem sido um laboratório dos conflitos sociais e de uma ação política partidária e das ruas. 

A verdade é que comemorámos cinquenta anos de democracia e do fim do colonialismo enquanto regime político e, no entanto, como em muitas outras sociedades pós-coloniais, continuamos a viver relações sociais, habitacionais e económicas profundamente desiguais, atravessadas pela linha racial. A luta, tão antiga quanto urgente, pela construção de um espaço público verdadeiramente representativo do tecido sociocultural português, e pelo combate ao persistente lastro do modo colonial de existir, continua largamente por fazer. A lógica do “menos mal” - essa confortável ideia de que já foram dados alguns passos no campo da representatividade e portanto talvez não seja elegante insistir demasiado no assunto - não pode servir de anestesia moral. O setor cultural, uma área privilegiada para trabalhar a sensibilidade, a imaginação e o pensamento crítico, continua a carecer de inclusão efetiva de pessoas racializadas nos lugares de decisão: nas direções, nos conselhos curatoriais (ainda há pouco havia dois programadores negros no TBA - Melissa Rodrigues e Jaw Temble - que não foram reconduzidos), nos museus, nas editoras, nos circuitos de programação, nos meios de comunicação social, nas escolas artísticas. O acesso ao ato contínuo de escrever, publicar, expor, filmar, falar em conferências e ocupar o espaço público em igualdade de condições, não será resolvido por uma fé ingénua na meritocracia, sobretudo num país onde o mérito costuma beneficiar de boas relações sociais, apelidos sonantes e heranças invisíveis.

As “práticas decoloniais” continuam, muitas vezes, confinadas a circuitos minoritários e não estão isentas de vícios. Com frequência, os programas e debates das instituições ficam presos a uma lógica multicultural superficial, à exotização das alteridades ou a uma abordagem autocentrada do passado colonial português, como se o principal drama do colonialismo tivesse sido o desconforto retrospectivo da antiga metrópole. Mesmo a música - área onde pessoas negras sempre tiveram maior visibilidade - permanece limitada por um horizonte estreito de expectativas e categorias previsíveis de legitimação.

Se os discursos, teorias e práticas continuam, em muitos casos, sem correspondência real com a cidadania e os direitos, num sentido alargado, continuamos a ter de pensar seriamente sobre o racismo estrutural, ainda refém da persistente ficção de um país naturalmente tolerante e incapaz de reconhecer plenamente os seus traumas e preconceitos. Basta ligar os tempos entre ontem e hoje para reconhecer continuidades evidentes nas lógicas de segregação e na desigual distribuição da qualidade de vida. O direito à cidade oferece um exemplo particularmente claro: a geografia urbana revela como populações racializadas foram empurradas para periferias empobrecidas, desprovidas de infraestruturas e vulneráveis até na sua segurança física, realidade que só costuma gerar indignação nacional quando produz imagens impossíveis de ignorar nos telejornais.

Acredito que a produção artística tem conseguido, sem abdicar da sua liberdade criativa, tornar visíveis algumas destas feridas e aproximar o debate cultural das experiências concretas das pessoas diretamente afetadas pela colonialidade e racismo. Parece-me fundamental que criação e crítica caminhem juntas, permitindo o surgimento de novas estéticas capazes de acolher realidades complexas, identidades compósitas e fluidas. 

Precisamos de pensar a fundo de que modo a existência de um racismo estrutural afecta o sector da arte e estarão realmente ao nosso alcance as ferramentas necessárias para o combater, para além da retórica institucional e dos compromissos ocasionais com a diversidade. Reflexões que a UNA (União Negra das Artes) tem estado a fazer e a promover.  

No plano social, é igualmente indispensável uma responsabilidade política efetiva na criação de políticas públicas de fomento à cultura e às artes que combatam a exclusão e a segregação, com efeitos estruturais na vida das populações racializadas, e não apenas programas simbólicos suficientemente fotogénicos para relatórios institucionais.

Neste debate, propusemos conhecer melhor alguns eixos da produção afrodiaspórica nas áreas da literatura, do cinema e da música, com especial atenção às perspetivas das mulheres. Perante a falta de inscrição histórica, é muitas vezes necessário trabalhar sobre as ausências. Enquanto postura de investigação, a formulação interrogativa - que assume as lacunas nem sempre preenchíveis - permite-nos continuar a perguntar: O que disseram? O que fizeram? O que ainda não sabemos? E talvez também a pergunta central: porque demorámos tanto tempo a escutar?

Na inscrição de vozes negras, que identidades se vêm reconfigurando e que convenções e cânones vão sendo agitados? O que contam essas narrativas da afro-diáspora sobre momentos cruzados da história portuguesa, angolana e cabo-verdiana? O que pensam da exclusão e da ocupação da cidade essas mesmas vozes? A que contextos de migração acedemos nas diversas linguagens e gerações? Quais as dificuldades, mas também a potência, das mulheres negras no meio artístico português?

por Marta Lança
A ler | 25 Maio 2026 | Aida Gomes, Kitty Furtado, Marta Lança, Noemi Alfieri, Rui Cidra e Telma Tvon, Vozes da afrodiáspora em Lisboa