Baralho de Cartas 40
Ricardo,
Escrevo-te numa carruagem escaldante do Intercidades, no centro do Algarve, com 30 minutos de atraso e o ar condicionado avariado. Faro está do lado de fora da janela, e eu corri o Barlavento e o Sotavento em menos de uma semana. Dá para sentir a forma s base de um país, aqui mesmo a cutucar Marrocos. (Espera, vou mudar de carruagem, não se aguenta o calor). O Algarve é o faroeste do esquema, dos que tentam orientar-se, do sem recibo, do que se foda o Estado afinal «os políticos são todos iguais» e viva a Chegolândia. Os foras da lei são todas as escalas na terra das transações e da extração de recursos, naturais e humanos. Os turistas são o ativo principal e os súbditos, os que trabalham com turismo, encontram-se agora no pico da sua exaustão, a servir os amos. No resto do ano, parar nos cafés a contar trocos em conversas desgarradas de medronho. Quem visita a região nas férias sente a euforia das praias calientes, e até atura longas filas pelos prazeres do peixe e marisco.
“Hoteles de lujo en los que la clientela era rubia, de ojos azules y del norte de Europa, y el servicio moreno, de ojos oscuros y del Sur Global”, escreve um cronista num artigo que lembra como o Algarve está inscrito numa lógica colonial e extrativista. Sim, está tudo tomado, mas, neste extra-reino, também há resistências e vidas não capturadas pelo país-razão, o que tem alguma piada.
Então, as minhas andanças. Primeiro fui à Praia da Luz, em Lagos, celebrar os nove anos da minha filha. A família do pai acolheu-me muito bem, e ela por lá ficou a banhos, construindo as grandes memórias da praia. Depois segui para a outra ponta do Algarve, com duas amigas e um amigo, e vimo-nos literalmente enlameados na Ria Formosa entre cheiro a salubre e enxofre das águas paradas. Em filmagens experimentadoras. De manhã cedo, os flamingos duplicam com o espelho na água. Voam em movimentos vigorosos, com longas batidas das asas, belíssimos. Também me fascinou ver os caranguejos agitados a entrar e sair das tocas.
Deu-me gosto ler e publicar o teu texto sobre o desejo. A certa altura reparei que, numa janela, tinha o texto aberto e, noutra, a seguinte notícia do jornal: «Estudante que decapitou homem tinha conhecido vítima numa aplicação». Creepy. A poética vertiginosa de montes, escarpas e abismos do desejo. Quero acreditar que não estamos todos excluídos do contacto com «a ravina criativa do desejo», da potência transformadora e capturados por os dispositivos que tentam domesticá-lo. Há no texto uma honestidade radical que admiro em ti: o outro como enigma, não só aquela pessoa específica, mas o que a circunda.
Tirei notas pessoais, a partir do teu texto, como instruções a interiorizar:
Não repetir a lógica do olhar que aprisiona, da dominação própria aos mecanismos de desejo. Fugir da maquinaria do desejo e da sua captura pela norma. Não cair na impossibilidade de existir e de desejar. Desertar da batalha final para tentar ser construção com o que sobra do colapso (e do sublime): as formas bastardas do encontro, o desejo que se ensaia nos tropeços, nas falhas, nas mediações. Expor esse impasse.
Hoje folheei um livro de poemas eróticos do Brecht que vinha acompanhado de umas gravuras do Picasso - linhas rápidas, nervosas, que sugerem mais do que descrevem. Gosto do seu exagero nas formas sexuais, enfatizando os genitais e os gestos. É uma força vital quase infantil. Já o Brecht, mas só neste livro, parece um conselheiro sentimental de Hábitos de Amar, ora toma: Não é exacto que o prazer só perdura. Muita vez vivido, cresce ainda mais. Repetir as mil versões prévias, iguais. É aquilo que a nossa atracção segura.
Falas da mulher como uma vertigem, um país desconhecido. Pergunto-te, o que fica quando se conhece um pouco mais, o que é viver, acompanhar alguém por uma vida? Como manter o desejo, sem o colocar no jogo do mostrar e esconder, ou no jogo da privação? Como alimentar o conhecimento pelo outro, sem o esgotar?
Ria Formosa
Entretanto, também passei uns dias com a minha filha em Vizela. Com 33 nascentes e águas hipertermais, «fracamente mineralizadas, sulfúreas, sódicas e fluoretadas”, praticámos a rotina das termas, um aconchego relaxante. Também mereço. Caminhámos nos passadiços entre vinhas, campos de milho e um ribeiro fresco. Ela ia fazendo vídeos como se fosse uma influencer, ambição de todos os membros desta geração tenrinha (e um grande não só). Rimo-nos de um homem que insistentemente ralhava ao cão, dando-lhe ordens, sentindo-se poderoso como humanoide. Os jardins do norte são uma lindeza, muito bem cuidados, vê-se que há mais dinheiro e “ordem”. O líder autarca de Vizela é acusado de violência doméstica, mas ninguém quer saber, «não interessa o que se passa na sua casa», dizem os munícipes. Sobre violência doméstica prefere-se sempre uma versão estatística, sem rosto.
Gostei deste dias de mãe e filha. Os filhos adiam-nos, desorganizam-nos os planos, boicotam-nos, são a desculpa para não fazermos o que achávamos que devíamos fazer… mas depois tudo é nada ao pé de uma gargalhada e abraço cúmplice, da ternura que vai crescendo sempre. Saturam-me as narrativas do eu, as questões de origens e de família, mas sei que nesta relação maternal se define muito do que a Clara é, vai ser, e do que vai saber recusar. Assusta, claro, mas também me dá vontade e a certeza de que só existimos em relação.
Acompanhar o crescimento de alguém que amamos é forte, uma parte faz-se desse desejo de pertença.
Com demência na família e falta de sono crónica, é certo que vamos ficar maluquinhos na velhice, não é? Quero aproveitar os anos de sobriedade que me restam, sobretudo neste tempo em que a lucidez é fortaleza. Os tempos sem saber se vamos mesmo morrer já já ou mais para a frente. Desatar os fios que sustentam as marionetas, pode significar encurtar a distância entre ti e o que dizes…
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(Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)