Baralho de Cartas 30

Ricardo:

A comida estraga-se lentamente no frigorífico. O motor parou. Dirijo-me a uma “grande superfície” (mas que bela expressão!) para comprar outro frigorífico, desta vez em inox, categoria energética C, porque entretanto subi um centímetro na vida. Soletro o número de contribuinte ao vendedor como quem vai rezando um Pai-Nosso, isto é, sem pensar e com alguma fé institucional. O que quer dizer um número fiscal? Para um imigrante uma bênção. Para o Estado, sou contribuinte, eleitora e número de estatística. Nos Censos serei mulher, lisboeta, de meia-idade, de rendimento médio. Nos papéis sociais, mãe, filha, irmã, namorada, amiga. Já fui aluna e professora. Profissionalmente, é complexo, CAE de prestação de serviços. Para um historiador do Observador, uma perigosa wookista. À escala humana assumo a irrelevância, embora contribua para o desgaste do planeta - estimado em 100 quilos de plástico por ano - e pessoal, a tarefa da “manutenção de si” sorve demasiado dinheiro e recursos, e dá imenso trabalho

Andamos desorbitados, Ricardo, na impotência atroz perante massacres e alta tensão mundial, tolhidos num ressentimento geral que tudo murcha à nossa volta. Neste estado vigilante sob os vários fogos cruzados, a cultura da agressão e a política do medo entranharam-se como se fosse expectável e as convicções alinham-se numa teima de princípios e contabilidade. A paz social passou a ser sinónimo de consumo generalizado; até o amor se discute enquanto «dar e receber», dívidas e cobranças, economia de casal. As relações transformam-se em cálculos e exigem retorno. A amizade uma conta de favores, o descanso uma ferramenta para produzir mais. A educação é um investimento, a cultura um indicador de impactos e a identidade uma marca a gerir. O corpo anda em processo de otimização. Temos de justificar as nossas utilidades. As condições mínimas para viver (materiais e emocionais) voltam a ser atacadas e os migrantes, os pretos, as gajas e as pessoas trans são atirados para o caldeirão do ódio. Cobaias para a força bruta. Mas já ninguém volta para o armário, temos pena!

As cidades asfixiantes e as florestas mercantilizadas são as nossas paisagens sem enigma. Agarro-me aos afetos tentando desatá-los das lógicas mercantis. Hei de furar o balão ácido do tempo com a mais digna raiva que conseguir. Libertar o “coração demissionário” do “tempo demasiado embotado” — expressões do teu Cioran — para tornar obsoletas todas as metáforas e o exercício de pôr um pé à frente do outro. Desordenar o sujeito-verbo e predicado. Riscar o percurso histórico: primitivo - agricultura - cidade - Estado - desigualdade. Faremos nascer um pulmão coletivo, frágil, arfante; vivo o suficiente para nos aguentarmos.

Mais vale ser um cão raivoso do que um carneiro, / a dizer que sim ao pastor, o dia inteiro, / e a dar-lhe de lã e da carne e da vida e do traseiro. 

[Cantar Sérgio Godinho é uma das minhas liturgias. Gosto tanto de fazer maratonas com as suas letras que se enrolam na língua e só encaixam naquelas canções!] 

Otobong Nkanga. Tied to the Other Side, 2021Otobong Nkanga. Tied to the Other Side, 2021

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por Marta Lança
A ler | 19 Julho 2026 | Baralho de Cartas