A arte de manejar a verdade como uma arma. Brecht, o sabotador. PARTE 1

A arte de manejar a verdade como uma arma. Brecht, o sabotador. PARTE 1 Passados quase cem anos, e num momento em que, um pouco por todo o lado, reaparece o perigo do fascismo, valerá a pena trazermos à nossa atenção o pressuposto brechtiano de que o fascismo não é uma anormalidade ou um desvio, mas emerge como consequência lógica do desenvolvimento do capitalismo que, em contexto de acirramento das suas crises, esbarra na dinâmica pactuada própria das democracias liberais.

14.08.2026 | por Fernando Ramalho

Havana, Cuba, num dia qualquer de julho de 2026

Havana, Cuba, num dia qualquer de julho de 2026  A pátria é o lar, a família e muito mais que isso. Pátria para os cubanos significa terra, significa história, significa o sangue de milhares de pessoas que entregaram tudo para a construir, há mais de dois séculos. Somos filhos de uma pequena ilha situada a apenas 150 quilómetros da maior potência mundial. Como povo, sempre nos foi difícil darmo-nos bem com os governos dessa potência. E tudo piorou a partir de 1959, quando este povo decidiu seguir o seu próprio caminho, afastando-se das «maravilhas» do capitalismo. Neste julho escaldante, Cuba parece colapsar. As sanções do poderoso vizinho estendem-se a todos aqueles que queiram fazer negócios com a ilha ou investir nela. Centenas de bancos foram penalizados por realizarem transações com empresas cubanas.

13.08.2026 | por Carlos Padrón Montoya

Baralho de Cartas 33

Baralho de Cartas 33 Pensei em escrever um livro, tosco, rude, como um tecido gordo de roupas usadas e lã grossa acabada de cortar. Um tapete de trapos, rústico, pequeno, pesado, bom para ter na rua, debaixo dos pés. À noite apareciam-me coisas escabrosas que me faziam corar, cresciam com as sombras em redor do candeeiro, ficava deslumbrado com as paixões desatinadas e os crimes por realizar. Conhecia mal a minha loucura. Antes de ter as mãos sebosas do ofício já me divertia com os truques e as manhas que viria a usar, como desdobraria as fraquezas, as faltas, as traições.

12.08.2026 | por Ricardo Norte

Baralho de Cartas 31

Baralho de Cartas 31 Nasci e cresci numa sociedade dissolvida e pacificada, sem a força dos que passaram por conflitos colectivos, o meu corpo não tem o saber dos que os viveram. Tenho, no entanto, de encontrar a escala que me leve às questões de conjunto, que me arranque aos problemas individuais. É essa leitura — demorada, atenta, radical — que se impõe como tarefa. O mundo em que vivemos não nos pertence; é uma ficção que nos foi imposta, uma construção que nos castra, empobrece e diminui. Romper com essa ficção exige não apenas o desejo de outro mundo, mas a aposta concreta na sua criação. Trata-se de inventar tempo, um tempo que não se deixe medir ou controlar — um tempo que fuja aos mecanismos de captura da norma e do capital.

28.07.2026 | por Ricardo Norte

Baralho de Cartas 30

Baralho de Cartas 30 Não posso fugir das cidades asfixiantes, nem das florestas mercantilizadas, tampouco mudar de vida neste estado vigilante sob os vários fogos cruzados. Agarro-me aos afetos numa absoluta carência, tentando desatá-los das lógicas mercantis. Hei-de furar o balão ácido do tempo com a mais digna raiva que conseguir. Libertar o “coração demissionário” do “tempo demasiado embotado” - expressões do teu Cioran -para tornar obsoletas todas as metáforas e o exercício de pôr um pé à frente do outro. Desordenar o sujeito-verbo e predicado. Seria mesmo importante que conseguíssemos imaginar fora da inevitabilidade do percurso histórico: primitivo - agricultura - cidade - Estado - desigualdade.

19.07.2026 | por Marta Lança

Marta e as investigações práticas sobre a alegria

Marta e as investigações práticas sobre a alegria Há uma mesa de cabeceira – que não nos contas como é – que te vai acompanhando nas mudanças de casa, o fio condutor deste livro. Porém, as tuas casas parecem casas sem quartos. Não porque as pessoas que as habitam não se recolham à intimidade, mas porque esse lado fica atrás da porta, embora descrevas um ou outro. As casas separam as ruas dos lugares de intimidade (lembrando Ruy Belo), separando dentro e fora. O interior e exterior das tuas casas não é o que esperamos: a porta da rua é a porta do quarto, e dela pouco se passa.

18.07.2026 | por Margarida Ferra

Baralho de Cartas 29

Baralho de Cartas 29 A cidade recusa-se à compreensão, por vezes espectral como um pântano enevoado, outras de uma solidez que fere e me deixa do outro lado dos muros. Tenho a impressão de nunca ter abandonado esta povoação, de me ter misturado com as suas vielas, com as construções aberrantes dos anos oitenta. Na verdade, as viagens que fiz ganharam feições imaginárias, ao ponto de não saber se as realizei. Nunca saí desta cidade, apenas me afastei momentaneamente. Faço parte dos homens sem mundo. Viver sempre no mesmo lugar enfraquece esta percepção, o hábito matiza-me com as cores que estão à minha volta.

16.07.2026 | por Ricardo Norte

Património Imortal

Património Imortal As imagens a preto e branco descreviam o processo de conceção, montagem e abertura pública deste museu etnográfico no período pós-independência. As suas primeiras atividades. Albano conhecia as pessoas nas imagens, sabia ainda descrever a funcionalidade de objetos, muitos dos quais hoje desaparecidos, e localizar, no tempo e no espaço, registos de exposições itinerantes. As memórias de Albano davam cor e movimento às imagens, trazendo-as à vida. Demoramos dias, mas, a partir da sua memória, localizamos e descrevemos pessoas, lugares, momentos e objetos etnográficos encontrados naquelas fotografias que, mais tarde, nos permitiram montar uma exposição que reabriu o museu à cidade, em 2017, e ao país, e publicar um livro que, como catálogo, viajou e divulgou o património da Guiné-Bissau além-fronteiras, em 2018.

10.07.2026 | por Ana Temudo

MARÇO

MARÇO Em contraposição a esse posicionamento, considerado oportunista e desviacionista de direita, tanto Rosa Luxemburgo como Leon Trotsky defendiam que, desde que estivessem reunidas objectivas e subjectivas as condições para o efeito, se devia realizar de imediato e por via de uma insurreição armada do proletariado das grandes cidades a revolução socialista na Rússia, a qual se encarregaria de nela absorver as tarefas não concretizadas ou adiadas de natureza democrático-burguesa como a liquidação dos grandes latifúndios, todavia conectando-as com tarefas típicas de uma revolução socialista como a nacionalização e a socialização dos meios de produção nas cidades e nos campos.

08.07.2026 | por José Luís Hopffer Almada

Baralho de Cartas 28

Baralho de Cartas 28 Creio que estou a ter um início de burnout. Coincidiu com o aviso da Google: devia libertar espaço ou comprar armazenamento, sob pena de deixar de receber emails a partir de 26 de junho. Projetei, com toda a verdade, o meu cérebro a crashar juntamente com a memória externa - nem saberia distinguir memória externa de interna. A minha cloud precisava de fazer upgrade para continuar. Ok, resigno-me à dependência dos donos do capital para funcionarmos.

07.07.2026 | por Marta Lança

Notas de reconciliação Algumas reflexões sobre o hino, a bandeira e a língua kabuverdianu

Notas de reconciliação Algumas reflexões sobre o hino, a bandeira e a língua kabuverdianu Com a participação de Kabuverdi, vi-me depressa envolvido num mar azul de emoções que em vão tentei suprimir. Subestimei a capacidade que este tipo de eventos tem para nos mobilizar e encantar. O entusiasmo, porém, não era propriamente pelo futebol em si, mas pela mensagem contagiante de união e convicção transmitida por aqueles jogadores que, na sua maioria, nasceram na diáspora e que, sob a liderança de Bubista, tão bem nos representaram. Mas também, e sobretudo, pela capacidade da nossa gente em fazer povo e formar um só corpo em torno de um objetivo comum: vencer coletivamente.

06.07.2026 | por Apolo de Carvalho

A aliança do sul global

A aliança do sul global E foi assim que o Brasil viralizou a garota congolesa que rebateu uma postagem infeliz de uma miúda que considerava uma vergonha a seleção de Portugal empatar com a da República Democrática do Congo, traduzindo (mesmo que involuntariamente) para o futebol a soberba da extrema-direita portuguesa que incorpora o discurso fascista para se autovalidar. Se os livros de história nos ensinaram que descendemos dos portugueses, agora a troca de informação global faz nosso sangue banto falar mais alto – o mesmo que nomeou o nosso futebol mu'leke e nos ensinou a, em comemoração, sambar. O preconceito e o ódio uniram o que a colonização separou.

03.07.2026 | por Gabriella Florenzano

Estamos em guerra mas não basta sobreviver

Estamos em guerra mas não basta sobreviver 'Quebrar em Caso de Emergência Climática' não é mais um ensaio sobre alterações climáticas, filia-se no manifesto político interligando ecologia, capitalismo, colonialismo e democracia. Afirma abertamente que o colapso ambiental (e social) não é um acidente, mas resultado de escolhas económicas e relações de poder. O Climáximo é um das movimentos recentes mais interessantes em Portugal, pela sua capacidade de transformar conhecimento científico em imaginação política e convocação para a ação coletiva.

03.07.2026 | por Marta Lança

Portugal Refractário

Portugal Refractário Portugal, como tal, não existe. Toda a nação é uma noção, não mais do que isso, uma construção cultural sedimentada pelo tempo, que ocorre apenas à força de acreditarmos nela. A terra, essa, persiste e resiste, em larga medida indiferente às transformações humanas, ainda que muito afectada por elas — e, agora, dizem, a um ponto que muitos garantem ser irreversível, talvez até extintivo para a espécie humana. Não são portuguesas as andorinhas ou as gaivotas e as águias-pesqueiras, nem as nuvens e as tempestades, os equinócios, as estações do ano, e a terra e o mar só são nossos porque assim se convencionou que o fossem, o que depende de nós, sem dúvida, mas também ou sobretudo dos outros, que aceitam e reconhecem a lusa «soberania» sobre este pedaço de mundo.

25.06.2026 | por António Araújo

Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 1

Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 1 Passadas as celebrações dos cinquenta anos de independência e conquistado esse lugar de respeito internacional, as interrogações internas são muitas. O que fazer com o sucesso democrático? A estabilidade é muito boa, mas não basta. A quem chega o crescimento e a prosperidade? Se há salários de trabalhadores hoteleiros que equivalem ao preço de uma noite nesse mesmo hotel, a quem beneficia afinal o turismo, a única indústria nas ilhas? Existe um pensamento estratégico sobre cultura ou esta tem sido tratada como mero ornamento? A língua materna continuará a ser tolerada como «língua dos afetos», institucionalmente secundarizada? Há condições para a juventude ficar nas ilhas ou segue no vapor di imigrason? A diáspora é apenas fonte de remessas e fábrica de saudades, ou será chamada a participar realmente na reinvenção do país?

22.06.2026 | por Marta Lança

Vozes e sons afro diaspóricos: práticas estéticas e identidades no espaço urbano

Vozes e sons afro diaspóricos: práticas estéticas e identidades no espaço urbano O que parece interessante do ponto de vista histórico, sociológico, antropológico, é que estas movimentações culturais e artísticas dão conta da emergência de práticas culturais híbridas em território português. Trata-se de uma hibridez que traduz uma encruzilhada diaspórica concreta, um ambiente de circulação face ao qual estes sujeitos se posicionam— dado o tipo de seleções que fazem e o trabalho de reorganização e recombinação que desenvolvem—, num processo que envolve a história de relação entre Portugal e as diversas nações africanas que no passado foram seus territórios políticos, nomeadamente as práticas culturais que emergiram dessa história. Isto deverá comunicar com o tipo de narrativas diaspóricas em que estas práticas se engajam.

12.06.2026 | por Rui Cidra

Na boca da unidade

 Na boca da unidade Fazer uma história da unidade africana a partir da língua, do músculo, deste órgão que sente e experimenta, é reconhecer o potencial do corpo na sua totalidade: da planta dos pés aos intestinos, passando pelo pulmão até à boca, onde se mastigam matérias orgânicas e gramaticais. Pensar a comida, os alimentos e a gastronomia no processo de unificação do continente é permitir também a nossa humanização, a fertilização da nossa capacidade criativa e inventiva e uma fraternidade mais genuína, porquanto a comida é uma escola de sinceridade.

26.05.2026 | por Apolo de Carvalho

A Poesia de autoria afrodescendente e imigrante em Portugal nos circuitos independentes

A Poesia de autoria afrodescendente e imigrante em Portugal nos circuitos independentes Nessa dimensão de inevitável, de necessidade e de processo que acontece, enraíza-se a poesia. Ela traz as memórias de lugares, formas de falar, de mover-se no espaço, formas de afetos e de resistências talvez originariamente não “de aqui”, mas que passam a sê-lo no momento em que esses corpos inscrevem-se no espaço, no território. No Portugal contemporâneo, será a poesia mais um espaço não só para pensarmos critica e politicamente, mas também para sermos e estarmos, para além das fraturas segregantes que as sociedades contemporâneas, de forma cada vez mais violenta, nós querem impor?

25.05.2026 | por Noemi Alfieri

Porque demorámos tanto a escutar as Vozes da Afrodiáspora?

Porque demorámos tanto a escutar as Vozes da Afrodiáspora? Na inscrição de vozes negras, que identidades se vêm reconfigurando e que convenções e cânones vão sendo agitados? O que contam essas narrativas da afro-diáspora sobre momentos cruzados da história portuguesa, angolana e cabo-verdiana? O que pensam da exclusão e da ocupação da cidade essas mesmas vozes? A que contextos de migração acedemos nas diversas linguagens e gerações? Quais as dificuldades, mas também a potência, das mulheres negras no meio artístico português?

25.05.2026 | por Marta Lança

Conceição Lima, um despojar de limites

Conceição Lima, um despojar de limites Há mortes que parecem suspender o tempo, como se o silêncio se tornasse mais denso e o mundo, de súbito, menos habitável. A sensação que temos é de que estamos todos enlutados. A morte é sempre uma surpresa trágica. A partida de uma poeta grandiosa da estirpe de Maria Conceição de Deus Lima é um mistério inconcluso na finita infinitude da condição humana. Perder uma poeta é perder também uma forma singular de (re)inventar a linguagem, pois sua poesia é convite à palavra cerzida no universo de uma literatura que reivindica na eleição das metáforas o experimento com o verbo insular.

22.05.2026 | por Tânia Lima e Elizabeth Olegário