A narrativa sobre o futuro da tecnologia global atravessa um momento de inflexão acelerada. No cerne da questão encontra-se a Inteligência Artificial e, em particular, os modelos generativos, apresentados pelo discurso corporativo dominante como a panaceia para a eficiência produtiva, o crescimento económico e a resolução de dilemas sociais complexos. Quando transposta para o continente africano, esta promessa ganha contornos de urgência e oportunidade, assente na ideia de um salto tecnológico direto que permitiria ao continente ultrapassar etapas históricas de industrialização, à semelhança do que se verificou com a rápida adoção da banca móvel e das redes de comunicações sem fios nas últimas duas décadas.
24.09.2026 | por Pedro Oliveira
Nos 70 anos da fundação do PAIGC, José Luís Hopffer C. Almada revisita a luta pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde e o legado de Amílcar Cabral. Defende que a criação do PAICV, em 1981, pôs fim ao carácter binacional do partido e questiona a permanência de Cabo Verde no nome e na sigla do atual PAIGC guineense. O texto recorda ainda o papel decisivo da luta conduzida na Guiné-Bissau nos processos de descolonização e termina com uma declaração de solidariedade aos dirigentes do partido.
23.09.2026 | por José Luís Hopffer Almada
"Archivos negros" não é apenas um exercício de recuperação do passado. É uma intervenção sobre o presente e sobre as instituições que decidem o que merece ser guardado, nomeado e transmitido. Ao reunir trajetórias interrompidas, Tania Safura Adam não preenche simplesmente as lacunas de um arquivo nacional: questiona a própria ideia de nação que produziu essas lacunas.
17.09.2026 | por vários
Os cadáveres empestam e desarmam a esquerda anticapitalista. Não raras vezes são as mesmas vozes da indignação moral anti-fascista. Chamo moral porque, na sua prática, convivem sem problema aparente com uma sociedade profundamente desigual, sem que a questionem para lá da crítica superficial. E como um balão enchido esporádica e rotineiramente que rebenta até ao próximo frémito, como se não tivéssemos estado antes no mesmo sítio, como se o lugar da indignação não tivesse já passado, esvaziando o balão a cada abaixo assinado ou artigo no jornal e remetendo todos ao suspiro com abraços de sentimento do dever cumprido.
05.09.2026 | por Josina Almeida
O arquivo sabe muito sobre o corpo de Tereza e quase nada sobre Tereza. Mediu-a, classificou-a, mudou-lhe o nome, registou a sua passagem por Lisboa e voltou a encontrá-la dez anos depois em Angola. Mas não nos deixou sequer a possibilidade de reconhecer o seu rosto. Tereza chamava-se Txilungu. E é precisamente nesse intervalo entre tudo aquilo que o arquivo colonial registou e aquilo que tornou invisível que começa este livro.
02.09.2026 | por Inês Vieira Gomes
Tal como ontem precisámos de apoio e solidariedade internacionais para as nossas independências em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e noutros cantos de África, a luta saharaui convoca-nos hoje a agir em solidariedade. Pois, sem o refúgio em Conacri, sem as armas da China e da URSS, sem os apoios técnicos e logísticos de Cuba ou da Suécia, ou os apoios da Argélia e do próprio Marrocos, mas também sem as mobilizações de solidariedade popular em diferentes geografias, as lutas dos nossos povos não teriam tido a consequência que tiveram na liquidação do colonialismo português em África.
19.08.2026 | por Sumaila Jaló
À semelhança das edições anteriores, a III Marxa Cabral é o culminar de um processo coletivo de mobilização política desenvolvido ao longo de vários meses. A preparação incluiu a Futebolada Cabral, em homenagem aos valorosos Tubarões Azuis; oficinas de construção coletiva de cartazes; a pintura de um mural promovida pela Associação Juvenil Esperança da Quinta da Princesa; uma roda de conversa; sessões de capoeira e batuku. A 16.ª Konferénsia Panafrikanu di Lisboa, integrada na Marxa, acolheu ainda, pela primeira vez, uma Aula Magna, proferida pelo sociólogo, educador e panafricanista Alexssandro Robalo, com o tema “
19.08.2026 | por vários
O Festival Tradidanças é, por si só, um motivo pelo qual vale a pena ir até à zona de Carvalhais, em São Pedro do Sul. Mas há muito mais para descobrir nesta região e, este ano, queremos convidar-vos a deixarem-se ficar pelas serras, aldeias e vilas, mergulhando num território ainda tão distante do buliço das grandes cidades. O turismo, o verão e o lazer não se resumem às praias e ao litoral: há caminhos, ribeiras, aldeias, música e histórias para descobrir neste território longínquo e mágico.
18.08.2026 | por Maria Prata
Passados quase cem anos, e num momento em que, um pouco por todo o lado, reaparece o perigo do fascismo, valerá a pena trazermos à nossa atenção o pressuposto brechtiano de que o fascismo não é uma anormalidade ou um desvio, mas emerge como consequência lógica do desenvolvimento do capitalismo que, em contexto de acirramento das suas crises, esbarra na dinâmica pactuada própria das democracias liberais.
14.08.2026 | por Fernando Ramalho
A pátria é o lar, a família e muito mais que isso. Pátria para os cubanos significa terra, significa história, significa o sangue de milhares de pessoas que entregaram tudo para a construir, há mais de dois séculos. Somos filhos de uma pequena ilha situada a apenas 150 quilómetros da maior potência mundial. Como povo, sempre nos foi difícil darmo-nos bem com os governos dessa potência. E tudo piorou a partir de 1959, quando este povo decidiu seguir o seu próprio caminho, afastando-se das «maravilhas» do capitalismo. Neste julho escaldante, Cuba parece colapsar. As sanções do poderoso vizinho estendem-se a todos aqueles que queiram fazer negócios com a ilha ou investir nela. Centenas de bancos foram penalizados por realizarem transações com empresas cubanas.
13.08.2026 | por Carlos Padrón Montoya
Pensei em escrever um livro, tosco, rude, como um tecido gordo de roupas usadas e lã grossa acabada de cortar. Um tapete de trapos, rústico, pequeno, pesado, bom para ter na rua, debaixo dos pés. À noite apareciam-me coisas escabrosas que me faziam corar, cresciam com as sombras em redor do candeeiro, ficava deslumbrado com as paixões desatinadas e os crimes por realizar. Conhecia mal a minha loucura. Antes de ter as mãos sebosas do ofício já me divertia com os truques e as manhas que viria a usar, como desdobraria as fraquezas, as faltas, as traições.
12.08.2026 | por Ricardo Norte
Nasci e cresci numa sociedade dissolvida e pacificada, sem a força dos que passaram por conflitos colectivos, o meu corpo não tem o saber dos que os viveram. Tenho, no entanto, de encontrar a escala que me leve às questões de conjunto, que me arranque aos problemas individuais. É essa leitura — demorada, atenta, radical — que se impõe como tarefa. O mundo em que vivemos não nos pertence; é uma ficção que nos foi imposta, uma construção que nos castra, empobrece e diminui. Romper com essa ficção exige não apenas o desejo de outro mundo, mas a aposta concreta na sua criação. Trata-se de inventar tempo, um tempo que não se deixe medir ou controlar — um tempo que fuja aos mecanismos de captura da norma e do capital.
28.07.2026 | por Ricardo Norte
Não posso fugir das cidades asfixiantes, nem das florestas mercantilizadas, tampouco mudar de vida neste estado vigilante sob os vários fogos cruzados. Agarro-me aos afetos numa absoluta carência, tentando desatá-los das lógicas mercantis. Hei-de furar o balão ácido do tempo com a mais digna raiva que conseguir. Libertar o “coração demissionário” do “tempo demasiado embotado” - expressões do teu Cioran -para tornar obsoletas todas as metáforas e o exercício de pôr um pé à frente do outro. Desordenar o sujeito-verbo e predicado. Seria mesmo importante que conseguíssemos imaginar fora da inevitabilidade do percurso histórico: primitivo - agricultura - cidade - Estado - desigualdade.
19.07.2026 | por Marta Lança
Há uma mesa de cabeceira – que não nos contas como é – que te vai acompanhando nas mudanças de casa, o fio condutor deste livro. Porém, as tuas casas parecem casas sem quartos. Não porque as pessoas que as habitam não se recolham à intimidade, mas porque esse lado fica atrás da porta, embora descrevas um ou outro. As casas separam as ruas dos lugares de intimidade (lembrando Ruy Belo), separando dentro e fora. O interior e exterior das tuas casas não é o que esperamos: a porta da rua é a porta do quarto, e dela pouco se passa.
18.07.2026 | por Margarida Ferra
A cidade recusa-se à compreensão, por vezes espectral como um pântano enevoado, outras de uma solidez que fere e me deixa do outro lado dos muros. Tenho a impressão de nunca ter abandonado esta povoação, de me ter misturado com as suas vielas, com as construções aberrantes dos anos oitenta. Na verdade, as viagens que fiz ganharam feições imaginárias, ao ponto de não saber se as realizei. Nunca saí desta cidade, apenas me afastei momentaneamente. Faço parte dos homens sem mundo. Viver sempre no mesmo lugar enfraquece esta percepção, o hábito matiza-me com as cores que estão à minha volta.
16.07.2026 | por Ricardo Norte
As imagens a preto e branco descreviam o processo de conceção, montagem e abertura pública deste museu etnográfico no período pós-independência. As suas primeiras atividades. Albano conhecia as pessoas nas imagens, sabia ainda descrever a funcionalidade de objetos, muitos dos quais hoje desaparecidos, e localizar, no tempo e no espaço, registos de exposições itinerantes. As memórias de Albano davam cor e movimento às imagens, trazendo-as à vida. Demoramos dias, mas, a partir da sua memória, localizamos e descrevemos pessoas, lugares, momentos e objetos etnográficos encontrados naquelas fotografias que, mais tarde, nos permitiram montar uma exposição que reabriu o museu à cidade, em 2017, e ao país, e publicar um livro que, como catálogo, viajou e divulgou o património da Guiné-Bissau além-fronteiras, em 2018.
10.07.2026 | por Ana Temudo
Em contraposição a esse posicionamento, considerado oportunista e desviacionista de direita, tanto Rosa Luxemburgo como Leon Trotsky defendiam que, desde que estivessem reunidas objectivas e subjectivas as condições para o efeito, se devia realizar de imediato e por via de uma insurreição armada do proletariado das grandes cidades a revolução socialista na Rússia, a qual se encarregaria de nela absorver as tarefas não concretizadas ou adiadas de natureza democrático-burguesa como a liquidação dos grandes latifúndios, todavia conectando-as com tarefas típicas de uma revolução socialista como a nacionalização e a socialização dos meios de produção nas cidades e nos campos.
08.07.2026 | por José Luís Hopffer Almada
Creio que estou a ter um início de burnout. Coincidiu com o aviso da Google: devia libertar espaço ou comprar armazenamento, sob pena de deixar de receber emails a partir de 26 de junho. Projetei, com toda a verdade, o meu cérebro a crashar juntamente com a memória externa - nem saberia distinguir memória externa de interna. A minha cloud precisava de fazer upgrade para continuar. Ok, resigno-me à dependência dos donos do capital para funcionarmos.
07.07.2026 | por Marta Lança
Com a participação de Kabuverdi, vi-me depressa envolvido num mar azul de emoções que em vão tentei suprimir. Subestimei a capacidade que este tipo de eventos tem para nos mobilizar e encantar. O entusiasmo, porém, não era propriamente pelo futebol em si, mas pela mensagem contagiante de união e convicção transmitida por aqueles jogadores que, na sua maioria, nasceram na diáspora e que, sob a liderança de Bubista, tão bem nos representaram. Mas também, e sobretudo, pela capacidade da nossa gente em fazer povo e formar um só corpo em torno de um objetivo comum: vencer coletivamente.
06.07.2026 | por Apolo de Carvalho
E foi assim que o Brasil viralizou a garota congolesa que rebateu uma postagem infeliz de uma miúda que considerava uma vergonha a seleção de Portugal empatar com a da República Democrática do Congo, traduzindo (mesmo que involuntariamente) para o futebol a soberba da extrema-direita portuguesa que incorpora o discurso fascista para se autovalidar. Se os livros de história nos ensinaram que descendemos dos portugueses, agora a troca de informação global faz nosso sangue banto falar mais alto – o mesmo que nomeou o nosso futebol mu'leke e nos ensinou a, em comemoração, sambar. O preconceito e o ódio uniram o que a colonização separou.
03.07.2026 | por Gabriella Florenzano