As “guerras das estátuas” e a cor da memória

As “guerras das estátuas” e a cor da memória A suprema fantasia seria pensar, ingenuamente, que o reconhecimento do sangue negro na base de nações-imperiais e pós-imperiais pudesse cumprir-se deixando no mesmo lugar as pedras que sustentam e adornam a ideia de nação.

18.01.2020 | por Bruno Sena Martins

Morrer por ser. O racismo estrutural na França contemporânea

Morrer por ser. O racismo estrutural na França contemporânea A atualidade francesa tem sido regularmente marcada por casos que envolvem agentes da Polícia na morte de jovens de ascendência africana. Este tema da morte violenta ligada à colonialidade do poder inscreve-se numa longa história.

18.01.2020 | por Rachida Brahim

O esvaziamento da noção de subalternidade, a sobrevalorização da fala e os silêncios como resistência

O esvaziamento da noção de subalternidade, a sobrevalorização da fala e os  silêncios como resistência A produção social não criteriosa de subalternidades e lugares de fala, tal como o entendimento de silêncios como silenciamentos, desperdiça o potencial emancipador e revolucionário que esses conceitos transportam, adiando o aprofundamento interseccional das lutas feministas. A solução poderá passar pela auto-reflexão das nossas práticas enquanto sujeitos implicados na manutenção da escala de opressões e pela identificação e estudo das causas e sujeitos que geram deliberadamente essas subalternidades.

13.01.2020 | por Raquel Lima

“Sujeito implicado”: um conceito a explorar

“Sujeito implicado”: um conceito a explorar Como diferenciar a implicação em função da origem, cidadania, classe, raça, género, prática política ou trajeto biográfico? Qual a relação entre implicação e capital (económico e simbólico), no quadro de um sistema-mundo profundamente desigual? Qual o estatuto de implicação daqueles que, não beneficiando das cadeias de dominação nem se (auto)definem como vítimas, são sujeitos prejudicados pelos mecanismos produtores de injustiça e opressão?

05.01.2020 | por Miguel Cardina

O Estado francês e o Estado português perante a chegada dos pieds-noirs e dos retornados

O Estado francês e o Estado português perante a chegada dos pieds-noirs e dos retornados Em França, apesar do contexto económico do período conhecido como os “Trente glorieuses” ser favorável à absorção de mão de obra, as características socioprofissionais dos franceses que chegavam da Argélia não correspondiam às necessidades do mercado de trabalho francês, que procurava trabalhadores qualificados para as indústrias. No caso português, ocorreu uma situação inversa. O contexto económico do país fazia temer um aumento súbito e extremo de uma taxa de desemprego que já era elevada. Não obstante, as características profissionais dos portugueses que vinham de Angola e de Moçambique, muitos ativos no setor terciário, nomeadamente nos serviços e no comércio, representaram uma vantagem para a economia portuguesa.

02.01.2020 | por Morgane Delaunay

Luanda, Lisboa, Paraíso?

Luanda, Lisboa, Paraíso? Nos anos 80, e seguindo a rota de muitos cidadãos africanos dos países de língua oficial portuguesa, Cartola de Sousa viajou para Lisboa com o seu filho Aquiles de 14 anos, para que o rapaz fosse submetido às operações aconselhadas e aos tratamentos médicos que, em princípio, resolveriam o problema.

26.12.2019 | por Margarida Calafate Ribeiro

Vendavais

Vendavais Através da Europa inteira, presenciamos uma tentativa de anular as conquistas emancipatórias de todo um século passado, com as reivindicações de poder fazendo-se passar por tentativas de aliviar os danos sociais enquanto propagam formas tóxicas de nacionalismo serôdio e bafiento. Estas, por seu turno, são fundadas na xenofobia e no racismo, quer ainda debaixo de ténues disfarces, quer de modo aberto e bem direto.

21.12.2019 | por Paulo de Medeiros

Deus é uma mulher preta e poeta

Deus é uma mulher preta e poeta Sou muito pequena, e sinto que vivo numa ilha sem país, tentando contato apenas com o mar. Platão dizia que existem três tipos de pessoas: as mortas, as vivas, e as que vão para o mar... Encho o copo de vinho, e penso que me identifico com a terceira estirpe, enquanto os meus amigos estão convencidos que o povo brasileiro é o próximo a ir para as ruas partir tudo.

07.12.2019 | por Rita Brás

Pós-memória e ressentimento

Pós-memória e ressentimento No plano deste ressentimento da vítima perante o perpetrador, a impossibilidade do perdão é inseparável da recusa do esquecimento. Não tem, pois, que ver com uma fixação paralisante no passado, significa, sim, a definição de uma posição moral que permite à vítima, justamente, recusar a fixação neste estatuto e constituir-se como sujeito. O sujeito ressentido é, deste ponto de vista, o sujeito que se constitui através da afirmação da permanência da memória. Mas pode, legitimamente, perguntar-se: se este processo tem contornos claros quando existe uma definição inequívoca do objecto do ressentimento, a figura inconfundível do perpetrador, o que acontece em contextos em que essa definição não é tão clara, sendo movida, por exemplo, por uma lógica de vitimação de contornos problemáticos?

27.11.2019 | por António Sousa Ribeiro

até para dizer as palavras podem ser precisas as mãos, sobre a apresentação de 'Ingenuidade Inocência Ignorância' de raquellima

até para dizer as palavras podem ser precisas as mãos, sobre a apresentação de 'Ingenuidade Inocência Ignorância' de raquellima O que aconteceu nesta sessão de poesia e, acredito, em todas as outras sessões de trabalho e discussão, foram actos políticos, emaranhamento de colaborações dentro e fora daquelas salas, todos imbricados e contaminados por uma (ou muitas) subjectividade(s), e isso é uma coisa bem boa.

25.11.2019 | por Patrícia Azevedo da Silva

Prefácio ao livro "Angola na imprensa portuguesa"

Prefácio ao livro "Angola na imprensa portuguesa" Se a descolonização impactou sensivelmente o imaginário e obrigou a uma reelaboração de dimensões da identidade nacional portuguesa, também incidiu diretamente sobre a vida quotidiana nacional, com a chegada de milhares de retornados das agora ex-colónias, sobretudo de Moçambique e Angola.(...) O livro de Carlos Alberto Alves é, também, um material valioso para compreender a conformação da memória pública acerca da colonização e da descolonização de Angola no distrito de Leiria e em Portugal.

25.11.2019 | por Helena Wakim Moreno

Suores frios e escuta furtiva em Angola

Suores frios e escuta furtiva em Angola 'Poderosas Frequências' captura cuidadosamente todas as experiências sensoriais que se acumularam, à medida que a radiodifusão e o poder estatal se expandiram e se foram redefinindo na Angola colonial e pós-colonial. Os leitores que lerem o livro em busca de uma experiência auditiva rapidamente se apercebem que Moorman reúne variadíssimos modos de percepção.

15.11.2019 | por Jesse Bucher

Nós, eles, porquê? (a propósito de Paulo Faria)

Nós, eles, porquê? (a propósito de Paulo Faria) “O rosto que falta” é um pungente texto sobre a guerra, mas sobretudo sobre a titularidade da experiência das situações traumáticas ligadas ao conflito armado, e nomeadamente ao fim do colonialismo português em África.

12.11.2019 | por Felipe Cammaert

Para criar espaços de escuta

Para criar espaços de escuta Resgatar a memória, inscrever novas memórias na História comum, criar histórias cruzadas ou em arquipélago, não é somente clamar por uma aceitação numa História oficial e alargada ou abrir espaços políticos no presente imediato. É conservar e exigir a possibilidade de existência e de acção futura.

10.11.2019 | por Liliana Coutinho

Enfrentar-se

Enfrentar-se Assumir a contradição entre o nosso estilo de vida e as nossas opiniões sobre estilos de vida. Ouvir as estúpidas chantagens enquanto mãe, mas também ser capaz das saídas mais airosas e conversas de proximidade com o filho: «Eu não sou mamã o tempo todo!, – Não?, – Não, tu não gostas de não ser filho às vezes?, – Sim.»

08.11.2019 | por Marta Lança

Museus: zonas de contacto por excelência

Museus: zonas de contacto por excelência Os Museus são espaços democratizantes, inclusivos e polifónicos, orientados para o diálogo crítico sobre os passados e os futuros. Reconhecendo e lidando com os conflitos e desafios do presente, detêm, em nome da sociedade, a custódia de artefactos e espécimes, por ela preservam memórias diversas para as gerações futuras, garantindo a igualdade de direitos e de acesso ao património a todas as pessoas.

04.11.2019 | por António Pinto Ribeiro

Mário Lúcio Sousa e o pão feito pelo diabo

Mário Lúcio Sousa e o pão feito pelo diabo O autor usou a voz de vários prisioneiros, todos com o mesmo nome – Pedro –, chegados em alturas diferentes de Portugal, da Guiné, de Angola e de Cabo Verde. Descreveu o terror de dentro com uma fluidez que em nada instrumentaliza acontecimentos para provar alguma coisa.

28.10.2019 | por Ana Bárbara Pedrosa

Por que razão o racismo ainda é uma questão europeia?

Por que razão o racismo ainda é uma questão europeia? Entretanto, o verdadeiro combate está em trazer para o campo da discussão os problemas estruturais reais da sociedade: a pauperização da população, a precarização do trabalho, as discriminações racistas e sexistas, a mundialização do capitalismo e uma série de preconceitos que herdámos do passado colonial, como a islamofobia, a falta de políticas públicas para a integração dos imigrantes, a abundância de discursos civilizacionais, as teorias como o lusotropicalismo, o racismo contra os negros, entre outros.

28.10.2019 | por Fernanda Vilar

Descentralizar a Biopolítica, observações em torno de uma genealogia colonial da ecologia política

Descentralizar a Biopolítica, observações em torno de uma genealogia colonial da ecologia política A emergência destas formas de subjectividade ambientais atesta também a necessidade (bio)política de compreender as relações individuais e colectivas com o meio ambiente, muito para lá da dicotomia entre propriedade/gestão pública e privada, imposta primeiro pela colonização e depois pelo discurso desenvolvimentista.

19.10.2019 | por Orazio Irrera

Divertimentos sinistros de verão:
 da “responsabilidade dos intelectuais” (I)

Divertimentos sinistros de verão:
 da “responsabilidade dos intelectuais” (I) (...) Governo de Sua Majestade neste momento está a tentar expandir a silly season eternamente. A decisão do Supremo Tribunal, anunciada na manhã de terça-feira, 24 de Setembro, de que o conselho dado à Rainha pelo Primeiro Ministro, para encerrar o Parlamento, foi ilegal e, portanto, a suspensão do Parlamento foi nula e sem efeito, não podia ser nem mais clara nem mais incisiva e representa um ato de resistência ao ataque direto contra o princípio de democracia na Europa. Eis a imagem final do veredicto, sóbria e majestosa ao mesmo tempo: “Isto significa que quando os Comissários Reais entraram na Câmara dos Lordes, foi como se entrassem com uma folha de papel em branco.

01.10.2019 | por Paulo de Medeiros