O Brasil é uma heterotopia

O Brasil é uma heterotopia Foucault identificava uma série de heterotopias de crise biológica, como chamou, e onde ele lia e inscrevia sociedades, como as sociedades ameríndias, nas quais o corpo ganha uma representação coletiva – a puberdade ou a primeira menstruação, por exemplo. Eu diria que nessas sociedades não se trata apenas de uma representação coletiva do corpo, mas sim da possibilidade de criar inscrições dignas do corpo no espaço comum. Enquanto nós ‘evoluímos’ para lugares onde as inscrições sociais dos corpos se fazem apenas pelo que queremos de fato excluir: assassinatos, estupros, violências, entre outros. Ou seja: o desprezo e o controle sobre os corpos são a marca política característica das sociedades ocidentais. São elas mesmas que criam a lista dos desvios e o modo das transgressões. Os indesejáveis e os descartáveis.

16.06.2022 | por Ana Kiffer

Portugal deve devolver peças de arte às ex-colónias?

Portugal deve devolver peças de arte às ex-colónias? Portugal deve seguir o imperativo de justiça universal e o movimento civilizacional global Os negacionistas que pretendem impedir este movimento global recorrem a falácias: que as obras não foram trazidas pelo valor que eventualmente pudessem ter, mas como lembranças. Não é verdade: a retirada ilegal destas obras fazia parte de estratégia de colonização do espírito e de apropriação material rentável que foi levada a cabo por políticas governamentais executadas por missões militares, missionários e exploradores contratados para tal pelos impérios coloniais. Dizem ainda que não se pode ajuizar com o espírito de hoje ações de outras épocas. Falso: estas apropriações eram constitutivas de um processo de apropriação em massa (500 mil só na Europa, numa estimativa por defeito).

07.06.2022 | por António Pinto Ribeiro

Fazer mundos: do tempo que passamos juntos

 Fazer mundos: do tempo que passamos juntos É contra este desligamento, contra esta hierarquia da teoria sobre a praxis, por exemplo, que este livro opera. Não digo a que este livro se refere, digo “que este livro opera” porque, sentindo-se o que nos é informado numa nota na página final desta publicação, que se trata aqui de textos que derivam de publicações anteriores em artigos ou ensaios de jornal, sente-se também um pensamento que é feito acompanhando e entrelaçando-se, com a contingência, com as circunstâncias históricas atuais e com a práxis da vida quotidiana. É também de questões que reverberam diretamente dos dias que estamos a viver que este livro emerge, interpelando o nosso modo de os habitar.

31.05.2022 | por Liliana Coutinho

Pré-publicação | Siríaco e Mister Charles

Pré-publicação | Siríaco e Mister Charles Chamar-te-ei Siríaco, velho, que foi o teu nome próprio de baptismo, bem antes de as trevas e o lume brando dos dias fazerem de ti menino-onça ou negro «pigarço», e de eu poder, aqui e agora, escrever a tua história — a vida extraordinária do homem coberto pelo manto do espanto e do mistério. E nesta noite, de vento e de forte maresia, a pergunta que te assola, nesse canto da taverna, tem a forma de uma espada sobre a tua cabeça: terá sido essa tragédia, que levou Aurélia tão cedo, um castigo por não teres seguido viagem e acompanhado a família real para o Brasil?

18.05.2022 | por Joaquim Arena

Sonhar acordada - prefácio de Tiago Rodrigues a "O que temos a ver com isto? O papel político das organizações culturais?" de Maria Vlachou

Sonhar acordada - prefácio de Tiago Rodrigues a "O que temos a ver com isto? O papel político das organizações culturais?" de Maria Vlachou É aquilo a que a autora chama “cuidar do desconforto”, quando defende que as organizações culturais, sejam museus ou teatros, devem ser “o espaço para encontrar o outro” e também o lugar onde as pessoas se sintam à vontade com as nuances e a complexidade. Quando vivemos em sociedades onde cada vez mais caminhamos para um conforto solitário e mediado por um mundo digital onde podemos cancelar a alteridade, Maria Vlachou propõe uma ideia dos espaços culturais como o lugar onde podemos aprender a sentir-nos confortáveis com o desconforto. Este paradoxo poético e político é todo um programa de serviço público de Cultura que este livro esboça e que qualquer pessoa atenta às questões culturais deve descobrir.

15.05.2022 | por Tiago Rodrigues

Onde estava no 25 de Abril? Como alguns angolanos viveram o momento da revolução portuguesa

Onde estava no 25 de Abril? Como alguns angolanos viveram o momento da revolução portuguesa Depois de quinze anos de luta pela libertação e independência – numa guerra iniciada em Angola, que seguiu forte para a Guiné-Bissau e Moçambique -, dá-se o 25 de Abril como um desenlace que muitos esperavam. Em 1974 abre-se um novo capítulo, ainda que polémico, para o processo de descolonização. Como é que algumas personalidades angolanas viveram a Revolução portuguesa que pôs fim ao longo regime ditatorial fascista de Salazar e Caetano? Momentos de emoção ou de apreensão? O que foi dominante: a perplexidade, ou já era previsível? Em que circunstância se encontravam? Que implicações trouxe para a vida de cada um? Qual foi a percepção para o futuro do país? Conforme o lugar de enunciação, o 25 de Abril pôs termo à guerra ou foi esta que o desencadeou? Recolhemos vários depoimentos que ajudam a construir este puzzle de memórias, pois para além da História que vem nos livros, interessa-nos as suas entrelinhas.

28.04.2022 | por Marta Lança

Quando a Arte se torna declaradamente dinheiro em Veneza

Quando a Arte se torna declaradamente dinheiro em Veneza Entre os países que se estreiam este ano em Veneza estarão também os Camarões, cujo pavilhão não poderá passar despercebido por várias razões. A principal é que a República dos Camarões não fará a estreia apenas do seu país, mas também de uma forma de fazer arte, e de conceber o seu mercado, de que se fala há alguns anos, mas que nunca tinha encontrado uma localização tão prestigiosa como a Exposição Internacional de Arte de Veneza: NFTs Art.

22.04.2022 | por Laura Burocco

“O impossível hoje é possível amanhã”.

“O impossível hoje é possível amanhã”. Este é um livro-homenagem a Paulo Freire que se tornou um educador do mundo pela ampla difusão de suas ideias filosóficas, de seu método pedagógico e de sua ação, primeiro no Brasil, depois no Chile, seguindo para países da América Latina, Estados Unidos, Europa, África, Ásia e Oceania. Em relevo estão momentos-chave da trajetória de Paulo Freire e o itinerário internacionalista de um pensamento cuja recepção por largos anos foi marcada pelo interdito, pela censura, por uma circulação clandestina e pelo exílio.

21.04.2022 | por Adelaide Gonçalves, Débora Dias e Fernando de la Cuadra

Romper o silêncio, fazer o luto, Luanda – 30 anos do 27 de maio (2007)

Romper o silêncio, fazer o luto, Luanda – 30 anos do 27 de maio (2007) Já passaram 30 anos. E ainda há quem reviva o desespero da simulação de um fuzilamento. E não poucos têm medo de falar. Mas os angolanos não esquecem. Há uma comoção que atravessa as pessoas ligadas ao 27 de Maio pelas mais variadas razões: a cumplicidade que só a dor e o mistério perpetuam em três décadas de não esquecimento. Nesta grande família reunida, com a evidência das palavras de Martin Luther King e relato da experiência de Michel, o silêncio era mais para ouvir e não para calar.

19.04.2022 | por Marta Lança

O jardim selvagem de Laura do Céu (ou de Soraia Simões de Andrade)

O jardim selvagem de Laura do Céu (ou de Soraia Simões de Andrade) Hoje, de um modo geral, falta à nossa poesia o fundamental: o diálogo com a vida e com o desconhecido. Nesse género de livros, ditos meta-poéticos, o autor aparece somente como máquina de citações e especialista em pastiches literários. Este livro é diferente. Os poemas de Laura do Céu, em Em/Sem Terra, estão repletos de pessoas e de estarrecimentos vários ante as coisas comezinhas e menos comezinhas da vida. É um livro para os que, como a autora escreve em “Poetagem”: “Amam Gina Lollobrigida e destroem Deleuze”.

19.04.2022 | por Luís Carlos S. Branco

Manifesto-Haraway PREFÁCIO

Manifesto-Haraway PREFÁCIO "Um Manifesto Ciborgue" foi publicado em 1985. Caiu como um meteoro na academia e nas suas divisões normalizadoras do saber, academia essa que parecia impreparada para o acto de mistura que articulava carne e máquinas, capital e dominação, informática e ligações. Estávamos diante de frases cortantes, que não tinham nenhuma disciplina que as justificasse e as acolhesse. Algo de profundamente novo vinha a caminho nessa escrita fulgurante, que continua o seu percurso agora em português, mas também noutras frases que prolongam o manifesto, que originam outro novo, ou talvez correspondam ao devir-manifesto de Donna J. Haraway.

11.04.2022 | por José A. Bragança de Miranda

BIBLIOTERA no Anozero'21—22 Bienal de Coimbra MEIA-NOITE

BIBLIOTERA no Anozero'21—22 Bienal de Coimbra MEIA-NOITE Este projeto de curadoria coletiva é uma biblioteca em construção que, de Coimbra, segue para Malafo, na Guiné Bissau, onde será acolhida pela Abotcha - Mediateca. Os livros, em catalogação e desarrumação permanentes, são acompanhados por leituras, debates, performances, reflexões sobre escrita, oratura, autoria, produção de conhecimento, circulação, apropriação de saberes e, claro, sobre o próprio conceito de biblioteca e seus conflitos.

06.04.2022 | por Marta Lança, Marinho de Pina e Filipa César

Independência do Haiti: Culminar de um processo revolucionário de emancipação dos escravos

 Independência do Haiti: Culminar de um processo revolucionário de emancipação dos escravos A publicação, a 26 de agosto de 1789, da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que estipulava que todos os homens eram livres e iguais, é um marco incontornável. O documento abriu novas expectativas, rapidamente defraudadas no que respeita aos mulatos e aos negros de São Domingos. Prova disso foram a tortura e a execução de Vincent Ogé, em 1791. Ogé deixou Paris, onde trabalhou com Julien Raimond6, e liderou uma revolta em São Domingos, próximo de Le Cap. Para o efeito, contou com o apoio dos Amis des Noirs, e foi instigado e apoiado por Thomas Clarkson, tendo, inclusive, recebido armamento em Inglaterra. Ogé, mulato livre nascido na ilha de São Domingos, liberal, apelou a interesses comuns de brancos e mulatos, ambos proprietários de escravos. Esta postura não o salvou de ser barbaramente torturado e executado. Antes de morrer, Ogé pediu clemência. A sua morte inflamou o debate sobre a questão colonial em França.

16.03.2022 | por Mariana Carneiro

Pensamentos de uma africana da contemporaneidade

Pensamentos de uma africana da contemporaneidade Não existe, se é que alguma vez tenha existido, uma nação sem diferentes comunidades e diferentes pessoas. Significando que convivências multiétnicas são uma realidade antiga em vários cantos do mundo. Então, porquê e para quê discriminar? Vários foram os relatos que me foram chegando nas redes sociais sobre a discriminação racial que tem estado a ocorrer na Ucrânia nos últimos dias aos estudantes negros, ou africanos, ou afrodescendentes que tentavam sair do país para escaparem da guerra, cruzando a fronteira da Ucrânia com a Polónia. Uns a pé, outros de comboio, outros ainda de autocarros. O problema agrava-se quando a passagem lhes é negada. Porquê?

14.03.2022 | por Arimilde Soares

Políticas do verniz

Políticas do verniz Não deixa de ser curioso que, ainda no século XVIII, o artista seja retratado como aquele que se esconde na multidão — tema que ficaria célebre com o flâneur de Baudelaire — e que, supostamente livre das amarras sociais, “tira proveito” dos acontecimentos. Ou seja, idealmente, nem os convivas, tampouco os artistas presentes num vernissage, fazem parte das classes trabalhadoras. Se, com a “pestilência” da atual pandemia, os vernissages foram proibidos — ou, pelo menos, bastante restritos — há quem diga que a arte será uma espécie de “salvação”, algo capaz de suspender a profunda violência e a desigualdade que estruturam as sociedades e, quem sabe, indicar-nos uma saída: arte como um “exercício experimental da liberdade”, para citar a expressão de Mário Pedrosa, atualizada por alguns comentadores contemporâneos.

11.03.2022 | por Mariana Leme

As Estátuas e a História da Arte: o debate sobre vandalização de monumentos em Portugal

As Estátuas e a História da Arte: o debate sobre vandalização de monumentos em Portugal Este ensaio debruça-se sobre polémicas recentes e ainda duradouras sobre vandalização e/ou possível desmantelamento ou retirada de esculturas e monumentos, ou reconfiguração de espaços públicos, em Portugal. Embora prenhes de equívocos, as polémicas tiveram o mérito de promover uma discussão pública sobre persistências coloniais nas cidades portuguesas, em especial em Lisboa. Proponho uma reflexão sobre o lugar que a história da arte, ao questionar o seu próprio papel histórico, ao historicizar o seu objecto e ao analisar os modos de produção artística, pode ocupar nessa discussão. Recorrerei necessariamente a vários artigos de jornais, pois foi aí (com ramificações nas redes sociais), que teve lugar a discussão.

07.03.2022 | por Mariana Pinto dos Santos

Missão Encoberta: o Toucado de Moctezuma

Missão Encoberta: o Toucado de Moctezuma Uma operação secreta no Weltmuseum Wienm, o Museu de Etnologia de Viena de Áustria, causou um burburinho inusitado. Mexicanos viraram agentes infiltrados com uma missão de memória: contar a história indígena sobre o chamado Toucado de Moctezuma, peça que terá pertencido a este imperador azteca, e que a Áustria se recusa a devolver ou sequer emprestar ao México. História hilariante que reviveu a exigência da restituição às culturas da América Latina de peças que os colonos levaram.

03.03.2022 | por Pedro Cardoso

Preservação do ambiente é uma ambição da mostra de António Gonga "Jubileu Bodas de Ouro"

Preservação do ambiente é uma ambição da mostra de António Gonga "Jubileu Bodas de Ouro"   A preservação do meio ambiente marca a exposição Jubileu Bodas de Ouro, de autoria do artista António Gonga, que se apresenta com uma abordagem na base da reciclagem de material usado e desprezado pela maioria dos cidadãos. A amostra enquadra-se nas celebrações dos cinquenta anos de independência dos países africanos, anteriormente colonizados, do Gana à Namíbia.

18.02.2022 | por Emerson Hossi

Discurso de Saudação de Gurminder K. Bhambra, Presidente da Associação Britânica de Sociologia

Discurso de Saudação de Gurminder K. Bhambra, Presidente da Associação Britânica de Sociologia O que é necessário, sugiro, é uma sociologia reparadora, empenhada em desfazer as insuficiências que se alojaram na nossa disciplina e trabalhar para um projecto de reparação e transformação para um mundo que funcione para todos nós, tendo ao mesmo tempo em mente a necessidade de abordar as questões que agora nos confrontam.

15.02.2022 | por Gurminder K. Bhambra

"Nunca me faltou o sonho de expor na minha terra", entrevista a Nú Barreto

"Nunca me faltou o sonho de expor na minha terra", entrevista a Nú Barreto Não existem infraestruturas culturais, tanto educativas como promocionais. Por mais que sejam organizados, os artistas plásticos guineenses, na Guiné, vivem num “anonimato” absurdo, onde só se salvará o ajudado. É de certeza uma caricaturada forma de ver a situação. A bem ver, não existe sequer um espaço cultural, onde os artistas poderiam exibir as suas criações. Num país sem nenhum Centro Cultural Nacional, nenhum museu e nenhuma galeria, é complicado estabelecer qualquer que seja diálogo entre o vazio e o público. Anedoticamente, vira um cemitério sem campa. Talvez uma curta história verídica para ilustrar o grau do sofrimento: Encontrei uma senhora que me reconheceu por me ter visto na televisão, dia antes. Depois duma longa conversa sobre o estado das artes na Guiné, disse-me: «Não é que somos todos iguais. O facto de não haver, não significa que somos todos iguais, mas precisamos para a nossa instrução. O silencio expõe a ignorância».

13.02.2022 | por Sumaila Jaló