Cabemos nesta BUALA há 10 anos! -depoimentos

Cabemos nesta BUALA há 10 anos! -depoimentos "O BUALA iniciou em Portugal uma rutura com a tradicional rigidez canónica do olhar eurocentrado sobre a colonialidade que marca as relações entre antigos poderes coloniais e espaços outrora colonizados. O BUALA desprovincializou o debate pós-colonial em Portugal ao abri-lo a outros contextos geográficos fora do espaço lusófono, libertando-o da redoma académica em que esteve fechado durante muito tempo. Esse caráter polissémico da sua articulação interdisciplinar ajudou ainda a desobstruir o caminho entre academia e militância, entre teoria e prática." Mamadou Ba

25.05.2020 | por vários

Justiça e jornalismo nas Américas

Justiça e jornalismo nas Américas Somos suscetíveis à obscuridade. Não apesar, ou por causa da tecnologia moderna. Mas porque "o que é a história senão uma fábula na qual concordamos?" (Napoleão, talvez). Nossas ‘postagens’, ‘partilhas’ e hashtags se dissiparão no vazio digital quando começarmos a nos enxergar como geração que experienciou um excesso de visibilidade individual, se empolgou e esbaldou. E o ‘esbaldar’ é indiferente à mudança, assim como a mídia social é indiferente à justiça social. Hoje em dia, parece que atribuir natureza revolucionária à tecnologia é depreciar nosso potencial revolucionário como seres sociais, com todas as suas complexidades.

24.05.2020 | por Mirna Wabi-Sabi

A luta contra o petróleo e gás em Portugal: aprender a ganhar

A luta contra o petróleo e gás em Portugal: aprender a ganhar A luta contra o petróleo e gás em Portugal, da perspectiva do movimento pela justiça climática, é claramente uma luta defensiva, isto é, apenas permite evitar aumentar ainda mais o fosso da crise climática. As lutas ofensivas, aquelas que constroem alternativas e maiorias sociais para um mundo sem combustíveis fósseis, são as que permitirão travar o colapso climático. Num momento de crise sanitária, social, de emprego e climática, todas em simultâneo, torna-se ainda mais claro que nenhuma delas é independente e nenhuma será verdadeiramente resolvida se as outras não o forem.

22.05.2020 | por João Camargo

Amílcar Cabral, um agrónomo antes do seu tempo

Amílcar Cabral, um agrónomo antes do seu tempo A agricultura, então chamada de “indígena”, assentava na produção de arroz para o autoconsumo das comunidades rurais, a qual era praticada há cerca de três mil anos e na produção de uma cultura de exportação, a mancarra (amendoim) incentivada pelas empresas estrangeiras que se revezam na sua exportação para a Europa (em bruto ou em óleo). O ciclo da mancarra começa na zona de Buba, incentivada por alemães e percorre um itinerário fácil de identificar pela erosão e degradação dos solos que provoca na Guiné e que passa por Bolama, norte do Oio, Bafatá e Gabú.

21.05.2020 | por Carlos Schwarz da Silva

Ulisses que não regressa a casa

Ulisses que não regressa a casa Saad, o migrante, o clandestino, o invisível aos olhos de todos, é um universitário, filho de um bibliotecário erudito e poeta, colecionador de livros proibidos pela ditadura, apaixonado por literatura e por mitologia greco-romana. Um pai que partilha com ele o segredo dos livros da sua “Babel de bolso”, nome que dava à biblioteca clandestina que escondia na sala. Mimado pelas irmãs, pela mãe, pela família, no espaço de poucos meses o jovem Saad assiste à morte dos cunhados num ataque terrorista, ao desaparecimento da namorada num bombardeamento, à morte do pai, por erro dos americanos, à morte de três sobrinhos por doença e má nutrição.

20.05.2020 | por

Ativismo viral

Ativismo viral O coronavírus age sobre e através corpos individuais e sociais. Tem material genético, tem personalidade viral, perturba certos biótipos mais do que outros. É um vírus que mata pela reação dos organismos nos quais se instala. O descontrolo dos anticorpos criados pelo ser humano contra o vírus acaba por ser a causa do maior número de óbitos. Mas a agência deste vírus não se fica pelo corpo humano, interfere no “pulmão do corpo social”. Propaga-se em sociedades, cada uma com a sua forma de “respirar”, ritmada por uma cultura, por um ethos.

12.05.2020 | por Alix Didier Sarrouy

Obras de arte na condição da pós-memória

Obras de arte na condição da pós-memória Este duplo processo pode designar-se como de descolonização das artes, e é uma prática corrente, que condiciona a pertença de um artista a esta condição da pós-memória. A este primeiro atributo que estas produções detêm, outras particularidades artísticas se reconhecem nestas obras tais como: a presença de tradições culturais oriundas das ex-colónias (ritmos, tapeçaria, pintura sobre areia, escultura em couscous, formas de canto griot ou Rai), traços dos modernismos alternativos (fotografia do Mali, de Moçambique, pintura dos modernismos marroquinos) a desconstrução sistemática da iconografia e estatuária pública nos países europeus como nas ex-colónias, a revisão e desconstrução da história de arte universal, a crítica ao afro-pessimismo, a denúncia e luta contra o racismo, o questionamento sobre as identidades e sobre a possibilidade/impossibilidade do regresso, o tema e a urgência da reparação e a assunção clara de que o contexto da produção artística é a relação Europa-África, mas o tema não é África.

09.05.2020 | por António Pinto Ribeiro

De Emmett Till a Giovani Rodrigues: a política de memória nos tempos de Covid-19

De Emmett Till a Giovani Rodrigues: a política de memória nos tempos de Covid-19 Não podemos deixar que o atual momento sirva para causar um apagamento da nossa memória histórica. Se isso acontece, nem a situação atual estaremos aptos para compreender, e ainda menos o passado e o futuro. O direito à memória não pode ser alienável. A memória é intrínseca à nossa humanidade, é parte inerente à nossa própria existência. O colonialismo, desde sempre, tentou controlar e apagar a memória histórica dos povos colonizados. Lembrar Emmett Till, Pedro Gonzaga e Giovani Rodrigues é um ato de resistência!

08.05.2020 | por Alexssandro Robalo

O túmulo perdido de Copacabana

O túmulo perdido de Copacabana No início da quarentena, tive a ideia de comprar comida para pássaros e deixá-la no parapeito da minha janela. Talvez achasse que iria atrair as aves e fazer descobertas e me sentir menos só, assim. Mas me enganei, e acabei encomendando pela internet mais comida do que aquela que imaginava, e fiquei com quilos de pacotes de mistura para beija-flor, papagaio, e alpiste comum. Nenhum pássaro apareceu. Como choveu passado uns dias, a comida empapou sobre o mármore branco, e assim continua esperando que alguma alma da floresta da Tijuca se lembre de alcançar esta janela do 14º andar do Shopping Cidade para me dizer olá.

03.05.2020 | por Rita Brás

A tristeza da terra e a voz das imagens

A tristeza da terra e a voz das imagens Nas obras artísticas da pós-memória, são comuns os casos em que o artista revisita o passado colonial fazendo apelo a uma reinterpretação dos arquivos históricos marcantes, muitos deles silenciados ou esquecidos pelas gerações seguintes. Um dos eventos que tem dado lugar a uma série de fecundas representações artísticas é o das mãos cortadas, um dos episódios mais medonhos do período colonial da Bélgica no Congo, em que os colonizadores cortaram as mãos dos africanos, especialmente as crianças, como castigo e exemplo de autoridade.

02.05.2020 | por Felipe Cammaert

Milagres da Carochinha

Milagres da Carochinha Marcelo estabelece uma ponte entre as seguintes ideias: “eles dizem que fizemos um milagre” + “estamos a fazer o milagre”. E avança a explicação oportuna: estamos a fazer o milagre porque Portugal é um milagre há 900 anos! Com o cansaço derivado de quatro semanas de isolamento, quem então ouviu os telejornais deve-se ter rido dessa ideia um pouco disparatada, ou pode ter pensado que se tratava de um excesso de entusiasmo do Presidente. Mas, conscientes ou não do que estava a acontecer neste discurso, os portugueses foram atingidos por um torpedo silencioso, em directo do Palácio de Belém para suas casas. O milagre explodiu no DNA cultural dos portugueses.

21.04.2020 | por Ana Pais

A pós-memória e a condição da vítima

A pós-memória e a condição da vítima O sujeito da pós-memória pode, no limite, construir para si uma identidade de “pós-vítima” e satisfazer-se com esse estatuto ou pode empreender o esforço de construir uma identidade inteiramente baseada na recusa dessa identidade e na busca de uma articulação muito mais complexa com a inevitável ambivalência da relação entre a geração da memória e a da pós-memória. É entre estas duas posições extremas que se situa a substância empírica da vida concreta de homens e mulheres confrontados/as com a violência da História.

17.04.2020 | por António Sousa Ribeiro

Ler adorno em tempo de crise: da responsabilidade dos intelectuais

Ler adorno em tempo de crise: da responsabilidade dos intelectuais Ora, que este estado de coisas ande de par em par com o regresso das formas mais xenófobas de nacionalismo e de movimentos de extrema-direita, não deve surpreender ninguém. Pode dizer-se que a cultura do medo propagada até por políticos ainda alinhados a um centro convencional um pouco por todo o lado, e a suspeita em relação a intelectuais, peritos e profissionais em geral, são responsáveis, em parte, por gerar as condições necessárias para a afirmação do sentimento de desamparo que vivemos atualmente. É a esta luz que faz sentido hoje, talvez mais que nunca, ler Adorno.

16.04.2020 | por Paulo de Medeiros

José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem

José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem O filósofo Severino Ngoenha questiona em que momento teria surgido a arte e literatura moderna moçambicana e sugere influências do Movimento do Renascimento Negro. Este artigo dá seguimento a este exercício a partir da obra de José Craveirinha.

15.04.2020 | por Leonel Matusse Jr.

Vítima do próprio sucesso? Lugares comuns do pós-colonial

Vítima do próprio sucesso? Lugares comuns do pós-colonial Será que a teoria pós-colonial mantém a capacidade auto-reflexiva que a define como teoria crítica ou, pelo contrário, tornou-se vítima do próprio sucesso? Será que os lugares comuns da teoria se mantêm produtivos como ponto de encontro vital, como lugares de diálogo e confronto crítico ou, pelo contrário, na acepção negativa do sintagma, já não são senão estereótipos, simulacros de pensamento? “When was the postcolonial?”, “Quando é que se deu o pós-colonial?”, interrogava-se já Stuart Hall num texto da segunda metade dos anos 90.

09.04.2020 | por António Sousa Ribeiro

Lá vai ele e a sua solidão por aquele caminho serpenteante outra vez

Lá vai ele e a sua solidão por aquele caminho serpenteante outra vez Da Lisboa conhece os podres, os esquemas, o pessoal: músicos, bêbados, jornalistas, noiteabundos e lunáticos. E há a cidade sem solidariedade, povoada de sacanas, onde os cigarros arranham mais mas, por outro lado, o fado, o bitoque, a tasca, o rissol e o tremoço sabem mais familiares. O poeta diagnostica a superficialidade — “essa capa fina e invisível” — das pessoas giras, a cultura de plástico, o espectáculo e fetichismo do mercado que nos toldam como animais inofensivos e desejantes, atravessando-lhe o sarcasmo pós-moderno que se auto-satiriza. As estrelas caem de cadentes, roucas de tanto gritar.

06.04.2020 | por Marta Lança

O Médico Negro do Rei

O Médico Negro do Rei Este artigo, que traz à luz do dia a vida de Carlos Joaquim Tavares, um dos médicos do Rei Dom Carlos, lente de Medicina, integra-se no processo de desocultação dos contributos da comunidade Negra para a sociedade e a História de Portugal. Não fora a A Voz d’África, jornal fundado, dirigido e escrito por negros na segunda década do século XX, e as memórias dos seus contemporâneos, não saberíamos muito do que sabemos sobre Carlos Tavares um dos médicos do Rei D. Carlos e um dos maiores vultos da Medicina clínica portuguesa.

02.04.2020 | por Jorge Fonseca de Almeida

A Morte em tempos de negação ou a condição humana da morte (o que nos desperta a Covid-19)

A Morte em tempos de negação ou a condição humana da morte  (o que nos desperta a Covid-19) Constatar a nossa finitude é, em tempos de pandemia, angustiante. Deixa-nos com os sentidos abertos e com a sensação de que algo nos espreita. A morte desfilou nas ruas de Bérgamo e mostrou toda a sua grandeza e nos colocou diante da nossa nulidade. Não estamos preparados, muitos de nós, para constatar nossa insignificância diante dela e do mundo. Encarnada em algo tão minúsculo como um vírus, nos priva do adeus, nos priva da sociabilidade real, nos priva do convívio e da alegria plena.

30.03.2020 | por Waleska Rodrigues de M. Oliveira Martins

O coronavírus e as memórias do fim do mundo

O coronavírus e as memórias do fim do mundo O sentimento de vulnerabilidade partilhada que hoje vivemos, enredados na crise encetada pelo coronavírus, interroga-nos, também, sobre os limites da nossa memória para democratizarmos o nosso passado, descolonizando as hierarquias raciais, coloniais e patriarcais que definem o que é alheio. Na “lembrança minha” deveria lembrar-me de inúmeras histórias de fim do mundo, histórias há muito testemunhadas por aqueles e aquelas para quem a COVID-19 é apenas mais episódio de uma continuada exposição à desigual distribuição da precariedade.

29.03.2020 | por Bruno Sena Martins

O sistema alimentar industrial e a Soberania Alimentar

O sistema alimentar industrial e a Soberania Alimentar As pessoas que produzem, distribuem e consomem alimentos devem ter o poder de decidir sobre os mecanismos e políticas de produção e distribuição de alimentos. E ainda o direito a alimentos saudáveis ​​e culturalmente adequados e a definir sistemas alimentares e agrícolas de nossos territórios de vida e de trabalho.

21.03.2020 | por Oficina de Ecologia e Sociedade