Sem nenhuma concessão à facilidade (uma criança, sabe-o bem o autor, não é um imbecil, mas um ser cuja inteligência crítica é implacável e justa), mesclando e retorcendo no mais alto grau criador, em humor e poema, as línguas kimbundu e portuguesa, Luandino traz à infância temas da História de Angola (como a luta pela independência do país, ou a própria independência nacional e a terrível guerra civil que lhe sobreveio), ou, ainda, temas universais como a sabedoria, a liberdade e a justiça, a avidez do poder, ou a ganância mercantil, na sua fulgurante linguagem, irradiante de sentidos, de plasticidade visual e musical, criando poderosas e maravilhadas metáforas, onde o onirismo, o fantástico e o lado mágico da vida, aliados à densa poesia das personagens, vivamente nos encantam.
14.05.2026 | por Zetho Cunha Gonçalves
Os interesses e os investimentos – financeiros e políticos – por detrás desta evolução são incontornáveis, e não prevêem recuos. O que está em jogo é uma visão do mundo onde o que mais conta é o controlo sobre os recursos energéticos e naturais estratégicos. A função desempenhada por Israel, com todas as consequências que acarreta, cabe também nesta lógica.
10.05.2026 | por Stefano Rota e Rodrigo Magalhães
O que está em causa, como bem referiu o Professor Domingos, é o modo como o português tem sido ensinado na Guiné-Bissau, como língua materna [13, 14], e a disfuncionalidade do sistema educativo, fruto, em grande medida, do mau funcionamento do próprio sistema político. Além disso, quando se fala da necessidade de oficializar o crioulo e de o adotar como língua de ensino na Guiné-Bissau, não se trata de substituir o português. Seria uma péssima decisão política.
09.05.2026 | por Ronaldo Mendes
Language, as an emotional, cognitive and cultural heritage, continues to be invoked in discourse, but is rarely treated as the subject of a structured state policy. Who is prepared to acknowledge, with institutional seriousness, that language is not merely a symbol, but also a system? Who is prepared to accept that science should inform language policy, and not the other way round? The invitation remains open, but silence is often more eloquent than the answer.
07.05.2026 | por Eleutério Afonso
O jornalismo é importante em si mesmo. Mas, sobretudo, é importante pela forma como se ramifica e impacta transversalmente o que somos enquanto sociedade. Num tempo em que, com as redes sociais, virtualmente todos e todas podem aceder e produzir informação — nem sempre fiável, nem sempre contextualizada, nem sempre reconhecendo a complexidade da realidade —, o jornalismo continua a ser insubstituível, ainda que também ele não esteja imune a tensões, limitações e disputas internas. O jornalismo informa. Mas faz isso de uma forma que mais nenhuma outra prática faz.
29.04.2026 | por Sofia José Santos
Trazer à tona estes momentos históricos intrinsecamente ligados — Revolução Francesa e Revolução Haitiana —, onde os povos praticaram uma solidariedade internacionalista militante própria das épocas revolucionárias, revela-se, mutatis mutandis, de toda a pertinência. Isto porque as lutas de libertação em África contra o colonialismo português e as lutas travadas pelo povo português no 25 de Abril encontraram igualmente essa solidariedade nos dois sentidos. Esta foi possibilitada tanto pelas relações económicas entre a metrópole e as colónias como pela pertença à mesma classe trabalhadora dos povos em luta em Portugal e no continente africano — não obstante a heterogeneidade de situações dentro dessa classe —, o que significava terem pela frente os mesmos exploradores e opressores.
23.04.2026 | por Yussef B
A sua governação coincidiu com um período em que muitos Estados africanos enfrentavam crises económicas, forte endividamento e persistentes formas de influência herdadas do passado colonial. Foi neste contexto que Sankara procurou afirmar uma via própria, centrada na valorização da produção nacional, no combate à corrupção, na emancipação das mulheres e na mobilização popular como instrumento de desenvolvimento.
22.04.2026 | por Pedro Oliveira
O estudo da língua Kikongo vai além do simples exercício linguístico, constitui uma via de acesso ao conhecimento de uma realidade histórica e cultural profundamente enraizada na África Central. Integrado no vasto grupo das línguas Bantu, o Kikongo é falado por milhões de pessoas em países como Angola, República do Congo e República Democrática do Congo, sendo a língua tradicional do povo Bakongo.
14.04.2026 | por Pedro Oliveira
Se aceitarmos que o nosso presente está marcado pela emergência de uma nova ordem mundial à qual chamamos capitalismo algorítmico - com a produção de guerra e caos e baseado na lógica do conectivismo entre homem e máquina - quais desafios temos à nossa frente, em termos de ações e da sua organização? Ou, dito de outras formas, como construir as conexões com aqueles segmentos da cadeia indispensáveis para que o conflito seja levado lá, onde o capital ganha maior força, isto é, onde produz informação abstrata, por meio da apropriação da cooperação social em escala global?
22.03.2026 | por Stefano Rota e Rodrigo Magalhães
O contexto contemporâneo é diferente, os atores multiplicaram-se e o próprio Estado congolês atravessou transformações significativas. Contudo, a questão central colocada por Lumumba, de quem controla os recursos e em benefício de quem, mantém-se atual. A sua memória persiste não apenas como símbolo anticolonial, mas como uma interrogação política ainda em aberto sobre soberania e autonomia africana no século XXI.
06.03.2026 | por Pedro Oliveira
São vozes da diáspora, vozes ocidentais e vozes resistentes em África, que questionam, propõem e avançam novas formas de pensar, representar e acreditar em África e no seu futuro. Na sua superação. Porque depende de uma renascença africana o respeito pela Identidade e Imagem dos Negros à escala global. Sem essa ascensão de África os negros continuarão a ser alvos de racismos mais ou menos velados, mais ou menos estruturais. Essas vozes percebem que a Imigração de africanos para a Europa ou para a América, não é solução para os seus problemas identitários, que estão radicados em África.
06.03.2026 | por Brassalano Graça
Constituindo-se como cenário “neutro” que, na realidade, continua a operar sob limites opacos entre consentimento e poder colonial, enquanto a negação das subjetividades protagonistas se expressou em categorias genéricas como “índio” ou “encontro”. Perante essa forma de vigência colonial, todas as narrativas simultâneas que se lhe contrapuseram, bem como as contradições e afrontas à nostalgia imperialista, entraram em confronto com a hegemonia ideológica, arquitetónica e visual imposta por este lugar desenhado segundo os padrões de um claustro colonial ajardinado.
03.03.2026 | por Lorena Tabares Salamanca
Em causa, como no caso da disseminação da Caixa Preta, estariam então uma série de mal-entendidos: entre concepções do tempo e modos de fazer, filiações dramatúrgicas, modos de habitar a cidade, modos de entender o teatro e o fazer artístico. Mas para entender o que está em causa num mal-entendido é sempre necessário proceder a um exercício de localização dos vários entendimentos das partes em questão, ou por outras palavras, o mal-entendido opera frequentemente como revelador de formas de temporalidade e regimes de historicidades diferentes.
01.03.2026 | por Ana Bigotte Vieira
A violência é a matriz da política. A história das nações não é de abraços à volta da fogueira, invocando ancestrais, mas de sangue, medos, tributos e exércitos. Tudo o resto, as leis, os parlamentos, as constituições, são apenas ferramentas de gestão para manter a máquina oleada e disfarçar essa verdade antiga da civilidade: lei do mais forte. Como disse alguém: a paz é a guerra bem administrada. É só estar atento ao termo “pacificação”.
Considerando isso, como podemos ler a situação da Guiné-Bissau, fora de uma análise simplista e maniqueísta?
27.02.2026 | por Marinho de Pina
Perseguido, vilipendiado, ostracizado, completamente arredado do ensino formal oficial, religioso e particular e activamente reprimido, menosprezado, marginalizado e estritamente circunscrito à comunicação oral nos meios populares mais humildes e desapossados pelos poderes estrangeiros opressores vigentes no período da consolidação da dominação colonial portuguesa na sua forma clássica, o crioulo caboverdiano logrou resistir com sucesso às investidas coloniais glotofágicas e assimilacionistas.
24.02.2026 | por José Luís Hopffer Almada
Hoje, cinquenta anos depois da independência, em que a língua materna teve um papel pedagógico e mobilizador fundamental, valorizar o cabo-verdiano passa por assumirmos a responsabilidade de perguntar, sobretudo quando comunicamos para o grande público: o que estou a escrever está conforme? Respeita minimamente as convenções existentes? Contribui para fortalecer ou para fragilizar a língua? Como posso escrever melhor e enriquecer, a partir da nossa própria fonte, com matérias endógenas, esta língua nossa, o cabo-verdiano?
23.02.2026 | por Apolo de Carvalho
Quando os livros finalmente nomearam o que Portugal tinha feito, chamaram-lhe Era da Descoberta, mas pelo menos foi escrito. Por mais que tenham suavizado a linguagem, polida que fosse a história, pelo menos ficou inscrito. O Atlântico deixou um rastro documentado. O deserto deixou marcas quase imperceptíveis na areia, constantemente erodidas pelos redemoinhos do deserto, embora essas areias devem ser assombradas pelos angustiados e ensanguentados, separados das suas linhagens, identidades, vidas e, muitas vezes, membros e órgãos genitais.
21.02.2026 | por Chinenye Egbuna Ikwuemesi
A literatura cabo-verdiana tem continuidade e novos intérpretes. Fredilson Semedo é um deles. A sua poesia revela compromisso com as duas línguas de Cabo Verde e diálogo com grandes mestres da tradição lusófona e universal. Felicito o autor por este marco na sua trajectória literária.
16.02.2026 | por José Luís Hopffer Almada
Passou a visitar as campas dos seus ancestrais frequentemente, o seu maior desejo era ver-se livre desta vida terrena cheia de abismos. Num desses dias enquanto dormia, despertou e ouviu vozes ruidosas a chamar por ele em direção ao cemitério familiar e para lá foi. Quando ali chegou, ajoelhou-se na campa do avô e gritou: levem-me às alturas. No mesmo instante, uma serpente apareceu.
10.02.2026 | por Edna Matavel
O que faz, então, uma família ser uma família? Será puramente genético — uma linhagem que pode ser traçada até uma ancestralidade comum — ligando pessoas de lugares, línguas e vidas diferentes? Sabemos que os laços emocionais e a memória coletiva desempenham um papel importante nas relações de sangue. Ao mesmo tempo, a família é também uma unidade económica e, em muitos aspetos, um microcosmo da sociedade em que existe.
07.02.2026 | por Avital Barak e Edgar Oliveira