Baralho de Cartas 3

Marta,

Os dias funcionais, como lhes chamaste, impuseram-se como uma parede. Felizmente são revoadas, temporadas em que experimento o método mais comum de arrancar o espírito do corpo, um trabalho mecânico, repetido, sem forma de me desviar. Depois, tenho de me parir outra vez. Ainda assim, usufruo do que é roubado à maioria, uns dias para me dedicar à multiplicação das almas. O esforço para existir nasce contra o pântano onde me volto a enterrar. Na verdade, a dormência nunca me abandona por inteiro, recomeça a cada dia, o paralítico tem de se pôr a andar sem um milagre da Igreja Universal. Depois de uns passos na direcção contrária das estátuas, a alegria e outras selvagerias correm debaixo das máscaras, quando dançamos tudo se põe a tremer. A paralisia é o contraponto da acumulação, uma é o sonho da outra. Aprendo o vigor da pobreza, a alegria do que repudia o vazio e a imobilidade.

O mundo estilhaçou-se, quebrou-se em bocados, como uma esfera de cristal derrubada por um demónio. Reconhecê-lo não é um gesto de inação, nem de tristeza acabrunhada, é identificar como nos isolamos uns dos outros, como se separam as coisas umas das outras, ao ponto de não querermos saber, de não vermos, nem a miséria, nem o sofrimento, inscrito em cada uma delas. As relações criadas neste espartilho são desonestas por defeito. Os empresários de si próprios usam a língua como um instrumento, um ardil, a comunicação só procura efeitos decididos à partida. 

Queria falar-te de outras coisas, sobre os dias em que ando na rua contra a maré dos que trabalham, sobre o entusiasmo de te ler a atravessar a noite de Lisboa, perguntar-te sobre as virtudes que falas quando as paredes e a pele se fazem pardas. Estou de folga, a Francisca convidou umas amigas cá para casa, mergulham numa encenação sem hesitar. Fecho a porta, folheio uma mão-cheia de livros, as vozes passam pela porta empenada, não vivo num tanque, no entanto, na minha cabeça, quantas vezes não me enfio numa barricada que me esconde da alegria. Os pequenos nunca se aborrecem quando estão juntos. Se me entusiasmo como eles, chamam-me tonto. A begónia tem as folhas mortas penduradas, esqueço-me de a arranjar, gosto do ar bravio que dá ao vaso, como lianas à sua volta. O que precisaria para despontar tal entusiasmo? Não me lembro onde li que as coisas mais sólidas que construímos são as prisões e mesmo os caixões são de mogno para ver se nos aguentam mais tempo. Onde quer que vá tenho de me pôr a escavar para encontrar alguma coisa.

“Pouco a pouco, toda a alegria se desnuda.

Avançamos na complexa árvore da visão.”

Valéry

Pierre Alechinsky, Cachet faisant foi, 1977Pierre Alechinsky, Cachet faisant foi, 1977

Não creio que o sofrimento seja condição para nada. A disciplina e a coragem, que nascem, por vezes, em quem o atravessa, são a única utilidade que pode ter. A “agonia essencial” do poeta é uma medalha fosca de quem ignora o prazer que o mártir sente, o gozo de se ver como excepção. Os poetas que armazenam sofrimento, vivem numa visão heroica de si mesmos, quando, na verdade, se tornam um corpo sem pele, sobre-excitado, que deixou de tolerar o contacto com o mundo. Nietzsche, que criticou sem piedade a exaltação da via dolorosa, escreveu no Zaratustra: «Os homens corajosos e criativos nunca concebem o prazer e a dor como questões de valor absolutas, são estados correlativos, é preciso querer ambos se se quiser alcançar algo.» A crítica que faz ao budismo, e as consequências de conceber o sofrimento como o fundamento da existência, é nos bastante útil para pensar alguns problemas do nosso tempo: «O budismo é uma religião para homens tardios, para raças dóceis e gentis, que se tornaram hiper-cerebrais e sentem o sofrimento com demasiada facilidade» (Anticristo). Nunca fomos tão desapegados do corpo, e este nunca esteve tão desprotegido face ao exterior. Tudo isto vai de par com o dilúvio do Mindfulness, e outras importações de pacificação oriental. A sensibilidade em carne viva e o carácter mental que Nietzsche atribui ao budismo resulta numa sociedade de seres deprimidos para os quais o egoísmo se torna um dever. A fuga dos apetites e o isolamento é uma dieta espiritual. Uma negação da vida, face à qual a única escolha é deixar de existir. Este modo de ser é acolhido calorosamente pelos senhores no poder. A felicidade, apregoada por Buda, da ausência de sensações, não só constitui o escravo ideal, como, principalmente, gera o capitalista mais feroz, aquele que nunca se tornará solidário do sofrimento alheio.

Quando sofro estou fechado numa prisão, num corpo que se torna passivo, submetido ao fluxo insuportável, enclausurado numa perda de potência e expansão. Ao sofrer, estou num espaço confinado que provoca em mim um mal-estar do qual não consigo escapar. Tornar esta diminuição de si no fundamento da escrita só serve uma visão sacerdotal de poetas que saltam de missa em missa no comércio da sua salvação. 

Não confio senão na alegria, na expansão e tenacidade em fazer coincidir a maneira de viver, ler e escrever numa mesma astúcia que me afasta dos empregos mortíferos do tempo. O ritmo, o movimento e a vertigem desse outro tempo são sinónimos de alegria. Há, ao contrário do sofrimento, uma abertura ao que vem, a descoberta de um corpo em relação, que se faz entre corpos. Quando sofro quero dormir, nenhuma enxaqueca me fez querer estar desperto para a sentir. Quando saio do tempo mecânico, ou do tempo da dor, através da escrita, da dança, de uma conversa, é para encontrar a linguagem do despertar. Um tempo que se manifesta, e não vem pregar moralismos sobre o que atravessou, cujo poder está no presente que abre. «Seja qual for o ângulo de que se olhe, o presente não tem saída» escrevem os tipos do Comité. Antes de nos metermos a desenhar futuros que seriam estrangulados pelos projectos de si mesmo, tentemos dilatar o presente ao impossível que merece.

A escrita desenlaçada da alegria é a escrita dos funcionários, dos notários, dos agentes comerciais, a que se tornou oficial… Adão a nomear os animais, devia estar extático, ébrio de assombro e alegria, como se presenciasse o nascimento do mundo. Na língua adâmica, a qual é o oposto da linguagem do comércio, cujo valor simbólico é nulo, nomear é um segundo nascimento. A língua entre os dentes divinos fazia nascer corporalmente, na boca de Adão fazia o mundo entrar nos descampados do espírito. Conhecer é um acto que gera alegria, esta foi a semente que colhi na “Gaia Ciência”. Mesmo o conhecimento de algo terrível, enquanto algo que te reposiciona no mundo, que te move, é acompanhado de um enlevo. O princípio da descoberta, da criação, é alegre, porque te dispõe face a um mundo novo. A tristeza é ficarmos encurralados naquilo que somos. Alegria é redescobrir o mundo, esse queijo que enche a forma numa harmonia, Kosmos, como lhe chamavam os gregos. Redescobrir o desejo, esse buraco hiante que nos habita, colocarmo-nos nas situações que nos desenformam, falar, dançar… Acabei por te falar pouco dos modos concretos como resisto ao esmorecimento. 

 

Ler Carta 2 da Marta 

Ler Carta 1 do Ricardo

(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

 

por Ricardo Norte
Mukanda | 14 Janeiro 2026 | Baralho de Cartas