Baralho de Cartas 17
Marta,
Escrevo-te junto à janela da biblioteca. Procuro alguma coisa que me arranque ao cisma onde caí. Talvez devesse voltar à crítica, a leitura afincada a que me obriga, a posição orientada, a circunspecção, retira-me da navegação ansiosa em que me encontro. Do outro lado da janela, uma senhora de muita idade, tirou um lenço do bolso, limpou o pó do beiral, e sentou-se encostada ao vidro. Com um xaile roxo na cabeça, muito direita e quieta, olha para o pequeno parque à sua frente. Tem um olhar terno, um sorriso de pequena. O “agora” não lhe surge brusco como um lobo, ou, se surge, não parece ter medo dele, olha-o como um cachorrinho que se rebola na erva. As vozes que ouço levam-me para as margens, para a selvajaria da falta. Ela tem um rosto brando de quem escuta um cortesão manso e cuidadoso, um rumor frágil que a acompanha junto à mudez e à invisibilidade. Os olhos cinzentos, pequenos, movem-se tão devagar que, se não a olharmos com a mesma lentidão, não os vemos mover. Os sentidos soltam-se das coisas para a sua consciência com o vagar de quem se passeia pela sua imaginação. Isto, fantasio eu, que só vejo um rosto do outro lado da janela. Dobro-o, estico-o, alongo-o, no meu espelho empenado. Lembro-me do Rouch, olhei cinco minutos para esta mulher e estou aqui em divagações. Cinco minutos parece ser suficiente para me arrancar ao espírito do tempo, tão veloz é a sua demência. Precisávamos de outros mitos para habitar uns com os outros. Coleridge escreveu algures que o amor talvez seja um sense of Being seeking to be self-conscious. Deslocação perpétua, como um felino que se atravessa à nossa frente até sermos capazes de o ver.
Paul Klee. Ao cuidado do anjo (In Engelshut) 1931 (watercolor, graphite, paper mounted on cardboard) Solomon R. Guggenheim Museum.
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