Baralho de Cartas 7
Marta,
Estive em Lisboa, levava no bolso uma imagem da cidade, marcas e intuições das últimas vezes que lá passei. A catadupa de movimentos, o furor monótono, acompanhava-me através de fantasmas deslumbrados. Algumas sociedades primitivas procuravam dar ao grupo a forma de um vaso, auto-gerado, uma vasilha onde o conteúdo se contém a ele mesmo, nessas culturas a solidariedade era uma disposição morfológica, as vidas rimavam com a forma que surgia de si mesma. Lisboa, de um modo próprio, mas similar a outros lados, é um vaso quebrado, tudo se desagrega, se derrama, há uma dessolidarização que desponta de um congelamento, como a cascata que numa velocidade extrema parece imóvel.
Andei dois dias favorecido por outros ventos, enamorado, foram dias de fósforo na corrente onírica. Não me lembrava das metamorfoses que o corpo é capaz, como é inflamável, como o imprevisível nos volta do avesso, como outras cartas aparecem sobre a mesa, como surgem regras que implicam decisões vivas, imediatas. Neste ímpeto, solidarizava-me com tudo. O vaso quebrado, cintilava. (Imagina que um guarda me acompanha por todo o lado. Habituado à sua presença, arrasto o passo, os caminhos assemelham-se, as fachadas acinzentam-se, tenho o sangue torpe de um veneno qualquer. Vivo numa linguagem espelhada, como Midas, meio cego a alterar o que toco. Mas, esse homenzinho, deixou-me no meio da cidade e desapareceu.) De repente, não tinha como reconhecer o que me rodeava, as coisas vinham de encontro a mim com uma força inesperada. O céu voltou a mover-se, rodopiava sobre os telhados. Os cacos da cidade cortavam, exaltavam-me, qualquer coisa grande e extensa me atravessava a mim e ao espaço.
New years card, Murakami Saburo
Tudo isto tinha um laço, frágil e destruidor, que me arrancava ao “cada um faz o que pode”. Escolhia livros para Óbidos e corria num labirinto onde o que podia, ou não podia, me abandonava como um perfume velho. Os livros empilhavam-se num automatismo inútil, a minha cabeça vadiava entre as Laranjeiras e o bulício da baixa onde me ia encontrar com uma mulher. Quando saí de Alcântara há muito que lá não estava. Entrei no comboio, pedi direções ao condutor, contou-me como a vida se quebrou depois de uma operação. No Cais do Sodré, um mar de gente, sorrisos, mapas, mochilas, olhares arregalados, bêbados de tudo o que esperavam, deslumbrados num filme produzido por um guia qualquer. Enquanto isso, estava de bexiga cheia e sem trocos para pagar a renda da casa de banho. Meti-me à conversa com uma mulher que cuidava do espaço, estava exausta de tirar o fedor ácido que não fazia parte do guião. Subi a 24 de julho e mandei-te uma foto, se me lembro, falei-te das luzes e da correria, do meu cansaço, que tudo me parecia familiar, como se estivesse preso num sonho, falei de purgatório, como se o Tejo fosse o Aqueronte.
Estou encantado por uma mulher das Laranjeiras. A cidade estava aberta como um jardim. Normalmente, andaria cabisbaixo, metido comigo mesmo, não falaria com ninguém. Mas, este pensamento, dava cor a tudo, uma história, outra, poderia começar. Com dizias na tua carta, os dias são fogosos, talvez andemos a brincar aos pirómanos. O vaso partido, não é apenas uma cidade que se desagrega, a dispersão ganha um encanto musical, como uma fuga de Bach, as coisas perseguem-se como melodias, entrançam-se umas nas outras. Cheguei ao café onde tínhamos combinado, o tempo passou como um foguete. Não te vou enfadar com conversas de enamorado.
Obrigado pelo convite para o retiro alentejano, gostaria muito de ver o orvalho perlar o lombo dos borregos. Deve ficar-te bem o Kispo roxo. Contente por saber que andas com o olhar num braseiro. Quando li “a tua Hilda” no fim da carta, pensei: não há entre os mortos que amamos e nós, que existimos a custo, uma corrente de ar indomável? Já estava num terreno inclinado, e tu meteste-me um skate debaixo dos pés.
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(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)