Baralho de Cartas 19

Marta,

Viva, que bom voltar a ler-te. De repente, estás aqui, contra todas as circunstâncias hostis à tua liberdade. Fico feliz de saber que tens um escritório só para ti, onde podes lutar com mais afinco contra a adversidade, contra o lado sombrio dos tempos modernos que Bernanos dizia serem uma conspiração contra a vida interior. Esta semana estive num torpor vegetal, como se me dissipasse na passividade das coisas. Invadido por seres microscópicos, o corpo empurrou-me para um barranco, tive de esperar, atordoado, pelas tréguas do combate. Entretanto, lá fora, aves gigantescas sobrevoavam as ruas, penduravam-se nas varandas, nos telhados, andavam pelos becos como cegonhas em Lilliput. Não estou febril, mas as gaivotas fazem uma gritaria danada por causa da tempestade, é me fácil imaginar a cidade tomada por seres alados, com os afiados ossos amarelos espetados nas sarjetas e nos caixotes. Todos encrespados, numa pândega infernal, à espera, enquanto me escondo nas almofadas. Os cataclismos, deste lado, sempre foram mais imaginários do que reais. Tenho muitas histórias com pássaros, poderiam encher umas cartas, algumas diabolicamente elaboradas. Durante anos, por volta de abril, pelas três da manhã, vinha um andorinhão para o meu telhado, com um tesão desgraçado, ainda com o fulgor africano a estremecer-lhe as penas, guinchava noite adentro à espera de uma resposta. As janelas são de papel, os carros zumbem-me na cabeceira. Não tinha como não acordar com os berros do pássaro solitário. Cheguei a pendurar-me na janela, não fosse ter um ninho no beiral. Quase me estatelei no alcatrão. Acabei por me habituar à passarada.

Quando fico doente procuro concentrar-me nas alterações da percepção, como se fosse uma droga. A gripe não vai muito longe, mas, mesmo assim, com alguma atenção, o espaço modifica-se e estou noutra relação com o corpo. O centro de gravidade baixa ligeiramente, o ar fica líquido. O tempo é espesso, não passa sem me deixar besuntado de indecisão, a impotência tem a consistência dos fluidos nasais. A única coisa que lhe dá dignidade é a febre. Esta, toca-me com o seu dedo letárgico de medusa e adormeço sem dormir. A preguiça engrossa como um molho enfarinhado. Os sonhos não escondem o cunho de prefácio, rodeiam o desconhecido sem o chegarem a atravessar. Tacteio portas e janelas que não abrem. Michaux diz que a febre gera mais animais do que os ovários. Se não tivesse tomado tantos brufens poderia ter entrado nesse jardim, assim fiquei na sala a olhar pela janela.

Perguntas se a realidade terá pesos diferentes conforme os meios e suportes? Não tenho qualquer dúvida. Holderlin escreveu que também se pode cair para cima. Creio ser essa a direção em que nos despenhamos. Na verdade, não temos por onde nos orientar. O Norte aquece, o Sul arrefece.

Owl Mocked by Small Birds, Kawanabe Kyōsai, ca. 1887Owl Mocked by Small Birds, Kawanabe Kyōsai, ca. 1887

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por Ricardo Norte
Mukanda | 6 Maio 2026 | Baralho de Cartas