Baralho de Cartas 2

Ricardo, 

Li a tua carta às 1h 49 num Bolt conduzido por Simrjeet, entre o Martim Moniz e a rua da Rosa. Não me lembro da cara do motorista, talvez nem tenha olhado para ele, nem para a fotografia. Entra-se e levam-nos ao destino sem trocar palavra. Explorados ao ritmo de onze horas por dia, andam invariavelmente exaustos para mais do que suspiros. Talvez escondam brasas acesas por dentro dos olhos de sonâmbulos. Vamos lá saber. Então, ao mesmo tempo que tentava agarrar a tua voz, a do “desconhecido do Oeste”, uma parte da cidade ia desfilando. Fantasma, periferia do corpo, desolação, ladrar dos cães, Cesariny, Fisher, comunidade, as tuas palavras misturavam-se com o que ia entrevendo - elétricos, bêbados, turistas, caixa de multibanco, sinal, café de esquina ainda não gourmet. 

Seguia animada e ansiosa, sensações que normalmente se coordenam para mutuamente se inflamarem. «Bicho carpinteiro», chamou-me nessa noite um amigo antigo, «a vida toda foste assim», um pouco a despropósito, apenas saltava de um jantar de aniversário para outro (e não de uma cama para outra), que se sucederam à poderosa manifestação Não nos encostem à parede! pelos emigrantes. Foi tocante fazer parte do corpo-cidade, uma onda de gente agigantava-se na avenida. A Almirante Reis, atravessada por vivências e histórias, a cada dia reescritas precisamente pelas lógicas comerciais das redes de imigração, é um dos observatórios do nosso tempo. Nessa tarde, grande parte dos que admiro neste país resinguento estavam ali concentrados, foi bonito vislumbrar amigos das mais variadas proveniências, ao longe ou num abraço. E, para além da esquerda habitual - não eram só meia dúzia de líricos -, muitos imigrantes iam a representar-se a si próprios, empunhados e corajosos. Ouvia-se palavras antifascistas e antiracistas em poliglota. Fez-me sentir, sentimos todos, creio, um calor coletivo e de unidade: unidos também contra os abutres e lacaios do ódio que nazificavam uma praça um pouco mais abaixo. O calor dessa antiquíssima força de cerrar fileiras contra algo - há sempre alguém que resiste - deve vir em igual medida das feridas sociais, ciclicamente reabertas e alastrantes (as metáforas de enfermaria na luta já terão sido estudadas?).  

Chegada ao destino, queria dizer-te:

Ei, Ricardo, sim, é possível não sucumbir à impotência, aos queixumes da esquerda que parece só ter cinismo para oferecer. Não deixemos que os aparelhos ideológicos e as pós-verdades instrumentais capturem as forças da revolta e do descontentamento. A crise tem barbas longas, sempre estivemos nela e cada geração profetizou o fim, a falência das instituições, a cegueira e a idiotice gerais. Agora acresce a percepção, um pouco menos miope, da extinção da humanidade, esmagada por um sistema de produzir riqueza e miséria que fodeu o que sobrevive no planeta. Mas ficar à mercê do abatimento, do não há nada a fazer, do alarmismo neurótico, parece-me a pior estratégia de todas. Alegria, há que praticá-la. Se fecharmos o riso, o amor não tem por onde entrar. Se nos desobrigarmos da curiosidade pelo outro, perderemos esse enigma que, quase sempre mas nem sempre, vale a pena. Esse outro que nos entrega a novos destinos de nós. 

E ainda, não sei se sabes, mas a noite em Lisboa pode ser bem mais transformadora do que aparentam as paredes amarelas de candeeiros tristes, as quimeras de paz ou a indústria do divertimento. Se nos entregarmos aos seus murmúrios e sonhos vadios talvez se consiga despir a pele de condenados, romper as muralhas de uma cidade cercada de unicórnios translúcidos. Falo por mim, que preciso de sair das quatro paredes e dos dias funcionais, ganhar reservas imaginativas para aguentar o hiperrealismo trucidante. Reservas de prazer contra a exaustão dos corpos entristecidos.

Isto para gritar-te: nem tudo está ameaçado, se pusermos o nosso plano em prática.  

Que outros lugares ecoam no lugar que habitas, perguntas-me. Os lugares e tempos onde fiz quotidiano voltam a habitar-me como se tivesse continuado em qualquer um deles, como me obrigasse ao sustento de várias famílias, uma espécie de provedora de condições dos outros  para me garantir também. Nessa revisitação, desenho um mapa afetivo que me liga às pessoas, lugares e patrimónios de luta. Dá vertigens percorrê-lo, o mapa é bem gigante e intrincado. Não escolhemos onde nascer, mas podemos escolher os nossos lugares onde semear afeto e espanto. 

Continuo a preferir a intensidade das experiências fora dos sets espectaculares e das redes virtuais. Carne com carne, cornos com cornos. Aliás, é cada vez mais sinistro, e meio bizarro, assistindo às trincheiras ideológicas, nichos de gosto, vigilância e algoritmização da vida, sabendo que estamos a dar tanto guito e informação aos oligarcas tecnológicos, o facto de permanecermos nos adornos virtuais. Como é que ainda nos damos ao trabalho de convencer, seduzir; expressarmos o que quer seja por essa via de “partilha”?  Uma das nossas grandes contradições, mas a verdade é que este disparo assim de missivas, para sei lá que destinatários, é meio viciante. Bom, tu és bem ativo na partilha online do “sensível”, bem vejo o que escreves e postas nas redes, Gosto (literalmente) quase sempre. E em Óbidos vieste apresentar-te como “meu amigo virtual”. Sim, é possível fazer amigos no espaço virtual, onde já perdemos outros tantos à conta de “questões políticas” e “bué mal-entendidos”. 

No espelho distorcido do virtual, é possível odiar-se e bajular-se, partir o verniz, espalhar o ódio e a desinformação, ser o heroi dos anti-críticos e andarmos a snifar das tendências uns dos outros. É também uma forma de mapear os “lugares dos outros”, as suas posturas performativas.  

Nas revisitações de que te falei descubro um jogo perecível de mudar de casa, de país e de quotidiano, em permanente readaptação - ouvindo os galos a cantar e os cães do próximo lugar a ladrar, os teus cães de Lao Tze. Um acto contra a nostalgia ou, pelo menos, assim o entendia, que me obrigava a expandir amizades e cumplicidades. Tentava libertar-me da impressão física quando os pés se habituaram a determinados caminhos, os ouvidos a certos discursos e o coração a paliativos. Brincava a mudar de vida para não petrificar em frases do género “esta é a minha vida”, guardando fresca a surpresa. Estava um pouco viciada em pôr à prova a capacidade de adaptação. Como uma personagem que “renasce”, mantendo a esperança e a lucidez num mundo corrompido. Ironicamente, esse jogo prende-me agora numa cápsula talvez nostálgica, mas em nada entorpece o desejo de continuar saltos, pulos, trapézios, prolongar a vida em queda-livre. 

Postal de Lenore Tawney to Katherine KuhPostal de Lenore Tawney to Katherine Kuh

E agora pergunto-te, para pensares comigo, porque é que a alegria verdadeira, essa irrupção do exterior em nós, não é, aparentemente, compatível ou valorizada na escrita? Por ser preferível experimentá-la, a alegria, do que escrevê-la? Os cultuadores dos abismos elegem o sofrimento, a dor que dilacera e só a escrita faz renascer, como condição para a criação. O desespero e o sofrimento são responsáveis por três terços da boa produção artística ocidental. Um “transporte trágico” (Holderlin), um “arrebatamento mortífero”, um “êxtase desmesurado”, um “pathos funesto” (Kleist), um “encantamento amaldiçoado”, um “enlevo catastrófico”. Aposto que “um arrebatamento feliz” não dá direito a acumulação literária. 

Devo dizer que me aborrece a escrita do ressentimento, ou a escrita como terapia para angústias e dores abissais. Ponho-lhe um emoji de coraçãozinho e já vai com sorte. Percebo o potencial de ir ao âmago da experiência, a escrita que se esvai da fúria e da perda, entendo a necessidade de drama para accionar o acontecimento. E, claro, reconheço e valorizo a extrema importância da literatura do testemunho, sobretudo para as mulheres. Mas igualmente desafiante seria cavar no âmago da alegria, capaz de celebrar a vida apesar do sofrimento e dos desafios, uma alegria trágica e afirmativa, como defende F. Nietzsche, simples contentamento. Porque se associa a alegria a algo fútil e leve, um contentamento acomodado, que nunca dará grandes personagens de ficção, nem conflitos a resolver? 

É isso, pretendo compreender o poder transformador da alegria, não entretenimento  alienante, mas como sensação viva e possante, que nos dilata em vitalidade. A tristeza diminui a nossa potência de agir, enquanto a alegria a aumenta, Spinoza dixit. Como canta a Gal Costa, naquela voz vitaminada que nos alimenta em sobra: É preciso estar atento e forte / não temos tempo de temer a morte. Uma alegria anti-individualista que nos nutre e nos mantém desejantes. A sensação prazerosa que, quando vivida em coletivo, o corpo intensifica e reconhece com toda a nitidez. Porque a alegria torna-se revolucionária quando é partilhada, opera num reconhecimento antigo e imediato. Por mais que mudem os tempos e vontades. O mundo precisa de tesão existencial, então dancemos, como a nossa querida anarquista judia russa, Emma Goldman «If I can’t dance, I don’t want to be part of your revolution».

Não se fazem revoluções com corpos tristes nem mentes cansadas. Conto contigo para me ajudares a adentrar na matéria da alegria, para lutares pela alegria.

 

Ler CARTA 1 do Ricardo Norte.  

por Marta Lança
Mukanda | 7 Janeiro 2026 | Baralho de Cartas