Baralho de Cartas 8
Ricardo,
I feel love, canta a Donna Summer numa sonoridade futurista e minimalista que nos hipnotiza por oito minutos, prometendo que qualquer coisa vai desenrolar-se. O que será?
Escrevo-te de uma tasca em frente à estação de Santa Apolónia. Morar perto da estação facilita-me a elaboração de planos de fuga. Todos os dias me ocorrem ainda que me conforte a agitação nas imediações da estação. Tantos destinos marcados e apressados, até os indigentes parecem ter um desígnio cinematográfico neste décor de fim da linha junto ao rio. As vozes roucas de homens encostados ao balcão, que pausam na tasca para chamuças e imperiais, devolvem-me alguma raíz enquanto os comentadores na tv permutam argumentos sobre o Hamas e o martelo da guerra-mundo nos estilhaça os ossos.
Já tudo terá sido escrito sobre a espantosa deslocação no interior de um comboio: o cenário desfila constantemente, mutante e apelativo, fazendo-nos esquecer que somos nós o movimento. Dentro da carruagem, o comboio pode até embalar, mas no meu quarto o som do comboio entra-me pelos pesadelos. É aquele arranhar de carris, vespertino e cortante, que me anuncia o dia trazendo uma lista dos que vão morrer hoje.
Até podia tirar o dia e ir visitar-te, mas reparo que os comboios de Lisboa para as Caldas, entre as anacrónicas opções regional e interregional, demoram cerca de três horas vagarosas. Ainda ontem falei com amigos em mudanças para a tua cidade, que garantiam “é só um tirinho até às Caldas, não é nada isolado”. Mas não haver ligação de comboio com Lisboa em condições não te provoca aquele bichinho do isolamento? Agora que andas no encalço da rapariga das Laranjeiras, talvez isso seja uma questão.
Se há pouco tinha o “olhar num braseiro” agora foge-me o ânimo para escrever, embora converse mentalmente contigo durante a semana. Em breve estarei forte, tampouco estou frágil, apenas ensimesmada, talvez precise de pôr em prática máximas basilares meio auto-ajuda, como aquela que diz: be the change you desire.
Com as amigas, ouvimos a “Witches’ Song”, da grandíssima Marianne Faithfull que recentemente se despediu deste mundo sádico. Não há nada melhor para não nos deixar cair do que família das bruxas, acompanha-me à séria, ponho todos os dedos no fogo por esta família. Sister, we are waitin’ on the rock and chain / Fly fast through the airwaves, meet with pride and truth Danger is great joy Dark is bright as fire Happy is our family / Lonely is the ward.

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(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)