Abertura do Colóquio "Como se constrói um país"

Comemoramos os 50 anos de Angola mas, como dizemos no nosso programa, a história de Angola não tem início em 1975, e tão-pouco com os portugueses. Interessa revisitar o passado, a ocupação colonial e os últimos 50 anos da sua história para pensar um país independente e consciente do caminho percorrido, entre a utopia e a vivência real, entre a libertação do jugo colonial e as condições materiais em que se vive na Angola de hoje. 

Paralelamente, comemoro orgulhosa, e da melhor maneira, os 15 anos de existência do portal BUALA, que foi para o ar a 25 de Maio, Dia de África, de 2010, na Bienal de São Paulo. Como muitos saberão, trata-se de uma imensa comunidade, um projeto ao qual me dedico todos os dias, sem exceção, para trazer ao acesso de todos artigos e autores para aquilo que chamamos «pensamento crítico».

Assim, em vez de «comemorações» de efemérides — sobretudo em tempos tão perigosos como estes — interessa manter a postura de problematizar e aprofundar as questões.

E agora preciso de fazer uma declaração de amor e desamor a Angola.

Em 1975, o mundo assistia ao surgimento de novos países no continente africano que tinham estado sob regime colonial português. No seguimento de uma intensa luta de libertação — ou guerra colonial — onde nunca se soube ao certo o número de mortos do lado africano, com os ventos da descolonização e a aprovação da Carta das Nações Unidas, reconhecia-se o direito inalienável dos povos à autodeterminação e à independência.

As independências foram momentos singulares, num misto de grande celebração e de apreensão. São a vitória de tantos que lutaram — não apenas com armas — contra um regime deplorável em que as pessoas racialmente marcadas eram menos pessoas do que outras. E também a perda de abstrações como pátrias tricontinentais e imperiais. Isso demora muito a assimilar nas mentalidades.

No rescaldo da viragem das bandeiras de 1975, no calor dos discursos e dos aplausos, era sincero o grito de Viva a nossa Dipanda! Viva a nossa Dipanda!

Os países renasciam da longa noite da guerra e da opressão colonial. Sacudiam-se as cinzas, engoliam-se os traumas. Tudo era urgente, tudo estava por cumprir.

Que vivam para sempre os heróis tombados pela independência.

Provavelmente os arquivos, fotografias, documentários, fontes orais e escritas não conseguirão dar conta desses tempos. Tampouco aquilo que ficou como lembrança — ora vívida, ora esfumada — alojada no peito e, de vez em quando, partilhada entre amigos no calor de uma bebida.

A memória dos episódios nunca é fiel. Há sempre alguém que diz: não foi assim que as coisas se passaram. Mas também pode ter sido um pouco assim que as coisas se passaram. Assumindo que nunca se vão reconstituir todas as peças desses tempos.

Eu, Marta, uma portuguesa sem qualquer ligação familiar a África, fui viver para Angola quando se comemoravam os 30 anos da independência. Estávamos em 2005. Era o pós-guerra civil, terreno de jogo de xadrez de potências internacionais e guerras frias. Era o início do boom do petróleo, mas, mais do que os 30 anos da Independência, suspirava-se de alívio pela tão desejada paz.

A paz é uma segunda Dipanda, dizia-se.

Na altura pensei na famosa analogia entre os 30 anos e a maturidade. Já não se está na idade arrogante de nada ter a perder; já não se pode culpar o pai — seja o colono, seja o pai biológico — de tudo o que aconteceu a seguir à Independência.

27 de Maio, perseguições internas, mais guerra, exploração de recursos, do território e das pessoas, cleptocracia, autoritarismo, medo e oportunismos vindos de todos os cantos do mundo. Senti um país acordar para a sua história, com muitos fantasmas e violências ainda a ameaçar o equilíbrio das pessoas.

Os herdeiros dessa história difícil e desequilibrada são uma juventude empolgada. Mesmo sem saneamento nem conforto nos chamados «bairros informais», os jovens marginalizados, com pouco acesso à política, pareciam ainda acreditar nas promessas do país.

Por outro lado, numa cultura de guerra, aos trinta anos já se é velho. Não há tempo para largos horizontes ou pensamentos existenciais. A intensidade é imensa. As histórias são curtas e alucinantes: podemos estar aqui e amanhã já ter emigrado ou desaparecido.

Assim, a imediatez das necessidades: arranjar condições para sobreviver, desenrascar, fazer dinheiro, desfrutar do dinheiro. Em Angola, as prioridades pareciam, para uns, comer; para outros, faturar milhões.

Muitos organizam-se e mostram indignação com o partido, com a polícia, com a ausência de Estado social — um grande reservatório das promessas que ficaram por cumprir ao longo destes cinquenta anos.

Por onde começar a mudar as coisas? Nas redes sociais? Nas ruas? Na diáspora?

Da minha relação de vinte anos com Angola — e desculpem mais este paralelo biográfico, mas tem tudo a ver com a razão deste seminário — escolho salientar a alegria e a disponibilidade para entender as suas questões que os caluandas, e todos os angolanos, me têm oferecido.

Os seus gestos hospitaleiros e afetuosos. O riso de gargalhada aberta. A forma teatral e irónica de contar situações tão extremas e biografias tão ricas. A língua solta e inventiva. Pessoas muito politizadas, com a política internacional sempre à espreita para sacar referências, sem exibicionismo. As famílias alargadas. As mulheres tão fortes e surpreendentes. O cabe-sempre-mais-um do funge de sábado — na casa, nas famílias.

As dinâmicas de sobrevivência que dão calo para a vida, e tantas outras aprendizagens.

Tive a sorte de privar com muitas figuras angolanas que fizeram a história acontecer. Pessoas que testemunharam o desenrolar do drama humano e tiveram a ousadia de contar e tentar analisar. E tantas outras gentes implicadas de outro modo, a quem a história — e os interesses dos outros — atravessou a vida, condicionando-a brutalmente. Apanhadas na aceleração da história.

Angola sempre me ensinou muito mais do que alguma vez imaginei. Mudou-me como pessoa, deu-me amigos e matéria de intriga — e de encantamento — para a vida inteira. Ajudou-me a relativizar muitos dos nossos queixumes e da nossa visão autocentrada, muitas vezes como se o mundo não pulsasse fora de nós.

E ajudou-me também a relativizar a própria falta de luz. Por isso foi com um certo cinismo que vivi o recente apagão.

Angola elucidou-me sobre a história de Portugal, sobre os cacos e as feridas do império e sobre como a mentalidade colonizada persiste por longos e longos anos, muitas vezes nas hierarquias raciais.

Angola é um primoroso ponto de observação do melhor e do pior do ser humano.

De lá para cá, da celebração dos 30 para os 50 anos, muita água rolou. Muitos problemas agravaram-se em Angola, mas também em Portugal.

Tal como o legado do 25 de Abril, que todos os dias temos de lembrar e exigir, a Dipanda — a independência — é muitas vezes boicotada, adiada, reinventada, presa às memórias.

Interessa-nos como momento de potencial e como narrativa fundacional, sabendo bem que a história de Angola começa muito antes da ocupação portuguesa e abre muitos capítulos depois da sua descolonização.

Sempre senti desconforto com o facto de a história do colonialismo e das guerras ser discutida entre nós, em Portugal, quase apenas a partir da visão empírica portuguesa, da academia e dos especialistas portugueses.

Sabendo que os angolanos são narradores fascinantes, sempre achei que precisávamos de escutar muito mais.

Como narram os processos e os vários capítulos das suas histórias? Como foi o colonialismo, a Luta de Libertação, a Independência, a guerra civil, a difícil aprendizagem da democracia, a comunicação social, a transmissão da história, os patrimónios em disputa, as reparações e a situação atual nas suas urgências gritantes?

Como debatem e reivindicam as promessas da Independência que não foram cumpridas? Que pensadores são os nossos faróis para pensar os processos de transição?

Para construir novas mundividências, incitamos que, nestes dias, se proceda ao exercício de pensar em conjunto, consolidar o conhecimento sobre o país e encontrar estratégias para o reconstruir, tentando abordar a complexidade dos diferentes momentos e inscrevendo novas historiografias.

Estamos ansiosas para ouvir as abordagens que trazem as nossas convidadas e convidados — docentes, investigadores, jornalistas, arquitetos e ativistas — todos angolanos (menos eu e o Diogo Ramada Curto), numa perspetiva intergeracional.

As vozes preciosas de quem não só acredita em Angola, mas faz diariamente para a desenvolver com a sua criatividade e espírito livre. Como os jovens que arriscam gritar o desconsolo e exigir condições de vida dignas.

Queremos escutar as vozes dessa independência por cumprir um pouco mais.

Os que já não acham tanta graça a que os mais velhos digam: “não foi isto que combinámos”.

É que não foi mesmo isto que combinaram.

Agradeço muito ao Prof. Diogo Ramada Curto e à sua equipa da Biblioteca Nacional, que prontamente aceitaram acolher o nosso colóquio. Agradeço à FCG, que abriu uma linha de apoio para programas sobre as comemorações dos 50 anos das independências.

Agradeço particularmente à minha mana mais nova, Leopoldina Fekayamãle, com quem partilho a alegria de dar o pontapé de saída para estes dias, certamente memoráveis, de apresentações, debates e muitas makas. A Leopoldina, desde o início, participou na construção conceptual do programa e, sobretudo, na materialização das ideias do seminário, sendo uma grande mais-valia por trazer oradores mais jovens e cabeças desempoeiradas também.

À Casa do Comum, por alinhar e ajudar a organizar a parte cultural, que contou também com a curadoria do Jorge Cohen, da geração 80. À Raja Litwinoff, da Falas Afrikas, que está lá fora com livros criteriosamente escolhidos para a ocasião.

Também uma palavra à professora Elisabete Vera Cruz, que comentou e formulou o título Como se constrói um país.E a vocês todos que aceitaram participar, falar e entrar neste exercício de escuta e debate que agora começa.

 

Intervenção no contexto do Seminário “Como se Constrói um País: Diálogos Interdisciplinares”22 a 25 maio de 2025, organização BUALA

por Marta Lança
Jogos Sem Fronteiras | 13 Março 2026 | Como se constrói um país