Baralho de Cartas 36

Ricardo,

Tropecei na tua frase «o tempo morto arrancado como dente podre» um minuto antes de abrir a boca ao dentista. Enquanto as suas mãos de luvas suaves se empenham em perfurar o meu osso maxilar, imagino obras em andamento, terras a serem rebentadas, barrigas de baleias esventradas, mandíbulas de tubarão. Confirmo que o cheiro do próprio sangue não perturba tanto como o dos outros (igual a merda). Espreito videoclipes dos anos 2000 no televisor por cima do holofote, com a íntima zona bocal escancarada. Onde estarão todos aqueles corpos ribombantes dos videoclipes? Que pessoas serão hoje os donos daqueles corpos? Somos donos dos corpos? É impressionante a quantidade de gente que obedece às poses e aos gestos seguros do dispositivo mercantil da imagem, persuadida pela indústria da música.

O dentista parece ler o meu pensamento e comenta que os videoclipes, pela sua neutralidade, são o melhor para os pacientes que «não se sentem bem se passarmos notícias enquanto as cirurgias decorrem». «Ultimamente, nada boas», as notícias, reforça o dentista, caso eu não saiba, ao que respondo com outra pergunta: «Mas quando é que as notícias foram boas?»

Que canseira é viver! Só o facto de ter dentes e de os manter é um verdadeiro problema, prolongado no tempo e pesado para a carteira. Diria que, ao todo, terei gasto uns seis mil euros entre desvitalizações que os matam devagar, reparações e, depois dos 40, dois implantes exorbitantes.

Logo me contraio ao pensar naqueles miúdos lá nas roças de São Tomé, a pedir «doce-doce» aos brancos, e que nunca viram um dentista.

Ando com uma carta para ti na cabeça há que tempos — hoje tenho a desculpa do dentista e do calor extremo para não conseguir escrever. Adversidade momentaneamente superada com ar condicionado. Lá fora, pela tarde, o calor derrete a rua e nós paralisamos no ar espesso e asfixiante, embora o pessoal da obra continue a labuta. De calças e capacete, presos nos andaimes ardentes ou vergados sobre o chão, trabalham à hora em que o sol desfaz um gelado em meio segundo. Trabalhadores negros, muitos deles imigrantes — ainda isto.

Passei o domingo calorento no escritório de Xabregas. Levámos uma ventoinha, claro. Estamos a avançar no Trivial Feminista, a fazer a triagem das perguntas das companheiras espanholas e a introduzir novas. Uma verdadeira abertura de conhecimento, a abrangência é imensa, só as linhas teóricas…

No grande mundo da canalhice, e paralelamente à amplificação das agendas dos feminismos, nas suas pluralidades e diversas urgências, assistimos ao crescimento da desinformação, dos estereótipos, das fake news, da machosfera, dos incels… Os miúdos e as miúdas estão sempre à beira de cair no algoritmo errado e de ser evangelizados por discursos de ódio antigajas. É incrível como a retórica do «politicamente correto», da «ideologia de género» ou do programa anti-woke tem sido verdadeiramente eficaz para deslegitimar e mandar calar quem se atreve a nomear o machismo, o racismo e a exclusão…

É neste contexto nefasto e propício ao machismo que se torna urgente disseminar o feminismo e as práticas feministas. Tenho a certeza de que, se fossem mais conhecidas as propostas e as pistas para pensar o mundo segundo as feministas, estaríamos num caminho qualquer de cura ou, pelo menos, em contramão à impetuosa autodestruição e ao arrasamento perpetrados por homens violentos e descompensados. Pareço-te uma adolescente a escrever?

Depois, saímos exaustas de pensar em conjunto no escritório de Xabregas. À entrada do prédio, sentados ao calor, lá estavam três membros do clube dos degenerados. Olhares vidrados e mentes inquietas. Pediram-me a caixa de cerejas e lá ficaram, a desbaratar as horas ao calor, com leques e borrifadelas improvisadas, a rirem-se muito uns dos outros, como um grupo de miúdos na praia.

Entretanto, ganhei coragem para sair do dentista e abriguei-me no café Flor do Império, na Morais Soares, de onde escrevo agora. Peço água gelada para tomar o antibiótico. À minha frente, uma mulher mestiça — as sobrancelhas bem desenhadas ajudam no ar altivo — conta os trocos para comer um doce de três camadas, não fossem o açúcar e o óleo amigos acessíveis para enganar a fome.

Neste mesmo café, onde um casal de homens com óculos de massa preta fala de «intérpretes sociais» e da «nossa geração», um homem com sotaque «do Leste» insiste em vir à minha mesa procurar o telefone supostamente roubado. Tinha a braguilha mal fechada, não usava cuecas e viam-se uns grandes tomates. Visão desconcertante. O empregado de balcão correu logo a explicar-se, a defender as câmaras e toda a vigilância, pois «não dá para confiar nestes tipos», tentando fazer-me cúmplice.

Os cafés cozinham o bafio da sociedade portuguesa, já se sabe. Mas são pequenos oásis em dias de calor extremo. Por falar em cafés, adoro as descrições do ambiente das tertúlias na Baixa que leio na biografia do HH, exemplarmente escrita pelo JP, que vai revelando o homem que se escondia e se expunha, ciente da própria construção enquanto figura literária, uma aura cuidadosamente arquitetada. Desconhecia a admiração do poeta de O Amor em Visita por Cesariny, que também apreciava ter um séquito de admiradores e não dava abébias a Herberto. Já chegaste a essa parte do Café Gelo e do Mansarda? Que grande ramboia, aqueles tipos!

Enfim, não sei porque te dás ao trabalho de argumentar no FB. Acho meio desmotivante quando só se têm as palavras como terreno de batalha. Sobretudo pelos mal-entendidos das novas arenas, onde os gladiadores do século XXI se envolvem em determinados assuntos mais pelas emoções e pelo exibicionismo retórico do que por fervor mental. Respeito a vontade de confronto, mas esgotar o confronto na retórica é um pouco triste.

Por mim, desafiava-se tudo, até o darwinismo social que nos condiciona a competir, como se a vida fosse apenas uma corrida de vencedores e vencidos. No processo de embrutecimento em curso, saímos todos vencidos. Portanto, não se trata de ser «o mais forte», nem de narrativas de sucesso individual, mas de colaborar e criar possibilidades de futuro, levando-nos uns aos outros, sem deixar ninguém para trás.

Passou o efeito da anestesia, a dor bate forte, tenho de interromper a carta.

P.S. — Vou procurar o documentário sobre a Índia. Ontem vi a biopic do Ney Matogrosso. Admiro a sua ousadia, enfrentando a censura e o preconceito numa cena muito sua, nada panfletária. Transformou a vulnerabilidade em potência estética e política; isso é experienciar muitíssimo a liberdade. Percebo agora quão fundador foi o primeiro concerto a que assisti ter sido o do grande Ney, no Coliseu dos Recreios. As suas danças enfeitiçam-me até hoje.

Lygia Clark, Baba antropofágica, 1973. Ação colectiva com fios, Rio de Janeiro.Lygia Clark, Baba antropofágica, 1973. Ação colectiva com fios, Rio de Janeiro.

 

**Ler Carta 35 do Ricardo, Ler Carta 34 da Marta, Ler Carta 33 do Ricardo, Ler Carta 32 da Marta, Ler Carta 31 do Ricardo, Ler Carta 30 da Marta, Ler Carta 29 do Ricardo, Ler Carta 28 da Marta, Ler Carta 27 do Ricardo, Ler Carta 26 da Marta, Ler Carta 25 do Ricardo, Ler Carta 24 da Marta, Ler Carta 23 do Ricardo, Ler Carta 22 da Marta, Ler Carta 21 do Ricardo, Carta 20 da Marta, Ler Carta 19 do Ricardo, Ler Carta 18 da Marta, Ler Carta 17 do Ricardo, Ler Carta 16 da Marta, Ler Carta 15 do Ricardo, Ler Carta 14 da Marta, Ler Carta 13 do Ricardo, Ler Carta 12 da Marta, Ler Carta 11 do Ricardo, Ler Carta 10 da Marta, Ler Carta 9 do Ricardo, Ler Carta 8 da Marta. Ler Carta 7 do Ricardo. Ler Carta 6 da Marta. Ler Carta 5 do Ricardo. Carta 4 da Marta. Ler Carta 3 do Ricardo. Ler Carta 2 da Marta. Ler Carta 1 do Ricardo.  

(Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

 

por Marta Lança
Mukanda | 1 Setembro 2026 | Baralho de Cartas