Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 2
Um país que recusou morrer de fome
Aproveitando a boleia de “Cabo Verde no centro do espectáculo de futebol”, continuo a relacionar pontas soltas sobre a “excepcionalidade” do país.
A recusa de morrer de fome
Uma experiência que atravessa quase toda a história moderna de Cabo Verde é a fome. Entre as décadas de 1920 e 1940, houve secas devastadoras e uma intensa fome entre 1941 e 1948. Morreram dezenas de milhares de cabo-verdianos. É preciso lembrar que essa fome não aconteceu simplesmente por uma mais demorada falta de chuva, foi totalmente produto do abandono colonial. Um crime político e moral. Nas ilhas acumulavam-se corpos e gente a tentar fugir, a metrópole salazarista recusou reconhecer a dimensão da tragédia, demorou a mobilizar ajuda e nada fez para impedir o desespero de as pessoas morrerem à fome. E ainda silenciou o assunto, sendo mais um dos crimes que não consta na cartilha das maravilhas que “deram novos mundos ao mundo”.
Como escreve o historiador José Vicente Lopes (2021), “a história das ilhas é a história de uma luta permanente contra a morte, onde a sobrevivência se tornou uma forma de identidade coletiva”1. Assim, é impossível compreender as questões de identidade de Cabo Verde sem esta memória da fome, que vai tendo mnemónicas na literatura, na música, nas histórias familiares, e até no modo como se pensa e vive a emigração.
Depois de conquistada a independência, em 1975, Cabo Verde herdou muito pouco para além da pobreza. Não havia grandes infraestruturas nem recursos capazes de financiar o Estado, a agricultura continuava sujeita às secas e a emigração aumentara brutalmente, avolumando a imensa comunidade cabo-verdiana em Portugal (atualmente com 76 mil pessoas), no início em São Bento, Alcântara, expandindo-se para toda a linha de Sintra, margem sul e Oeiras. Cova da Moura, Fontainhas, Vale da Amoreira são alguns dos bairros icónicos da caboverdianidade.
A diferença da gestão da fome é que, ao contrário do tempo colonial, depois da independência, o poder político respondia diretamente perante a população das ilhas, e não perante Lisboa. E também mudou de percepção: se, durante décadas, a fome fora administrada como uma fatalidade em que “morrer de fome” era natural, passou a ser entendida como problema político. Na realidade todas as fomes são um assunto político.
Aponta-se o ano de 1991 como início da democracia, pelo multipartidarismo, mas o Estado veio antes. Foi no período do partido único (PAIGC e depois com o PAICV) de grande centralização do Estado - muita vigilância ideológica e limites às liberdades partidárias - que se construiu, praticamente do zero, a administração pública, a rede escolar, o sistema nacional de saúde, os programas de vacinação e a alfabetização. O planeamento permitiu enfrentar secas sem voltar a acontecer fomes daquela dimensão.
Regressamos à ideia de luta por uma vida melhor (de Cabral) - para comer, estudar, cuidar da saúde, trabalhar, criar os filhos e envelhecer com dignidade - enquanto critério de avaliação sobre os cinquenta anos de independência. Apesar da ideologia muito marcada na Geração de Cabral, nem o debate ideológico - entre o socialismo e a abertura ao mercado - nem as experiências de modelos económicos são centrais em Cabo Verde. Antes de mais, está a contínua procura de condições para que as ilhas continuem habitáveis, e a sobrevivência.
A abertura ao multipartidarismo coincidiu com a abertura económica, e o Estado deixou de ser tido como único motor do desenvolvimento. As ilhas abriram-se ao investimento estrangeiro, à iniciativa privada, e integraram-se na economia global, sempre contando com as remessas da diáspora. A transição democrática em 1991 é considerada uma das mais tranquilas do continente africano. E a estabilidade política tornou-se um “ativo”, nomeadamente para atrair o turismo.
Num certo sentido, o modelo funcionou. Cabo Verde aparece nos indicadores internacionais de boa governação, reduziu a pobreza extrema, melhorou a esperança média de vida, expandiu o ensino superior, desenvolveu infraestruturas e consolidou a tal imagem de país seguro, previsível e aberto ao mundo. Foi nesse contexto que a expressão, acima referida, de “o melhor aluno de África” ia circulando, repetida por instituições internacionais e pela imprensa estrangeira.
A abertura ao mercado trouxe crescimento, investimento, turismo e maior circulação internacional, mas aprofundou novas e velhas dependências. Se Cabo Verde exporta sobretudo pessoas (“recursos humanos”), importa quase tudo o que consome, dependendo das remessas da diáspora, do turismo e da ajuda externa. Ou seja, mantem-se profundamente permeável às oscilações do mundo e as desigualdades cabo-verdianas de hoje explicam-se pelas consequências já conhecidas no guião do capitalismo neoliberal: concentração da riqueza, acesso desigual às oportunidades entre ilhas, precariedade laboral, habitação muito inflacionada - nas zonas turísticas e não só. Ou seja, mantém-se a impossibilidade de muitos jovens imaginarem um futuro nas ilhas.
As dependências, o turismo e os seus espelhos
O turismo tem sido sempre desigual na distribuição das suas promessas. Desde os anos 1990, Cabo Verde apostou fortemente nele como motor económico. Foi o setor que mais trouxe para as ilhas investimento, emprego, infraestruturas, receitas e visibilidade internacional. Foi de facto transformador de paisagens e economias no Sal e na Boavista. Para um lugar com parcos recursos recursos naturais, o turismo pareceu uma solução evidente. Os números impressionam: mais de um milhão de hóspedes por ano em estabelecimentos hoteleiros, crescimento contínuo depois do choque pandémica que acentuou a dependência dos mercados europeus.
Todos os paraísos têm o seu reverso infernal e quem faz acontecer o paraíso, sabe quanto custa mantê-lo e sobreviver nesse paraíso- inferno.
É sabido que o turismo de resort, sobretudo em modelo all inclusive, cria enclaves esmagadores. São lugares onde o visitante consome praia, sol, música, simpatia e segurança sem ter necessariamente contacto com as comunidades e as pessoas da terra, a não ser por transações comerciais. Fica arredado, voluntariamente, da complexidade do lugar. Compra descanso e prazer. Assim, o país da morabeza transforma-se em produto: suaviza-se o funaná e o batuque nos palcos de hotel e restaurantes, e a arquitetura copia fantasias, cúpulas arabescas, máscaras africanas, palmeiras cenográficas. Uma espécie de Las Vegas atlântica mas com mais vento. Até camelos e tendas foram levados para a Boa Vista para simular as Arábias. A paisagem torna-se mercadoria, a cultura vai-se ajustando ao gosto do visitante, e o preço da habitação não está acessível a quem precisa. Em Cabo Verde, os grandes empreendimentos ocupam zonas costeiras, os trabalhadores vivem longe dos espaços onde servem.
Nada contra haver turistas, essenciais nas ilhas, tudo contra organizar o território em função do turismo.
Cabo Verde conhece bem as dependências: primeiro dependeu das rotas atlânticas e dos poderes coloniais; depois das remessas da diáspora e da ajuda internacional; hoje depende fortemente do turismo global, ou seja, não se liberta dessa vulnerabilidade. A pandemia mostrou, lá como em muitos lugares do mundo, quanto uma crise externa pode atingir brutalmente o turismo, enquanto economia que depende da circulação de pessoas. É quase certo que a crise climática também afetará este arquipélago de recursos hídricos limitados, sujeito a secas, sem capacidade de resposta a tempestades (como a de 2025 em São Vicente) e susceptível à subida do nível do mar. Perante este quadro, não convém pôr todas as fichas na cultura de turismo superintensivo em consumo territorial, por mais que lindas e encantadoras as praias, as pessoas a música.
Há ainda outra conquista extraordinária em Cabo Verde. Se durante séculos a escassez de chuva (e a negligência política) levou à fome, migração e morte, hoje, tornou-se uma referência africana na dessalinização da água do mar e na gestão de recursos hídricos. Produzir água significa consumir energia; produzir energia permanece dependente de escolhas económicas e ambientais. E a crise climática promete secas mais frequentes e imprevisíveis. Ora, o turismo aumenta exponencialmente o consumo de água num território onde cada litro continua a contar. Basta olhar para as terras áridas de muitas ilhas e percebemos que a abundância nunca fez parte da paisagem.
Uma rede intrincada em fusos horários diversos
A maior parte dos cabo-verdianos moram fora de Cabo Verde, na proporção de 500 mil para 2 milhões. Boston, Lisboa, Roterdão, Paris, Luxemburgo, Dakar, Luanda, São Tomé: a geografia cabo-verdiana prolonga-se nos bairros, associações, restaurantes, igrejas, equipas de futebol, rádios comunitárias e grupos de WhatsApp espalhados pelo mundo numa rede intrincada em fusos horários diversos.
Quase todas as famílias cabo-verdianas têm cabo-verdianos no mundo. As crianças podem aprender o crioulo cabo-verdiano ao telefone com avós que vivem a milhares de quilómetros. Quando vão às ilhas de férias, é frequente ouvir como é emocionante esse desejado reencontro, sem esconder um certo incómodo. Quem saiu mudou, quem ficou também, então o imensamente sonhado e planeado regresso, vive de muitas projeções e fantasias. Ir embora, emigrar, foi quase sempre o modo mais realista de melhorar as condições de vida, embora quase sempre haja dificuldades acrescidas como muita exploração e racismo. Os ilhéus crescem a olhar para o aeroporto, com os planos de estudar fora, trabalhar fora. É preciso tratar de documentos, conseguir um visto. Voltar um dia ou talvez não. As remessas dos emigrantes ajudam a construir casas, a pagar estudos, a abrir pequenos negócios, a enfrentar crises económicas e dificuldades familiares. Sustentam o país tanto quanto qualquer política pública.
Juventude em marcha
Cabo Verde tem uma relação muito concreta com os limites: repartir o que há, desenrascar o que falta. Num sistema que continua a identificar progresso com crescimento infinito - e das crises ecológica e social produzidas por esse mesmo modelo -, o talento de países pequenos e sem recursos como Cabo Verde, capazes de transformar sobrevivência em comunidade, é uma inspiração. Um modo de lutar por condições que talvez venha da experiência histórica de sobreviver à fome. Da prática de djunta mon - de partilhar mãos e recursos, inter-ajuda entre vizinhos, parentes e emigrante. A música, que transformou perda e dor em coisas bonitas. Das mulheres que sustentam praticamente a economia doméstica durante décadas de emigração masculina. Toda essa energia não se reduz aos diagnósticos e político-sociais-económicos e aos indicadores internacionais.
A juventude cabo-verdiana parece menos disposta a essas categorias identitárias entre África, Atlântico, Europa e mundo. Pode ouvir rap em crioulo, afrobeat nigeriano, kizomba angolana, drill francês, mornas antigas e funk brasileiro. Muitos caboverdianos que estudam e trabalham em Portugal ou filhos de imigrantes cabo-verdianos, estão no centro da luta antiracista, alguns abraçam valores revolucionários como o Movimento Vida Justa. Usam o português como ferramenta sem o aceitar como medida de superioridade. Reivindicam Cabral atualizando o sentido da sua luta e pensamento sem querer transformar Cabral num ícone politicamente inócuo. Podem amar a Cesária Verde e, ao mesmo tempo, sair da asfixia da “saudade”. Defender a língua cabo-verdiana sem desprezar outras línguas. Pôr África no centro do debate sem negar a crioulidade. Libertá-la da versão mais higienizada, desarrumá-la como campo de tensão. A cultura crioula não nasceu da harmonia, mas não tem de ficar prisioneira da violência original e pode olhar para o continente africano não como ameaça à especificidade cabo-verdiana, mas como parte amputada de uma conversa que precisa de muito mais conhecimento e trocas.
As desigualdades cabo-verdianas de hoje explicam-se muito por essas dependências e dificuldades que vêm sempre no guião do capitalismo neoliberal: concentração da riqueza, acesso desigual às oportunidades entre ilhas, precariedade laboral, inflação na habitação - nas zonas turísticas e não só, impossibilidade de muitos jovens imaginarem um futuro nas ilhas.
A cultura tem sido o território fértil de afirmação identitária. Muito antes de os relatórios internacionais elogiarem a boa governação cabo-verdiana, ou os empates no Mundial de Futebol 2026 já a música tinha colocado o país no mapa sentimental do mundo. Cesária Évora fez do Mindelo uma capital universal da melancolia, a morna, com a sua gravidade marítima, deu forma estética à saudade, à distância, à partida, ao amor sem garantia de regresso. Mas reduzir Cabo Verde à morna seria injusto. Há batuque, funaná, coladeira, tabanka, finaçon, hip-hop, fulana punk, spoken word, literatura, cinema, artes visuais, pensamento crítico.
Germano Almeida deu humor, ironia e complexidade narrativa à vida insular. Dina Salústio abriu caminhos fundamentais na escrita das mulheres. Corsino Fortes fez da poesia um corpo cívico. Mário Lúcio move-se entre música, literatura e pensamento. Joaquim Arena faz circular histórias incríveis em cenários caboverdianos dentro e fora das ilhas. Tchalé Figueira satiriza as figuras e os podres poderes. César Schofield pensa os arquivos e a arte contemporânea, pondo em causa as narrativas consolidadas. Mayra Andrade, Lura, Sara Tavares, Tito Paris e tantos outros transportaram a língua, os ritmos e as inquietações do arquipélago para outros públicos. O hip-hop, sobretudo nas gerações mais novas, trouxe energia urbana, frontal, impaciente em sair da morabeza transformada em cartão-postal.
O que me contam as pessoas do setor cultural e interessados é que falta uma política pública consistente. Celebrar artistas e o reconhecimento internacional é pouco se não se investe em arquivos, bibliotecas, escolas artísticas, bolsas, residências, cinema (produção e salas), artes performativas, artes visuais, tradução, edição, preservação patrimonial e circulação internacional - esta não apenas para Portugal, Europa e diáspora ocidental, mas também para Senegal, Angola, Moçambique, Gana, Nigéria, África do Sul. Nos últimos anos tem-se feito alguns projetos artísticos em conjunto entre Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé, como a Bienal de Bissau e a o Laboratório Atlântico e a Bienal de São Tomé.
Quanto às questões de memória, seria importante pensar os museus como centros de investigação, memória e conflito produtivo. A memória é um campo de batalha. Quem guarda os arquivos guarda a possibilidade de contar a história e Cabo Verde tem uma importância imensa para pensar o Atlântico, a escravatura, a crioulização, as migrações, a fome, a resistência, os nacionalismos africanos e a relação entre ilhas e continentes. Investir em meios, em técnicos, na conservação, digitalização, investigação e acesso público. Um arquivo fechado, degradado ou invisível é uma forma lenta de esquecimento.
A própria ideia de património que se alargue dos edifícios restaurados para visitantes. Um país que viveu tanto da oralidade não pode permitir que apenas o que foi escrito segundo normas coloniais entre no arquivo legítimo. Fazem parte desse património imaterial vozes, ritmos, modos de cozinhar, a relação com a água, festas populares, práticas religiosas, histórias de mulheres, memórias de fome, fotografias de família, cartas da emigração, cadernos de professores, programas de rádio, fanzines, letras de rap, vídeos de telemóvel, documentos de associações comunitárias. Com todos estes elementos se pode produzir arte.
Estas sugestões nada têm de original, são mais uma tentativa de sistematizar algumas ideias, quase como uma mediadora entre o que ouço dizer de quem está com as mãos na massa, neste caso com a mão e a mente.
Lembro-me de caminhar na Laginha, em São Vicente, e de pensar como aquela minúscula praia conseguia concentrar tantas versões de posições sociais: Turistas acabados de chegar com a expectativa de aventuras em África, empregados dos hotéis que regressavam a casa depois do turno, pescadores a arrumar as redes, crianças a mergulhar da muralha e as banhistas madrugadeiras (que aparecem nos livros de Germano de Almeida). Todos partilham a mesma baía mas basta afastarmo-nos uns metros da água para perceber como o turismo tem sido uma promessa e ameaça, e sempre desgual na distribuição de possibilidades. Desde os anos noventa, Cabo Verde apostou fortemente nele como motor económico. O setor trouxe investimento, emprego, infraestruturas, receitas, visibilidade internacional. Em ilhas como Sal e Boa Vista, foi de facto transformador de paisagens e economias. Os números impressionam: mais de um milhão de hóspedes por ano em estabelecimentos hoteleiros, crescimento contínuo depois do choque pandémico, dependência crescente dos mercados europeus. Para um país com poucos recursos naturais, o turismo pareceu uma solução evidente. Mas todos os paraísos têm o seu reverso infernal, quem sobrevive e faz acontecer o paraíso, sabe quanto custa mantê-lo.
Sou turista europeia, posso ir a Cabo Verde amanhã se me apetecer sem pensar nas fronteiras. Pago 30 eur por um visto à entrada, desfruto da “sabura” das ilhas e regresso a casa mais enriquecida com experiência. Um cabo-verdiano que queira fazer o percurso inverso, enfrenta consulados, vistos, comprovativos, entrevistas burocracias e muitas vezes recusa.
Conclusão que todos sabemos mas devemos lembrar: a livre circulação num mundo globalizado é uma miragem quase exclusiva para quem tem passaporte europeu. Outra: o privilégio branco continua em força.
Os Tubarões Azuis estarem no Mundial de 2026 representa uma nação arquipelágica, dispersa, multilocal, mas capaz de reconhecer-se num mesmo sobressalto de expetativa em jogos de futebol. Um país não vive de símbolos, bem sei, é mais políticas públicas, trabalho, saúde, escola, habitação, transportes, cultura, justiça. Mas os símbolos e o entusiasmo coletivo também ajuda a pensar, e o melhor seria que o entusiasmo da bola contribuísse para confrontar os problemas. Eu nem gosto de futebol tampouco sou nacionalista, mas gosto desta ideia de, apesar das distâncias, das diferenças de classe, das variantes linguísticas e dos percursos migratórios, se torça em cabo-verdiano.
Ler a primeira parte de Cabo Verde não cabe nas ilhas.
- 1. Lopes, José Vicente (coord.) (2021). Cabo Verde Um Corpo Que se Recusa A Morrer. 70 anos contra fome, 1949-2019. Spleen Edições, 2021.