A recusa da guerra e o abismo colonial

A recusa da guerra e o abismo colonial a difícil assunção de uma guerra politicamente derrotada e o fecho traumático do ciclo imperial tenderam a produzir uma memória sobre a guerra colonial na qual – ainda que acentuando frequentemente a dimensão «trágica» ou «inútil» do acontecimento – sobressai uma leitura da participação no conflito como um gesto de dever e da figura do ex-combatente como alguém que fora vítima, ora dos «ventos da História», ora de uma guerra que fora obrigado a combater.

A ler

16.06.2019 | por Miguel Cardina

Cavando o tempo para trazer à superfície vidas que não são do nosso tempo

Cavando o tempo para trazer à superfície vidas que não são do nosso tempo Entrevista com Sangare Okapi e Amosse Mucavele ao escritor moçambicano Aurélio Furdela."Um bom verso nem sempre rima com bom-menino. Pior, é que nem se está à procura de bons meninos, mas de aduladores. A nossa intelectualidade gosta de ser bajulada, é uma espécie de importação da cultura do sistema político, quase uma tentativa de reprodução da hierarquia vinda da luta de libertação nacional, merecedora de uma certa glorificação, esses outros se querem Chipandes da literatura."

Cara a cara

16.06.2019 | por Aurélio Furdela

O gabinete de Coimbra. sobreposições sobre um espaço comum

O gabinete de Coimbra. sobreposições sobre um espaço comum O que sucedeu à relação das autoridades tradicionais com a chegada das independências e do Estado pós-colonial? Ora aqui a provocação é muito simples. Na construção do Estado dito pós-colonial em Moçambique, em especial a partir de 1994, vamos encontrar dimensões muito pouco pós-coloniais. Vamos descortinar uma relação com tanto ou mais continuidades significativas com o Estado colonial do que aquilo que seria expectável.

Ruy Duarte de Carvalho

14.06.2019 | por Fernando Florêncio

Edson Chagas. Oikonomos

Edson Chagas. Oikonomos Ao colocar os sacos na sua própria cabeça, Chagas inverte-os, dessa forma desacelerando e desnaturalizando a imediatez normalizadora com que, acriticamente, eles próprios e as suas mensagens circulam. Sem deixar de se implicar a si mesmo e, por extensão, a todos nós, o artista incita-nos a um questionamento essencial, enquanto ponto de partida para a procura conjunta de outros modos de vida.

Cara a cara

12.06.2019 | por Ana Balona de Oliveira

Lost Lover: o que diríamos da história se a pudessemos contar

Lost Lover: o que diríamos da história se a pudessemos contar Sobre as condições políticas e histórico-geográficas da produção e controle do conhecimento, nos fala a exposição Lost Lover, com curadoria de Lara Koseff, originalmente apresentada no Rio de Janeiro, no exterior do espaço Lanchonete e presentemente no espaço Rampa, no Porto. Numa das salas, onze vídeos projectados em loop de artistas maioritariamente sul-africanos confrontam-nos com o abandono do medo, assim convocando questões habitual e estrategicamente silenciadas.

Vou lá visitar

12.06.2019 | por Eduarda Neves

O Direito de Fuga - PRÉ-PUBLICAÇÃO

O Direito de Fuga - PRÉ-PUBLICAÇÃO O que aqui definimos enquanto traços exemplares da condição e da experiência dos migrantes aparece sob uma luz efectivamente específica no nosso tempo, no tempo da globalização. Vale a pena avisar que o modo em que esta última é aqui considerada guarda significativa desconfiança face a todas as suas imagens excessivamente simples e lineares, habitualmente veiculadas pela insistente referência a fórmulas como «neoliberalismo» e «pensamento único».

Jogos Sem Fronteiras

11.06.2019 | por Sandro Mezzadra

Silêncios que viram arte

Silêncios que viram arte A partir do olhar pessoal dessas artistas sobre a história francesa, depreendem-se elementos que permitirão construir novas narrativas oficiais em que o imigrante não seja visto como ameaça, mas como parte da diversidade de uma nação. Ao incluir a história daqueles que ajudaram a reconstruir a Europa, a ideia mesma da Europa resulta fortalecida. Nas suas mais diversas formas, a arte destas mulheres permite a análise do contemporâneo e a construção de uma ideia de futuro. “A arte é a força que obriga a realidade a dizer o que ela não poderia dizer por seus próprios meios ou, em todo caso, o que ela arriscaria manter voluntariamente em silêncio” escreveu o autor congolês Sony Labou Tansi.

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09.06.2019 | por Fernanda Vilar

O habitar cosmopolita de um território

O habitar cosmopolita de um território Organizado em 2015, decorridos cinco anos após a morte de Ruy Duarte de Carvalho (RDC), o ciclo Paisagens Efémeras foi pensado menos como homenagem do que como reflexão conjunta em torno do seu pensamento crítico. Convidando à releitura de uma obra que questionou fronteiras entre lugares, géneros, saberes e instituições, o Colóquio “Diálogos com Ruy Duarte de Carvalho”, reuniu olhares e vozes diversas, ligando-se tanto à particularidade dos lugares que RDC habitou quanto à transumância constante que caracterizou a sua biografia e o seu trabalho. A partir da antropologia, literatura, cinema ou produção predominantemente teórica e ensaística, a obra de RDC foi revisitada em registos que entrelaçam o enfoque académico e a evocação pessoal.

Ruy Duarte de Carvalho

07.06.2019 | por vários

“Domésticas insubmissas”: práticas de resistência de mulheres em Nova Iorque

“Domésticas insubmissas”:  práticas de resistência de  mulheres em Nova Iorque Hartman oferece novas pistas metodológicas para a crítica literária que trabalham com arquivos e mostra-nos como os estudos literários podem usufruir do conhecimento de vidas de mulheres rebeldes como Esther Brown para ampliar o seu entendimento e interpretação das práticas criativas. Ler Hartman hoje recorda-nos a importância e o imperativo político que temos de interrogar no que diz respeito aos espaços e às estruturas de opressão, de aprisionamento e de conformismo a partir da perspetiva – especulativa se necessário – daqueles/as que neles resistem.

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04.06.2019 | por Alexandra Reza

Língua portuguesa e colonização – caso da Guiné Bissau

Língua portuguesa e colonização  – caso da Guiné Bissau “Será a língua portuguesa um instrumento ideal a usar no processo de ensino-aprendizagem para a libertação do povo da Guiné?”. Tendo em conta que a língua portuguesa foi um dos instrumentos usados pelo colonialismo para a dominação do povo da Guiné, não seria normal o mesmo instrumento de opressão servir para um processo educativo que pretenda a libertação do mesmo povo da alienação colonial.

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02.06.2019 | por Sumaila Jaló

We don't just tell the story we live it

We don't just tell the story we live it Depois de ouvir o leão rugir vezes sem conta, preciso de integrar este animal. Revejo a minha emergência e subsequente início do processo de diagnóstico de disforia de género e tratamento ou transição. O processo está em curso como uma maré que por vezes me deixa tranquilo e noutras se agita, sem de facto pedir muita licença para me solicitar atenção. Eu, apesar de tudo, ainda e cada vez mais lúcido, vou retirando do seu percurso os obstáculos que me impediram de integrar a minha identidade negada.

Corpo

01.06.2019 | por Adin Maleh

A sociedade autofágica - PRÉ-PUBLICAÇÃO

A sociedade autofágica - PRÉ-PUBLICAÇÃO    Destruição das estruturas económicas que asseguram a reprodução dos membros da sociedade, destruição dos elos sociais, destruição da diversidade cultural, das tradições e das línguas, destruição dos fundamentos naturais da vida: aquilo que por toda a parte se constata não é somente o fim de certos modos de vida para entrarmos noutros – «destruições criadoras» de que a história da humanidade estaria repleta –, é antes uma série de catástrofes a todos os níveis e à escala planetária que parecem ameaçar a própria sobrevivência da humanidade, ou, pelo menos, a continuação de grandíssima parte daquilo que deu sentido à «aventura humana», para submergir os humanos no estado de «anfíbios».

Mukanda

29.05.2019 | por Anselm Jappe

O Obituário- “Todas as mulheres querem fazer sexo comigo!"

O Obituário- “Todas as mulheres querem fazer sexo comigo!" Já visitei os quatro cantos e as entranhas dos subúrbios. NADA. Já velejei no limite dos oceanos no cabo das agulhas, já corri que nem um leopardo pelas savanas e terreiros. Andei em baixo de pântanos que nem um hipopótamo, cortejei as anacondas serpenteei o seu veneno para avistar a geografia da mulher violentada…e, nada!

Corpo

29.05.2019 | por Indira Grandê

A revolução sudanesa: à terceira é de vez?

A revolução sudanesa: à terceira é de vez? A comunidade internacional foi acordada pelo estrondo da queda do ditador de Cartum. Como se subitamente os governos ocidentais, árabes e africanos tivessem compreendido que uma revolução democrática no Sudão podia vir a ter efeitos devastadores para a estabilidade dos países vizinhos e sobre o equilíbrio regional, assiste-se desde então a uma agitação política e diplomática febril.

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29.05.2019 | por Nicole Guardiola

Uma negra pelas ruas de Vitória

Uma negra pelas ruas de Vitória As análises aqui propostas se atentam aos modos de subjetivação da negritude incluindo o racismo como produtor de subjetividade. Porém, vale demarcar que os processos de subjetivação que produzem práticas racistas não se confundem com a negritude como devir. Em outras palavras, o processo de formar-se negro passa tanto pelo cultivo do devir-negro quanto pela experiência de violência racial.

Mukanda

29.05.2019 | por Janaina Coelho

Ruy Duarte de Carvalho e o neo-animismo

Ruy Duarte de Carvalho e o neo-animismo Não é uma escrita da subjetivação, mas da dessubjetivação – o dispositivo literário, a violência e provocação sobre a forma da frase, o posicionamento contra a figura autoral, todas agem em negação da história do próprio, da sua memória, do seu mundo. É uma escrita contra o autor e contra o personagem. A ideia de que tudo tem alma – enquanto reencantamento possível face aos diagnósticos mais reservados do humanismo – surge numa identificação extrema com o território, com o “outro” enquanto expressão do território, mas não enquanto folclore ou fetichismo. Este outro – uma entidade territorial e social – surge enquanto um “outro eu” e nessa relação de amizade constitui um posto para pensar.

Ruy Duarte de Carvalho

26.05.2019 | por Luhuna de Carvalho

Os negros em Portugal

Os negros em Portugal O recente acréscimo de protagonismo das vozes de negros e afrodescendentes que, em Portugal, crescentemente se posicionam contra o racismo gerador desigualdade de oportunidades, é o que melhor configura a força de uma ancestralidade que merece ser resgatada e inventada.

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26.05.2019 | por Bruno Sena Martins

Peregrinação Crioula - PRÉ-PUBLICAÇÃO e lançamento

Peregrinação Crioula - PRÉ-PUBLICAÇÃO e lançamento Por instinto, acima de tudo, Jul’Antone é um homem que ama o arquipélago, é um puro ilhéu. Nota-se-lhe o apego plasmado a São Vicente, laços espirituais que a miséria e a falta de condições não conseguem quebrar. Nem dado de vidro abandonará em definitivo a sua terra, foi aqui que nasceu e será aqui que terminará os seus dias.

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23.05.2019 | por Paulo Lima

"The Unbalanced Land" de Adrián Balseca

"The Unbalanced Land" de Adrián Balseca O sistema estético de The Unbalanced Land assenta num princípio de fragmentação e tensão e num modelo representativo multitemporal, perscrutando as capas do passado que subsistem no presente e os itinerários materiais, discursivos, culturais e ideológicos dos objectos expostos. O gesto artístico de Balseca inscreve-se, portanto, numa genealogia de práticas poético-políticas descoloniais, apontando, ao mesmo tempo, para a persistência de formações coloniais no Equador contemporâneo.

Vou lá visitar

21.05.2019 | por Raquel Schefer

Os olhares de Catarina - novos trabalhadores rurais do Alentejo: entre a esperança e a discriminação

Os olhares de Catarina - novos trabalhadores rurais do Alentejo: entre a esperança e a discriminação Do outro lado, a milhares de quilómetros, estará uma voz familiar e uma condição de miséria que a levou a atravessar meio mundo em busca das migalhas da fatia do bolo que ditou que as muitas Catarinas Eufémias do hemisfério sul não tenham direito a uma vida digna. Muito menos que os seus nomes sejam recordados pelas múltiplas lutas que povoam a sua mera sobrevivência quotidiana.

Jogos Sem Fronteiras

21.05.2019 | por Filipe Nunes