Baralho de Cartas 15

Marta,

Apesar de tudo, descobri-me livre de um futuro sem promessas. O meu desejo acordou. Não adiantaria perder-me numa fenomenologia das sensações, o amante que se volta para as suas mutações inventa a sua servidão. O verso de Schiller, “Diz-lhe/ Que quando ele se tornar um homem/ deve reverenciar os sonhos da sua juventude,” não serve para todos. Uma juventude perdida em narcisismos foscos deve aprender a sonhar de outro modo, pelo menos, deixar de reverenciar a vida vivida, e voltar-se para o que está por viver. Viver como “Práxis”, dizes, é um belo mote. Acreditar que poderemos fazer nascer outra coisa, que não estamos condenados à repetição, ajuda tropeçar nos outros. 

Jean Rouch, numa entrevista sobre como se tornou etnógrafo, fala do tempo que é preciso ficar num lugar até compreender os homens que aí vivem, do problema que é, depois de o conseguir, quando os ama, não ter vontade de escrever sobre eles, mas apenas querer viver com eles. Nastassja Martin diz mais ou menos o mesmo, mas fala de um processo de dilaceração, de ter de se arrancar, de se separar da vida onde se integrou, para poder pensá-la, e trazer essa alteridade para o Ocidente. Tanto Rouch como Nastassja sabem concretamente que é preciso tempo para ver, e estar junto do que se quer ver, não apenas isso, têm de estar predispostos às mutações que daí advêm. Compreender é descobrir os mitos que regem a vivência das gentes. Na mesma entrevista, Rouch diz que em Paris, uma terra de gente muito mais selvagem do que a Nigéria, é muito mais difícil descobrir o que move as gentes. Estamos cegos de velocidade, só o acidente nos devolve o tempo.

Como falámos nas primeiras cartas, imaginar o futuro é difícil. Um dos maiores empecilhos é que para chegar a ver certas coisas é preciso estar num estado que deixa aparecer o que já estava à nossa frente, senão, nem as conseguimos imaginar. Só depois da mutação é que conseguimos ver o que até aí nunca nos passaria pela cabeça. Rouch fala nisso, diz que o que muitos colegas chamam o milagre do encontro, a descoberta, é o resultado de uma longa preparação. A razão de termos conseguido colocar a questão certa, deve-se a uma mudança de posição. Como fazer então para caçar esse Leão do futuro? No filme de Rouch, os caçadores têm de levar o colar mágico que lhes dá invisibilidade, saber seduzi-lo com perfumes como se fosse uma rapariga, saber escolher a flecha e o veneno, e questionar os deuses se entre os caçadores não vai algum que carregue uma maldição.  

Lamento que tenhas atravessado a desolação dos amigos que morrem. Fico feliz por teres outros que te suportam, que te acompanham, que te deixam correr em direções inesperadas.

Fujo de falar de mim, deixo para depois. Até lá, deixo-te um poema de um índio que bebia a vida em goladas tão grandes que sufocaria as gargantas medrosas dos nossos dias.

O que são estes frutos legítimos

da audácia?

O cérebro nativo, macerado por malabarismos.

Apostar em dormir nu

sobre a neve.

Empurrar o indicador pelos ouvidos

até encontrar o cérebro.

Subir ao revés para o céu porque

os poetas vivem ao contrário.

É demasiado tarde nas minhas histórias

para seduzir a heroína.

Como é que o suficiente pode chegar

quando não chega?

A Grande Mãe não tem ouvidos e aleluia

é a mais impossível palavra da minha língua.

Apenas aos pássaros, aos peixes e aos cães a consigo dizer.”

Jim Harrison

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(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

por Ricardo Norte
Mukanda | 7 Abril 2026 | Baralho de Cartas