A propósito de "Largo da Peça (peça em 3 Actos)", de Ana Andrade

A propósito de "Largo da Peça (peça em 3 Actos)", de Ana Andrade Nesta peça, o tempo é o presente, embora este espaço já não exista, acabou porque assim tinha que ser, mas também porque talvez tenha deixado de haver quem pudesse cuidar dele. Mas esta dúvida esvai-se porquanto este quintal, com tudo o que implica, humana e sociologicamente falando, persiste em ser presente porque a arte lhe dá corpo e alguém, afinal, decidiu cuidar dele, pela memória que a escrita garimpa. O que passo a concluir é de minha lavra porque me aproprio do labor da autora: O “Largo da Peça em 3 Actos” é um aviso para que cuidemos do que amanhã vai ser passado, porque nada existe só no presente e porque o passado se torna por vezes tão presente que até dói. É uma homenagem de grande quilate à cidade onde nasceu e que a viu crescer.

14.10.2021 | por Filipe Correia de Sá

Largo da Peça (Peça em 3 Actos)

Largo da Peça (Peça em 3 Actos) Filho – Mãe, é a revolução. Temos de fazer a guerra para acabar com a guerra. Correr com essa gente e essas ideias que escravizaram o país durante séculos... escravizaram o continente! Tai – nunca vi uma guerra que acabe com a guerra. Guerra é guerra, é morte, é fome, é uma merda... assim estamos a viver bem? Estamos melhor que antes? Nem sei mesmo porquê que voltaste... Filho – vim ajudar a minha pátria, com o meu trabalho. Aqui eu sou necessário. (ri-se feliz) Então, não estão contentes que aqui estou? Neste nosso quintal (olha à volta, feliz, ri-se), esse quintal não muda nunca! Mãe – fizeste bem meu filho. Mas não sei se dão valor... Enfim, estaremos aqui para ver...

13.10.2021 | por Ana Andrade

Ingredientes do cocktail de uma revolução estética

Ingredientes do cocktail de uma revolução estética E o Jazz foi uma das armas de combate dos negros norte-americanos, do Harlem ao longo do século XX. Nina Simone, é apenas um dos vários exemplos. E na vizinha África do Sul, Hugh Masekela, Miriam Makeba, Dollar Brand, Caifás Semenya, Letta Mbulu, Jonas Gwangwa, são outros nomes que usaram este este género musical contra o Apartheid. O Jazz entrou no país pela Casa Grande, desde logo consumido por uma elite intelectual, entre os quais Ricardo Rangel e José Craveirinha que o levaram a periferia.

02.10.2021 | por Leonel Matusse Jr.

Concerto 25 de julho x #Makalisboa + convidados x Online 25.07, 21h30

Concerto 25 de julho x #Makalisboa + convidados x Online 25.07, 21h30 O “Concerto 25 de Julho” é uma iniciativa #MAKAlisboa: Francisco Vidal + Namalimba Coelho, em coorganização com o Festival Iminente, em homenagem à memória de Bruno Candé e de todas as vítimas de discriminação, opressão e injustiça, na data em que se assinala um ano após o assassinato racialmente motivado do ator.

25.07.2021 | por vários

A transmissão das danças da diáspora africana

A transmissão das danças da diáspora africana É preciso defender o património cultural e reconhecimento a todos os agentes culturais espalhados pela diáspora que fazem o trabalho de documentar e de promover o nome de Angola num espaço global e digital enquanto, ironicamente, em Angola e em Portugal, as danças “sociais” da diáspora africana ainda são vistas como algo apenas recreativo, com baixo teor artístico, e não algo que possa ser valorizado, documentado ou apoiado financeiramente.

15.06.2021 | por Iris de Brito

Ka Ta Kusta Nada: oficina hip-hop Xalabas e a indigenização do rap

Ka Ta Kusta Nada: oficina hip-hop Xalabas e a indigenização do rap O rap é hoje uma das expressões culturais e juvenis mais poderosas em África, por onde as velhas identidades africanas têm sido desconstruídas e reconstruídas, consolidando-se na voz de mudança e representação de um futuro de esperança. Charry afirma que o rap surgido em África na segunda metade dos anos de 1980, não veio de nenhuma tradição africana, mas de uma imitação direta do rap norte-americano. A sua indigenização deu-se efetivamente apenas na terceira geração dos rappers africanos, através de uma conexão orgânica com as tradições locais.

04.06.2021 | por Redy Wilson Lima

Em cada mulher há uma rebelde. O futuro será o que ela quiser.

Em cada mulher há uma rebelde. O futuro será o que ela quiser. Estamos uns anos à frente, os fascistas regressam ao poder, apenas meio século após uma revolução ter derrubado a ditadura. Após os movimentos independentistas terem pegado em armas contra o colonialismo e terem derrubado a ditadura. Após acharmos que as liberdades, as conquistas sociais e laborais estavam mais ou menos garantidas. Texto escrito volvidos 67 anos do assassinato de Catarina Eufémia.

20.05.2021 | por Marta Lança e Sara Goulart Medeiros

Celebração: dor, raiva, tristeza e muito riso. Entrevista a Zia Soares

Celebração: dor, raiva, tristeza e muito riso. Entrevista a Zia Soares A narrativa construída sobre este episódio é dada pela parte portuguesa, a do “massacre”, que ofusca e apaga o movimento de resistência dos santomenses. Daí ter optado por referi-lo enquanto Guerra da Trindade (1953). Claro que foi desigual, mas houve confronto, os santomenses não se baixaram perante a atitude do governador Carlos Gorgulho. E esse movimento de resistência organizada, pensada e estruturada é algo sobre o qual não se ouve falar.

17.05.2021 | por Marta Lança e Zia Soares

Geração da Utopia ou geração do desencanto?

Geração da Utopia ou geração do desencanto? A peça procura evocar, de forma minimal mas realista, o período e circunstâncias da acção, dos conservadores anos sessenta em Portugal, cujo epicentro da acção é a Casa dos Estudantes do Império (que foi pensada para apoiar e controlar estudantes colónias, acabando por ter um papel fundamental para as lutas pela independência) aos anos noventa em Luanda, passando pela guerra e os guerrilheiros que se encontram junto da fronteira com a Zâmbia.

09.05.2021 | por Marta Lança

Pandemia obriga grupos de teatro a se reiventar

Pandemia obriga grupos de teatro a se reiventar Os teatros, por serem ambientes fechados, com pouca circulação de ar e gerarem aglomerações, estão entre os primeiros espaços que foram fechados, no início da pandemia, em março de 2020, no Brasil. Sem ter onde se apresentar, os artistas precisaram se reinventar. "Exatamente no dia que a gente ia começar o ensaio, foi anunciado o lockdown e a gente pensou que a pandemia duraria 15 dias. Pensamos que logo retomaríamos o ensaio presencial", conta o dramaturgo, roteirista e ator Herton Gustavo Gratto, que escreveu e atuou em O ensaio sobre a perda. Não foi o que aconteceu.

03.04.2021 | por Dom Total

O rap cabo-verdiano enquanto plataforma pan-africana

O rap cabo-verdiano enquanto plataforma pan-africana Apesar de muito consumido pelos jovens, sobretudo os da classe privilegiada ou aqueles com contacto com a diáspora cabo-verdiana, o rap era ainda pouco explorado nos anos de 1980. O seu desenvolvimento acontece no início dos anos de 1990 enquanto imitação da cultura urbana americana. Na Praia, a geração a seguir à pioneira, em que se destacam, entre outros, grupos como Niggas Badiu, Black Power, Tchipie, apesar de forte influência dos beats caribenhos, começaram desde cedo a desenvolver um trabalho de (re)construção de uma identidade de resistência.

25.03.2021 | por Redy Wilson Lima e Alexssandro Robalo

Fantasmas do Império: “O cinema colonial é património comum”

Fantasmas do Império: “O cinema colonial é património comum” “O cinema colonial é sempre um confronto de dois olhares. Mesmo que um dos olhares esteja completamente subjugado, ele está lá. Há um momento em que alguém, que foi apanhado pela câmara, olhou para a câmara e, de repente, num simples olhar, transmite um mundo que, aparentemente, na retórica do filme, está completamente esquecido ou está completamente subjugado. Nenhum realizador colonialista, por mais que queira fazer propaganda, consegue fazer um plano escondendo toda a realidade”.

07.03.2021 | por Mariana Carneiro

Art Melody: hip hop rural e combativo

Art Melody: hip hop rural e combativo O hip hop africano, como no resto do mundo, tira referências e imita sons da cena americana. Uma vez que é o berço do estilo e onde a sua produção está centrada, é lógico que seja este o caso. E embora o rasto do hip hop americano seja demasiado longo, há artistas do estilo que tentam seguir o seu próprio caminho e adaptá-lo ao seu próprio contexto. Art Melody, um nativo do Burkina Faso, é um caso paradigmático. A sua carreira, que começou depois de uma viagem sem sucesso e truncada à Europa por terra como imigrante ilegal.

25.02.2021 | por Javier Mantecón

Joacine, uma estrela de cinema na Berlinale

Joacine, uma estrela de cinema na Berlinale Joacine Katar Moreira a declamar, a discursar e a não gaguejar. Mudança, curta-metragem do luso-guineense Welket Bungué assume-se como filme-dança experimental mas por estes dias vai ser notado e comentado por ter a deputada Joacine como protagonista. Uma curta que foi selecionada para o Festival de Berlim, mais especificamente para a secção Forum Expanded, espaço para as obras de ensaio e de radicalismos extremos, já a começar online no começo do próximo mês e, depois, num segundo momento, em junho nos vários cinemas da capital alemã.

22.02.2021 | por Rui Pedro Tendinha

Questões raciais no debate cultural

Questões raciais no debate cultural Em que medida a presença de artistas negros apenas em exposições destinadas ao tema não geram uma dupla reificação: uma redução do artista e de sua obra a apenas um aspecto de sua identidade? É suficiente reunir a produção de artistas negros, apenas por sua etnia? Ou, ainda, a redução de uma exposição à discussão racial não acaba por perder de vista uma série de singularidades formais e conceituais diversas, além de especificidades de linguagem e da especificidade desse assunto dentro da produção de cada artista?

11.02.2021 | por Leandro Muniz

Jean Michel-Basquiat em Como Ser um Artista

Jean Michel-Basquiat em Como Ser um Artista Jean Michel-Basquiat não era um fã de entrevistas e, nas raras ocasiões que se rendeu às mesmas, suas respostas foram breves e um pouco enigmáticas. Apesar disso, as palavras do artista revelam muito sobre as suas inspirações e o seu processo consumidor. Elas oferecem uma janela à sua abordagem, no qual ele fez uma mescla de referências entre história de artes, ruas de Nova Iorque nos anos 80 e o tumulto da cultura pop com a sua herança caribenha e a sua identidade como um jovem homem negro.

09.02.2021 | por Alexxa Gotthardt

"As festas de quintal, o fazer conversa, a beleza no dançar e no andar", entrevista a André Castro Soares

"As festas de quintal, o fazer conversa, a beleza no dançar e no andar", entrevista a André Castro Soares A kizomba veio nas bagagens dos africanos, que em finais dos anos 90 do século passado fizeram de Lisboa a cidade das suas vidas. A kizomba parece ter vindo do ambiente das festas de quintal de Luanda e Angola, mas claro que veio em jeito de passada de São Vicente ou da Praia, de Cabo Verde. Ao juntarem-se nas discotecas africanas em Lisboa e nas festas africanas nas universidades portuguesas a kizomba começa a entrar no léxico dançante das pessoas que visitavam estes espaços. Muitas das discotecas latinas tinham momentos de kizomba, o que também ajudou a levar o género um pouco à boleia da salsa e da bachata da República Dominicana.

04.02.2021 | por Marta Lança

O maravilhoso 1972

O maravilhoso 1972 Este álbum faz-me regressar a um passado sonhado com uma visão e uma identidade muito fortes. Vejo-o como uma das obras mais marcantes da música portuguesa e da cultura de Angola, com uma estética vanguardista que ainda hoje se manifesta global, progressiva e contemporânea em todo o seu esplendor. Sem barreiras ou amarras, assumindo todas as culturas como matriz de todos os tons e ritmos, todas as cores e dialectos, onde a primeira brincadeira de infância, a primeira lembrança, a tradição, surgem traduzidas com alma, honestidade intelectual e pureza estética.

02.02.2021 | por Paulo Flores

A história e protagonistas da música afro-portuguesa

A história e protagonistas da música afro-portuguesa A relevância da participação negra em Portugal nas mais diversas áreas – incluindo a música – remonta já a várias centenas de anos, mas raras vezes é articulada nas narrativas públicas dominantes. Não se trata, naturalmente, de os negros em Portugal não terem voz ou não se encontrarem presentes no quotidiano do país. Trata-se, isso sim, muitas vezes, de falarem sem serem considerados, de verem sem serem vistos, de cantarem sem serem escutados – pelo menos, fora de uma esfera cultural tendencialmente mais circunscrita.

30.01.2021 | por Inês Nascimento Rodrigues

“aquilo que nos mata não é o sofrimento, mas a ausência de sentido no sofrimento”, disse o Miguel I Entrevista a Raquel Castro | Turma de 95

“aquilo que nos mata não é o sofrimento, mas a ausência de sentido no sofrimento”, disse o Miguel I Entrevista a Raquel Castro | Turma de 95 Raquel Castro conversa com Ana Bigotte Vieira sobre o espectáculo Turma de 95. Estávamos no 9º ano, o João C. e a Filipa N. estavam apaixonados, o Pedro C.C. sonhava em vir a ser jogador de futebol e o Rui A. foi à televisão imitar o Mickael Jackson. Quase todos tinham uma alcunha: a Testa Rossa, a Cavalona, o Splinter, a Beaver, o Chinês, o Dumbo. Eu, a sétima a contar da esquerda, na fila de trás, era a Olívia Palito. Em 2019 - 24 anos depois - procurei cada um dos meus colegas de turma para conversar sobre aquele tempo e sobre o rumo que a vida levou depois de tirada esta fotografia.

27.10.2020 | por Ana Bigotte Vieira e Raquel Castro