«Maçonaria», de Azagaia, e a reescrita da narrativa colonial em África

«Maçonaria», de Azagaia, e a reescrita da narrativa colonial em África Em «Maçonaria», Azagaia transforma a linguagem da oração numa denúncia da cobiça, da exploração e das alianças entre religião e poder. Partindo da memória da morte do rapper e do encontro da sua própria escrita com a obra do músico moçambicano, Venâncio Calisto propõe uma leitura da canção como reescrita da narrativa colonial em África e afirma a força de uma poesia que continua a interpelar o presente.

01.10.2026 | por Venâncio Calisto

O bailarino, um drama do horror ou uma sugestão estética de Evaristo Abreu

O bailarino, um drama do horror   ou uma sugestão estética de Evaristo Abreu E antes de mandar abrir as cortinas sentou-se por cima do caixão com uma expressão de estátua doente de angústia, a morte curva até os grandes. E depois disso só me lembro do fogo, do cheiro de eternidade a poluir o horizonte, uma multidão de gente do teatro e da arte em sua casa, mestre como nos tempos em que éramos tu o anfitrião, o corifeu do grande carnaval, do ditirambo com direito a vinho e leitão assado a moda Maconde na lenha e em fogo lento, a carne deve ser tenra para que a alma possa disfrutar da sua liberdade existencial e criativa.

22.09.2026 | por Venâncio Calisto

A verdade não liberta

A verdade não liberta Os livros de Ditlevsen carregam a amarga evidência de que hoje, tal como na época em que Tove viveu, a sociedade continua a anular as meninas e continua a anular as mulheres. Em A Trilogia de Copenhaga, o lixo percorre todas as fases da vida de Tove, todos os estados, todos os lugares. A casa onde Tove cresce fica perto dos caixotes do lixo. Os encontros para brincar com os primeiros amigos são junto aos caixotes do lixo. Os primeiros ensaios de liberdade, bem como o sentimento de uma liberdade inalcançável nos primeiros dias de trabalho, acontecem perto do lixo. O desejo, o sexo, a maternidade, a descoberta do corpo é feita no lixo.

16.09.2026 | por Marta Rema

«Missa Utica», de Sammy Baloji

«Missa Utica», de Sammy Baloji O título remete para Utica, antiga cidade romana, hoje dentro das fronteiras da Tunísia moderna—lugar escolhido como símbolo, ao ser ali consagrado o primeiro bispo africano de ascendência negra, Dom Henrique, filho de D Afonso I, rei do Congo. Esse momento histórico surge como um ponto de partida para refletir sobre como o cristianismo europeu se espalhou pelo continente africano, e das relações que foi construindo com a escravatura, a colonização e os processos de apagamento cultural.

12.09.2026 | por várias

A bitola de sentido entre Fany Mpfumo e o primeiro western

A bitola de sentido entre Fany Mpfumo e o primeiro western Na 16.ª edição do Kugoma, em Maputo, a música de Fany Mpfumo encontrou-se com The Great Train Robbery, filme fundador do western norte-americano. Entre a película muda, a memória do trabalho migrante e o cancioneiro do sul de Moçambique, o cineconcerto transformou um clássico centenário numa obra viva e num gesto de desacato poético.

08.09.2026 | por Leonel Matusse Jr.

Militango

Militango O Militango foi um poema que o meu pai escreveu para um espectáculo concebido e encenado por ele, com o mesmo título, em 2000/2001, para o Grupo Teatrova, e que estreou no Santiago Alquimista. No espectáculo Militango, a dança, a música e a poesia entrelaçavam-se num todo, tendo como linha condutora vários tangos, com destaque para a obra de Astor Piazzolla. Contava com dois bailarinos, Guilhermo e Elina; dois músicos, eu na guitarra, nos arranjos e na produção musical, e José Rui Fernandes na flauta; e Paula Freitas como actriz e na produção. O poema musical Militango encerrava o espectáculo. É importante destacar que, na viragem do milénio, o pano de fundo era o triunfalismo ocidental perante a queda do bloco socialista e a guerra dos Balcãs, que fez regressar o espectro da guerra à Europa. Seguiram-se a queda das Torres Gémeas, a Guerra do Iraque e tudo o que estes acontecimentos significaram e tiveram como consequência. Entre outros números que integravam o espectáculo, estava o poema de Borges Milonga de dos hermanos, que termina com a ideia de que é a história de Caim, que ainda hoje continua a matar Abel.

02.09.2026 | por Adolfo Gutkin

Evaristo Abreu – o homem e o teatro moçambicano

Evaristo Abreu – o homem e o teatro moçambicano Nascido em 1969, quando chegou a independência, Evaristo Abreu era, à semelhança das crianças do seu tempo, um menino acabado de nascer num mundo também ele recém-parido. Evaristo era um continuador da revolução, parte da geração que Samora Machel apelidou de “flores que nunca murcham”.

23.04.2026 | por Venâncio Calisto

Buluku: entre cosmologia africana, tecnologia e imaginação

Buluku: entre cosmologia africana, tecnologia e imaginação A palavra Buluku surgiu primeiro como som. Curta, circular, rítmica. Uma palavra que cabe no corpo e na voz. Ao dizê-la em voz alta, senti imediatamente que tinha uma força particular: podia ser dita, cantada, repetida. Era fácil de memorizar e tinha uma presença sonora que funcionava bem no contexto performativo. Antes mesmo de compreender todas as suas camadas simbólicas, já intuía que aquela palavra continha uma espécie de energia inicial.

13.03.2026 | por Djam Neguim

Olime

Olime Do outro lado, Maria Isabel responde, hesita, defende-se, acusa (o Estado, os outros?). Um conjunto de critérios - casa pequena, rendas impossíveis, salário mínimo, trabalho noturno, falência de rede de apoio - associam precariedade a perigo e fazem desta mãe, pobre, negra e do bairro, que ainda por cima ousa ser artista, suspeita.

06.03.2026 | por várias

Não perder o ânimo (como não)

Não perder o ânimo (como não) Com que ânimo (a toada esfalfada não descansa). Na sociedade da performance generalizada, a arte de ser uma trabalhadora criativa “insone” (investigadora, artista, escritora, consumidora) que se tornou, com a dita “nova economia”, o novo ethos da arte e da investigação, é antes de mais um novo modelo de normatividade. Um modelo de normatividade do tipo dos que governam e administram sorrateiramente o comportamento e a subjetividade dos corpos 24 horas por dia, como se lhes estivessem a conceder liberdade.

28.02.2026 | por Paula Caspão

“FOI NA LÓGICA DO MESTRE ANDRÉ” Um Outro Teatro – Histórias do Teatro Experimental em Portugal de André e. Teodósio

“FOI NA LÓGICA DO MESTRE ANDRÉ”  Um Outro Teatro – Histórias do Teatro Experimental em Portugal de André e. Teodósio UM OUTRO TEATRO – Histórias do Teatro Experimental em Portugal é um livro muito generoso e corajoso, onde se fazem propostas analíticas concretas. E que se lê com grande prazer: por ele aparecem de forma estruturada e organizada – segundo aquilo a que o autor chama a “lógica do mestre andré” – sujeitos (no duplo sentido temas e protagonistas) muito diversos e variados, ajudando a abrir metodologicamente um campo muito negligenciado, que é o da historiografia sobre artes performativas em Portugal feita a partir dos próprios arquivos e fontes primárias (e não a partir dos textos dramáticos ou da crítica).

28.02.2026 | por Ana Bigotte Vieira

Escrever a hospitalidade radical da dança

Escrever a hospitalidade radical da dança Esse espanto é acolhido como força metamórfica: transforma quem vê, mas também orienta o modo de investigar. Como escrever a partir de forças sentidas? Como integrar o espanto num método singular capaz de dar lugar ao estudo e à construção de uma linguagem crítica? Como a própria constata, a autora deixa-se atravessar pela experiência da obra numa trajetória que descreve como um movimento do Espanto ao Estudo. O espanto move e comove, põe forças em ação e gera a vontade de mantê-las vivas ao longo da escrita, evitando a desvitalização da experiência. Daí a insistência numa escrita que não fixa: quando Balona identifica a obra de Freitas como estruturada pelos termos “abertura, impureza e intensidade”, percebe-se que não se trata de categorias estanques, mas de palavras que ensaiam entradas possíveis na complexidade desta obra coreográfica.

08.01.2026 | por Liliana Coutinho

"I am not a monster": a desconstrução de um inimigo público

"I am not a monster": a desconstrução de um inimigo público Nas expectativas de muitos imigrantes, a Europa era um lugar construído sobre valores que priorizam a dignidade dos homens e das mulheres, um lugar acolhedor da diversidade, um lugar de segurança e que garante prosperidade material por via do trabalho para todos. O que se mostra, para já, uma parede difícil de ultrapassar.

20.12.2025 | por Zezé Nguellekka

Viemos roubar os vossos maridos, um espetáculo de teatro documental

Viemos roubar os vossos maridos, um espetáculo de teatro documental    “Viemos roubar os vossos maridos” é um espetáculo de abordagem direta, que denuncia, que informa, que diverte e que dá visibilidade as narrativas de imigrantes brasileiras em Portugal. Neste momento, no qual os ataques aos imigrantes ganham força, em Portugal e na Europa, culminando na recente Lei anti-imigração, este espetáculo deveria correr o país, promovendo debates e a desconstrução dos preconceitos longa e massivamente disseminados sobre a mulher brasileira, mas tem sido realizado como uma “guerrilha”, nas palavras de Pinheiro, com recursos e apoios limitados.

22.09.2025 | por Miriane Pellegrino

O Festival de Músicas do Mundo de Sines em dez momentos

O Festival de Músicas do Mundo de Sines em dez momentos Tendo a Palestina como denominador comum de quase todos os concertos, Sines celebrou, mais uma vez, a diversidade musical com um programa de luxo, curado por Carlos Seixas, que assinala uma vigorante 25.ª edição. Destacam-se dez grandes momentos de um festival que nos ensina a ver e a ouvir o mundo.

27.07.2025 | por Manuel Halpern

Se não espalmares, fica muito solto

Se não espalmares, fica muito solto A filha quer saber como foi que aconteceram as coisas, e a mãe responde-lhe com uma receita. Ou seja, com instruções. A filha quer uma descrição e a mãe dá-lhe uma prescrição. Esta frase resume o processo todo do teatro. Começa com uma interrogação: «Como é que foi?» Em vez de se responder, cria-se um conjunto de prescrições sobre como se deve formular a pergunta: «Numa taça, juntas a manteiga amolecida.» E no fim tem-se o crumble de maçã, que é As Castro.

05.06.2025 | por Miguel Castro Caldas

Que Mulher é essa?

Que Mulher é essa? A música d'A Garota Não traz questionamentos sobre padrões de beleza que são impostos às mulheres, de formas conscientes e inconscientes, que no fim do dia nos adoecem; porque essa música significa, para mim, um manifesto ousado que se propõe a contestar modelos estéticos sob os quais vivemos socialmente; e porque essa música reflete muito do que me inquieta atualmente em relação à forma como lidamos com a nossa própria imagem e das outras pessoas.

30.04.2025 | por Leopoldina Fekayamãle

«Black Rio! Black Power!, o som da identidade negra

«Black Rio! Black Power!, o som da identidade negra Junto a isso, eram lançadas mensagens afirmativas que fortaleciam a estética black — que assustava a sociedade (ainda em 2002, as vendedoras negras das boutiques da zona sul do Rio eram obrigadas a alisar os cabelos ou, no mínimo, trançá-los). Reivindicava-se o direito de aspirar à ascensão social. “O primeiro engenheiro negro que conheci foi o Filó; o nosso destino era ter um lugar subordinado” afirma um dos entrevistados.

15.04.2025 | por Laura Burocco

Recuperar através do corpo uma história no gerúndio que tem a ver com o presente

Recuperar através do corpo uma história no gerúndio que tem a ver com o presente Ana Bigotte esclareceu como o processo curatorial se definiu enquanto exercício contínuo e fluido. Uma vez que a equipa admitiu ser tão impossível como incorrecto e indesejável propor uma história unificada e conclusiva da dança, afastou de imediato afastado qualquer desígnio de elaborar uma narrativa absolutizante e categórica. Em contrapartida, adoptou que nas narrativas da dança estão comportadas múltiplas facetas, muitas histórias entrelaçadas e compostas por uma série de fragmentos e questões.

11.02.2025 | por Vanda Gorjão

The Killing (Keep it Real)

The Killing (Keep it Real) A realidade, que não gosta de boas intenções, deixou de obedecê-la, e ela sentiu-se livre. Mas não feliz. Libertou-se aparentemente da maldição por cantar o Amor, mas um amor apócrifo. Não se sentia verdadeira apesar de aliviada. Não se sentia inteira. Voltou então à realidade, à violência, de forma ainda mais radical, mais excessiva, mais ruidosa, mas sem cálculos, sem conveniências. Com a consciência das suas causas, e à prova das suas consequências.

10.02.2025 | por Brassalano Graça