Escrevo-te numa carruagem escaldante do Intercidades, no centro do Algarve, com 30 minutos de atraso e o ar condicionado avariado. Faro está do lado de fora da janela, e eu corri o Barlavento e o Sotavento em menos de uma semana. Dá para sentir a forma s base de um país, aqui mesmo a cutucar Marrocos. (Espera, vou mudar de carruagem, não se aguenta o calor). O Algarve é o faroeste do esquema, dos que tentam orientar-se, do sem recibo, do que se foda o Estado afinal «os políticos são todos iguais» e viva a Chegolândia. Os foras da lei são todas as escalas na terra das transações e da extração de recursos, naturais e humanos.
Mukanda
29.09.2026 | por Marta Lança
O espírito fica de atalaia para o oculto, de rabo esticado como um cão de caça. A repulsa que trava o colher do fruto vem do retrair covarde junto ao delírio, enquanto o princípio vital já baba veneno com o que adivinha. Antes mesmo que se decida a atravessar o entusiasmo, já o medroso conta os cabelos que vai perder, os nervos que queimou, o tempo que levará a redescobrir a cama. Nunca fui capaz de fabricar nada vagarosamente. As linhas passeiam sob o olho do diabo, até que as escarre para a valeta.
Mukanda
23.09.2026 | por Ricardo Norte
Regressei hoje de São Tomé, com o coração e a cabeça a urdir novas facetas dos infernos verdes ou do «paraíso do caos», como um amigo de lá chama à sua ilha. Foi uma semana proveitosa de trocas, reencontros e aprendizagem no Festival do Fim do Mundo, cujo programa continha temas como cidades climaticamente neutras, responsabilidade social, património cultural, empreendedorismo e turismo sustentável, entre outros propósitos evangelizadores do capitalismo verde.
Mukanda
16.09.2026 | por Marta Lança
O menor acidente me perturba, passado tanto tempo sem tocar o chão, qualquer tremor me deixa o sangue a ferver. Não escapo ao absurdo que colide com a minha incoerência. Tento evitar as piadas que fazia, as citações abusivas de Kafka, e a mistificação de uma tese qualquer. A crise é uma ruptura das teias de uma familiaridade prolongada, os slogans literários ficam para os onanistas palacianos. Ando com um isqueiro no bolso para queimar as barbas dos mercadores, para os prospectos que escondem a realidade.
Mukanda
09.09.2026 | por Ricardo Norte
Tropecei na tua frase “o tempo morto arrancado como dente podre”, um minuto antes de abrir a boca ao dentista. Enquanto as suas mãos de luvas suaves se empenham em perfurar o meu osso maxilar, imagino obras em andamento, terras a serem rebentadas, barrigas de baleia esventradas, mandíbulas de tubarão que são estruturas cartilagem, não osso. Confirmo que o cheiro do próprio sangue não perturba tanto como o dos outros.
Mukanda
01.09.2026 | por Marta Lança
O que significa defender a Europa? O que é que estamos a defender quando o fazemos? O livre curso de bens e gentes? O comércio livre? Ao contrário do que se pensa, as principais inovações nazis não terminaram com a guerra, mas proliferaram com uma força desmesurada pela Europa fora, como nos diz Chapoutot no livro “livre de obedecer”. Os nazis defendiam uma concepção não autoritária do trabalho, em que o trabalhador já não era um subordinado, mas sim um "colaborador”.
Mukanda
24.08.2026 | por Ricardo Norte
Já estou a imaginar-me na areia, um chinelo perdido, livro meio deformado pela água com um recibo de supermercado a fazer de separador, conchinhas à volta do umbigo. Está muito quente e ouve-se, ao longe, o som repetitivo das ondas, misturado com notícias sobre incêndios, escândalos políticos, e vozes de trabalhadores sazonais. Uma ventoinha roda lentamente, sem refrescar ninguém.
Mukanda
24.08.2026 | por Marta Lança
Pensei em escrever um livro, tosco, rude, como um tecido gordo de roupas usadas e lã grossa acabada de cortar. Um tapete de trapos, rústico, pequeno, pesado, bom para ter na rua, debaixo dos pés. À noite apareciam-me coisas escabrosas que me faziam corar, cresciam com as sombras em redor do candeeiro, ficava deslumbrado com as paixões desatinadas e os crimes por realizar. Conhecia mal a minha loucura. Antes de ter as mãos sebosas do ofício já me divertia com os truques e as manhas que viria a usar, como desdobraria as fraquezas, as faltas, as traições.
A ler
12.08.2026 | por Ricardo Norte
Reconheço esse céu transformado em superfície lisa de que falas. Onde até o tempo morto é um intolerável desperdício. O sentimento de expropriação da vida, de sermos progressivamente afastados da experiência em nome da gestão mesquinha das nossas breves vidas, numa planície de ninguém. Mas insisto em procurar acidentes no terreno. Intervalos frágeis e imperfeitos onde seja possível respirar e imaginar outros modos de habitar o mundo e o tempo. Na noite mais popular de Lisboa, estive no arraial do RDA, nos Anjos. Lá dançámos, marionetas animadas por dedos tremidos de DJs e copos de cerveja. Fragmentos de vida antiga reativados num olhar de esguelha, uma certa suspeição. Enfim, somos pouco piedosos uns com os outros, mas, no fundo, no fundo, há carinho. Na verdade, gosto quando figuras que admiro voltam a ser de carne, com cabelo, rabos e purpurinas. E comem sardinhas.
Mukanda
05.08.2026 | por Marta Lança
Não posso fugir das cidades asfixiantes, nem das florestas mercantilizadas, tampouco mudar de vida neste estado vigilante sob os vários fogos cruzados. Agarro-me aos afetos numa absoluta carência, tentando desatá-los das lógicas mercantis. Hei-de furar o balão ácido do tempo com a mais digna raiva que conseguir. Libertar o “coração demissionário” do “tempo demasiado embotado” - expressões do teu Cioran -para tornar obsoletas todas as metáforas e o exercício de pôr um pé à frente do outro. Desordenar o sujeito-verbo e predicado. Seria mesmo importante que conseguíssemos imaginar fora da inevitabilidade do percurso histórico: primitivo - agricultura - cidade - Estado - desigualdade.
A ler
19.07.2026 | por Marta Lança
A cidade recusa-se à compreensão, por vezes espectral como um pântano enevoado, outras de uma solidez que fere e me deixa do outro lado dos muros. Tenho a impressão de nunca ter abandonado esta povoação, de me ter misturado com as suas vielas, com as construções aberrantes dos anos oitenta. Na verdade, as viagens que fiz ganharam feições imaginárias, ao ponto de não saber se as realizei. Nunca saí desta cidade, apenas me afastei momentaneamente. Faço parte dos homens sem mundo. Viver sempre no mesmo lugar enfraquece esta percepção, o hábito matiza-me com as cores que estão à minha volta.
A ler
16.07.2026 | por Ricardo Norte
A luz emagrece nos buracos das persianas enquanto espero que o vento volte as paredes do avesso. Lembro-me do Cesariny, do homem intensamente livre na praia mais pequena, nas dunas mais pequenas, no poço mais pequeno... Esse homem que sem saber arrasta uma época sem calendários. O Mário andava com ele, sem saber se era o caminho ou ele quem havia de cessar, e por isso andavam. Não ficavam a ver os delgados raios que mosqueam o quarto, encurralado no tempo a conta-gotas, na vida esfarelada dos acamados, para quem tudo está diluído, triturado, não vá um grumo entupir-lhe as veias.
Mukanda
01.07.2026 | por Ricardo Norte
Pouco me importam as críticas ao género ou a sua apropriação pelo mercado editorial, menos ainda os autores de auto-ajuda disfarçada de autoficção. Mas “La vie, il faut la mettre en scène…”, só assim se consegue expressar a sobrecarga invisível e destrutiva no quotidiano das mulheres como faz, por exemplo, a personagem Jeanne Dielman no filme de Chantal Akerman. Trazer a vidinha ao barulho é um processo que pode ser narcísico ou radical, depende da abordagem e do engenho de quem esmurra esse pão. Na pior das hipóteses, servirá como exercício de aceitação.
Mukanda
23.06.2026 | por Marta Lança
Ando assustado, a convencer-me que não. Leio sobre a alegria da afirmação, sobre o trabalho positivo de meter uma pedra à frente da outra, de ser a única maneira de a mudança ter um chão que dê para dançar. Ando num estiramento entre o que temo e o que quero, fico demasiado encostado a mim, só quando me afasto sei onde estou.
Mukanda
18.06.2026 | por Ricardo Norte
Escrevo-te de uma cidade cujo nome vem de “casa no pântano”, adivinha! Há personagens de BD nas carruagens de metro - até os tecnocratas são bonecos nesta sede da UE e da Nato. De tão cosmopolita e multicultural, não se percebe o credo racista que ainda esperneia por aí. Depois de um extenso programa na universidade, devorei um gorduroso kebab com duas professoras, ouvindo com apreço as suas impressionantes histórias de migrações. Dá-me uma certa ancoragem o facto da história humana ser, desde sempre, uma história de partidas, fugas, exílios e sobrevivências
Mukanda
08.06.2026 | por Marta Lança
Marta
Sabemos realmente o que é o velho mundo para que nos libertemos dele com um prefixo? O que vem não continua a ser velho? A construção do novo, não teria de partir das possibilidades deixadas em aberto pelo velho? A guerra está por todo o lado. Não nos toca, as imagens, a miséria, a destruição, não nos tocam, emocionam-nos, irritam-nos, tiram-nos o sono, e depois? Sabemos o que se passa? De que forma nos inscrevemos simbolicamente no mundo? Se fosse real, o saber, levar-nos-ia à ação ou à loucura. O real é insuportável, junto dele ou temos um surto, ou alucinamos, ou... Ganhamos ou perdemos a vida quando enfrentamos o real.
Mukanda
05.06.2026 | por Ricardo Norte
Sobre a correspondência, há pouco recebi uma carta manuscrita, com selo lambido e tudo, de um grande amigo. A alegria adormecida de receber uma carta é idêntica à alegria de voltar a dançar após um longo período acamada num hospital. Pela sua perenidade e singularidade, por grafarem algo no espaço, as cartas são a mais bela e íntima prova de estima e dedicação. Uma carta doa-se, envia-se sem prova, não é uma carta registada: "Entrego ao destinatário a prova física das minhas palavras com toda a confiança". Um gesto que segue de um a outro ponto sem deixar rasto. Lembras-te quando não se podia fazer search com lupa digital e era mesmo necessário usar os dedos por completo para abrir envelopes envelhecidos, mantendo frescas as palavras? Ando a ler cartas e telegramas de um desconhecido. Todo um espólio epistolar em caixa de fruta, comprado na Feira da Ladra por 20 paus. As parcelas de vida de um estranho Luís são-me desveladas através dos reparos, solicitações e análises de carácter dos seus remetentes.
Mukanda
26.05.2026 | por Marta Lança
“When you're in the shit up to your neck, there' s nothing left to do but sing.” (Beckett). Gostava de dizer-te que consegui fazer da ansiedade um estimulante, um catalisador, uma arma contra o adormecimento. Na maioria das vezes, consigo. Por vezes, no entanto, ainda prendo a cabeça em teias de aranha, fico mumificado como uma mosca que só consegue mexer os olhos. São as insónias que me fodem, de resto, tenho mais pernas do que tinha. Faço das teias algodão doce e volto os olhos para fora, porque é aí que vivo, encostado aos outros, aos que desconheço.
Mukanda
19.05.2026 | por Ricardo Norte
Tem-me acontecido ter de lidar com pessoas ansiosas e acompanhar depressões que vão germinando. Assistirmos a um ser que se mina, que se apaga, que sofre de modo invisível, sem podermos ajudar, é desesperante. Fala-se pouco desses acompanhantes dos demónios alheios e do quanto se coíbem. Mais ou menos discretos, tentam irradiar calor e soluções, sendo fortemente também afetados pelo vazio e sofrimento do parceiro. Creio que não fui boa ajuda, porque dou por mim a pressionar nos sentido de um abstrato “está tudo bem”, “não há motivo, olha as coisas fantásticas à tua volta”. Talvez porque nunca tenha ouvido em mim o canto gutural da depressão e, inconscientemente, não a aceito nos outros. Negacionista da dor invisível me confesso.
Mukanda
14.05.2026 | por Marta Lança
Durante anos, por volta de abril, pelas três da manhã, vinha um andorinhão para o meu telhado, com um tesão desgraçado, ainda com o fulgor africano a estremecer-lhe as penas, guinchava noite adentro à espera de uma resposta. As janelas são de papel, os carros zumbem-me na cabeceira. Não tinha como não acordar com os berros do pássaro solitário. Cheguei a pendurar-me na janela, não fosse ter um ninho no beiral. Quase me estatelei no alcatrão. Acabei por me habituar à passarada.Quando fico doente procuro concentrar-me nas alterações da percepção, como se fosse uma droga. A gripe não vai muito longe, mas, mesmo assim, com alguma atenção, o espaço modifica-se e estou noutra relação com o corpo. O centro de gravidade baixa ligeiramente, o ar fica líquido.
Mukanda
06.05.2026 | por Ricardo Norte