Desde o mirante das casas
Rodo para a esquerda, puxando ligeiramente a porta, pouso a chave sobre a mesinha da entrada e descalço os sapatos. Já devo ter feito este gesto milhares de vezes. As portadas da sala abrem para árvores e uma estrada inclinada; da cozinha e da casa de banho vê-se o rio. Se antes o Tejo era mais utilitário do que contemplativo – Lisboa virava-lhe as costas – hoje a vista sobre a Margem Sul, da ponte Vasco da Gama à Lisnave, seria inflacionada num anúncio imobiliário ou plataforma de arrendamento de curta duração. Tento olhar o rio com atenção, como sugere o topónimo desta rua do Mirante, do latim mirari, admirar, e observo, ao longo do dia, as suas cambiantes de azul, cinzento e negro.
Lembra-me, muito silenciosamente, que no murmúrio das águas nasce a esperança. Inventemos, pois, razões para renovar a esperança.
«Cada um se arranca do silêncio para virar narrativa», escreve Eliane Brum em Os meus desacontecimentos. Penso ter encontrado nas mudanças de casa a matéria a partir da qual virar narrativa. É que experimentei demasiadas vezes a sensação de entrar num espaço vazio e projetar algo novo naquelas assoalhadas, subir malas e caixotes ou aninhar-me no território de outras pessoas. Mudar de casa implicou acabar contratos, desprender-me de objetos e de rotinas para dar lugar ao que viria: novos parceiros de refeições, outros cartazes na sala e lavatórios para esfregar. Nódoas negras ao embater nos móveis, como quem reaprende a andar. Outro bairro, às vezes outra cidade, ou continente. Dessa sucessão de mudanças nasceu a vontade de encapsular temporadas em certos lugares e circunstâncias.
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De manhã, quando desço as escadas do prédio com a minha filha, é como se uma realizadora imaginária acelerasse as cenas do nosso biopic doméstico. A rotina decorre em modo fast-forward até surgir o oráculo «uns anos depois». Se repararmos nas nuances de cada frame, a mochila vai-se ajustando ao crescimento das pernas da mais nova, à medida que as rugas se aprofundam na mais velha – mãe e filha acumulam tempo e saber. Para agarrar a matéria fugaz e indistinta das experiências, transformo a casa num ponto de observação.
Centro de estabilidade emocional, a casa dá-nos segurança para enfrentar a insensatez do mundo. É lá que encontramos abrigo quando nos puxam o tapete, uma e outra vez. É lá que repousamos se os dias nos desviam da alegria e as noites nos entregam às bestas que cozinham a cabeça.
A casa é aliada do amor. Porém, sabemos que muita, demasiada, violência acontece no interior das casas.
Lugar de manutenção e de renovação, a casa alberga inúmeros gestos repetidos e ações simples que nos mantêm vivos – abrir o frigorífico, cozinhar, estender a roupa, assoar o nariz, dormir, fazer tudo o que há a fazer numa casa de banho, sintonizar a rádio, arrumar gavetas e regar plantas. Pôr as pernas em cima de almofadas. De tão impercetíveis, só reparamos em tais gestos quando a rotina é quebrada.
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Nunca morei sozinha: sempre partilhei casa, com família ou amigos. Por razões práticas, claro, para dividir despesas e responsabilidades, mas também porque partilhar casa é uma escola intensa em atualização permanente. Dá-nos novas perspetivas sobre aquilo que julgávamos saber; dicas e soluções para pequenos e grandes problemas. Obriga-nos a ceder, a negociar e a constatar que o normal para mim pode ser insuportável para o outro: nomeadamente no que toca a critérios de barulho, limpeza ou acumulação. Uma pequena comunidade doméstica acrescenta-se, ampara-se e, quando alguém perde a chave, há menos hipótese de ficar do lado de fora.
Uma casa revela a nossa capacidade de convivência, ou o excesso dela. Historicamente, a instituição «casal» contribuiu para o isolamento da mulher, sobre quem recaiu o papel central, e tantas vezes solitário, de gestora das necessidades do lar, marido e filhos. Assim, a gravitação existencial das nossas avós e de muitas mães limitou-se ao trabalho doméstico, com breves escapadelas. Milhões de mulheres viram
os seus desgostos e agrados nascer e morrer entre quatro paredes monótonas e as que ousaram desobedecer a essa ordem antiga foram a exceção penalizada. Assim, sendo herdeira e ativadora de liberdades, não reinventar o quotidiano seria uma desonra para todas essas mulheres que me precedem. Então, mesmo «em casal», prefiro contar com mais presenças e pulsações dentro de casa – ajudam a mitigar o peso do «doméstico» e a enfrentar o individualismo caprichoso.
Conta-se que, entre os povos guarani, quem adoece de melancolia afasta-se da comunidade, por acreditarem tratar-se de uma condição contagiosa. Testemunhei essa sabedoria discreta quando vivi abaixo do Equador: mesmo perante carências brutais, não se contagia o ambiente gratuitamente, despejando os problemas sobre os outros. Isso não alivia ninguém. Aprendi aí que a alegria, mais do que a euforia, talvez seja a arte de não magoar os outros. Em certas casas, bem podia fechar-me no quarto com música aos berros ou fazer turnos na cozinha em contrafluxo com os demais, que o mal-estar alheio atravessava o pladur. Os moradores de uma casa afetam-se mutuamente, para o bem e para o mal. A luz que entra, a disposição dos móveis, o conforto térmico contribuem para o temperamento de uma casa, mas nada o define melhor do que o estado emocional de quem a habita. Uma casa desvitaliza-se quando a desatenção se instala, os amuos superam as piadas, os ralhetes abafam os risos, o insulto passa a ser ruído de
fundo. Continuarei a desertar sempre que sua a energia for pesada e sorumbática. É que as guerras privadas entre paredes podem ser tão demolidoras quanto as de fora e, tal como não se vive em paz num mundo em guerra – nem todos concordarão –, também não ficamos bem se quem connosco partilha o teto estiver na lama.
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Coabitar é exigente. Entre os principais requisitos, figuram a atenção, a tolerância e a generosidade. A intimidade e a sensação de «estar em casa» com alguém nascem do tempo comum e respeito pelo espaço do outro. Delinear fronteiras entre o comum e o individual é, assim, um dos maiores desafios numa casa. Aliás, a privacidade, tal como hoje a entendemos, é relativamente recente. Durante séculos viveu-se em comunidades ruidosas, com pouca separação entre o espaço individual e o coletivo. Mesmo quando, na Europa Ocidental, se começou a valorizar a família nuclear e um espaço doméstico resguardado entre os séculos XVII e XIX, continuaram a ser comuns casas multigeracionais, criados e trabalhadores alojados e quartos partilhados. Os cortiços e os bairros operários densamente habitados.
Coabitar liberta oxitocina, como os abraços prolongados, mas os coabitantes formam comunidades mais ou menos saudáveis, mais ou menos transitórias. Cada um guardará uma versão diferente do que foi partilhar casa. No fim, fica uma impressão difusa, subjetiva, daquilo que partilhámos e levámos para os nossos percursos. Quero acreditar que, nas casas onde vivi, colaborei com risos, festas, comida quente, música, conversas fundadoras e um certo alívio para a ansiedade – esse buraco onde os sonhos se esfarelam. Mas também devo ter sido a chata, a amuada, a controladora.
A alma penada às voltas na cozinha quando todos dormem.
«Se não queres estragar uma relação, não vás viver com essa pessoa», diz-se. Mas eu preciso de saber como é a pessoa dentro de casa precisamente para ter uma relação mais completa. O modo como se habita uma casa revela traços surpreendentes das pessoas, e ficamos a conhecer o seu lado mesquinho e generoso. Percebemos que podem ser pura contradição – feras no mundo e ternurentas em casa, justiceiras no espaço público e trogloditas no privado. Assim, gosto da partilha banal e bilateral da coabitação. De usar a mesma fechadura e a mesma casa de banho. Partilhar a última fatia de pão, o azeite e o sal. Discordar das escolhas televisivas. Desatinar com o gasto de água e o excesso de objetos, ou quando a embalagem pinga no ecoponto. Organizar tarefas de limpeza e juntar roupas XL e S no mesmo estendal. Pedir para me porem creme nas costas e ser informada se a camisa está desabotoada.
Já sabíamos que o pessoal é político, o doméstico é-o ainda mais.
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Uma das ambições centrais da Revolução de Abril de 1974 era colmatar o grave problema da habitação e garantir casas dignas a milhares de pessoas que viviam em condições precárias, sem saneamento, espremidas em bairros de lata, pátios e ilhas. Muitas mulheres – moradoras, as mais desfavorecidas, mas também arquitetas, técnicas de serviço social e outras profissionais – foram protagonistas na luta pelo direito à habitação, consagrado na Constituição de 1976.
Porém, essa constitucionalizada promessa de Abril continua em larga medida por cumprir e a crise da habitação é uma das feridas sociais mais fundas e revoltantes do país. A ausência de políticas públicas de habitação, as cidades
a mando do lucro insaciável, a avidez do mercado imobiliário e a inflação descontrolada – impulsionada pelo turismo,
investimento estrangeiro e escassez de oferta acessível – fizeram do ato de pagar a renda ou a prestação ao banco, um desporto de alta competição. Nem dois salários bastam. Horários estafados e pouco descanso, um permanente esforço para pousar a cabeça numa almofada.
Gente e mais gente expulsa da cidade, emigrada ou a ganhar grisalhos em casa da família. Casais à beira de um ataque de nervos. Pessoas de todas as idades a dividir casas mínimas com desconhecidos, numa convivência forçada que envenena as relações. Nessa coabitação imposta por sobrevivência nada há de comunal, pedagógico ou nostálgico – resulta até numa aversão ao lugar onde se vive, e às pessoas com quem temos de dividir o chuveiro.
A camaradagem e a empatia ficam difíceis na lógica demencial em que as cidades funcionam.
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A toda a hora há transações de casas, compradas, vendidas, transformadas em ativos financeiros. Olhos saltam das órbitas com as fortunas do património imobiliário. Residentes endinheirados criam bolhas de lifestyle urbano, empurrando moradores para periferias distantes. Inúmeras casas estão vazias – «Tanta gente sem casa e tantas casas sem gente», o slogan não passa de moda –, outras são demolidas e, num instante, alguém passa a morar na rua, sem ter onde cair morto. Famílias inteiras são despejadas.
As desigualdades inscrevem-se no tecido urbano segregado e, na Grande Lisboa, proliferam bairros-dormitório sem infraestruturas nem serviços, deliberadamente empobrecidos, onde muitas pessoas maioritariamente não-brancas vivem em «estado de sítio». Entre a dura sobrevivência e a tensão constante com a polícia, ali todos os dias são de alerta. Servir e ser servido, cidadãos de primeira e de segunda – a velha ordem colonial reorganizada gera as mais ultrajantes ironias: quem limpa casas não tem casa digna; quem ergue os edifícios, de madrugada ou sob quarenta graus à sombra, constrói a cidade para os outros.
Onde devia haver um abrigo, é o desespero que se infiltra pelas frestas até às vigas do telhado das casas.
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Sou de uma geração (e de um certo meio) em trânsito. O trabalho, a curiosidade e alguns encontros fecundos puseram-me em movimento. O meu mapa afetivo é uma dança de companhias contingentes entre variadíssimos bairros, cidades e até no campo. E às vezes tenho a sensação de nunca ter realmente saído de nenhum desses lugares onde vivi.
Fui incentivada a desejar o mundo, mas os poderosos do mundo aceleraram o colapso. Os rios começaram a secar, os incêndios avançam sobre as serras, as cidades expulsam os habitantes e até as casas se tornaram frágeis lugares de pertença.
Continuamos, ainda assim, a pôr a mesa, a mudar os lençóis, a abrir as janelas e a dar duas voltas ao trinco da porta. Os pequenos gestos domésticos, repetidos quase sem pensar, a persistência dos micro-organismos, insistem em dizer-nos que ainda existimos.
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Perante a contenda diária da habitação e o mapa de classes na cidade, perante a consciência de quão brutalmente excludente é o acesso à experiência – e de como a liberdade e a circulação se tornaram privilégios –, estas crónicas serão um despropósito. Que sentido fará partilhar fragmentos de fuga, perceções pessoais em viagens de tempo e espaço? Relatar vivências noutros países? Tão desinteressante e inútil como explicar a vida noutro planeta. Comenta-se a situação política e económica, meia dúzia de fait-divers culturais. Para quem ouve, tanto faz, nada disso melhora vidas ou salários. As experiências intraduzíveis ficam então a boiar dentro de nós, que lá estivemos, como testemunhas de sonhos proféticos.
Por outro lado, a comédia de horrores do nosso tempo – em que a mentira virou moeda política e o colapso nos é servido diariamente – reduz quase todos os textos a um caldo de pessimismo ou relatos sobre ninharias. Entre textos bem-intencionados, gritos de protesto e storytelling, gente e mais gente a emitir discursos e opiniões, parecem escassear leitores e ouvidos interessados – não para a obediência, nem para o following. Para quê, então, reclamar uma «narrativa» singular e circunstancial? My empire of dirt?
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Para revisitar as casas como ponto de observação, procuro o cheiro a café nas pontas dos dedos, como quem fareja uma condição justa e localizada, um rasto da passagem. Procuro também a tentativa de estabilizar entre deslocações, dores de crescimento e exaustão. Ensaio uma voz nem pudica nem excessivamente exposta, que não sufoque a malícia das vivências onde acaso, possibilidade e energia se entrelaçam.
Ponho então em câmara lenta o filme acelerado da mulher e da criança a descer as escadas, a cada manhã um pouco mais crescidas. Organizo os frames das suas mutações, reparo nas incoerências, nos gestos em falso, nas expressões do humor, trabalhando com o que ficou registado, porque quase tudo se perdeu.
Zoom in e zoom out é o movimento que estas crónicas ou memórias tentam fazer. Escrevo-as, afinal, porque importa documentar os meios que nos enformam, os quotidianos que construímos, seus encantos e aversões. O que nos lançou ao mundo e aquilo que, por nossa vez, fizemos acontecer. E também refletir sobre a delicada arte do convívio. Ao alinhá-las, recordei uma das minhas principais promessas: trocar a sala de jantar reacionária e auto-satisfeita por um «pileque homérico no mundo». Depois, foi preciso calar o meu «polícia interior», enfiar-lhe uns bons soporíferos e contar com a cumplicidade de amigos que me incentivaram a publicá-las e a quem agradeço por me libertarem da gosma nostálgica que nos cola ao passado.

Índice
Desde o mirante das casas | 7
A vertigem do ninho | 17
O vulcão-espelho | 47
As lições do sol da Caparica | 57
O lobo da mata | 61
Empadão de esparguete em Benfica | 71
Le piano vache | 83
A horta do tio Palminha | 99
Contracultura na Quinta do Lambert | 107
Saudar a mesma pessoa cinco vezes ao dia | Época
de paródia | Boda brutal | Continuar a respirar | 115
Hotel Globo | A varanda da Maianga | 143
Os microfascismos dos prédios | 167
Bairro Alto, aldeia da lágrima | 175
«Quem vendeu a minha pátria?» | Uma noite no Bagamoio | Do cinema à contracosta | 185
A alegria pratica-se | 199
Bairro das Novas Nações | 213
Implodir o centro | 221
Linha vermelha | 237
O sótão de todos os filmes | 243
Aprendo depressa a chamar-te realidade | 251
Eu quis uma casa no campo | 267
A casa da insónia | 281
Meia idade | 293
Essas pessoas na Sala de Jantar, Marta Lança, edições Tigre de Papel, 2026