Baralho de Cartas 20

Ricardo,

Gostei da história do andorinhão cheio de tesão. Aqui de onde te escrevo tenho um ninho de andorinha no alpendre construído já faz três verões. Autêntica arquitetura vernacular: resistente e ecológica, no ninho cabem dois, às vezes três pássaros. Aproximam-se ao fim da tarde, desenhando círculos estonteantes e, de repente, entram pela antecâmara da casa, uma  espécie de hall, uma andorinha de cada vez. Admiro a determinação e a inteligência com que se protegem do mundo hostil. Os pássaros são a minha companhia aqui, fazem uma chinfrineira terrível. Chegam a vir bird watchers do outro lado do oceano a este cantinho que vem na rota de migração das aves… sou inapta para distingui-las - a não ser as rolas, a astuta coruja ou a pega rabuda. Ah, e a abetarda que é rara e muito tímida, mas é época do seu voo nupcial, e pode dar-se o caso de me ofertar um auspicioso avistamento. (Se calhar devia descarregar uma aplicação para identificar pássaros) 

Então, cá estou no paraíso de vistas largas ainda na época verde. Talvez te pareça uma daquelas personagens ociosas de Éric Rohmer, a dizer frases vagas sobre a passividade, o tempo e o tédio, entretendo-se com pequenas querelas, equívocos verbais, coisas que não dão calo. Mas recuso, os tempos da autocomiseração já foram, não dá para vivermos alienados. A aparente serenidade sabe a fel quando colocada na ampulheta onde os grãos de vida se esvaem sem dó. Estamos desnorteados, “o Norte aquece, o Sul arrefece”, como escreves, e eu acrescento que a equação norte - luxo, sul - lixo ainda domina o mundo.

Francis Bacon, Study of a Baboon, 1953Francis Bacon, Study of a Baboon, 1953

Sigo com a naifa na garganta: mil merdas para fazer, permanente atraso, livros e artigos de outros por rever, intervenções para preparar (e para me cobrir de ansiedade), uma exposição e encomendas. O fado das noites sem dormir continua - corrói, atropela pensamentos interessantes e garante o mau feitio crónico. Encontro-me num contentor abarrotado de vigas de cimento, pesado demais para se lançar ao mar. 

Ouvi o Vasco Santos no podcast Enterrados no Jardim. Entre tantos assuntos, fixei o tema da infantilização dos pais. Talvez me sinta retratada, desde que um certo projeto familiar colapsou e o reconstruí de outro modo, talvez tente compensar dedicando-me à criança em esforço, como se nunca fosse suficiente. E talvez ceda demais. A missão de uma mãe e de um pai é a de ajudar alguém a crescer forte, autónomo, subtraindo o sofrimento aos mínimos. Porém, os códigos estão armadilhados, o generation gap gapizou de modo bizarro - os putos estão mais imaturos, todos nós em geral, uma imaturidade totalitária. Acima de tudo, as pessoas estão na merda, e muitas não conseguem, ou resistem a vestir o ser «adulto» e tomar o pulso da sua própria vida. 

Tem-me acontecido, nesta já longa vida, ter de lidar com pessoas ansiosas e acompanhar depressões que vão germinando. Assistirmos a um ser que se mina, que se apaga, que sofre de modo invisível, sem podermos ajudar, é desesperante. Fala-se pouco desses acompanhantes dos demónios alheios e do quanto se coíbem. Mais ou menos discretos, tentam irradiar calor e soluções, sendo fortemente também afetados pelo vazio e sofrimento do parceiro. Creio que não fui boa ajuda, porque dou por mim a pressionar nos sentido de um abstrato “está tudo bem”, “não há motivo, olha as coisas fantásticas à tua volta”. Talvez porque nunca tenha ouvido em mim o canto gutural da depressão e, inconscientemente, não a aceito nos outros. Negacionista da dor invisível me confesso. 

Prefiro dizer como os do Comité Invisível: “Não estamos deprimidos; estamos em greve”. De facto, custa-me assistir a tanta gente enredada em ansiedades, depressões, toda a canga social de uma sociedade paliativa e desorientada (depois de Fisher não dá mais para pensar na psicose em termos individuais) em que as adolescentes gastam a semanada em skincare ou sofrem de ansiedade social. 

Enfim, e tu? Percebi que houve uma certa fase da tua vida… Como fazes para enfrentar a ansiedade? 

Entretanto, Israel atacou mais hospitais e bloqueou totalmente a entrada de ajuda humanitária em Gaza, incluindo comida, medicamentos e água. Os sobreviventes em Gaza, para além das bombas e dos escombros, estão expostos às doenças e fomes, daquela fome que nada tem a ver com escassez, mas com planos de morte friamente premeditados, a tal necropolítica. Não há refúgio: escolas, hospitais, abrigos, haverá algo que ainda não foi bombardeado? As mães dão água suja aos filhos, não há anestesia para cirurgias, os médicos arrancam balas de corpos de crianças à luz de telemóveis. Todos os dias morrem mais e mais palestinianos. Todos os dias se mostra a indignação, necessária e tão insuficiente. Foi-nos montada uma rotina revoltante que nos lembra todos os dias impotência perante a brutalidade reinante. Penso nas palavras cúmplices da barbárie - preocupação, votos de abstenção, alianças intocáveis - que ajudam o comércio de armas a funcionar e a faturar. É certo que também a fome severa do Sudão, Haiti, Congo, Afeganistão, Síria e Iêmen nos indigna. Mas os negacionistas do genocídio gostam de nos atirar com os seus argumentos que relativizam e hierarquizam as dores dos outros. Se for por aí, podem descansar que  há sempre outras guerras a decorrer. É que não estamos perante “um conflito”, mas um projeto de extermínio. Matar em massa, destruir infraestruturas vitais, privar uma população inteira de água, comida, eletricidade, território, futuro. O sofrimento físico e psicológico de milhões de pessoas, transformado em estratégia de guerra e de ocupação. Sobre este tremendo absurdo, nada podem as metáforas ou hipérboles nem os sociólogos.  

ps. Adorei o teu texto das bonecas, “Moscas num olho de vidro”, ganda título! 

 

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 (troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)


 

por Marta Lança
Mukanda | 14 Maio 2026 | Baralho de Cartas