Baralho de Cartas 25
Marta,
Ando assustado, a convencer-me que não. Leio sobre a alegria da afirmação, sobre o trabalho positivo de meter uma pedra à frente da outra, de ser a única maneira de a mudança ter um chão que dê para dançar. Ando num estiramento entre o que temo e o que quero, fico demasiado encostado a mim, só quando me afasto sei onde estou.
“O mundo a que pertencemos não oferece nada para amar fora da inadequação individual: a sua existência limita-se à sua conveniência. Um mundo que não pode ser amado até à morte - da mesma forma que um homem ama uma mulher - representa apenas interesse e obrigação de trabalhar.” Escreveu Bataille, percebo o que quer dizer, pelo menos em relação ao mundo se ter tornado algo onde a relação amorosa se vê cirurgicamente amputada. Mas o que quer dizer com: “da mesma forma que um homem ama uma mulher”? Não creio que se possa dizer como “um homem”, em geral, ama uma mulher (qualquer). Certamente o que ele quer dizer vai em sentido contrário, porque o amor é sempre o que se vincula ao singular, ao concreto. Quero acreditar que não há um modelo que represente como “um” homem ama. Há certamente uma forma homologada pelo Ocidente, da possessão, aquela que a Dworkin chama pornográfica, por um lado, por outro, o casto modelo trovadoresco… nem um, nem outro convêm ao que ele quer dizer sobre um amor ao mundo. Seremos ainda capazes de criar novas formas, de aprender uns com os outros? Ouvi ontem os nossos amigos a conversar com a Maria João Faustino. Depois disso, ouvi uma entrevista à Andrea Dworkin, nos anos oitenta, num programa de televisão; ela e outra mulher, psiquiatra, entre quatro supostos intelectuais. Bastava tirar o som e olhar para as caras deles, a maneira como se torciam, como se riam, como a olhavam com desdém, para alguém que não merece ser ouvido, como marcavam as suas posições de poder, diz-nos o suficiente sobre a estrutura estabelecida. Na mesma experiência sem som, vemos uma mulher, a Andrea, com uma postura inabalável, com uma força que fazia as contorções dos outros parecerem uns fantasmas sem consistência. Mas, quem tiver ouvidos para ouvir ou é exaltado pela pujança da sua articulação, pelo vigor do seu raciocínio, ou se sente diminuído por ver os seus preconceitos atirados por terra. Num instante percebemos que nunca trabalhou para um leitor preguiçoso, para os iletrados que repetem a mímica, a repetição física, que é a única igualdade proposta pelo poder atual. A mímica que constrói a sexualidade pornográfica.
Não a conhecia. Li outras teóricas do feminismo, não muitas, sei dos problemas e dificuldades das mulheres com quem me cruzei, das histórias que ouço, do que vejo ao meu redor. Mas, não como quem passa por todas essas agressões, nunca terei o saber no corpo, por mais que leia sobre isso. O número dos grunhos que cresce, as histórias que contaram no Podcast, a impressão de que, como dizia o Pasolini, a esquerda faz barulho, mas quem cresce é o ódio de uma direita que se enraíza nos gestos e numa tradição acéfala.
Disse-te algures que ando sempre atrasado. Vou descobrindo as coisas que me passam os amigos de Lisboa, as Caldas é um pardieiro, ou sou eu que me isolo, nestes dias, ando mais sozinho, acabaram-se as idas à capital. Penso na Francisca, e fico com uma ansiedade terrível.
Penso em ti, como será viver desse lado do desejo… De um lado que nunca teve paz…
Lovers’ Lane. New Jersey, 1983. Thomas Hoepker
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(Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)