Baralho de Cartas 38
Ricardo,
Faz uso do teu isqueiro e depois, se fores capaz, arranca as barbas em chamas. Conselho: não te sintas excluído da tua própria vida.
Fiquei muito feliz ao reencontrar a minha filha depois de mais de duas semanas de férias com a família paterna. Preparo-me para desfrutar de um Verão com melancia, mergulhos, mistério, mansidão e morabeza. Para variar da letra M, algumas respirações profundas seriam agradáveis. Espero que os teus dias disponham de algum deleite - fui confirmar se era uma palavra apropriada, quer dizer «prazer prolongado».
Regressei hoje de São Tomé, com o coração e a cabeça a urdir novas facetas dos infernos verdes ou do «paraíso do caos», como um amigo de lá chama à sua ilha. Foi uma semana proveitosa de trocas, reencontros e aprendizagem no Festival do Fim do Mundo, cujo programa continha temas como cidades climaticamente neutras, responsabilidade social, património cultural, empreendedorismo e turismo sustentável, entre outros propósitos evangelizadores do capitalismo verde.
Fizemos diagnósticos deprimentes sobre o desastre ambiental, e sobretudo social, do mundo e daquele pequeno país que celebra hoje os 50 anos da independência. Motivo convincente para a festa será sempre, obviamente, o fim do colonialismo oficial, mas o território não se desata da sua condição colonial: quase toda a gente quer emigrar e fugir da pobreza de um país sufocado por governos instáveis, uma enorme dependência externa e uma dívida elevada, pela precariedade do ensino e da saúde. Há problemas ambientais como as inundações e as plantações intensivas de palma, que afectam a floresta; praticamente não existe tratamento de lixo; o turismo está a ser comido por grandes tubarões, que privatizam as praias. As mulheres continuam a ter muitos filhos; as mulheres velhas são perseguidas, algumas estigmatizadas como «feiticeiras», chegando a ser espancadas e abandonadas pela comunidade. E há as roças degradadas, com aquelas histórias de horror como fantasmagoria.
Percebi que andas a ler Césaire. Há pouco reli o Discurso sobre o Colonialismo, que saiu pela VS, e é extremamente actual o seu pensamento sobre a hipocrisia da Europa, e muito pertinente pensá-lo agora a partir do país de plantação e extractivismo que São Tomé é. Deixo-te o alerta de Mbembe sobre o homem da negritude martiniquês: «Levar Césaire a sério implica continuar a perseguir na vida de hoje os sinais que indicam o regresso do colonialismo ou a sua reprodução e a repetição nas práticas contemporâneas — podem ser práticas de guerra, formas de menorização e de estigmatização das diferenças ou, mais directamente, revisionismos que, a pretexto do fracasso dos regimes pós-coloniais, procuram justificar ex post aquilo que foi, acima de tudo, como sugeriu Tocqueville, um governo grosseiro, venal e arbitrário.»
Outro aspecto actual de Césaire foi o seu aviso sobre as falsas universalidades, também elas eurocêntricas, que serviram de pretexto para colonialismos e missões civilizadoras. Ainda vinga esta ideia de «universal» que nos foi imposta, assente em padrões europeus de cultura, razão e humanidade - uma ilusão de paz que, no fundo, legitima outras violências e nos impede de pensar outros modelos de cidadão e de vida. Bem sabemos quão obscena pode ser a Europa que se vende na propaganda televisiva, que descreveste numa carta: a Europa cúmplice do terror, da exploração das minorias, da máquina de propaganda. Claro que ainda há muita defesa a fazer da Europa - apesar de agora estarem tão obcecados com a Defesa - para lá dos interesses imbricados e das estratégias de poder, mas o projecto supremacista e colonizador que a Europa manteve perante África e o mundo esperneia com as novas configurações. Isto não auspicia que as novas possibilidades sejam melhores, com tantos autocratas a mostrar dentes, mas a «província do mundo», como lhe chamou Chakrabarty, essa experiência localizada entre muitas outras possíveis que se apresentou como centro universal da História, é, afinal, apenas isso, uma província do mundo.
Novo estilo de vida no quintal da antiga roça, René Tavares, 2024
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(Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)