25 de Abril todos os dias
É instigante sentir o tsunami de gente diversa a “sair à rua (avenidas, desculpem) de cravo na mão a horas certas”. Sou uma célula dessa massa de água e de carne há décadas, e tem sido animador ver a data da revolução reativar-se, ganhar fôlego e multidão, mais causas e palavras de ordem. Reconheço o 25 de Abril no meu percurso, como se o praticasse todos os dias e tenho pensado neste nosso lugar geracional: os filhos do 25 de Abril, que viemos com o fim da ditadura para pôr em prática a liberdade, com tantas possibilidades para florescer e sempre tão queixosos. Passámos do analógico ao digital, da heroína às anfetaminas, da esperança pós-Guerra Fria às crises globais, entre a celebração e o medo de perder… o Estado social, o trabalho, a casa, o ânimo.
A nossa história começa na ressaca da mais bela e poética revolução da Europa - uma revolução sem sangue, hein? E o napalm? E os milhares de mortos e explorados em África? - a minha, mais exatamente, quando a Constituição deu corpo às promessas de Abril (muitas ainda por cumprir). Era Paz, Pão, Habitação, Saúde e Educação mas, meio século depois, o contrato social anda debilitado, ou mesmo em crise. “Valoriza o que tens, olha que muita gente se sacrificou por isto!”, diziam os nossos pais. Então, vale a pena lembrar algumas conquistas sociais que traduzem a vida na tal democracia, e meia dúzia de acontecimentos que nos moldaram. (É que somos fruto disso tudo, mas também frutificámos, nos contextos onde calhámos e que procuramos desdobrar)…
Em primeiro lugar, o Serviço Nacional de Saúde que, a partir de 1979, tornou-se uma das mais importantes infraestruturas de igualdade, garantindo acesso universal aos cuidados de saúde. Em segundo, a democratização da educação: escola pública para todos, ensino obrigatório até aos 18 anos e acesso crescente ao ensino superior, onde nos formámos, olha que sorte! A minha adolescência estendeu-se entre a queda do Muro de Berlim, e o fim do apartheid com a eleição de Nelson Mandela, depois de vermos na TV a sua libertação, ensinando-nos que a história pode, de facto, mudar de rumo. Tinha dez anos quando entrámos na Comunidade Europeia, que abriu fronteiras, financiou estradas, e permitiu-nos, a alguns, brincar aos europeus, viajar, estudar e comprar fruta conforme aos mandos da Europa. Vivemos, com reservas, a euforia urbana da Expo 98, sem deixar de lembrar as “outras histórias para contar” que o progresso sempre apaga. Em 2002 adaptámo-nos ao euro, que nos trocou a moeda e a escala mental - tudo ficou mais caro sem nos apercebermos. Assistimos ao mediático 11 de Setembro de 2001, que transformou a política global e nos trouxe a paranóia securitária. Passámos a desconfiar mais uns dos outros e a indústria de vigilância agradeceu.
Fomos levados na expansão da internet e redes sociais, e a nossa forma de comunicar, trabalhar e até de engatar mudou. Sobrevivemos à crise financeira de 2008 e à austeridade da troika em 2011, entre emigração em massa e manifestações a abarrotar, acampadas e debates intensos que tentaram outras formas de fazer política. Pertencemos a coletivos e abrimos espaços autogeridos de programação cultural e de “pensamento crítico”. Fizemos revistas, editoras e portais, e filmes. Fortalecemos os movimentos feministas e antirracistas, desconstruindo muito das nossas culturas machistas e racistas; fomentámos as discussões sobre memória colonial, representatividade e o reconhecimento do racismo estrutural no debate público. Com admiração, vimos nascer grupos climáticos que nos gritam a urgência do planeta A.
Rendemo-nos à paralisação coletiva da pandemia em 2020 e 21 em que, dentro de casa, partilhámos o medo e as descobertas interiores, fazendo prognósticos para o futuro pós-pós, deixando a nu a fronteira entre os protegidos e os descartáveis. Mas, mal a “normalidade” voltou, a sub-humanidade e brutalidade cresceram ainda mais. Quando desconfinámos, fiz uma festa de anos em Monsanto, um dia antes de a Rússia voltar a pôr a guerra no centro da Europa. (Na realidade, as guerras nunca pararam, apesar de se falar de uma Europa do pós-guerra.) Nunca deixámos de ver o massacre na Palestina, mas em 2025 assistimos ao genocídio em direto. Nos últimos anos, parámos de nos espantar com a vertigem em que Trump e outros poderosos patológicos, e uns quantos multimilionários das big techs, levam ao colapso o mundo inteiro, dando continuidade à agenda imperialista e extrativista, tão antiga como a modernidade.
25 de Abril 2026 em Lisboa.
Nas questões de género, a violência doméstica passou a crime público em 2000; conseguimos a despenalização da interrupção voluntária da gravidez em 2007, o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2010; aprovou-se a lei da identidade de género em 2011; as licenças parentais alargaram, e muitos de nós vivemos a parentalidade de forma mais equilibrada. No trabalho, conquistaram-se limites legais ao horário; o trabalho temporário está mais regulado e legislou-se sobre plataformas digitais e teletrabalho, mas a precariedade é um duro osso de combater, por mais que a semana de quatro dias e a cidade dos 15 minutos sejam agraciadas nos “fóruns”.
Crescemos com este país em mudança, mesmo quando fomos embora e quase desistimos da vida aqui, onde até não se come mal e temos tantos bons amigos. Trespassámos crises, desilusões e reinvenções. Vimos cair muros e erguer-se outros, como o emergir da extrema-direita, vimos os racistas e machistas a perderem o pudor, pulverizando diariamente o ar com veneno fascista. Mas milhares desfilaram pelas ruas, gritando com os imigrantes “não nos encostam à parede”, e outros milhares a exigir habitação e a travar medidas laborais que engolem direitos e naturalizam a desigualdade, assim de uma assentada. E muitos mais em sucessivas lutas pela escola pública, pela cultura, papão que ainda assusta novos e velhos fantasmas, mas que volta e meia nos lança vislumbres de coragem.
Fomos percebendo, na prática, que a liberdade de Abril e a democracia não são adquiridos mas disputas permanentes e, quanto mais lemos e entendemos, torna-se evidente que a democracia e as conquistas lacradas em lei não bastam. A democracia liberal é até aliada da desigualdade estrutural do sistema capitalista. E, se queremos uma vida plena e justa, que se cuide e exercite o 25 de Abril todos os dias, não é essa a trilha a abrir caminho. Quando celebrámos os 50 anos do 25 de Abril, havia 60 deputados de um partido de extrema-direita eleitos, ali sentadinhos a validar leis. Um deles disse que se devia entrar nos bairros a matar quando a Lisboa metropolitana ardeu em revolta contra a injustiça sociorracial e o estado policial. (Por mais dissidente que seja a revolta, há uma intelectualidade que a aprecia à distância, abordando-a como «assunto» e instrumento de troca.)
Os 52 anos de Abril é uma dobra no nosso percurso de avanços, recuos, conquistas e novas inquietações. Fomos construindo amizades que resistem às décadas, outras que se agarram a determinadas fases de vida. Mais ou menos virados uns para os outros, mas juntos algures, num momento que valeu muito a pena e nos transformou no que somos. Fomos adaptando ideias e convicções, ao levar com a realidade de chofre, e ainda aqui estamos: a questionar, a insistir, a fazer filhos, a criá-los, a constatar que eles ainda têm mais dificuldades com trabalho e habitação, a emigrar, a voltar, a enterrar os pais, a sofrer, a não fazer nada, a ter medo e a voltar a brindar para esquecer as guerras que nos ocupam, e o discurso apocalíptico que faz minguar o ânimo. Há uma grande parte da vida que se faz em comum, entre amigos e todos esses conhecidos com quem crescemos, entrevistos há meio século no desfile do 25 de Abril, e os novos que se juntam.