Por que são as estátuas derrubadas?

Por que são as estátuas derrubadas? O papel das estátuas e dos monumentos coloniais é, portanto, fazer ressurgir no palco do presente os mortos que, quando vivos, atormentaram, muitas vezes pelo fio da espada, a existência dos negros. Essas estátuas funcionam como ritos de evocação de defuntos, aos olhos dos quais a humanidade negra nunca contou para nada – razão pela qual jamais tiveram quaisquer escrúpulos em fazer, por nada, verter seu sangue. - Achille Mbembe

09.11.2020 | por Jorge Victor Souza e Saulo Castilho

Vistos Gold: A fugir de Hong Kong para... Lisboa

Vistos Gold: A fugir de Hong Kong para... Lisboa Os pais de Lawrence, empresários inconformados com o rumo da nova China de Mao Zedong, na ânsia de salvaguardar liberdades e património, engrossaram a longa lista de imigrantes que, na década de 50, confluíram no território. Em 1945, Hong Kong tinha 600 mil habitantes e, passados seis anos, o número excedia dois milhões. Hoje refaz-se o ciclo. Com a instabilidade política e a crescente interferência de Pequim nos assuntos da região semiautónoma chinesa, Lawrence prepara o caminho para deixar esse abrigo provisório que o tempo fez casa.

15.10.2020 | por Catarina Domingues

«Ilhismo»: uma hipótese

«Ilhismo»: uma hipótese Em Cabo Verde não é novidade nos dias de hoje porquanto muitas são as tentativas de formalizar o fenómeno do bairrismo em discursos descentralizados ou regionais, que infelizmente caiem em “saco roto”…talvez devido à sua conceptualização equivocada… Mas a tentativa de compactar o assunto vem desde o fim do séc. XX, numa monografia por mim realizada em que auscultava a possibilidade de haver rivalidades em duas cidades de Cabo Verde, cuja perceção era maior do que o conhecimento das suas próprias realidades.

12.10.2020 | por Elsa Fontes

O grão de areia em Estocolmo

O grão de areia em Estocolmo A grande revolução do género foi e é marcada pelo objectivo de que um dia este não seja mais um problema, por isto o alvo é a dissolução da mesma quando esse momento chegar que deve ser lá para o século XXII. O dia em que ser pessoa conta mais que ser de um género ou de outro, ou mesmo transitar nesse corredor, ainda está muito longe.

02.10.2020 | por Adin Manuel

Poderes malignos

Poderes malignos Muitas crianças de rua transportam consigo estas tenebrosas estórias. Ao chegar ao meu local de trabalho na baixa de Luanda, cumprimentei o Strong, miúdo de rua por quem passava todos os dias. Com a sua t-shirt encarnada, fez-me sinal, disse-me que me queria mostrar uma coisa, para o acompanhar ao Sambila. Não sei o que me deu para confiar assim num miúdo e ir com ele até ao Sambizanga. Mas a convicção dele mostrava que era caso sério e a verdade é que confio nos meus gestos impetuosos. Esperou que eu saísse, e lá fomos, no Starlet comprado em terceira mão, de passeio ao subúrbio. Pelo caminho soube que ele vinha das Lundas. Perguntei-lhe porque estava em Luanda sozinho então.

20.09.2020 | por Marta Lança

Na Rua do Loreto

Na Rua do Loreto Está nua, a barriga dobra-se sobre o púbis. Eleva os braços, espreguiça-se, como um orangotango fêmea cansado. Deixa-se estar ali, lambendo os braços, levando ao nariz o cheiro dos sovacos, acarinhando um bebé que ninguém vê, dando-lhe de mamar com um desvelo maternal. Dessa vez, não a vi. Contaram-me que abriu as pernas, cheirou-se e sentindo-se, quem sabe, terrivelmente desamparada, começou a chorar de desespero. Alguém chamou a Polícia Municipal.

08.09.2020 | por Djaimilia Pereira de Almeida

A cidade-fantasma de Ihosvanny

A cidade-fantasma de Ihosvanny Nesta permanente reconfiguração, estaleiro de obras ora aqui ora acolá, requalificações seriadas, corrida às cidades sustentáveis, mais ou menos cidadãs friendly, não dispensam camadas de demolições, entulho, lixo. Um dos seus problema de fundo é lógica de acumulação, é isso que lhes dá sentido existencial. As cidades tudo engolem e tudo regorgitam, lidando mal com os resíduos, sejam eles matéria ou pessoas.

13.08.2020 | por Marta Lança

«Chão de Massapé»

«Chão de Massapé» A opção por Portugal como país de emigração, resulta de inúmeros fatores, que vêm dos aspectos históricos da colonização, da proximidade da língua, e do reagrupamento familiar que o percurso das gerações tem provocado. A tudo isto se junta a necessidade de mão-de-obra ciclicamente sentida no país, e que vem colmatando recorrendo a este contingente, “mais ou menos voluntário”.

10.08.2020 | por Elsa Fontes

Cabo Verde, rap e movimentos sociais

Cabo Verde, rap e movimentos sociais O papel do rap na mediação dos processos de paz no contexto da violência dos gangues de rua e contributo no processo de transformação dos gangues em organizações de rua. Por outro lado, tornou público os discursos infrapolíticos contra um sistema de Estado-bipartidário pós-colonial e nocivo aos interesses do cidadão comum e serviu de fundo sonoro às grandes movimentações de rua que marcaram o país nos últimos anos.

05.08.2020 | por Redy Wilson Lima

O que é este momento político?

O que é este momento político? Esta campanha, em articulação estreita com organizações comunitárias locais, tem como principal objetivo contribuir para ampliar as redes de solidariedade que visam colmatar a quase ausência de apoio estatal a famílias negras, ciganas, migrantes e em situação de maior vulnerabilidade, particularmente fustigadas pela crise atual.

29.07.2020 | por Ana Bigotte Vieira

Bairrismo em tempo de pandemia do COVID-19

Bairrismo em tempo de pandemia do COVID-19 o bairrismo tende a agudizar-se em tempos de COVID-19 e na discussão do EEP, ou seja, tanto do ponto de vista das relações sociais como político , na base de instituições jurídicas e políticas, bem como os modos de pensar e as respectivas ideologias ao estruturar a sociedade caboverdeana.

26.07.2020 | por Elsa Fontes

Visualidade das políticas públicas de memória: caso de Padre António Vieira

Visualidade das políticas públicas de memória: caso de Padre António Vieira A contradição das ações e representações históricas e memorialísticas no espaço público marcam a visualidade empreendida num discurso público e institucional que abarca um complexo de memórias referente ao colonialismo até à atualidade. Tento expor a situação alusiva aos lugares de memória que reclamam memórias invisibilizadas pela história, recorrendo ao exemplo da estátua do Padre António Vieira.

12.07.2020 | por Carolina Ferreira Mourão

Os condenados pela Covid-19: uma análise fanoniana das expressões coloniais do genocídio negro no Brasil contemporâneo

Os condenados pela Covid-19: uma análise fanoniana das expressões coloniais do genocídio negro no Brasil contemporâneo Proponho uma análise fanoniana das relações dialéticas entre capitalismo, colonialismo e racismo, subjacentes à conjuntura política e sanitária brasileira. Em um primeiro momento, tomo a noção de violência colonial presente em 'Os Condenados da Terra', como referência para problematizar as respostas brasileiras à pandemia de Covid-19.

10.07.2020 | por Deivison M. Faustino

Cabo Verde e a discussão sobre os símbolos esclavagistas, colonialistas e de reprodução da prática morgadia

Cabo Verde e a discussão sobre os símbolos esclavagistas, colonialistas e de reprodução da prática morgadia A carta que hoje traz o assunto da remoção dos símbolos esclavagistas e colonialistas, à qual acrescento o fim da reprodução da prática morgadia em modo de instalação de placas de ostentação da fulanização do poder, enquadra-se na terceira vaga de protestos antirracistas e anticolonialistas com séculos de história, mas materializado em parte com a declaração simbólica da independência.

17.06.2020 | por Redy Wilson Lima

Cabo Verde, História e a continuidade colonial

Cabo Verde, História e a continuidade colonial É quase heresia falar da história da escravatura, do colonialismo e do neocolonialismo em Cabo Verde. Não se fala desses assuntos porque o Estado e a elite não gostam. Porque vamos afetar a nossa relação com Portugal, ou a Europa de forma geral. Nem se fala destas questões por sermos nós tão “específicos”, tão “especiais”, tão “ singulares”.

14.06.2020 | por Alexssandro Robalo

Diário de um etnólogo guineense na Europa (3)

Diário de um etnólogo guineense na Europa (3) O tio Paulo Bano diz que os tugas têm orgulho e vaidade nos símbolos de poder, de violência e de opressão, e não toleram quem não os respeite. Chegaram à Guiné, destruíram todos os símbolos das pessoas, dizendo que eram maus, e colocaram os símbolos deles. Contou-me que os tugas obrigavam toda a gente na Guiné a aprender uma cantiga, para mostrar a sua importância e grandeza, até o próprio mar era nada perante um tuga.

14.06.2020 | por Marinho de Pina

O Renascimento do Harlem: uma nova identidade afro-americana

O Renascimento do Harlem: uma nova identidade afro-americana No auge do movimento, o Harlem foi o epicentro da cultura americana. O bairro fervilhava com editoras e jornais afro-americanos, companhias de música, teatros, casas noturnas e cabarés. A literatura, a música e a moda criaram uma cultura definida e “cool” para negros e brancos, tanto na América quanto no mundo.

15.04.2020 | por vários

Caminhar pelas ruas de Maputo é encontrar um futuro do passado

Caminhar pelas ruas de Maputo é encontrar um futuro do passado Os antigos nomes das ruas da cidade foram trocados por homenagens a líderes revolucionários socialistas: Anchieta, Diogo Cão, General Rosado, Álvarez Cabral, Duque de Connaught foram então substituídos por líderes da esquerda global considerados exemplares como Patrice Lumumba, Samora Machel, Ho Chi Min, Agostinho Neto, Mao Tse Tung, Karl Marx, Salvador Allende, Vladimir Lenine, Frederich Engels... Isso marca uma profunda distância dos nomes de rua desprovidos de história da capital brasileira - Brasília, em que a via pública é referenciada como quadras, blocos, setores pertencentes a zonas e asas do plano piloto, de forma “neutra e moderna”.

25.03.2020 | por Priscila Dorella e Matheus Pereira

Visita à Setúbal Negra (séc. XV-XVIII): Desocultar a história local através da educação não-formal

Visita à Setúbal Negra (séc. XV-XVIII): Desocultar a história local através da educação não-formal O presente artigo dá conta de um roteiro sobre a presença negra em Setúbal, nos séculos XV a XVIII, concebido enquanto “aula-passeio”, espaço de educação não formal sobre o colonialismo português. Pretende-se suscitar o rompimento com a narrativa lusotropicalista, entender a escravatura como um sistema complexo e parte de conflitos geopolíticos globais e conduzir os participantes na “descoberta” de como os outros estão, afinal, em nós.

10.03.2020 | por Ana Alcântara, Carlos Cruz e Cristina Roldão

Bahia dinheiro curto mas sonho comprido. E Angola?

Bahia dinheiro curto mas sonho comprido. E Angola? Onde foi que nos perdemos de nós? Deitamos fora o tempo, não mais nos sabemos direito. Uns para um lado. E outros sem ele. Não insistimos no que nos pertence... e por aqui nos “vence” com estórias que são as nossas. Fazemos nada por ser parecido, quando se é igual. A vida passa ao lado. Nada nos amola. A festa não rola. O que foi que nós fizemos? O que foi que permitimos que nos fizessem?

09.02.2020 | por Isabel Baptista