Baralho de Cartas 1
[Esta carta começou por ser a primeira parte de um texto para a revista Buala sobre imaginar futuros, não chegando a ser logo publicada por ter desencadeado uma troca de cartas entre o Ricardo e a Marta, entre janeiro e setembro de 2025, a que chamámos Baralho de Cartas.]
Marta,
Pergunto-me se a cidade existe, se ainda vives nela. Falavas de habitar os campos, de estar com os outros, de os ouvir, de te escapares à colmeia onde se anda numa só direcção. Por aqui os atalhos continuam os mesmos. Salto de um sonho para outro. Sinto-me empurrado para a periferia do corpo, para um murmúrio que se embrulha no horizonte. Tudo conspira numa passagem veloz de um estado para o outro. No entanto, transgrido como posso essa sanção, construo, vagarosamente, uma barga longe dos radares e um contrabando de amizades. Vivo entre fazer-me presente e perder-me de mão.
O mundo exige que lhe dê realidade, que o conjure, caso contrário perco-me numa espera inconsequente. Quanto mais observo as imagens que se oferecem, menos vivo; quanto mais me identifico com elas, menos compreendo os meus desejos. Quantas vezes não mimo os gestos daqueles que observo? Se tudo é espetáculo, não há lugar onde encostar a cabeça.
O tempo afinou o que Cesariny dizia da sua época: um quotidiano que convive com os mortos e enterra os vivos mal aparecem. Os dias estão saturados de um discernimento voltado para o futuro, de reações ao que virá. A tecnologia desenha incessantemente o que se aproxima, mantém-nos presos na expectativa. Quando espero, as pessoas e as coisas deixam de existir. Ultrapasso-as, roço-me nelas, mas não estão em lugar nenhum. Nada ecoa à minha passagem — deambulo como um fantasma. A casa, a livraria, os cães, todos se desfazem como nuvens num dia de vento.
No entanto, espero que a vida irrompa com a sua vassoura de giestas. No quinhão que me sobra do roubo do trabalho, procuro uma resposta à subtração, à submissão de não fazer lugar em lado nenhum. A terra vive de surpresas. O imediato escapa-me. Conseguirei agir sem saber onde meto a mão, sem saber porque se esfarela o presente? Não existe nenhum “mundo natural” onde viria a ser como sou. Cada vez que me torno nalguma coisa caio numa emboscada. Quero ser o que já sou, seguir um reconhecimento, tropeço na angústia. Não sei defender-me de mim mesmo, embaraço-me com o sono, na dormência da objectividade. As relações pessoais têm a aparência de coisas. Estamos numa relação falsa, enganosa com os outros e com o mundo. No imediato estamos mergulhados nas seduções artificiais que produzimos. As fugas para o imediato não fazem senão dissolver os dias em noites e adiar as noites por vir.
Pareço um náufrago a falar. No entanto, encaminho-me para um lugar onde tudo importa, onde tudo ofusca; o olhar negro das minhas cadelas, a rua violenta e vigorosa com os sentidos escancarados. Emerjo num mundo rugoso, cheio e encorpado, onde as mulheres passam de vestidos acesos no meio das árvores. O tempo continua aqui, enquanto esperava que passasse. Ter presença de espírito significa deixar-me ir no momento do perigo, desobedecer a tudo o que pende, ao correr liso e silencioso dos líquidos.
Andei num voo curto e pesado, tedioso como um moscardo, em redor dos amigos, queria saber como se furtam à subjugação. Dizem estar encurralados, que Hobbes escreveu o que havia a saber sobre o assunto; Consolam-se, lembram-me o meu pai quando me dizia para confiar na voz da experiência. Uma voz desossada e gelatinosa que arrebanha errantes e os põe a falar no mesmo tom, com um hálito que amolece tudo o que é força e decisão. Que o homem é um lobo para o homem, é um traço fácil de reconhecer, mas de onde veio este lobo, onde vive, porque devora os que o ameaçam, porque é que tudo o ameaça? Nietzsche diria que sociedade domestica o lobo e o transforma em cão, que o homem é o mais domesticado de todos os animais. É por ser um cão de dentes arreganhados que nos lembra um lobo, mas não temos nenhuma das suas qualidades. Foi por nos tornamos cães de guarda que vemos tudo como ameaça. Mas a história não foi sempre assim, o mercado não é um estado irrevogável. Aos que nos são próximos oferecemos coisas, canções, histórias e visões. Dar é o que nos alegra. Quando os amigos, cheios de boas intenções, me falam de reconhecer o homem pelo o que ele é, desfazem com palavras o que fazem quando dançam, o começo de uma comunidade, talvez nem nos recordemos do que é uma comunidade. Há um poema do Lowry que fala de um homem e um lobo: Conheci um homem sem coração:/ Os rapazes arrancaram-no, disseram,/ E deram-no a um lobo faminto,/ Que o apanhou e fugiu./ E fugiram os rapazes, do seu mestre também,/ Todos da fera para longe fugiram,/ Atrás dela, numa bizarra perseguição,/ Cambaleava o homem sem coração./ Encontrei esse homem outro dia,/ Caminhando com orgulho grotesco./ Com o coração restaurado e alegre aparência,/ O lobo manso, dócil ao seu lado.
Hoje, demorei-me a ver os cães dormir, correm num espaço que se subtrai ao mundo, apenas o revirar de olhos e o latir abafado o denúncia. No entanto, vigiam, basta um barulho diferente para os acordar. Entregam-se ao sono num estalar de dedos, mas continuam presentes, atentos ao mapa deste lugar. Quanto a nós, que invertemos todos os lugares, quando nos encontramos há sempre uma exaltação. Da cabeça ao mundo vai mais de um dia de viagem. Lao Tze escreveu que o próximo lugar pode estar tão perto que se consegue ouvir os galos a cantar e os cães a ladrar, mas envelhecemos e morremos sem nunca lá ter estado. O que ouves do lugar em que te encontras? Que outros lugares ecoam no lugar que habitas?
Letter, David Smith
CARTA 1