Baralho de Cartas 4
Ricardo,
Colocar-me em situações que nos desenformam, ou insistir em gestos desadequados - como se tentasse tocar aquela concertina basca, a trikitixa, com os dentes - é uma especialidade minha. Talvez porque, a fugir dos dias funcionais, tenha ido parar ao lado b onde a vida funcional não está garantida, a água nem sempre corre pela torneira e, se vais a uma manifestação, não será tão improvável levares um tiro.
“Não há sistema” pode ser a frase que mais ouves, por outro lado, a mão do Estado é musculada e cega, a ponto de descarregar nos mais frágeis a violência legitimada pelos fortes. Por exemplo, polícias a espancar “zungueiras” grávidas, arrancando-lhes o alguidar à bruta, lá se vai o sustento no comércio informal, mas as companheiras organizam gritos de ira e desprezo às armas aleatórias.
Nada estar mesmo garantido é uma grande lição em todo o lado, as respostas às adversidades serão desesperadas e espantosamente audazes, e qualquer biografia surpreende pela elasticidade e resistência.
O mundo é deslocação, escreve a minha querida professora Silvina Rodrigues Lopes, para logo lembrar que o mundo nos pede disponibilidade. A alegria instala-se na abertura ao desconhecido, para fazer «sentido contra o sentido feito, a doxa», tornando-se «expectativa sem objeto». Escreve ainda a Silvina, no Nascer do mundo nas suas passagens, que a alegria é a «invenção permanente de laços entre nós e os outros, entre nós e o mundo, entre nós e as palavras».
Fiquemos então pela formulação do «entre nós» ativamente reinventada. E entre nós a premissa pode ser a de encontrar o caminho de saída das cápsulas nostálgicas e neuróticas, tão paralisantes como colaborativas com a sandes de merda que nos dão a provar todos os dias. Como tira-gosto, proponho-te a contaminação mútua, em entusiasmo e vitalidade. É claro que as nossas perdas e desequilíbrios, tudo o que se resignou em nós, tudo aquilo que não ousou existir ou expressar-se, serão também chamados a colaborar nesta conjura.
PIERRE ALECHINSKY, Volcan décrit, 1971.
A alegria que cose a vida e a escrita, como sugeres, permite de facto experimentar configurações inusitadas. Não basta a vida acontecer, é preciso fazer com que a vida nos aconteça. E para isso, libertemo-nos da irritaçãozinha existencial que não deixa ver mais de um palmo à frente do nariz. Prescinda-se da intriga mordaz e ruminante das salas, palácios e computadores, para que o gesto insurreto regresse às cidades, às praças e aos corpos. Sentirmo-nos mentalmente disponíveis, o que é isso? Talvez o suficiente para entrar pela casa das pessoas a dentro… Não num gesto voyeur, antes como quem se senta à mesa e tem uma conversa franca, encontra os aliados e reconhece neles o mesmo desejo de sair das mumificações do espírito. É sempre em alianças, mais ou menos contingentes, que vou resistindo à aniquilação da mente, que tento «matar o Anjo da Casa», de que fala a Virgínia Woolf para recusar uma certa domesticidade que ainda aprisiona, e quanto!
(Bem sei que será preciso uma casa para pousar o Anjo, e disso muita gente carece).
Regozijo por teres trazido a semente do Gaia Ciência. Postei um excerto no qual Nietzsche defende a arte das festas contra a obra de arte, que apenas proporcionará um pequeno momento de embriaguez e de loucura, numa miragem salvífica.
Que importa toda a nossa arte das obras de arte quando perdemos essa arte mais alta, a arte das festas?
Também sou do clube das festas, como o Friedrich. Que a arte não salva já sabia, mas então o que nos salva? Por exemplo, o que nos salvará dos boomers bilionários que entretanto legitimaram globalmente o perigo para todos, num odioso superpoder. O Trump acaba de ser reeleito, é mesmo verdade? Vão pregar-nos, a uns mais do que outros, numa impiedosa cruz. Se não nos couber o desígnio de mártires, o castigo será o de assistir, com mordaças e mãos atadas (como os seus deportados), ao definhamento de quem vai à frente, sempre os mais vulneráveis, a quem se arranca o alguidar com o sustento.
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“O esforço para existir nasce contra o pântano onde me volto a enterrar”, dizes, mas a verdade é que te desenterras novamente, vens à tona respirar, enches-te de leituras potentes e levas mais lenha para a fogueira do teu abrigo. Um recomeço é já exercitar mais do que a mera sobrevivência. Força aí!
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Hoje tenho seis miúdas a passar o dia cá em casa. A professora fez greve e ofereci-me para ficar com as colegas da minha filha. As suas vozes agitadas, as portas sonoramente fechadas, as partidas umas às outras, os incansáveis pedidos de comida de bocas permanentemente ávidas de açúcar e os segredos que creem dizer umas às outras, dão uma renovada esperança na humanidade.
Com crianças por perto, que não cronometram prazeres nem fazem uso de termos severos e disciplinados, fica mais fácil imaginar que amanhã alguém estará aqui a brincar e a fabricar alegria.
Confirmo o meu espírito maternal e de sacrifício, mas hoje o reconhecimento vai para o trabalho de professores e auxiliares que, oito horas por dia, vivem nesta espécie de hospício com bombinhas de futuro. Trabalhos de aturar crianças e velhos deviam ser muitíssimo bem remunerados, é exigente e essencial. Mas, pelo contrário, grassa a exploração laboral. Empresas de cuidadoras dão uma mísera parcela às funcionárias, mulheres imigrantes, muitas vezes indocumentadas, nada a perder. Num país envelhecido, os cuidados deviam ser muito mais reconhecidos. Pela importância dos velhos, pelas intermináveis tarefas exigentes e íntimas, horas estafadas que passam com eles, a ouvir as mesmas histórias, a aturar os maus feitios, doses de racismo e classicismo do pior… Assistir um corpo fragilizado, acompanhar alguém que se despede da matéria, assim como todos os dias vivencinar esse concentrado num metro de gente, não é para todos.
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Ontem irrompeu uma trovoada bem estridente, daquelas que nos faz agradecer a cama quente. Namastê! Vinha no comboio da linha de Sintra a ouvir o Disorder dos Joy Division quando a trovoada tomou conta de nós… Lights are flashing, cars are crashing / Getting frequent now / I’ve got the spirit, lose the feeling / Let it out somehow.
É verdade isso dos sentimentos policéfalos, mas lá porque tudo tem uma dupla face não nos retiremos do fazer acontecer.
A propósito da nomeação que cria, gostaria de saber que palavras nomearias que documentem os nossos tempos? E, para desanuviar, qual são as brincadeiras preferidas com a tua filha?
Ler Carta 3 do Ricardo.
Ler Carta 2 da Marta.
Ler Carta 1 do Ricardo.
(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)