Baralho de Cartas 9

Marta,

Morar junto à estação, para além de me ritmar os dias e as noites, é uma reserva de expectativa ao alcance da mão. As janelas são velhas e deixam-me com as orelhas na rua. Às cinco e meia fica um comboio a trabalhar meia hora antes de ir para Lisboa. Esta semana não dei por ele, tenho dormido melhor; nota-se na facilidade com que estalo os dedos. A vitalidade faz-me descobrir ritmos inesperados no zumbido dos insectos, nos passos da vizinha, nos cães e nas cores baças do meu bairro. Nestes dias, em que a boa disposição me leva a encantar com qualquer coisa, partiria de boa mente numa carruagem de segunda classe, mas tenho de aproveitar a energia que ganho, se não sobram apenas os dias em que oiço os comboios de madrugada. Ainda assim, os comboios são bichos bravos carregados de incerteza. O que sai às seis da manhã, imagino-o cheio de vida,  trabalhadores que partilham pão e palavras cheias, entusiasmados, capazes de reclamar com os céus e olhar para o próximo com a face iluminada. Pode ir vazio, mas, como me tira o sono, penso-o cheio e revigorante. Vejo um homem com os olhos nas mãos de uma mulher que segura o cabelo, demora-se nas linhas dos braços, nas costas soalheiras, e desse pequeno gesto conclui sobre a fartura da vida.Os comboios parecem ter ficado aí, entre a escansão dos dias, e as memórias. As carruagens em que entro são da matéria dos sonhos. Quando pouca coisa existe, qualquer cão engole o que sobra, mas, o mundo espiga quando menos se espera e deixa de lhe caber na garganta. Nenhum ser vivo aguenta sem sonhar, sem escapar ao embate com o real. Não sei se os insectos sonham, mas os meus cães passam mais tempo desse lado do que do lado de cá. No nosso caso, não é só a dormir que sonhamos, construímos um universo mental que nos protege da realidade. O real morde, rompe, volta, e esfrangalha a visão total que tínhamos do mundo. De repente, dou-me conta dos fragmentos, dos buracos, da vacuidade do que sabia.

Henri Cartier-Bresson. Romania. 1975Henri Cartier-Bresson. Romania. 1975

 

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(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

por Ricardo Norte
Mukanda | 24 Fevereiro 2026 | Baralho de Cartas