Homens permanentemente sós - sobre masculinidade hegemónica a partir do livro de bell hooks

Homens sempre sós são bolas de ténis no ar / Muito batidos, saltam / Acabam por enganar / Homens temporariamente sós / Mas que cabeças no ar / Homens sempre sós nunca conseguem ganhar

GNR

Os homens, esse outro desconhecido 

Pensamos sobre “os homens” à medida que interagimos com eles: namorados, amigos, pais de amigos, colegas, artistas, professores, figuras públicas, pessoas com quem se partilha vida, intimidade, desgraças, conhecimento. Essas interações dão-nos opiniões acionadas por cada situação e contexto, mas também por um património de masculinidades. E o contacto com uma pessoa específica impõe desde logo uma certa distinção entre “os nossos homens” e “os homens” que respondem mais diretamente à abstração generalizada de “homem”.

A verdade é que nunca tinha pensado a fundo sobre eles enquanto sujeito político, como me levou a fazer a leitura de Vontade de Mudar, homens, masculinidade e amor, de bell hooks (Orfeu Negro, 2026), livro que nos faz questionar o que sabemos, e muito do que não sabemos, sobre os homens: não individualmente - os da nossa vida-, mas sem deixarmos de fazer associações a figuras da nossa convivência, direta ou remota.

Contrariamente a uma parte importante do pensamento feminista que concentrou, e bem, as suas energias em denunciar a violência masculina e as estruturas de dominação patriarcal, bell hooks atreve-se aqui a pensar os homens na sua complexidade, não com o intuito de os desculpabilizar, nem de relativizar a violência que exercem sobre mulheres e crianças, mas para tentar responder a algumas perguntas. Por exemplo: o que é que o patriarcado faz aos próprios homens? Quando é que um rapaz aprende que, para ser homem, tem de deixar de sentir? Pode existir amor onde existe dominação? Como libertar as mulheres da dominação masculina sem desistir da possibilidade de libertar também os homens da masculinidade patriarcal?

Quando falamos de “homens”, não estamos necessariamente a falar de uma essência masculina, nem sequer de uma maneira de ser partilhada por todos eles. Robert W. Connell e James W. Messerschmidt, ao reverem o conceito de masculinidade hegemónica, insistem justamente que não existe uma masculinidade única, mas masculinidades diferentes, atravessadas pela classe, raça, sexualidade, geração, geografia e relações de poder. A masculinidade hegemónica não corresponde sequer ao modo de ser da maioria dos homens. É antes um modelo socialmente valorizado de masculinidade, uma espécie de horizonte normativo perante o qual os homens são obrigados a posicionar-se, mesmo aqueles que não o encarnam e até os que o recusam.

Isto interessa-me porque permite sair da pergunta um pouco estéril sobre se “os homens são assim” ou “não são assim”. Não são. Mas existem padrões, expectativas, recompensas e penalizações que participam na fabricação social de um homem. Há maneiras de ser homem que conferem reconhecimento e autoridade e outras que retiram estatuto, provocam troça ou levantam suspeitas sobre a própria masculinidade, regras que não são fiscalizadas apenas pelas mulheres ou pelas instituições: os homens vigiam-se, corrigem-se e disciplinam-se uns aos outros desde muito cedo.

Todas essas regras têm vindo a mudar e, em alguns contextos - não tantos como se pensa -, é a masculinidade hegemónica o maior motivo de chacota. Mas, mesmo nesses casos, vale a pena perceber de onde se parte. Certamente os “novos tipos de homens” conviveram com um pai, um tio, um professor da “velha guarda”. A verdade é que, uns mais desconstruídos do que outros, todos somos figurantes do sistema patriarcal.

Disclaimer: Para encontrar padrões e tendências, é inevitável que este texto, como o livro, incorra por vezes em generalizações. Portanto dispensa-se o registo das exceções, dizer que fulano e sicrano não são assim.

Outro disclaimer, mais pessoal: ainda não desisti de con(viver) com os homens. Continuo a sentir-me atraída por esses seres que, muitas vezes, parecem de um planeta bem distante do meu. São um outro desconhecido, meio exótico, um objeto de estudo ao qual dedico tempo a etnografar para mais tarde dar por concluído o “trabalho de campo” sem perceber quase nada. 

Ironias à parte, predisponho-me a pensar, com bell hooks, o que significa tornar-se homem numa sociedade que continua a associar a masculinidade à virilidade, ao domínio e ao autocontrolo. Interessa-me saber que educação sentimental receberam, o que lhes foi permitido sentir, o que aconteceu à sua vulnerabilidade e o que se perde num processo de embrutecimento. Para conseguir, um dia, amar os homens sem desculpar ou aceitar a dominação masculina.

Abel Beyene, The Brotherhood Trust, 2025Abel Beyene, The Brotherhood Trust, 2025

O que o patriarcado dá, o que o patriarcado tira

Primeiro, bell hooks havia defendido o amor - em Tudo do Amor (Orfeu Negro, 2024) - como uma prática que nos faz crescer intelectual e espiritualmente. Mais do que sentimento, o amor seria uma combinação de cuidado, afeição, reconhecimento, compromisso e comunicação aberta. Assim, para politizarmos o amor — na base da vontade de criar comunidade —, seria bom abandonar a ideia de estado de graça ou sentimento romântico que simplesmente nos acontece, ou a gestão da posse de alguém na nossa vida.

É com muito prazer que adiro a esta configuração do amor, fazendo do verbo amar uma disciplina quotidiana que exige construir uma forma de estar perante o outro, de confiança e honestidade, um crescimento conjunto fora das relações de poder, em que ninguém tenta sugar a energia e a vitalidade de ninguém.

Como todas as práticas, o amor aprende-se, exercita-se, melhora-se. Não nasce connosco. Quer dizer, o potencial para amar deve estar lá desde bebezinho. Então, e se muitos homens nunca tiverem desenvolvido a aprendizagem dessa prática? Não porque lhes falte sensibilidade, possibilidades ou inteligência emocional, tão-pouco porque exista uma qualquer essência masculina incompatível com o amor. É mais rebuscado. bell hooks sugere que muitos homens foram educados precisamente para serem incapazes de aceder às condições que possibilitam amar alguém, nesta sua conceção de amor sem posse, porque foram mais incentivados a possuir, a competir, a vencer, a ter as coisas sob controlo - o que provoca tanto descontrolo no mundo, como o pendor bélico.

Numa abordagem mais sistémica: o patriarcado deu aos homens autoridade, legitimidade e muitos privilégios. Mesmo o homem mais empobrecido e explorado tem privilégios perante uma mulher da mesma condição. Mas, em troca, essa cultura patriarcal pediu-lhes, obrigou-os até, a deixarem partes importantes de si próprios pelo caminho.

Convém não transformar esta constatação numa equivalência. O facto de o patriarcado mutilar emocionalmente os homens não significa que homens e mulheres ocupem posições equivalentes no mesmo sistema. Certamente alguns homens sofrem com as exigências da masculinidade, mas continuarão a beneficiar da hierarquia naturalizada que os coloca acima das mulheres, quase sempre sem repararem. O sofrimento não anula o privilégio, tal como o privilégio não significa ausência de sofrimento. É uma contradição para a qual temos pouca sensibilidade: um sistema pode favorecer alguém e, ao mesmo tempo, produzir formas brutais de limitação e de opressão.

É evidente que os homens não querem perder privilégios. Não estão interessados nisso. Aliás, nada interessados: vejam-se de onde provêm fenómenos como os novos machismos tóxicos, a misoginia generalizada e a reação dos incels, red pills, os gurus da masculinidade e toda uma manosfera que transformou o ressentimento masculino numa identidade política, e num negócio. A obsessão com recuperar o “homem verdadeiro” e a misoginia espalhada pelas redes sociais podem ser lidas como respostas reacionárias à perda de referências, de poder e de uma percepção errónea de que se perdeu “privilégios naturais”.

Kudzanai Chiurai, Genesis IV, 2016Kudzanai Chiurai, Genesis IV, 2016

Perante o empoderamento das mulheres e a ascensão das raparigas na escola, na universidade, nas profissões, na cultura e no espaço público, estes homens não estão interessados em perceber o seu próprio lugar, mas querem restaurar uma autoridade que sentem ameaçada. Multiplicam-se os discursos sobre a suposta “crise da masculinidade”, as fantasias de mulheres demasiado independentes, exigentes ou sexualmente livres, o culto do macho alpha, a obsessão com o controlo do corpo feminino e a ideia de que as feministas foram “longe demais”.

Nas redes sociais, esta reação encontrou uma gigantesca máquina de reprodução: influenciadores que ensinam rapazes novos a desprezar as mulheres, a confundir vulnerabilidade com fraqueza e relações afetivas com jogos de poder, conquista e submissão. E o machismo mais banal continua perfeitamente vivo fora da Internet: na divisão sexual do trabalho em geral, na desigual distribuição do trabalho doméstico e dos cuidados, no assédio, na violência sexual e conjugal, na desvalorização da palavra das mulheres, na dificuldade em aceitar uma companheira que ganha mais, uma mulher que não quer casar, ter filhos, cuidar deles ou simplesmente agradar em geral.

A verdade é que, ao longo do processo de construção de uma masculinidade “imbecilizante”, perdem outras coisas fundadoras, como a possibilidade de acompanhar de perto o crescimento dos filhos e de desenvolver uma vida emocional mais rica.

Tornar-se homem: a aprendizagem da dureza

Para serem reconhecidos como homens, muitos rapazes aprendem cedo a renunciar a partes fundamentais de si. Aprendem, por exemplo, que há emoções respeitáveis e emoções proibidas, que o medo compromete a autoridade e a tristeza os enfraquece. Aprendem que a esfera do cuidado é exclusiva do universo feminino.

Desde tenra idade, são as meninas que brincam às bonecas, às cozinhas e às médicas, enquanto eles veem desenhos animados de super-heróis e ninjas, colecionam Action Man e dinossauros — continuo sem perceber a obsessão masculina pelos dinossauros — e passam horas agarrados aos videojogos, cujo objetivo é conquistar território e fazer guerras. Desde cedo ouvem “porta-te como um homenzinho”, “não sejas mariquinhas”, “não chores”. Adiar ou despachar rapidamente um problema é sempre mais importante do que falar sobre esse mesmo problema.

Veem filmes, séries e publicidades em que os homens são representados como figuras de ação, autoridade e performance. Mesmo que, em casa e na família, os papéis tradicionais de género estejam mais diluídos — o que ainda é minoritário —, por todo o lado lhes chegam figuras masculinas de poder, liderança e domínio do discurso: basta ligar a televisão. Fora de casa, as representações do afeto são sobretudo as professoras e as auxiliares da creche e da primária.

A cultura mediática e a escola, por si só, não constroem a masculinidade, mas tudo isto junto desenha um horizonte de expectativas sobre aquilo que um rapaz deve ser, muito antes de qualquer relação amorosa. Desde pequenos habituam-se a essa triagem das emoções que podem mostrar sem comprometer a masculinidade. A raiva é legitimada, até lhes dá alguma autoridade. O medo é melhor escondê-lo. A tristeza fica mal.

Omar DiopOmar Diop

Com os anos, muitas vezes deixam simplesmente de reconhecer certas emoções, que não terão desaparecido, claro, mas para as quais não têm palavras. Ora, aquilo que não tem linguagem dificilmente consegue existir ou chegar ao diálogo. Sem linguagem, não conseguem reconhecer o que sentem, ou sequer permitir-se sentir, quanto mais falar sobre isso.

bell hooks interpela-nos: o que sabemos realmente sobre os homens? É uma pergunta um bocado parva porque estamos sempre a falar deles, com as palavras deles, no mundo deles. Seria absurdo não os conhecer perfeitamente. Entre amigas discorremos sobre todos os prós e contras, os defeitos e as manhas de cada namorado, marido, pai, filho. Queixamo-nos de tudo, partilhamos quase tudo. Somos informadas.

Sabemos da desigualdade salarial, do assédio laboral e sexual, do poder político e económico, que continuam esmagadoramente a concentrar-se neles, das guerras feitas 99% das vezes por homens, da violência doméstica, das estatísticas sobre feminicídio. Sabemos tudo isso e denunciamos tudo isso. Mas bell hooks insiste que esse conhecimento, apesar de indispensável, continua a ser parcial e redutor. Concordo. Se olharmos para os homens apenas através da violência, acabamos por saber muito pouco sobre a forma como essa violência é produzida. Sobre o que fez com que tantos homens ficassem assim, sociopatas, a ponto de explodirem e de sentirem até um prazer sádico em bater, diminuir ou matar. Em contaminarem com o seu ar intimidatório, ameaçador, sem compaixão.  

bell hooks identifica esse momento em que os rapazes perdem o acesso a partes fundamentais da sua vida emocional como a “expulsão de um paraíso”. Muitos homens recordam uma infância em que ainda choravam, procuravam colo, tinham medo do escuro, abraçavam os pais, contavam as suas tristezas e medos com naturalidade. Depois, opera-se um corte que obviamente não se dá do mesmo modo ou no mesmo momento, quando perceberam que, se queriam ser reconhecidos como homens, era preciso anular a expressão de determinadas emoções.

Conhecemos essa transformação, vimo-la acontecer nos irmãos, nos primos, nos colegas de escola, mais tarde nos filhos e sobrinhos. O rapaz que até ali era expansivo vai começando a policiar os seus tiques e emoções. Chorava quando caía da bicicleta ou quando não o compreendiam, mas aprende a engolir as lágrimas. Quando o adolescente percebe que os amigos valorizam mais a dureza e ridicularizam a fragilidade, esforça-se por exercer poder e abusar da força, até com as irmãs e as amigas. O rapaz que gostava de dançar, fazer teatrinhos e vídeos de palhaçadas passa a ter vergonha de se expor. Ganha timidez, responde: “Isso é cena de miúdas.”

Claro que esta aprendizagem não é apenas individual, tal como a desaprendizagem também não o é. Individualmente, um filho pode ser bastante incentivado pelos pais artistas de esquerda a exprimir o seu “lado sensível”, mas não se escapa do processo de vigilância em que os próprios rapazes se policiam entre si. Chamam efeminado a quem fala dos sentimentos, medricas a quem demonstra medo; enfim, inúmeras fórmulas depreciativas vão treinando mutuamente a contenção emocional e as expectativas sociais de género.

De novo, uso o termo “masculinidade hegemónica” para reforçar que nem todos os rapazes querem ser aquele homem ideal, mas percebem, desde cedo, que há consequências se se distanciarem demasiado dele.

No livro, bell hooks traz a história do próprio pai para mostrar como esse processo atravessa gerações. Era um homem autoritário, violento, incapaz de expressar carinho, cuja presença em casa significava medo e represálias. Falava apenas para repreender, apontar uma falta ou os erros dos outros. Conta que durante muitos anos só queria afastar-se do pai, desejava até que ele morresse. Só muito mais tarde conseguiu olhar para o pai no seu contexto: um homem moldado por uma cultura que lhe ensinara exatamente a mesma dureza que depois transmitiu aos filhos.

Sam Contis, Lean Back, 2015Sam Contis, Lean Back, 2015

A autora fez esse exercício não para absolver ou relativizar a violência do pai, mas para conseguir identificá-lo como peça dessa engrenagem que limita tantas vidas. Ao produzir homens que aprendem desde cedo que mostrar amor ou vulnerabilidade ameaça a própria identidade masculina, o patriarcado faz deles seres muito limitados e pouco desenvolvidos.

Por isso, um dos mais importantes lembretes do livro é ampliar o próprio alcance do patriarcado: não se limita a produzir vítimas - mulheres - e culpados ou opressores - homens - em compartimentos estanques. Isto não significa dissolver as relações de poder numa espécie de sofrimento universal em que afinal todos somos vítimas de tudo, mas perceber melhor como funciona uma engrenagem tão interiorizada, porque desejamos compreender por que razão ela se reproduz tão eficazmente, inclusive em pessoas que sofrem nos seus privilégios.

A fome de amor

Uma das imagens do livro é a fome de amor masculino: filhas à espera do reconhecimento do pai, filhos que nunca ouviram uma palavra de orgulho, mulheres que continuam a desejar uma intimidade que os companheiros não conseguem construir, carentes e famintas de amor. Todos e todas, heteros ou não heteros, passámos por processos desses, de procura da validação de um pai, de um namorado, de um irmão, de um tio.

Milhares de crianças adormecem todas as noites com fome do pai, desejando a sua presença física, a sua atenção, o seu olhar. A confirmação de que são vistas. Acho que é preciso reconhecer esta carência de afeto, porque não desaparece com a idade: é capaz de mudar de forma.

Muitos homens procuram desesperadamente reconhecimento através do trabalho, do estatuto, do dinheiro, da competição ou da performance sexual. E como se tornam competitivos! Como se cada conquista pudesse preencher uma ausência muito mais antiga. Ainda se lê facilmente nos jornais que fulano tal “gastou tudo em carros, álcool e mulheres”, objetificando a mulher, mais um produto a adquirir! O problema é que nenhuma promoção, nenhum automóvel, nenhuma aventura extraconjugal consegue substituir aquilo que esse homem não aprendeu na infância: a intimidade, considerada uma ameaça à própria masculinidade.

Não quer dizer que as mulheres não sejam tudo isso. Mas não é delas que estou a falar, ok?

Para que servem homens fortes?

Quanto à violência masculina, aprecio o modo como bell hooks se afasta das leituras mais simplificadoras. Não a desculpa nem a patologiza, nem sugere atenuantes do tipo “os homens batem porque sofrem”. Convém afastar esta ideia pavloviana de que o sofrimento produz automaticamente violência. Há milhões de pessoas que sofrem violência sem agredir ninguém. Muitas vezes, produz até empatia por outros que sofrem.

bell hooks tenta antes compreender como é que determinada construção da masculinidade cria condições para que a violência seja percebida por muitos homens como uma linguagem legítima, por vezes a única de que dispõem.

Neste ponto, fui fazendo alguns cruzamentos com Teoria Feminista da Violência, de Françoise Vergès - também da Orfeu Negro, belo catálogo, hein? -, que li recentemente. Vergès desmonta a ideia de que o patriarcado se resume a uma relação desigual entre homens e mulheres. Vê o patriarcado como uma tecnologia política que organiza toda a sociedade: não regula apenas quem manda em casa ou na empresa, determina quem merece viver, quem pode ser explorado e quem é descartável. Determina ainda quem tem autoridade para exercer violência e sobre que corpos essa violência se torna aceitável. O patriarcado é, assim, indissociável do capitalismo, do colonialismo e do racismo: alimentam-se reciprocamente.

Embora partam de lugares diferentes, Vergès e hooks encontram-se algures, mas em escalas diferentes. bell hooks aproxima-se da estrutura pelo viés quase doméstico, entrando nas casas onde esses homens são produzidos. Vergès faz-nos sair de casa e perguntar para que sociedade estão eles a ser produzidos.

A contenção emocional, a resistência à fragilidade, a capacidade de suportar a dor e exercer autoridade não servem apenas para dominar mulheres. Vergès abarca as instituições patriarcais, isto é, todo um mundo do trabalho, do exército, da polícia, da guerra, das empresas e das hierarquias sociais que historicamente beneficiou de homens treinados para suportar, competir, obedecer e mandar sem grandes hesitações.

O trabalhador a aguentar todo o trabalho excessivo, o soldado que mata, o polícia de sangue-frio, o chefe que volta a casa depois de despedir cinquenta pessoas. Certamente não são a mesma figura, nem têm as mesmas condições materiais e estatutos sociais. Mas são percorridos por uma longa história política que associa masculinidade a dureza, força, disciplina, autoridade e capacidade de exercer violência. A tal repressão emocional masculina não é um probleminha de homens reprimidos que não conseguem conversar com as namoradas. É muito bem-vinda para ser funcional numa determinada organização económica, política e social.

Devan Shimoyama, Michael, 2018Devan Shimoyama, Michael, 2018

Voltando à conversa entre paredes: para um rapaz a quem foi inculcado, desde muito cedo, que o medo o diminui, a tristeza não se mostra, pedir ajuda o feminiza e o amor o enfraquece, conseguimos entender que a agressividade lhe surja como uma linguagem emocional possível, autorizada e, em muitas situações, desejada. Ser demasiado tímido ou sensível não mostra “carácter”, pode até prejudicá-lo e certamente não corresponde à ideia de “rapaz” das masculinidades dominantes. Este moço fica num limbo qualquer. Já a raiva é um escape emocional e, uma vez naturalizada - “olha que ele pode passar-se” -, a violência deixa de ser considerada apenas um acidente, um episódio ou um desvio individual.

Vergès vai mais longe ao questionar esta natureza masculina inevitavelmente agressiva. Faz-nos pensar no automatismo do juízo fácil segundo o qual basta mandar para a prisão ou punir os agressores para resolver os problemas. Isso é toda uma matéria para outro texto sobre as perspetivas abolicionistas e as propostas alternativas.

Apesar de não ser abolicionista como Angela Davis, também desconfio do regime carcerário ou meramente punitivo, e de uma justiça ela própria extremamente racista - basta ver quando homens negros morrem nas cadeias portuguesas - e sexista, para resolver questões de fundo e tão graves. Porém, no momento em que estamos, é indispensável proteger as vítimas, responsabilizar e punir quem exerce violência - mas, sim, devia haver alternativas à prisão.

Concordo em absoluto que nenhuma sociedade conseguirá diminuir seriamente o feminicídio e a violência contra as mulheres enquanto continuar a fabricar estas masculinidades assentes na dominação, na posse e na incapacidade de lidar com as emoções.

Amar não é possuir

É ver como a violência doméstica continua tão enraizada culturalmente. Enquanto vizinhos, familiares e conhecidos de vítimas ou agressores, podemos até dizer: “Ele parecia um homem normal.” E provavelmente era. Trabalhava, pagava impostos, levava os filhos à escola, cumprimentava os vizinhos. Sabemos que os grandes massacres e crimes não são praticados apenas por pessoas iletradas e pobres; a violência não nasce necessariamente nas margens da sociedade, atravessa todas as classes sociais.

Um dos fatores que produz e alimenta a violência é uma ideia profundamente banal de masculinidade segundo a qual amar significa possuir, proteger significa controlar e perder uma namorada, companheira ou esposa é uma humilhação intolerável. bell hooks lembra que os homens são socializados para acreditar que o amor lhes será dado em troca da capacidade de controlarem as circunstâncias e o ambiente em que vivem. Deste modo, nas situações de rutura, essa perceção transforma-se numa sensação de fracasso absoluto.

Se durante toda a vida ouviram dizer que deviam governar, proteger, decidir, possuir e pagar, sem nunca mostrar fragilidade, como podem eles, depois, lidar com o abandono e a impotência? Como suportar que uma mulher lhes diga simplesmente: “Já não quero isto, já não gosto de ti”? Toda uma identidade construída em torno dessa relação de poder pode não saber lidar com uma rejeição amorosa. Ela, a que já não quer, tem de pagar pela frustração causada.

O feminicídio é a maior expressão da lógica de um menino mimado que não sabe lidar com a perda e a rejeição: se ela já não me pertence, é melhor deixar de poder pertencer aos outros, ou à própria vida.

Outra formulação de bell hooks é precisamente que os homens só conseguirão amar, aprender a amar, se aprenderem a renunciar ao seu impulso social de dominação. Aprender a gerir ímpetos violentos implica elaborar emocionalmente a perda, a rejeição ou a frustração, expressas tantas vezes em gritos, insultos, irritações por tudo e nada.

A ideia de dominar é abrangente. Até nas pequenas coisas esta postura se revela: aqueles sinais do mundo macho, o modo de ocupar mais espaço, ter mais caprichos, a sua voz valer mais, as suas palavras serem mais tidas em conta, quererem ser ouvidos com uma atenção que nem concedem aos outros.

Renunciar à dominação como condição para amar não é um conselho moralista ou uma exortação à bondade dos homens, ou das mulheres. Trata-se de reconhecer a autonomia do outro, aceitar que nunca possuímos alguém, que podemos ser recusados, contrariados ou abandonados sem que isso nos destrua.

Isto é válido para homens e mulheres. Não podemos pôr a nossa razão de viver ao serviço do objeto de amor, porque isso já não será amor, mas submissão a uma relação de poder, ou a um trabalho que não liberta. Como dizia Silvia Federici, “o que vocês chamam amor é trabalho não remunerado”.

Quem faz o trabalho emocional?

A ideia de trabalho interessa-me particularmente. Porque, se muitos homens foram educados sem instrumentos para reconhecer e elaborar emocionalmente aquilo que lhes acontece, alguém acaba frequentemente por fazer esse trabalho por eles. Nas relações heterossexuais, esse alguém são demasiadas vezes as mulheres, que durante tanto tempo viveram macho-centradas.

A companheira transforma-se na tradutora de sentimentos, na mediadora dos conflitos, naquela que percebe que ele está triste quando diz que está apenas cansado, que tenta descobrir o que está por trás de um silêncio, que insiste para que se fale de uma discussão que ele já considerava encerrada porque deixou de gritar. É ela que introduz palavras, interpreta gestos, pergunta e volta a perguntar, tenta criar uma linguagem comum.

Ora, amiguinhos, a libertação emocional dos homens não pode transformar-se em mais uma tarefa entregue às mulheres. Não podemos passar de cozinhar, limpar, organizar a vida doméstica e cuidar dos filhos para acumular ainda a função de alfabetizadoras emocionais dos homens adultos. Já bastam as professoras e as terapeutas. Se a masculinidade precisa de mudar, essa transformação tem também de ser trabalho deles, entre eles, e não mais uma prestação invisível das mulheres.

Sam Contis, Embrace, 2015Sam Contis, Embrace, 2015

Os homens da minha vida

Ao ler o livro de bell hooks, fui reconhecendo episódios das minhas próprias relações amorosas e amizades, no que toca à gestão emocional no convívio com rapazes. Revi situações em que me vi a repetir os mesmos argumentos até à exaustão, a minha insistência para falarmos sobre sentimentos e a sensação de ter uma parede à frente. Eles a olharem para mim, sentindo-se armadilhados, desejando que eu me calasse e adormecesse de cansaço, o que seria extremamente improvável.

Revisitei os silêncios e amuos. As fúrias intempestivas, a agressividade verbal a partir do nada. No início, atribuía esses sinais a diferenças de personalidade. Ou culpava-me porque estava a exigir demais, ou não sabia comunicar na língua afetiva deles. Depois fui aprendendo a ver o filme de fora e a dizer a mim própria: “Isto tem muito mais que ver com ele do que comigo.”

As sensações empíricas valem o que valem, mas há, sim, um património coletivo do que é suposto ser um homem e do que é suposto ser uma mulher a lidar com os homens. De repente, deixei de olhar apenas para os efeitos e comecei a interessar-me pelo processo.

Trazendo todas essas memórias, algumas bastante deprimentes, para esta reflexão, reconheço um processo semelhante em alguns “homens da minha vida”.

Não estou a pensar na capacidade de construir uma vida em comum, trabalhar, criar filhos. Não falo da capacidade de sustentar uma família, de pagar contas. Sobre esse aspeto de “provedor”, nem sempre foi fácil haver alguma justiça na divisão das contas, no meu caso com os papéis invertidos, comigo a fazer mais o papel de provedora.

Também não me queixo da capacidade de proteger ou de permanecer, porque quase todas as minhas ex-relações amorosas se transformaram em grandes e bonitas amizades. Gosto dessa possibilidade de os afetos mudarem de forma sem se dissiparem. De manter o companheirismo com quem partilhei a intimidade: poucos foram aqueles que desapareceram da minha vista. Continuo próxima, acompanho os filhos, os percursos, as mudanças de vida, as doenças, as alegrias e os pequenos desastres. Mantemos cumplicidades e idioletos próprios, e um carinho difícil de explicar. Numa defesa férrea, dou tudo por alguns deles.

Por isso, quando escrevo sobre homens, não escrevo a partir de um lugar de ressentimento ou desistência, nem de uma coleção de más experiências, apesar de ter algumas. O que me motiva é precisamente continuar a acreditar que vale a pena compreendê-los e viver com eles, e que só juntos podemos construir uma sociedade feminista. Também porque as mágoas que vivi devido às ações ou posturas de alguns homens estão presas a essa grande mentira do que tem sido a masculinidade, bem como ao nosso modo de ser mulher em relação a isso.

Ao rever algumas das minhas relações, mas também escutando com atenção as conversas com amigas de diferentes idades, percebo que há uma queixa recorrente, que vai muito além das questões sexuais ou da divisão das tarefas. Ouvimos e dizemos demasiadas vezes: “Eu não sei o que ele sente.” Ou então: “Quando tento falar da relação, parece que estou a falar sozinha.” Ou ainda: “Conheço melhor os medos das minhas amigas do que os do homem com quem vivo há oito anos.”

De novo, ninguém está a sugerir que os homens tenham menos vida interior ou menos sentimentos, evidentemente. Pelo contrário: foram educados para viver essa interioridade em regime de clandestinidade e, por isso, segundo bell hooks, vivem uma mentira. A sua masculinidade é uma mentira baseada numa performance constante.

O velho contrato já não funciona

Nas relações contemporâneas há muitas mulheres exaustas. Trabalham fora e dentro de casa, cuidam dos filhos e dos pais, organizam aniversários, consultas e férias, e ainda lhes cabe frequentemente manter o bom funcionamento da infraestrutura emocional da relação. Saber quem está zangado com quem, perceber o que ficou por resolver, escolher o momento para falar, lembrar que há uma conversa adiada há três semanas.

Duas pessoas que vivem juntas, de vez em quando, precisam de saber alguma coisa sobre o que se passa dentro uma da outra. Muitas mulheres estão a desistir desta canseira, de puxar pelos homens - ou até de tentar viver com homens.

É possível que a velha masculinidade esteja a entrar numa crise interessante. Durante muito tempo, a figura do homem provedor respondia sem grandes questões à pergunta sobre o que um homem tinha de fazer para ser considerado um “bom homem”. Era preciso trabalhar, se possível subir na carreira, trazer dinheiro para casa, proteger a família e manter-se firme perante as dificuldades. Não precisava de saber dizer o que sentia, de se “abrir” sobre os seus problemas e pontos fracos. A prova do amor era o seu “desempenho” nas tarefas de homem. Se corria mal, a frustração às vezes dava para agressão e destrato.

Eu já não apanhei propriamente esse tipo de homens, mas tenho ainda muito de machismo nas minhas próprias expectativas. E os homens mais sensíveis que me calharam estavam, eles próprios, numa crise enorme quanto à sua masculinidade. Não encaixavam nessa figura do macho do tempo dos nossos pais, mas também não sabiam bem lidar com a força do “empoderamento” feminino, com mulheres que quase já não precisam deles para nada, nem sequer para a reprodução.

É que, temos pena, o contrato já não funciona da mesma maneira. A independência económica das mulheres, a transformação das famílias, o divórcio, a liberdade sexual, as lutas feministas e LGBTQIA+, a possibilidade de uma mulher viver sozinha e criar filhos sem um companheiro. As mulheres já nem sequer precisam necessariamente de um homem para ter filhos.

Tudo isso retirou à masculinidade tradicional algumas das funções que durante muito tempo justificaram a sua autoridade. O velho contrato está em crise, mas aquilo que vem depois dele ainda está a ser inventado. Não significa que tenham aparecido outras maneiras, mais interessantes e atualizadas, de ser homem.

A má notícia é que o patriarcado não está para acabar. Basta ver quem continua a concentrar a maior parte do poder político e económico, olhar para a divisão do trabalho, para a violência contra as mulheres ou para a desigualdade salarial. O que mudou realmente é que algumas das antigas justificações para a dominação masculina perderam legitimidade, enquanto os privilégios e hábitos que produziram continuam bastante vivos.

As reações machistas contemporâneas podem ser lidas precisamente como uma resposta a essa perda de referências e de poder. Perante mulheres mais autónomas, estes jovens velhos homens não acham que se devem dar ao trabalho de inventar relações novas, o que seria um facto de evolução social para todos; concluem antes que têm de recuperar a velha ordem. Querem de volta uma mulher que precise deles: as trad wives. É mais fácil ser necessário por dependência do que desejado em liberdade; isso dá outro tipo de “trabalhos”.

Felizmente, há homens a tentar inventar outras formas de masculinidade, relações menos assentes no domínio, modos muito mais presentes e conscientes de exercer a paternidade, de cuidar, de amar e de estar entre companheiros. A masculinidade está em disputa.

Não há uma “tchan tchan” automática do velho patriarca para uma espécie de “homem novo” feminista, emocionalmente alfabetizado, bom pai, amante atento e impecável na divisão das tarefas domésticas. Infelizmente, não se trabalha com essa eficiência.

As mulheres também participam nessa confusão e impasse - sem falar das novas trad wives, sobre as quais não entendo mesmo o propósito, a não ser que seja para não terem de dar tanto o litro nos trabalhos precários e terceirizarem os trabalhos domésticos. Mas não é por aí a vossa libertação, tias — em vez de manas.

Fazendo algum mea culpa honesto: muitas de nós recusam o homem autoritário e provedor, mas conservamos expectativas antigas sobre aquilo que um homem deve ser. Queremos homens vulneráveis, mas nem sempre sabemos o que fazer quando eles são frágeis. Queremos igualdade, mas chegamo-nos à frente na gestão da casa e dos filhos e podemos continuar a desejar determinados gestos de proteção. Queremos que os companheiros expressem emoções, mas não necessariamente todas, nem a toda a hora. Também fomos educadas dentro do patriarcado e não vemos a masculinidade a partir de um exterior imaculado.

Estou cansada do papel de educadora, cuidadora, dócil e “mãezinha”, mas nem sempre consigo despir essas vestes. E, em muitos aspetos, na experiência, é mais fácil manter certas performances sociais. Estamos num momento de repensar tudo isto, mas tem de ser em conjunto, gajas e gajos.

Onde é que os homens põem a sua vulnerabilidade?

Outra abordagem do livro é o peso que as relações heterossexuais atribuem ao sexo. A cultura masculina dominante transforma frequentemente o sexo no principal lugar de intimidade permitido aos homens. Só no sexo é que os homens se descontrolam, no bom sentido, dizem coisas românticas ou despudoradas, ou se mostram mais frágeis.

Não deixa de ser uma performatividade. Do tipo: na noite de sexo diz-se tudo aquilo que não pode ser dito durante o dia, o contacto físico substitui a conversa. O desejo e a linguagem do corpo substituem a exposição emocional. Ai, o corpo não mente. Tá bem, mas acredito que a intimidade acontece para lá do corpo.

O sexo não pode ser o único lugar em que um homem baixa ligeiramente a guarda. Nenhuma relação sobrevive muito tempo apenas através do erotismo. A amizade é tão importante como o desejo; a confiança, tão importante como a atração. A intimidade exige muito mais do que partilhar uma cama e orgasmos - embora, ok, já seja um bom princípio. Exige partilhar fragilidades e hesitações, ter um interesse genuíno pelo outro, não apenas funcionar como uma boa dupla de adultos a gerir os dias e a casa.

Parece que há um protótipo de homem competente, autónomo e controlado em relação ao qual tantas mulheres descrevem uma estranha sensação de proximidade e distância ao mesmo tempo. Por ele nutrem desejo, cumplicidade, têm projetos comuns, filhos, fazem viagens, pagam contas a meias, têm uma vida inteira construída a dois. Esse homem parece viver num quarto fechado onde mais ninguém entra. Não porque esteja a esconder alguma coisa, um segredo monstruoso sobre o seu passado, mas porque talvez nem saiba bem o que tem dentro.

Lembro-me de conversas intermináveis em que fazia praticamente um monólogo sobre a relação. Explicava por que razão determinada atitude me tinha magoado, tentava perceber como eles tinham vivido determinado episódio, perguntava-lhes o que estavam a sentir, dava conselhos, etc.

Eram rapazes inteligentíssimos sobre política, literatura, cinema ou trabalho, capazes de discutir uma noite inteira o genocídio em Gaza, a crise da habitação, o cinema de Pedro Costa, o futuro da inteligência artificial, as eleições americanas, um plano de Tarkovsky, a sucessão no MPLA ou a melhor forma de cozinhar polvo. Homens curiosos, cultíssimos e atentos ao mundo. Mas bastava perguntar “e tu, como estás?” para a conversa encolher subitamente, como se comessem a língua.

Também comecei a reparar noutra curiosa assimetria. Conheço muitas mulheres que contam quase tudo às amigas. Falam do sexo, da ansiedade, das dúvidas sobre a maternidade, do envelhecimento, da morte dos pais, da depressão, da culpa, do dinheiro. As amizades femininas são frequentemente lugares de elaboração da vida.

Entre muitos homens, pelo contrário, a intimidade parece continuar mais compartimentada. Há grupos extraordinariamente cúmplices, esplanadas onde se encontram todas as semanas, jantares; alguns vão ver futebol e as eleições, fazem caminhadas. Existe afeto entre eles e espero que muitos consigam escapar ao guião que os impede de se abrirem sentimentalmente.

Mas permanece a pergunta sobre onde elaboram aquilo que lhes acontece quando não o fazem entre amigos. Muitas vezes, fazem-no apenas dentro da relação amorosa. E voltamos ao mesmo problema: uma mulher torna-se o único lugar onde aquele homem deposita a sua vulnerabilidade, ao mesmo tempo que continua a ter dificuldade em escutar a dela.

A troca de intimidade parece funcionar melhor em relações que não estão tão organizadas pela expectativa tradicional da masculinidade. Há mulheres que dizem ter num amigo gay um dos seus grandes confidentes. Não porque exista nos gays uma qualquer predisposição natural para a escuta, mas porque certas formas de masculinidade, precisamente por escaparem à obrigação permanente de provar virilidade, permitem uma circulação mais livre dos afetos. Isto é apenas mais um ponto para entendermos como a “natureza masculina” é uma construção cultural.

Não estou aqui a sugerir a substituição da caricatura do macho forte pelo imperativo do homem vulnerável. Claro que há pessoas mais silenciosas, outras mais expansivas, e nem toda a reserva emocional é repressão patriarcal. A questão é quando um mutismo cultural se transforma numa impossibilidade: quando não se consegue pedir ajuda, reconhecer o medo, suportar uma rejeição, dizer “não sei”, pedir desculpa ou admitir que se está perdido.

Claro que existe grande camaradagem entre homens, mas seria bom generalizar esse apoio: cuidarem uns dos outros, saberem como estão, reconhecerem a fragilidade, conseguirem falar do medo, da rejeição, da paternidade, do envelhecimento, da doença, dos fracassos. Uma brotherhood do cuidado. Se a intimidade masculina continuar dependente quase exclusivamente das mulheres, torna-se mais difícil uma verdadeira mudança da divisão sexual do trabalho, neste caso emocional.

Aprender a amar

Volto a bell hooks e à ideia do amor como prática. Se amar implica cuidado, reconhecimento, compromisso, responsabilidade e capacidade de conhecer o outro, então não basta sentir amor. É preciso saber fazer alguma coisa com aquilo que se sente.

bell hooks escreve que os homens foram socializados para acreditar que só seriam amados se permanecessem invulneráveis. É talvez uma das maiores tragédias do patriarcado e afeta-nos a todos nas relações interpessoais. Porque aquilo que supostamente torna um homem digno de amor - a força, o controlo, a independência - pode ser precisamente aquilo que o impede de experimentar plenamente a intimidade necessária para amar e ser amado.

Não acredito que a resposta seja simplesmente ensinar os homens a falar mais dos sentimentos. Há homens extraordinariamente capazes de falar sobre si próprios e igualmente capazes de dominar os outros. O vocabulário terapêutico também pode ser aprendido sem alterar uma única relação de poder. Pode dizer-se “estou a estabelecer os meus limites”, “preciso do meu espaço” e “isto é um gatilho emocional para mim” enquanto se continua a ser profundamente egoísta. A humanidade, sempre engenhosa, também conseguiu transformar a linguagem da vulnerabilidade numa ferramenta de poder.

A questão é mais funda. Aprender a amar, no sentido que bell hooks propõe, implica renunciar à dominação. Implica aceitar que o outro não existe para confirmar a nossa identidade, preencher as nossas faltas, curar as nossas feridas ou garantir que nunca estaremos sós. Implica conseguir viver com a autonomia de quem amamos.

Não se trata de substituir o homem forte pelo homem sensível, o provedor pelo cuidador ou o macho silencioso pelo homem que fala durante três horas sobre a infância. Trata-se de desmontar uma relação entre masculinidade e poder que ensinou sucessivas gerações de homens a confundirem autonomia com autossuficiência, cuidado com fraqueza, amor com posse e autoridade com controlo.

Também significa que não basta pedir aos homens que mudem individualmente. Se continuarmos a organizar o trabalho, a política, a família, a guerra, a escola e o sucesso em torno da competição, da produtividade, da autoridade e da capacidade de aguentar tudo, continuaremos a produzir muitas das masculinidades que depois lamentamos dentro de casa.

Não se transforma a masculinidade apenas através de melhores relações amorosas. É preciso transformar as condições que continuam a recompensar determinadas formas de ser homem.

Mas as relações são um dos lugares onde essa transformação pode começar a ser experimentada.

Acredito que o amor só acontece verdadeiramente quando deixamos de representar, de ser heróis, protetores ou provedores, e aceitamos mostrar aquilo que nem sabemos. Acho que só percebi que gostava de certo homem quando o vi chorar pela primeira vez. A intimidade começa quando duas fragilidades deixam finalmente de competir entre si e as solidões não se magoam.

por Marta Lança
Corpo | 11 Agosto 2026 | crise da masculinidade, cuidados, feminismo, Françoise Vergès, intimidade, manosfera, masculinidade hegemónica, misoginia, patriarcado, relações de poder, socialização de género, trabalho emocional, trabalho reprodutivo., violência masculina, vulnerabilidade