Uma abordagem crítica do romance “A Última Lua de Homem Grande”, de Mário Lúcio Sousa (parte II)

Uma abordagem crítica do romance “A Última Lua de Homem Grande”, de Mário Lúcio Sousa (parte II) Inserindo vários monólogos de Amílcar Cabral consigo próprio, vazados e lavrados em modo diarístico na sua depois desaparecida, ou, melhor, surripiada agenda azul, o romance 'A Última Lua de Homem Grande' pretende ser uma espécie de reconstituição póstuma dessa mesma agenda azul e de eventos marcantes da vida e obra de Amílcar Cabral, esse Morto Imortal, cujos dilemas, paradoxos, ambivalências e coerência do ser e do estar são traçados à saciedade nesse deslumbrante e cativante, mas também trágico perfil social e psicológico de Amílcar Cabral que é este livro, doravante um marco fundamental do percurso literário de sucesso de Mário Lúcio Sousa que vem, aliás, trazendo um verbo muito próprio e luzente às letras caboverdianas contemporâneas, tornando-se assim por mérito próprio um dos maiores, mais criativos, imaginativos e produtivos escritores.

22.09.2022 | por José Luís Hopffer Almada

Uma abordagem crítica do Romance “A Última Lua de Homem Grande”, de Mário Lúcio Sousa (parte I)

Uma abordagem crítica do Romance “A Última Lua de Homem Grande”, de Mário Lúcio Sousa (parte I) Lido e/ou ouvido o impressionante, poderoso e sempre cativante poema “Kabral ka more”, de Emanuel Braga Tavares (o saudoso Xanon), debrucemo-nos sobre este livro que teve a sua génese nessa primeira vez que Mário Lúcio Sousa resolveu, ainda menino e por inexcedível curiosidade infantil, espicaçada pelos tempos de festiva ruptura com o statuo quo colonial-fascista, copiar (e, certamente, decorar) o poema de Emanuel Braga Tavares e fazê-lo ressoar entre os colegas meninos e os mais adultos da sua vila natal do Tarrafal, poema esse que para sempre mudou a vida dele e de todos nós, desses férteis e irruptivos tempos.

22.09.2022 | por José Luís Hopffer Almada

O Turista

O Turista No resort, o turista aborrece-se com a vida de papo para o ar, entre mulheres flácidas fazendo selfies, famílias empertigadas, comida monótona, piscina o tempo todo. A zona de animação oferece apenas o desinteresse de casais entediados, ou um grupo de colegas bancários embebedando-se ruidosamente. O ilhéu pouco tem da África com que ele tanto sonhara (à exceção da paisagem impressionante, mas essa assemelhava-se a algum recanto do Brasil). Dos habitantes locais, todos expulsos por um trocos para construirem casinhas e libertarem o ilhéu para os turistas.

01.09.2022 | por Marta Lança

Pré-publicação | Eu, Tituba, Bruxa… Negra de Salem

Pré-publicação | Eu, Tituba, Bruxa… Negra de Salem Começou por me dar um banho no qual flutuavam raízes fétidas, deixando a água escorrer ao longo dos meus membros. Em seguida, fez-me beber uma poção da sua lavra e atou-me à volta do pescoço um colar feito de pedrinhas vermelhas. — Hás-de sofrer durante a tua vida. Muito. Muito. Estas palavras, que me mergulharam no terror, pronunciou-as com calma, quase a sorrir. — Mas vais sobreviver. Isso não me consolava! Ainda assim, emanava uma tal autoridade da pessoa curvada e enrugada de Man Yaya, que eu não ousava protestar. Man Yaya ensinou-me as plantas. Aquelas que dão o sono. Aquelas que curam as chagas e as úlceras. Aquelas que fazem confessar os ladrões. Aquelas que acalmam os epilépticos e os mergulham num bendito repouso. Aquelas que metem nos lábios dos furiosos, dos desesperados e dos suicidas palavras de esperança. Man Yaya ensinou-me a escutar o vento quando ele se levanta e mede as suas forças por cima das cubatas que se prepara para esmigalhar. Man Yaya ensinou-me o mar. As montanhas e os montes. Ensinou-me que todas as coisas vivem, têm uma alma, um sopro. Que todas as coisas devem ser respeitadas. Que o homem não é um soberano percorrendo o seu reino a cavalo.

27.08.2022 | por Maryse Condé

Pré-publicação | Mudança Estrutural em África

Pré-publicação | Mudança Estrutural em África Historicamente, África tem sido retratada numa perspectiva que não faz jus à verdadeira dimensão das suas conquistas em termos de desenvolvimento. Embora o seu território abranja mais de 30 milhões de quilómetros quadrados, a projecção de Mercator representou o continente africano com as mesmas dimensões que as da Gronelândia, que é 14 vezes mais pequena. A descrição cartográfica do mundo feita por Mercator, datada de 1569, tornou‑se uma das projecções mais influentes e amplamente difundidas ao longo dos séculos xix e xx. Houve quem defendesse que a intenção inicial era sobretudo proporcionar aos marinheiros uma ferramenta de navegação, devido à facilidade de assegurar a precisão dos formatos e dos ângulos, mas o certo é que esta descrição acabou por se tornar o mapa mundial mais reconhecido, aparecendo como pano de fundo nos jornais televisivos, na decoração de paredes das casas, em murais e na capa de muitos atlas.

22.08.2022 | por Carlos Lopes e George Kararach

Potential History: Unlearning Imperialism, de Ariella Aisha Azoulay (2019)

Potential History: Unlearning Imperialism, de Ariella Aisha Azoulay (2019) A violência institucionalizada molda quem as pessoas são – tanto as vítimas como os perpetradores – a ponto de apenas a recuperação da condição de pluralidade a poder desfazer. Isto remete para o direito mais básico imanente à condição humana, que o imperialismo compromete constantemente: o direito a não agir contra outros; ou na sua formulação positiva: o direito a agir lado a lado e uns com os outros. Aceitar este direito nas suas duas formas como fundamental é necessário para imaginar as reparações para que bênção de ser activo e reparar o que foi quebrado possa ser alcançada.

11.08.2022 | por Ariella Aisha Azoulay

Eu, Tituba, Bruxa… Negra de Salem

Eu, Tituba, Bruxa… Negra de Salem A constante desumanização das pessoas escravizadas é aqui desconstruída à medida que pela voz de Tituba (Eu, Tituba, Bruxa ….Negra de Salém) a história do mundo e das zonas de contacto (Mary Louise Pratt) no século XVII se tornam percetíveis. Há neste livro de Maryse Condé a instalação de um processo de rutura que subverte a tradição literária dominante e instaura uma nova identidade e uma capacidade de negociação entre margens e centros. Tituba, mulher de múltiplas iniciações, acrescenta à história a voz dos que não costumam falar, dos que não constam da história a não ser como estatísticas. Tributária do sistema de pensamento e cura Obeah (Obi) usa os seus poderes para curar, proteger e amar. Confessa-se Bruxa e servidora porque não há outra maneira de ser entendida pelos juízes que a julgam. Sabe que o espaço do meio que conhece não pode ser percebido pela cultura dominante e pela histeria coletiva que dominou a terra onde vivia.

03.08.2022 | por Ana Paula Tavares

Diário de um etnólogo guineense na Europa (dia 9)

Diário de um etnólogo guineense na Europa (dia 9) Minha mãe de mim que me pariu, agora que vejo toda essa história dos cabelos da Rita e de “Jejum Impertinente”, estou com receio que alguns comecem a dizer que essa coisa de passar fome é também apropriação cultural, uma vez que há muita comida na Europa, e há muitos anos que a Europa aplica a sua engenharia de escassez na África, criando famélicos. Pois é, estou mesmo preocupado, se nos tirarem até a fome, o que nos vai sobrar? Porque duvido mesmo que nos mandem fartura.

27.07.2022 | por Marinho de Pina

A Caixa

A Caixa A poesia, a performance e a música conversam sobre segredos clandestinos, verdades proféticas e viagens ancestrais, e tentam responder à pergunta: O que fazer depois da redescoberta de nós próprios(as)? A Caixa é sobre a libertação anterior e interior à revolução, a libertação da mente dos paradigmas coloniais encaixotados, é sobre pensar fora da caixa mesmo estando dentro dela, e sobre reconhecer as várias caixas destruídas ao longo da história.

09.07.2022 | por Ilha dos Poetas Vivos

Educar como Forma de Libertar e Desacorrentar a Mente

Educar como Forma de Libertar e Desacorrentar a Mente Devemos exaltar os grandes feitos dos homens do nosso continente não na perspetiva de sermos melhores que os outros, mas para incutir nas novas gerações que somos tão capazes como os outros. Só assim conseguiremos guiar os africanos e os afrodescendentes para o êxito e acabar, de uma vez por todas, com esta falta de confiança e de autoestima que paira sobre o nosso continente; só assim, no que deve constituir uma missão prioritária dos sistemas de ensino dos países deste continente, libertaremos, definitivamente, todos os africanos das amarras do colonialismo.

08.07.2022 | por Ednilson Leandro Pina Fernandes

A destruição começa na imaginação

A destruição começa na imaginação Quando a arte é controlada apenas por um tipo de pessoa que pertence a um grupo que foi socializado a partir de uma cultura colonial, como a portuguesa, não é só difícil pensar nestas perguntas, como é quase impossível uma mudança estrutural. Seria preciso não só reinventar o modo de produção artística, como ainda destruir este modelo para criar um novo baseado numa nova ética, em que pessoas sem sobrenome importante podem participar com voz ativa dos circuitos que distribuem o poder. A arte é política.

21.06.2022 | por Rodrigo Ribeiro Saturnino (ROD)

Not Our Namibian Pavilion

Not Our Namibian Pavilion Se o curador e os artistas do Pavilhão Russo, em sinal de repúdio à guerra na Ucrânia, cancelaram a sua participação na próxima 59ª Bienal de Veneza, um grupo de artistas namibianos gostaria que o seu governo retirasse o apoio ao Pavilhão da Namíbia, pela primeira vez parte da exposição, e que ao seu curador – o italiano Marco Furio Ferrario – fosse negada a oportunidade de participar da exposição como representante nacional. Os artistas denunciam “uma estreia mal conceituada e inadequada, com uma visão antiquada e problemática da Namíbia e da arte namibiana” e pedem que, caso Ferrario insista, o projeto seja apresentado como uma exposição independente. Para isso, os artistas elaboraram uma petição Not Our Namibian Pavilion que circula online há alguns dias.

15.03.2022 | por Laura Burocco

Excertos do Livro “Prisão Política”

Excertos do Livro “Prisão Política” Mabiala ainda estava acordado. Sorrateiramente, começámos a falar, tentando perceber aquela requisição nocturna e tão imprecisa. Preparei-me para o pior. Podendo ser o momento da execução, retirei da Bíblia o papelinho que continha o número de telemóvel da Neusa. Coloquei no bolso da calça. «Se me matarem e atirarem o corpo para alguma mata ou rua, pelo menos alguém encontrará um número para contactar. Se for ao rio, espero que os jacarés não comam o papel e a água não apague totalmente o número», pensava. O meu «compuna» – calão para companheiro de cela – acreditava ser uma transferência para o Hospital-Prisão de São Paulo.

14.03.2022 | por Sedrick de Carvalho

“Manifesto” pela representatividade da arte e dos artistas em Cabo Verde

“Manifesto” pela representatividade da arte e dos artistas em Cabo Verde A falta de uma estratégia assertiva por parte das entidades que gerem o setor da cultura é gritante e assustadora. Quando se trata de selecionar artistas para representarem o país nas grandes mostras internacionais, temos que definir criteriosamente os parâmetros de seleção daqueles que queremos que nos representem. Representar uma nação é carregar nos ombros o peso da responsabilidade, dos sonhos e da resiliência de um povo. Não há maior carga simbólica para um artista do que estar num grande evento a representar milhares de pessoas com a sua música, pintura, dança, teatro, escultura, cinema, literatura...

02.03.2022 | por Ednilson Leandro Pina Fernandes

A base social e educacional caboverdiana estará assente na herança Matriarcal/Matrilinear ou Patriarcal/Patrilinear?

A base social e educacional caboverdiana estará assente na herança Matriarcal/Matrilinear ou Patriarcal/Patrilinear? quase “tudo” gira à volta da mulher, ou seja, é ela o pilar da família. Ela é mãe, muitas vezes mãe solteira cujo marido ou pai dos filhos a abandonou para ir viver com outra(s) mulher(es), ela é dona de casa em todos os sentidos, isto é, educa sozinha os filhos, faz os deveres de casa quando os filhos ainda não têm autonomia para ajudarem, é ela que trabalha e, na maioria das vezes, é com o salário dela que os filhos comem, se vestem e vão para a escola. A mulher foi, desde sempre, a pedra basilar da sociedade cabo-verdiana, assumindo-se ainda com mais força enquanto tal nos momentos de maiores dificuldades a nível nacional, quando os homens, devido ao flagelo da imigração por causa da seca e da falta de recursos do país, tiveram de se aventurar por outros destinos, sendo que muitos esqueceram a família, que ficou para trás na forma de um grande peso deixado nas costas das mulheres, as quais se viram obrigadas a assumir todos os papéis que deveriam ser partilhados com o marido/pai dos filhos.

21.01.2022 | por Ednilson Leandro Pina Fernandes

Superintensiva

Superintensiva Este projeto começou a ganhar forma na Ásia menor durante o Paleolítico Superior. Este projeto começou a ganhar forma na minha cabeça, quando procurava qualidade de vida, isto é, ar e espaço, para criar uma criança. Ourique, capital do porco preto e seus lagartos, secretos, plumas e bochechas. Num monte habituado à cultura de sequeiro, as flores silvestres brotam dentro e fora do murinho pedra-sobre-pedra. No caminho de carro, vejo estacas branquinhas alinhadas ao estilo cemitério americano. Uns meses depois, sebe-oliveiras atrofiadas no tamanho e na copa, de produção precoce, assistida por herbicidas e agroquímicos para desinfestar e adubar. Fecho os vidros ao fumo pestilento do bagaço de azeitona, usado como combustível e biomassa. Imagino a contaminação no fumo e nas linhas de água, na roupa, nas paredes, nos pulmões. Imagino o abate às azinheiras adultas para fixar a monocultura de olival. Não se vê gente, mas sabemos da exploração laboral e da negligente saúde pública.

06.01.2022 | por Marta Lança

Diário de um etnólogo guineense na europa (dia 8)

Diário de um etnólogo guineense na europa (dia 8) A Tugalândia é tão complicada que não consigo pensar bem, são tugas brancos a serem racistas, são tugas pretos a serem classicistas, são tugas assim-assim a serem assado-assado, e eu aqui apanhado em pensamentos confusos e contraditórios, querendo deixar esta tarefa inglória de estudar os tugas e voltar para Guiné, mas a Guiné está numa situação ainda mais merdosa.

21.12.2021 | por Marinho de Pina

Uma lasca no ouvido

Uma lasca no ouvido Para Fisher, o som de uma Londres mutilada a arrastar os pés à entrada do século XXI – como uma espécie de memória desbotada e perra de uma dança – ganha corpo nos álbuns de Burial e The Caretaker, nomeadamente Burial (2006) e Untrue (2007), do primeiro, e Selected Memories from the Haunted Ballroom (1999) e Theoretically Pure Anterograde Amnesia (2005), do segundo. Sem que possa examinar cada um destes álbuns e as diferenças entre eles, vale a pena, fazer o seu retrato a traço largo, enquanto exercícios sobre as nossas perturbações temporais.

20.11.2021 | por Miguel Cardoso

Dia da Consciência Negra no Brasil é celebrado em Portugal unindo organizações contra Bolsonaro

Dia da Consciência Negra no Brasil é celebrado em Portugal unindo organizações contra Bolsonaro O Brasil vive um dos mais dramáticos períodos da sua História. Mergulhado num misto de negacionismo, política de ódio, destruição e retrocesso. A manifestação será realizada na Praça do Município, às 16h30, com apresentações artísticas.

19.11.2021 | por vários

Como e por que morreu Danijoy? Queremos a verdade, porque queremos justiça!

Como e por que morreu Danijoy? Queremos a verdade, porque queremos justiça! A história da detenção e condenação de Danijoy, bem como da sua misteriosa morte não fogem à regra da desproporção das medidas de coação e da violência contra jovens negros no sistema judicial e prisional português.

09.11.2021 | por vários