É melhor ir aprendendo a lidar com as perdas avassaladoras sem nos escancararmos todos, até porque a vida, desde há uns anos, perdeu o travão e os natais e verões sucedem-se sem recuperarmos convenientemente, nem dá tempo para cumprir as promessas de fim de ano. Espero ainda atravessar um enorme manto desconhecido. Façamos o luto para as pessoas não nos ficarem entaladas, mas agarrar ainda mais a vida. Conforta-me pensar que a morte de uns dá origem a novos sinais. Não numa relação causa-efeito, mas associo secretamente os gestos potenciadores que me aparecem a pequenas recompensas do nigredo.
01.04.2026 | por Marta Lança
De abril contaram-me o medo que tiveram, de irem buscar o meu irmão às Belas-artes. De África nunca se falou, e o comunismo era um monstro que os assustava. À sexta rezavam o terço com a aldeia na garagem. Havia uma mesquinhez senhorial no uso da religião. Talvez exagere, mas, fazê-lo é hoje parte da minha liberdade, a sua conduta orientava-se no repúdio ao diálogo. Só me resta falar com sombras, elas inclinam-se sempre para os exageros. Era demasiado novo para que fosse simples. O meu pai tirou um bacharel de engenharia, escapou-se às cabras e às ovelhas, e fez uma vivenda sobranceira, como as nortenhas dos emigrantes, numa aldeia perto das Caldas. Da vida com os animais ficou um galinheiro e um porco que se matava uma vez por ano. Cresci numa bolha de incenso. Fizeram da pobreza uma culpa, isso amargava os grelos no quintal. Não eram ricos, tinham mais coisas do que os pais deles, e uma mudez que os amedrontava. O que me salvou, uso o verbo em contra-mão, foram os montes e os pinhais. Os diabos que os habitavam, os bichos de fagulhas no pêlo. Mas era um mundo silencioso, tecido de breu e olhares esquivos, não foi aí que aprendi a falar.
25.03.2026 | por Ricardo Norte
“Tentação” da Gama, em alto e bom som. Fiz de tudo para não gostar de quizomba, mas é engraçado que a essa canção nunca consegui resistir. Eu subia para o piso mais alto. Papas de milho da avó Eva — umas gotinhas de limão e estava a andar. Descia para o piso inferior. Um cheirinho a detergente de lavanda. Tenho a sensação de que estavam sempre a limpar o chão. A minha tia Titina. Gostava que tivesse sido ela a minha madrinha.
19.03.2026 | por Lara Guimarães
Dos que emigraram a salto, da libertação dos presos de Caxias, da reforma agrária, dos regressados do exílio com entusiasmo, dos regressados de África com uma mão à frente outra atrás. Todas essas histórias do tempo dos nossos pais. Contaram como se obviamente fosse gente solidária, lutadora, do lado bom da história. Contaram tudo isso num certo paternalismo levemente ressabiado. Que não iríamos aguentar as privações, privilegiados e afortunados, utentes de uma liberdade concedida e não conquistada, que espezinhamos, da qual até nos entediamos, pós-utópicos a pensar nos pós-humanos e nas sabedorias ameríndias sem lutar por vida melhor aqui mesmo, no nosso corpo, na nossa casa, na nossa cidade e mundo.
15.03.2026 | por Marta Lança
Abrimos túneis com dinamite nas cordilheiras terrestres, furamos a pedra com gigantes berbequins, mas não há pólvora que nos permita atravessar esta serrania. A Agustina diz que são duas ideias incompatíveis, a de homem e a de mulher, que a incompatibilidade obedece a uma técnica de travagem. Há fronteiras que os nossos amados comboios não atravessam, e, apesar dos mitos de fusão, ainda bem que não o fazem. É esse penhasco que peia o fogo que galga o monte desenfreado. É um país que se esconde na outra vertente do desejo. Atiro-lhe pequenas anotações em papéis amarrotados.
11.03.2026 | por Ricardo Norte
A Júlia não é uma miúda adorno bonitinho, de franja curta, que liam textos filosóficos para homens mais velhos no Cinema Novo. Talvez tenha uma leve fragrância de Rivette, a voz altiva da Janis Joplin, magreza da Pj Harvey, atrevimento Björk, qualquer coisa do tem-te-não-caias da Alice e da Etelvina, mas não lhe deve faltar futuro e talvez até desenrasque dinheiro.
02.03.2026 | por Marta Lança
Não sei se os insectos sonham, mas os meus cães passam mais tempo desse lado do que do lado de cá. No nosso caso, não é só a dormir que sonhamos, construímos um universo mental que nos protege da realidade. O real morde, rompe, volta, e esfrangalha a visão total que tínhamos do mundo. De repente, dou-me conta dos fragmentos, dos buracos, da vacuidade do que sabia.
24.02.2026 | por Ricardo Norte
Morar perto da estação facilita a elaboração de planos de fuga. Todos os dias me ocorrem, ainda que conforte a agitação nas imediações da estação. Tantos destinos marcados e apressados, até os indigentes parecem ter um desígnio cinematográfico neste décor de fim da linha junto ao rio. As vozes roucas de homens encostados ao balcão, que pausam na tasca para chamuças e imperiais, dão alguma raíz ao universo enquanto comentadores na tv permutam argumentos sobre o Hamas, e o martelo da guerra-mundo nos estilhaça os ossos.
17.02.2026 | por Marta Lança
São poemas concebidos sobre destroços sonoros do corpo oriundos da negrura trágica do DrumN'Bass, do Trance, do Jungle, ou do Free Jazz. São poemas construídos como ruídos e anomalias de corpos negros, entre pesadelos eróticos, feridas surreais, e gritos políticos. Torrenciais jorros de memórias enlameadas por angústias da máquina infernal de sonhos dos trópicos. Talvez esses poemas sejam uma tentativa de responder à pergunta – a Poesia pode salvar-nos?
16.02.2026 | por Brassalano Graça
Com dizias na tua carta, os dias são fogosos, talvez andemos a brincar aos pirómanos. O vaso partido, não é apenas uma cidade que se desagrega, a dispersão ganha um encanto musical, como uma fuga de Bach, as coisas perseguem-se como melodias, entrançam-se umas nas outras. Cheguei ao café onde tínhamos combinado, o tempo passou como um foguete. Não te vou enfadar com conversas de enamorado.
11.02.2026 | por Ricardo Norte
Fluindo veloz, a água submergiu em riachos nunca antes navegados, apesar dos sulcos já lá estarem. Confirmo o que dizes sobre a água escolher sempre os mesmos caminhos, escavando os sete leitos dos rios, tal como a nossa pele muda sete vezes. Uma amiga contou que, na terapia, também há sete sessões para abrir novos canais e sinapses sem insistência no “canal do trauma”. Admiro a determinação feroz da água, empapando a terra, nutrindo-a para que aguente uma muito provável seca.
05.02.2026 | por Marta Lança
Sentirmo-nos mentalmente disponíveis, o que é isso? Talvez o suficiente para entrar pela casa das pessoas a dentro... Não num gesto voyeur, antes como quem se senta à mesa e tem uma conversa franca, encontra os aliados e reconhece neles o mesmo desejo de sair das mumificações do espírito. É sempre em alianças, mais ou menos contingentes, que vou resistindo à aniquilação da mente, que tento «matar o Anjo da Casa», de que fala a Virgínia Woolf para recusar uma certa domesticidade que ainda aprisiona, e quanto!
21.01.2026 | por Marta Lança
O mundo estilhaçou-se, quebrou-se em bocados, como uma esfera de cristal derrubada por um demónio. Reconhecê-lo não é um gesto de inação, nem de tristeza acabrunhada, é identificar como nos isolamos uns dos outros, como se separam as coisas umas das outras, ao ponto de não querermos saber, de não vermos, nem a miséria, nem o sofrimento, inscrito em cada uma delas. As relações criadas neste espartilho são desonestas por defeito. Os empresários de si próprios usam a língua como um instrumento, um ardil, a comunicação só procura efeitos decididos à partida.
14.01.2026 | por Ricardo Norte
Continuo a preferir a intensidade das experiências fora dos sets espectaculares e das redes virtuais. Carne com carne, cornos com cornos. Aliás, é cada vez mais sinistro, e meio bizarro, assistindo às trincheiras ideológicas, nichos de gosto, vigilância e algoritmização da vida, sabendo que estamos a dar tanto guito e informação aos oligarcas tecnológicos, o facto de permanecermos nos adornos virtuais. Como é que ainda nos damos ao trabalho de convencer, seduzir; expressarmos o que quer seja por essa via de “partilha”? Uma das nossas grandes contradições, mas a verdade é que este disparo assim de missivas, para sei lá que destinatários, é meio viciante.
07.01.2026 | por Marta Lança
Não sei defender-me de mim mesmo, embaraço-me com o sono, na dormência da objectividade. As relações pessoais têm a aparência de coisas. Estamos numa relação falsa, enganosa com os outros e com o mundo. No imediato estamos mergulhados nas seduções artificiais que produzimos. As fugas para o imediato não fazem senão dissolver os dias em noites e adiar as noites por vir.
02.01.2026 | por Ricardo Norte
“Deixei de poder carregar, de mão em mão, o leite da cabra, vindo das montanhas agrestes.
A couve. Brassicaceae.
Para alimento dos órfãos.
O milho. O arroz.O feijão e o tomate, para o manuseio das mulheres.
O algodão, para o aconchego dos filhos.
A cabeça de boi, para pagamento das dívidas e os reservatórios de combustível…
E até o veneno alegre da embriaguez, que me tirava da lucidez, deixou-me, dia após dia, por causa da miséria do meu tempo.”
31.12.2025 | por Indira Grandê
A indecência política é, por isso, uma forma de analfabetismo moral deliberado. Ela não falha em compreender. Recusa simplesmente compreender, porque sabe que a incompreensão rende mais. E aqui, justamente, um olhar histórico mais longo, como o de Norbert Elias – um sociólogo alemão – ajuda-nos a compreender a profundidade desta regressão. No processo civilizacional, Elias mostra que a sociabilidade moderna assenta na internalização gradual do autocontrolo dos afectos. A boa educação não é ornamento, mas sim uma espécie de tecnologia de convivência. É através da contenção dos impulsos, da modulação da agressividade e da capacidade de adiar a resposta emocional que os indivíduos se tornam socialmente fiáveis. A civilidade é, neste sentido, uma conquista frágil, sempre ameaçada e sempre em disputa. Mas o projecto colonial europeu introduziu uma distorção decisiva que consistiu nos colonizadores exigirem de si elevados padrões de autocontrolo na relação entre pares europeus, mas suspenção desses padrões na relação com os povos colonizados.
09.12.2025 | por Elísio Macamo
Penso nas pessoas talentosas que não têm acesso aos holofotes do mundo e que, no seu quartinho à noite, inventam músicas ao violão, e que por vezes em cima de escombros e entulho, ou entre paredes partilhadas com famílias inteiras, esboçam a lápis a sua visão. Que por falta de dinheiro, saúde, ou oportunidade, jamais terão uma plateia. Que paisagens percorrem as suas mãos quando tateiam o escuro? Que navios e estrelas, fogueiras e catedrais povoam os seus sonhos neste preciso momento? E penso nestes macacos que observei, fêmeas que migram e vagueiam durante anos isoladas na floresta, a quem foi roubado o direito de ter uma família. Com o consolo de saber que a natureza é a verdadeira guardiã do tempo, será somente ela a trazer a lava para cobrir as mãos, e a fazer vingar de novo o verde sobre o asfalto.
12.11.2025 | por Rita Brás
O que é fascismo hoje? Se fosse só autoritarismo, então o regime do Nicolau Imaturo, do Jinpingpong, do Merdogan, do Filha-da-Putin, do Jennifer Lopez Angolano, ou do Chefe-Único, entrariam na lista. A veneração do líder pela massa que antes também uma marca, hoje é difícil destrinçar nesta sociedade de autocultuamento. O Chefe-Único, todavia, faz questão de ter a sua foto em todas as instituições e espaços públicos. E o Vaticano? O tio Paulo Bano disse-me: “O fascismo fala da pátria, o nazismo da raça, o Vaticano da fé, mas é tudo para ajoelhar e obedecer. O Vaticano não manda matar, só fecha os olhos e reza pelos mortos, e depois absolve os vivos, em nome do perdão.”
29.09.2025 | por Marinho de Pina
É evidente que os regimes totalitários se baseiam na censura, estetizam os heróis e as narrativas metafísicas. O «Partido dos Mortos» realizou performances no forte de Santo António da Barra e na rua que ainda hoje se chama Doutor Oliveira Salazar. Curiosamente, 51 anos após a Revolução das Cravos, em Portugal, mais de 17 topónimos têm o nome de Salazar e mais de 700 têm nomes de figuras do regime do Estado Novo. O que fazer com essa memória política? É necessário demolir monumentos e renomear nomes geográficos? A questão é complexa, mas a situação atual exige claramente reflexão e comentários.
04.08.2025 | por Partido dos Mortos