A partir das entrevistas, dos dados recolhidos para o inquérito e da observação das dinâmicas interpessoais que se impunham nas bases guerrilheiras, Andrade começou a escrever um ensaio intitulado «Sociologia da guerra e ideologia», que em algumas das versões reunídas neste volume numa edição crítica, também leva o subtítulo de «Contribuição ao debate sobre a crise actual do MPLA». Embora inacabado, o ensaio, especialmente na sua primeira parte – a mais desenvolvida –, constitui uma reflexão lúcida sobre os problemas que alimentaram a crise do movimento, numa tentativa de fundamentar a práxis do MPLA numa compreensão profunda da realidade social subjacente.
02.07.2026 | por Elisa Scaraggi
A luz emagrece nos buracos das persianas enquanto espero que o vento volte as paredes do avesso. Lembro-me do Cesariny, do homem intensamente livre na praia mais pequena, nas dunas mais pequenas, no poço mais pequeno... Esse homem que sem saber arrasta uma época sem calendários. O Mário andava com ele, sem saber se era o caminho ou ele quem havia de cessar, e por isso andavam. Não ficavam a ver os delgados raios que mosqueam o quarto, encurralado no tempo a conta-gotas, na vida esfarelada dos acamados, para quem tudo está diluído, triturado, não vá um grumo entupir-lhe as veias.
01.07.2026 | por Ricardo Norte
O bom festival existe. Começa no coração. Começa muito antes da programação. Começa quando alguém decide reunir o mundo, por momentos, numa sala na biblioteca com vista para a ponte. O bom festival é elástico e estende-se no tempo. É lento, intenso e presente, faz pontes. O bom festival não tem pressa. Sabe que a literatura demora e precisa de silêncio. O bom festival não acumula nomes nem troféus, mas constrói uma linha de pensamento. Mesmo quando parece disperso, há uma pergunta invisível que liga tudo.
23.06.2026 | por Maria Giulia Pinheiro e Gisela Casimiro
Pouco me importam as críticas ao género ou a sua apropriação pelo mercado editorial, menos ainda os autores de auto-ajuda disfarçada de autoficção. Mas “La vie, il faut la mettre en scène…”, só assim se consegue expressar a sobrecarga invisível e destrutiva no quotidiano das mulheres como faz, por exemplo, a personagem Jeanne Dielman no filme de Chantal Akerman. Trazer a vidinha ao barulho é um processo que pode ser narcísico ou radical, depende da abordagem e do engenho de quem esmurra esse pão. Na pior das hipóteses, servirá como exercício de aceitação.
23.06.2026 | por Marta Lança
Ando assustado, a convencer-me que não. Leio sobre a alegria da afirmação, sobre o trabalho positivo de meter uma pedra à frente da outra, de ser a única maneira de a mudança ter um chão que dê para dançar. Ando num estiramento entre o que temo e o que quero, fico demasiado encostado a mim, só quando me afasto sei onde estou.
18.06.2026 | por Ricardo Norte
Giovani tropeçou na morte à saída da discoteca. Por vezes, a existência é uma embriaguez permanente. Ser negro e estrangeiro é maldição a mais. Lembrou-lhe a derradeira paulada que levara da vida naquela triste noite de dezembro. Lembrou-lhe as mãos cobardes dos quinze diabos. Giovani era um artista. Só sonhava com mornas. Compor e cantar repertórios de adoração a um deus que fosse mais justo e imparcial. Por que é que uns têm a bênção de matar e outros de serem mortos? Tombou numa rua qualquer de Bragança. Um negro caído, quem se importa?
14.06.2026 | por Venâncio Calisto
Escrevo-te de uma cidade cujo nome vem de “casa no pântano”, adivinha! Há personagens de BD nas carruagens de metro - até os tecnocratas são bonecos nesta sede da UE e da Nato. De tão cosmopolita e multicultural, não se percebe o credo racista que ainda esperneia por aí. Depois de um extenso programa na universidade, devorei um gorduroso kebab com duas professoras, ouvindo com apreço as suas impressionantes histórias de migrações. Dá-me uma certa ancoragem o facto da história humana ser, desde sempre, uma história de partidas, fugas, exílios e sobrevivências
08.06.2026 | por Marta Lança
Marta
Sabemos realmente o que é o velho mundo para que nos libertemos dele com um prefixo? O que vem não continua a ser velho? A construção do novo, não teria de partir das possibilidades deixadas em aberto pelo velho? A guerra está por todo o lado. Não nos toca, as imagens, a miséria, a destruição, não nos tocam, emocionam-nos, irritam-nos, tiram-nos o sono, e depois? Sabemos o que se passa? De que forma nos inscrevemos simbolicamente no mundo? Se fosse real, o saber, levar-nos-ia à ação ou à loucura. O real é insuportável, junto dele ou temos um surto, ou alucinamos, ou... Ganhamos ou perdemos a vida quando enfrentamos o real.
05.06.2026 | por Ricardo Norte
Como resgatar a poesia urbana deste mundo opaco, onde as pessoas nos frustram? Se eu não acreditasse no Céu, sei lá em que morte do meu passado eu estaria. As gaivotas voando no céu do fado de Amália, embalando a minha fantasia. Oiço canções para lá da campainha do VLT, anunciando o sono da tartaruga. Sou filha de Xangô e Iansã, e por isso sei que um dia em algum momento, raios e trovões irão varrer os telhados do Império para restabelecer a paz. Perante esta tristeza inclemente, chuvas irão trazer descanso às flores, e devolver a esperança aos trabalhadores da cidade.
26.05.2026 | por Rita Brás
Sobre a correspondência, há pouco recebi uma carta manuscrita, com selo lambido e tudo, de um grande amigo. A alegria adormecida de receber uma carta é idêntica à alegria de voltar a dançar após um longo período acamada num hospital. Pela sua perenidade e singularidade, por grafarem algo no espaço, as cartas são a mais bela e íntima prova de estima e dedicação. Uma carta doa-se, envia-se sem prova, não é uma carta registada: "Entrego ao destinatário a prova física das minhas palavras com toda a confiança". Um gesto que segue de um a outro ponto sem deixar rasto. Lembras-te quando não se podia fazer search com lupa digital e era mesmo necessário usar os dedos por completo para abrir envelopes envelhecidos, mantendo frescas as palavras? Ando a ler cartas e telegramas de um desconhecido. Todo um espólio epistolar em caixa de fruta, comprado na Feira da Ladra por 20 paus. As parcelas de vida de um estranho Luís são-me desveladas através dos reparos, solicitações e análises de carácter dos seus remetentes.
26.05.2026 | por Marta Lança
fui improvisando, falando de vidas que podiam sonhar mais,
que podiam alcançar mais não fosse o degrau gigantesco,
vulgo racismo estrutural
fadar-lhes que estão sempre a mais.
Tal e qual qualquer uma da Linha de Sintra
fui seguindo o estilo pseudo-livre dos nossos momentos,
das esfuziantes alegrias e dos audíveis tormentos,
não vá alguém daqui a 500 anos soletrar online
que nem nunca existimos
então eu escrevi, eu escrevi porque nós resistimos
25.05.2026 | por Telma Tvon
Ao longo de trabalho diário em desasseis anos, o BUALA tornou-se simultaneamente arquivo, revista, plataforma crítica, espaço curatorial e comunidade de afinidades. A sua trajetória acompanha a emergência, em Portugal, de um debate mais amplo sobre as histórias e consequências do colonialismo, e novos desafios na contemporaneidade, ajudando a abrir espaço para novas vozes, linguagens e narrativas. O BUALA contribuiu para deslocar o centro do discurso cultural português, insistindo numa ideia de cultura atravessada por conflito, história, circulação e justiça. A cultura como campo de disputa simbólica e ferramenta de reescrita histórica. Foi-se reinventando para acolher todos os contributos que ajudem a desintoxicar o mundo.
24.05.2026 | por vários
“When you're in the shit up to your neck, there' s nothing left to do but sing.” (Beckett). Gostava de dizer-te que consegui fazer da ansiedade um estimulante, um catalisador, uma arma contra o adormecimento. Na maioria das vezes, consigo. Por vezes, no entanto, ainda prendo a cabeça em teias de aranha, fico mumificado como uma mosca que só consegue mexer os olhos. São as insónias que me fodem, de resto, tenho mais pernas do que tinha. Faço das teias algodão doce e volto os olhos para fora, porque é aí que vivo, encostado aos outros, aos que desconheço.
19.05.2026 | por Ricardo Norte
Tem-me acontecido ter de lidar com pessoas ansiosas e acompanhar depressões que vão germinando. Assistirmos a um ser que se mina, que se apaga, que sofre de modo invisível, sem podermos ajudar, é desesperante. Fala-se pouco desses acompanhantes dos demónios alheios e do quanto se coíbem. Mais ou menos discretos, tentam irradiar calor e soluções, sendo fortemente também afetados pelo vazio e sofrimento do parceiro. Creio que não fui boa ajuda, porque dou por mim a pressionar nos sentido de um abstrato “está tudo bem”, “não há motivo, olha as coisas fantásticas à tua volta”. Talvez porque nunca tenha ouvido em mim o canto gutural da depressão e, inconscientemente, não a aceito nos outros. Negacionista da dor invisível me confesso.
14.05.2026 | por Marta Lança
Durante anos, por volta de abril, pelas três da manhã, vinha um andorinhão para o meu telhado, com um tesão desgraçado, ainda com o fulgor africano a estremecer-lhe as penas, guinchava noite adentro à espera de uma resposta. As janelas são de papel, os carros zumbem-me na cabeceira. Não tinha como não acordar com os berros do pássaro solitário. Cheguei a pendurar-me na janela, não fosse ter um ninho no beiral. Quase me estatelei no alcatrão. Acabei por me habituar à passarada.Quando fico doente procuro concentrar-me nas alterações da percepção, como se fosse uma droga. A gripe não vai muito longe, mas, mesmo assim, com alguma atenção, o espaço modifica-se e estou noutra relação com o corpo. O centro de gravidade baixa ligeiramente, o ar fica líquido.
06.05.2026 | por Ricardo Norte
Alguns moradores de rua, concentrados nesta zona oriental da cidade, aquartelados no Beato com cama e refeição - já me deparei com uma petição contra eles, vociferando insegurança e sujidade no bairro - andam por aí, personificando as doenças generalizadas do capitalismo. Cabeças despenteadas e dedos grossos a contar moedas, a segurar o pacote de vinho barato. Sei lá que pessoas terão sido com as suas vidas passadas esfaceladas na violência do presente. Guardam nos olhos mistérios e venenos que talvez o Herberto Helder extraísse em poemas, projetando neles uma “alegria desesperada”.
28.04.2026 | por Marta Lança
Ela sempre escreveu sobre o que viu, sentiu e viveu. O livro “Ninguém matou Suhura” marca a estreia de uma voz ímpar na história da literatura moçambicana. A sua escrita fala sobre a denúncia da exploração dos humanos pelos humanos, fala das circunstâncias-limite que a humilhação colonial condicionou milhares de homens e mulheres de África. Fala da resistência e luta de todo um povo. Publicado pela primeira vez nos anos 1980, passados 40 anos, o livro volta às bancas como um lembrete do tempo que jamais deverá ser esquecido. Um lembrete para as gerações de hoje e as de amanhã de que a liberdade e a justiça para todos constrói-se com educação, amor, saúde, transporte e empatia.
27.04.2026 | por Lília Maria Clara Carrière Momplé e Venâncio Calisto
instigante sentir o tsunami de gente diversa a “sair à rua (avenidas, desculpem) de cravo na mão a horas certas”. Há muitos anos que sou uma célula dessa massa de água e de carne, e tem sido animador ver a data da revolução reativar-se, ganhar fôlego e multidão, mais causas e palavras de ordem. Reconheço o 25 de Abril no meu percurso, como se o praticasse todos os dias e tenho pensado neste nosso lugar geracional: os filhos do 25 de Abril, que viemos com o fim da ditadura para pôr em prática a liberdade, com tantas possibilidades para florescer e sempre tão queixosos.
26.04.2026 | por Marta Lança
Os sentidos soltam-se das coisas para a sua consciência com o vagar de quem se passeia pela sua imaginação. Isto, fantasio eu, que só vejo um rosto do outro lado da janela. Dobro-o, estico-o, alongo-o, no meu espelho empenado. Lembro-me do Rouch, olhei cinco minutos para esta mulher e estou aqui em divagações. Cinco minutos parece ser suficiente para me arrancar ao espírito do tempo, tão veloz é a sua demência. Precisávamos de outros mitos para habitar uns com os outros. Coleridge escreveu algures que o amor talvez seja um "sense of Being seeking to be self-conscious.” Deslocação perpétua, como um felino que se atravessa à nossa frente até sermos capazes de o ver.
21.04.2026 | por Ricardo Norte
Durante 35 anos, desenvolvemos uma amizade estreita e consistente. Estabelecemos uma espécie de comunhão espiritual, feita de muitos e bons convívios. Convívios também, por vezes, instáveis e voláteis, altamente combustíveis. Em muitas coisas éramos irreconciliáveis. Zangámo-nos algumas vezes. Gozámos um com o outro. Discordámos e provocámo-nos mutuamente, amuámos. Mas, no fim do dia, íamos sempre ter a uma mesa de café para preservarmos e renovarmos a nossa amizade. O Diogo conseguia ser imensamente terno, de uma ternura e inocência que me deixavam quase sem palavras.
18.04.2026 | por João Pedro George