“When you're in the shit up to your neck, there' s nothing left to do but sing.” (Beckett). Gostava de dizer-te que consegui fazer da ansiedade um estimulante, um catalisador, uma arma contra o adormecimento. Na maioria das vezes, consigo. Por vezes, no entanto, ainda prendo a cabeça em teias de aranha, fico mumificado como uma mosca que só consegue mexer os olhos. São as insónias que me fodem, de resto, tenho mais pernas do que tinha. Faço das teias algodão doce e volto os olhos para fora, porque é aí que vivo, encostado aos outros, aos que desconheço.
19.05.2026 | por Ricardo Norte
Tem-me acontecido ter de lidar com pessoas ansiosas e acompanhar depressões que vão germinando. Assistirmos a um ser que se mina, que se apaga, que sofre de modo invisível, sem podermos ajudar, é desesperante. Fala-se pouco desses acompanhantes dos demónios alheios e do quanto se coíbem. Mais ou menos discretos, tentam irradiar calor e soluções, sendo fortemente também afetados pelo vazio e sofrimento do parceiro. Creio que não fui boa ajuda, porque dou por mim a pressionar nos sentido de um abstrato “está tudo bem”, “não há motivo, olha as coisas fantásticas à tua volta”. Talvez porque nunca tenha ouvido em mim o canto gutural da depressão e, inconscientemente, não a aceito nos outros. Negacionista da dor invisível me confesso.
14.05.2026 | por Marta Lança
Durante anos, por volta de abril, pelas três da manhã, vinha um andorinhão para o meu telhado, com um tesão desgraçado, ainda com o fulgor africano a estremecer-lhe as penas, guinchava noite adentro à espera de uma resposta. As janelas são de papel, os carros zumbem-me na cabeceira. Não tinha como não acordar com os berros do pássaro solitário. Cheguei a pendurar-me na janela, não fosse ter um ninho no beiral. Quase me estatelei no alcatrão. Acabei por me habituar à passarada.Quando fico doente procuro concentrar-me nas alterações da percepção, como se fosse uma droga. A gripe não vai muito longe, mas, mesmo assim, com alguma atenção, o espaço modifica-se e estou noutra relação com o corpo. O centro de gravidade baixa ligeiramente, o ar fica líquido.
06.05.2026 | por Ricardo Norte
Alguns moradores de rua, concentrados nesta zona oriental da cidade, aquartelados no Beato com cama e refeição - já me deparei com uma petição contra eles, vociferando insegurança e sujidade no bairro - andam por aí, personificando as doenças generalizadas do capitalismo. Cabeças despenteadas e dedos grossos a contar moedas, a segurar o pacote de vinho barato. Sei lá que pessoas terão sido com as suas vidas passadas esfaceladas na violência do presente. Guardam nos olhos mistérios e venenos que talvez o Herberto Helder extraísse em poemas, projetando neles uma “alegria desesperada”.
28.04.2026 | por Marta Lança
Ela sempre escreveu sobre o que viu, sentiu e viveu. O livro “Ninguém matou Suhura” marca a estreia de uma voz ímpar na história da literatura moçambicana. A sua escrita fala sobre a denúncia da exploração dos humanos pelos humanos, fala das circunstâncias-limite que a humilhação colonial condicionou milhares de homens e mulheres de África. Fala da resistência e luta de todo um povo. Publicado pela primeira vez nos anos 1980, passados 40 anos, o livro volta às bancas como um lembrete do tempo que jamais deverá ser esquecido. Um lembrete para as gerações de hoje e as de amanhã de que a liberdade e a justiça para todos constrói-se com educação, amor, saúde, transporte e empatia.
27.04.2026 | por Lília Maria Clara Carrière Momplé e Venâncio Calisto
instigante sentir o tsunami de gente diversa a “sair à rua (avenidas, desculpem) de cravo na mão a horas certas”. Há muitos anos que sou uma célula dessa massa de água e de carne, e tem sido animador ver a data da revolução reativar-se, ganhar fôlego e multidão, mais causas e palavras de ordem. Reconheço o 25 de Abril no meu percurso, como se o praticasse todos os dias e tenho pensado neste nosso lugar geracional: os filhos do 25 de Abril, que viemos com o fim da ditadura para pôr em prática a liberdade, com tantas possibilidades para florescer e sempre tão queixosos.
26.04.2026 | por Marta Lança
Os sentidos soltam-se das coisas para a sua consciência com o vagar de quem se passeia pela sua imaginação. Isto, fantasio eu, que só vejo um rosto do outro lado da janela. Dobro-o, estico-o, alongo-o, no meu espelho empenado. Lembro-me do Rouch, olhei cinco minutos para esta mulher e estou aqui em divagações. Cinco minutos parece ser suficiente para me arrancar ao espírito do tempo, tão veloz é a sua demência. Precisávamos de outros mitos para habitar uns com os outros. Coleridge escreveu algures que o amor talvez seja um "sense of Being seeking to be self-conscious.” Deslocação perpétua, como um felino que se atravessa à nossa frente até sermos capazes de o ver.
21.04.2026 | por Ricardo Norte
Durante 35 anos, desenvolvemos uma amizade estreita e consistente. Estabelecemos uma espécie de comunhão espiritual, feita de muitos e bons convívios. Convívios também, por vezes, instáveis e voláteis, altamente combustíveis. Em muitas coisas éramos irreconciliáveis. Zangámo-nos algumas vezes. Gozámos um com o outro. Discordámos e provocámo-nos mutuamente, amuámos. Mas, no fim do dia, íamos sempre ter a uma mesa de café para preservarmos e renovarmos a nossa amizade. O Diogo conseguia ser imensamente terno, de uma ternura e inocência que me deixavam quase sem palavras.
18.04.2026 | por João Pedro George
O relatório denuncia ainda perseguições políticas, repressão policial e um clima generalizado de impunidade, incluindo detenções massivas e restrições ditatoriais ao espaço público. O espancamento e assassinato de pessoas que se erguem para denunciar este sistema tornaram-se parte do seu modus operandi. “Pensar pela própria cabeça e agir para transformar”, ensinamentos preciosos deixados por Cabral, parece ter-se tornado um crime de lesa-Estado na República da Estrela Negra.
16.04.2026 | por Apolo de Carvalho, Alexssandro Robalo, Sumaila Jaló e Yussef Marta
“O 'novo normal' é lidar com cataclismos”, dou por mim a dizer às crianças, como se lhes explicasse que não têm outra hipótese senão preparar-se para os possíveis fins. De qualquer coisa, por ora ainda abstrata, que morre devagar. Talvez desta ilusão de vivermos num mundo dominado pela paz, desenvolvimento e progresso. Longe de mim passar-lhes a cultura do medo, da culpa e de qualquer forma de ansiedade, nem a climática. Mas como se faz para transmitir a mensagem que a sociedade está profundamente assente em desigualdades e, ao mesmo tempo, dar-lhes esperança?
14.04.2026 | por Marta Lança
Como falámos nas primeiras cartas, imaginar o futuro é difícil. Um dos maiores empecilhos é que para chegar a ver certas coisas é preciso estar num estado que deixa aparecer o que já estava à nossa frente, senão, nem as conseguimos imaginar. Só depois da mutação é que conseguimos ver o que até aí nunca nos passaria pela cabeça. Rouch fala nisso, diz que o que muitos colegas chamam o milagre do encontro, a descoberta, é o resultado de uma longa preparação. A razão de termos conseguido colocar a questão certa, deve-se a uma mudança de posição. Como fazer então para caçar esse Leão do futuro?
07.04.2026 | por Ricardo Norte
É melhor ir aprendendo a lidar com as perdas avassaladoras sem nos escancararmos todos, até porque a vida, desde há uns anos, perdeu o travão e os natais e verões sucedem-se sem recuperarmos convenientemente, nem dá tempo para cumprir as promessas de fim de ano. Espero ainda atravessar um enorme manto desconhecido. Façamos o luto para as pessoas não nos ficarem entaladas. Conforta-me pensar que a morte de uns dá origem a novos sinais. Não numa relação causa-efeito, mas associo secretamente os gestos potenciadores que me aparecem a pequenas recompensas do nigredo. Ateia me confesso a encontrar respostas no divino…
01.04.2026 | por Marta Lança
De abril contaram-me o medo que tiveram, de irem buscar o meu irmão às Belas-artes. De África nunca se falou, e o comunismo era um monstro que os assustava. À sexta rezavam o terço com a aldeia na garagem. Havia uma mesquinhez senhorial no uso da religião. Talvez exagere, mas, fazê-lo é hoje parte da minha liberdade, a sua conduta orientava-se no repúdio ao diálogo. Só me resta falar com sombras, elas inclinam-se sempre para os exageros. Era demasiado novo para que fosse simples. O meu pai tirou um bacharel de engenharia, escapou-se às cabras e às ovelhas, e fez uma vivenda sobranceira, como as nortenhas dos emigrantes, numa aldeia perto das Caldas. Da vida com os animais ficou um galinheiro e um porco que se matava uma vez por ano. Cresci numa bolha de incenso. Fizeram da pobreza uma culpa, isso amargava os grelos no quintal. Não eram ricos, tinham mais coisas do que os pais deles, e uma mudez que os amedrontava. O que me salvou, uso o verbo em contra-mão, foram os montes e os pinhais. Os diabos que os habitavam, os bichos de fagulhas no pêlo. Mas era um mundo silencioso, tecido de breu e olhares esquivos, não foi aí que aprendi a falar.
25.03.2026 | por Ricardo Norte
“Tentação” da Gama, em alto e bom som. Fiz de tudo para não gostar de quizomba, mas é engraçado que a essa canção nunca consegui resistir. Eu subia para o piso mais alto. Papas de milho da avó Eva — umas gotinhas de limão e estava a andar. Descia para o piso inferior. Um cheirinho a detergente de lavanda. Tenho a sensação de que estavam sempre a limpar o chão. A minha tia Titina. Gostava que tivesse sido ela a minha madrinha.
19.03.2026 | por Lara Guimarães
Dos que emigraram a salto, da libertação dos presos de Caxias, da reforma agrária, dos regressados do exílio com entusiasmo, dos regressados de África com uma mão à frente outra atrás. Todas essas histórias do tempo dos nossos pais. Contaram como se obviamente fosse gente solidária, lutadora, do lado bom da história. Contaram tudo isso num certo paternalismo levemente ressabiado. Que não iríamos aguentar as privações, privilegiados e afortunados, utentes de uma liberdade concedida e não conquistada, que espezinhamos, da qual até nos entediamos, pós-utópicos a pensar nos pós-humanos e nas sabedorias ameríndias sem lutar por vida melhor aqui mesmo, no nosso corpo, na nossa casa, na nossa cidade e mundo.
15.03.2026 | por Marta Lança
Abrimos túneis com dinamite nas cordilheiras terrestres, furamos a pedra com gigantes berbequins, mas não há pólvora que nos permita atravessar esta serrania. A Agustina diz que são duas ideias incompatíveis, a de homem e a de mulher, que a incompatibilidade obedece a uma técnica de travagem. Há fronteiras que os nossos amados comboios não atravessam, e, apesar dos mitos de fusão, ainda bem que não o fazem. É esse penhasco que peia o fogo que galga o monte desenfreado. É um país que se esconde na outra vertente do desejo. Atiro-lhe pequenas anotações em papéis amarrotados.
11.03.2026 | por Ricardo Norte
A Júlia não é uma miúda adorno bonitinho, de franja curta, que liam textos filosóficos para homens mais velhos no Cinema Novo. Talvez tenha uma leve fragrância de Rivette, a voz altiva da Janis Joplin, magreza da Pj Harvey, atrevimento Björk, qualquer coisa do tem-te-não-caias da Alice e da Etelvina, mas não lhe deve faltar futuro e talvez até desenrasque dinheiro.
02.03.2026 | por Marta Lança
Não sei se os insectos sonham, mas os meus cães passam mais tempo desse lado do que do lado de cá. No nosso caso, não é só a dormir que sonhamos, construímos um universo mental que nos protege da realidade. O real morde, rompe, volta, e esfrangalha a visão total que tínhamos do mundo. De repente, dou-me conta dos fragmentos, dos buracos, da vacuidade do que sabia.
24.02.2026 | por Ricardo Norte
Morar perto da estação facilita a elaboração de planos de fuga. Todos os dias me ocorrem, ainda que conforte a agitação nas imediações da estação. Tantos destinos marcados e apressados, até os indigentes parecem ter um desígnio cinematográfico neste décor de fim da linha junto ao rio. As vozes roucas de homens encostados ao balcão, que pausam na tasca para chamuças e imperiais, dão alguma raíz ao universo enquanto comentadores na tv permutam argumentos sobre o Hamas, e o martelo da guerra-mundo nos estilhaça os ossos.
17.02.2026 | por Marta Lança
São poemas concebidos sobre destroços sonoros do corpo oriundos da negrura trágica do DrumN'Bass, do Trance, do Jungle, ou do Free Jazz. São poemas construídos como ruídos e anomalias de corpos negros, entre pesadelos eróticos, feridas surreais, e gritos políticos. Torrenciais jorros de memórias enlameadas por angústias da máquina infernal de sonhos dos trópicos. Talvez esses poemas sejam uma tentativa de responder à pergunta – a Poesia pode salvar-nos?
16.02.2026 | por Brassalano Graça