Baralho de Cartas 41
Marta
Estive cinco dias fora do meu quotidiano. Aluguei uma caravana e levei a Francisca para a Costa Alentejana. Durante um tempo duvidei que o espírito me acompanhasse, as suas pequenas guerras, anseios e deveres eram como cordas a segurar um balão. O sol e o mar acabaram por me libertar, mas tão pouco tempo que ficou apenas a textura onírica de um ritmo desconhecido. No parque de campismo a Francisca fez amigos num estalar de dedos, descobria nos outros a potência do jogo e da partilha. A pele dos pequenos não é a linha de demarcação, a periferia, que virá a ser para os que envelhecem. Não é um véu, nem uma face que esconde uma interioridade. Aprendemos lentamente a reconhecê-la como um envelope, como uma túnica que nos limita. Os miúdos descascam-se, perdem a pele nos encontros que fazem. O parque era um território assombrado, cheio de órgãos desconhecidos que poderia vincular aos seus. Ao percorrerem a pele do mundo, numa tensão que não se escapa para o fundo, descobrem sentidos novos. Escutar as miúdas à conversa dava-me a ver como tateiam, como, livres da armadura das convenções, deixam ecoar uma na outra os gestos e as palavras de entusiasmo. Enquanto a pele não restringir, não delimitar o corpo, os sentidos não se fixam.
Envelhecemos mal, a superfície é uma aposta que abandonamos demasiado depressa, nesse abandono perdemos todos os tesouros do acaso. Esquecemo-nos de que somos seres sociais, que é o afecto que nos mantém à tona, que as maiores descobertas estão na linha de água. Falei com os vizinhos quando lavava a loiça. Conversas de circunstância, sem abandonar o lugar despojado onde nos colocamos. Frases amputadas do balanço que podiam vir a ganhar. As posições a que aderimos são mais duras que o betão. Por vezes parecemos dispostos a encontrar outra forma, mas tornamo-nos presas da morte antes de tempo, que não passa de uma formalidade exigida pela lei. A liberdade nunca foi um tema legal, apenas um ardil, uma aparência, para solidificar relações que asseguram a imutabilidade. As consequências são sempre imprevisíveis se reconhecermos a nossa liberdade, se nos movermos de forma inesperada dentro do tecido social.
Lorena Torres Alguna vez, en cualquier lugar, nos soñé
À noite, encostado à caravana, lembrei-me de quando fumava, e voltou-me a vontade de largar uma névoa azul, embaçada, que pairava à minha frente como um cortinado. Deixei os cigarros entrançados nos momentos de deleite, talvez por isso me volte a vontade nas noites tépidas de verão, lembro-me dos versos do Forte: “à flor da terra a flor de fumo/ dos meus cigarros adolescentes/ fumados amorosamente entre fantasmas”
Cinco dias passam depressa. Voltei para as lides dos livros entre as muralhas. O trabalho tem sido razoável, por vezes, mesmo de alguma satisfação. Mas, atrás de um salário há sempre um suborno, por mais camuflado que este esteja. Atrás do suborno há a submissão do contrato. Nesta submissão estão anos de educação, de interiorização de deveres e comportamentos. Foi este modelo que me ensinou a relacionar com uma ideia sem que ela mude o modo como vivo. Falo de ideias, penso em ideias, mas não mudo com as ideias. Assumo que sou livre, mas as convenções são mais fortes do que o aço. Se pensar uns minutos sei que a liberdade, sem uma perpétua reinvenção, é um slogan dos carcereiros. Então minto. Minto porque o espaço das relações está sobre-determinado de perversões que me impedem de presumir que sou livre. Vou trabalhar porque julgo que devo, porque pressuponho justa a necessidade do salário para a sobrevivência. A maioria das vezes não penso nisso, apenas quando o trabalho ganha uma feição violenta é que vejo o que me rouba.
Ao regressar de férias deparei-me com um “colega” que, face à sua falta de liberdade, escolheu tramar os outros para esconder a sua impotência. Choveram e-mails onde me incriminava de tudo o que corria mal. Era costume fazer isto com outros, eu tinha conseguido escapar da sua fúria, até agora. Lutar com um mentiroso é uma guerra injusta, porque desenha o passado como lhe convém. A minha primeira reacção foi escrever este texto:
Um trabalho sem um canalha é como um monte de esterco sem moscas. Um mundo de fantasia, uma alucinação estéril de quem inventa coragem para um novo dia, enquanto afina rotinas e se imagina feliz se a máquina fizer menos barulho. Arrumamos o baralho de certezas e saímos para a rua, supomos que, se o caminho estiver livre, nos devolvem a vida. É certo que a cada minuto podemos mergulhar noutro tempo, se estivermos na praça a ver os pombos no coito, não nestas tarefas de merda com resultados inúteis. Imaginava tudo diferente, penso numa quantidade de coisas mortas, numa época onde, à volta de uma mesa, alguém ressuscitava e embriagava tudo ao redor, numa época de contágios e inocência. A música desflorava-nos, descia onde o sangue se confunde com a lama. Pensava ganhar dinheiro sem dificuldade e andar por aí a despoletar respostas vivas dos que respiram. Tenho de fazer alguma coisa. Senão, ficam os cadáveres adiados, viciosos de manhas, a dizer que não se pode fazer nada, que o melhor é calar o bico. Porque há sempre um canalha à escuta para nos foder. Sabemos que isto tudo é verdade, que o trabalho nos faz do tamanho da tumba, e que há sempre um moscardo, gordo e esverdeado a reinar num cagalhão.
Comecei a pensar nestas figuras, como expõem o que está dissimulado. O seu frenesim desmesurado, a traição febril, mostra, como quem confessa um crime, as formas padrão que nos são impostas, o quadro que torna impossível a liberdade. A lei e o dever que, plenos de detalhe e pormenor, tornam invisível a prisão onde nos encontramos. Deixando-nos sem saber dizer a verdade do que vivemos, sem vontade de a procurar, levando-nos a gastar a nossa curta energia humana em mentiras necessárias. Não são os canalhas que nos massacram, não seria a sua inexistência que faria o trabalho suportável, eles são um sintoma, são a manifestação concreta da hierarquia e imobilidade das relações. Esta estrutura, por mais veloz que seja o seu caminho para a catástrofe, é imóvel. Exige que nos conformemos ao seu modelo. A escola, a fábrica, o governo. Força-nos a abandonar todas as possibilidades para escolhermos a mais eficaz. Quem se recusar a abandonar as suas escolhas em favor da eficiência encontrará apenas dor e degradação. Um empilhar de fraudes e imposturas.
Cioran escreveu que no meio de um tal sufoco é “reconfortante contemplar um mendigo. Ele, ao menos, não mente aos outros nem a si próprio: a sua doutrina, se é que a tem, encarna-a; não gosta do trabalho e demonstra-o; como nada deseja possuir, cultiva o seu despojamento, condição da sua liberdade. O seu pensamento resolve-se no seu ser, e o seu ser no seu pensamento. Falta-lhe tudo, é ele próprio, dura: viver imediatamente a eternidade é viver apenas um dia de cada vez. Por isso, para ele, os outros são presa da ilusão. Se depende deles, vinga-se observando-os, especialista que é do reverso dos sentimentos «nobres». (…) Porque é preciso, a todo o preço, impedir aqueles que têm demasiado boa consciência de viver e morrer em paz.”
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(Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)