Colecionar implica selecionar, retirar do uso, preservar, ordenar e expor. Na génese deste processo encontra-se uma intenção que legitima a apropriação do objeto, retirando-o da sua circulação natural e transformando-o num símbolo. Neste sentido, os objetos musealizados são reinscritos em regimes de valor, inteligibilidade e memória, passando a operar como mediadores. Este gesto, profundamente marcado pela relação entre identidade e posse, participa na produção do poder através do visível.
24.06.2026 | por
A prática de Rosana Paulino insere-se num movimento mais amplo da arte contemporânea internacional que, a partir de cerca de 1990, passou a tomar o arquivo histórico como material crítico. Hal Foster, no ensaio An Archival Impulse (2004), identifica uma geração de artistas contemporâneos como Christian Boltanski, Walid Raad e Tacida Dean que trabalham e recuperam documentos, fotografias e registos institucionais para os reconfigurar segundo outras lógicas de sentido, não para restaurar o passado, mas para tornar legíveis as suas lacunas e violências.
24.06.2026 | por Luiza Calixto Tarasconi
Cabo Verde tem uma relação muito concreta com os limites: repartir o que há, desenrascar o que falta. Num sistema que continua a identificar progresso com crescimento infinito - e das crises ecológica e social produzidas por esse mesmo modelo -, o talento de países pequenos e sem recursos como Cabo Verde, capazes de transformar sobrevivência em comunidade, é uma inspiração. Um modo de lutar por condições que talvez venha da experiência histórica de sobreviver à fome. Da prática de djunta mon - de partilhar mãos e recursos, inter-ajuda entre vizinhos, parentes e emigrante. A música, que transformou perda e dor em coisas bonitas. Das mulheres que sustentam praticamente a economia doméstica durante décadas de emigração masculina. Toda essa energia não se reduz aos diagnósticos e político-sociais-económicos e aos indicadores internacionais.
24.06.2026 | por Marta Lança
Seis artistas foram convidados a desenvolver obras inéditas a partir de uma investigação nos arquivos das missões científicas coloniais realizadas na Guiné-Bissau, em Angola e em Moçambique entre as décadas de 1930 e 1950. A exposição apresenta o resultado de vários meses de pesquisa nas reservas do museu, através de diferentes linguagens artísticas, propondo uma reflexão sobre o papel do museu enquanto repositório de memórias e patrimónios africanos.
23.06.2026 | por vários
O trabalho de Marta Pinto Machado tem-se desenvolvido em torno da fotografia e do arquivo, explorando as relações entre memória, história, identidade e pertença, bem como os seus limites, silêncios e ausências. É precisamente nesse território, situado entre o visível e o invisível, entre a memória e o esquecimento, que se desenvolvem muitas das questões presentes nesta exposição. Para compreender melhor esta exposição, gostaria de partir de três projetos da artista que me parecem fundamentais para compreender algumas das questões que atravessam esta exposição.
11.06.2026 | por Inês Vieira Gomes
Na série L’invention du courage (O salto) (2021-2025), Isabelle trabalha sobre retratos transferidos para madeira e posteriormente quebrados e intervencionados com tinta acrílica. Importa sublinhar que a fotografia original permanece intacta. Aquilo que é destruído é a imagem transferida. Os rostos tornam-se parcialmente ocultos por cortes e manchas de cor intensa.
08.06.2026 | por Francisca Listopad
O lixo moderno veio com os tugas, e não saem nem por nada. Teimosos como tudo. Não desaparece se não for tratado... estou a falar do lixo, os tugas não me chateiam. A Câmara de Bissau (CMB) também anda a aprender com os europeus, então leva o lixo para bem longe da vista, limpa-se Bissau e os resíduos vão de camião para Safim, para aproveitar a autoestrada de oito quilómetros, e é atirado, contaminando canais de água que passam por bolanhas. É só uma questão de logística: Bissau, cidade limpa. Safim que se lixe. Antes era em Antula, quando este era "o fim do mundo", agora que Antula é Bissau, o lixo é que tem de se pôr a andar. Gentrificação lixuosa.
06.06.2026 | por Marinho de Pina
Gosto de pensar que … Supresa!! é como que uma secreta homenagem à persistência deste impulso inicial, algo utópico, que sobrevive no dia-a-dia da Oficina da Criança, mesmo se a sua formulação seja menos segura e assertiva que há 45 anos. (…) E gosto de pensar que a exposição iluminava, também, uma fé subjacente à criação e existência de espaços como a Oficina da Criança. É a fé na possibilidade – e não só na possibilidade, na exigência – de uma maneira diferente de fazer, baseada na generosidade, nos valores democráticos (antídoto eficaz contra o cinismo dominante de que “não é possível”, “não há alternativa”, “não vale a pena”), nas crianças e nos seus direitos e capacidades – fé que hoje pode parecer ingênua mas que alimentou e se alimenta de 45 anos de sólida prática. E porque não será possível? “Estamos vivos. Nada nos detém,”
22.04.2026 | por Gerbert Verheij
Durante mais de quatro décadas, o regime de Gaddafi procurou assim construir um modelo político próprio, baseado na afirmação da soberania nacional sobre os recursos naturais e numa forte intervenção do Estado na economia. Esse projeto acabaria, contudo, por enfrentar profundas transformações no início do século XXI, culminando nos acontecimentos que levariam à queda do regime em 2011.
02.04.2026 | por Pedro Oliveira
a COP de Belém entrou para a história por, na primeira vez, a convenção apresentar um Plano de Ação de Gênero de Belém (Belém Gender Action Plan 2026–2034), documento que reconhece que mulheres e meninas, incluindo indígenas, migrantes, com deficiência, agricultoras familiares e residentes de áreas rurais e remotas, sofrem impactos diferenciados da crise climática e, ao mesmo tempo, têm papel central como agentes de mudança. Também pela primeira vez, documentos oficiais da conferência mencionam afrodescendentes, reconhecendo vulnerabilidades específicas e a necessidade de políticas que considerem populações historicamente marginalizadas.
26.11.2025 | por Gabriella Florenzano
Foi esse contexto histórico de trocas políticas e utopias que inspirou a artista Zineb Sedira a desenvolver Standing Here Wondering Which Way To Go, um projeto multimídia que explora sonhos emancipatórios, redes transnacionais e noções de convívio. O título da exposição refere-se a uma canção interpretada pela cantora afro-americana Marion Williams no Festival Pan-Africano de Argel, remetendo-nos para o espírito de solidariedade e resistência global dos anos 1960 tão presente na Argélia recém-independente. Dividida em quatro "cenas", a exposição também celebra a cultura em suas diversas formas como uma ferramenta vital para a mobilização social e a consciência política. Do ponto de vista da carreira da artista, este projeto expande e reforça o notável trabalho de Sedira em torno do arquivo, concebendo-o como um espaço de movimento, ação e interação onde narrativas autobiográficas, documentais e históricas se justapõem.
13.11.2025 | por Amanda Tavares
nós-rio é o resultado dessa co-existência e dessa co-autoria, que se foi revelando nos mais diversos formatos. O impacto acabou por se reproduzir em praticamente todos os trabalhos. Multiplicar essas paisagens foi, também, um modo de nos tornarmos veículo do rio: mapeamos para conhecer e proteger, quer seja em pinturas, fotografias, filmes ou bordados.
02.10.2025 | por coletivo c.a.m.p.o s
Os 4 núcleos temáticos desvelam a geografia social de um território que a maioria dos fotógrafos desconhecia, embora alguns fossem já experientes e carregassem a bagagem de várias guerras e revoluções um pouco por todo o mundo. Descobriram em Portugal a alegria popular nas ruas de Lisboa, as reivindicações operárias na cintura industrial da capital, o Alentejo das revoltas contra os latifúndios e o Interior Norte empobrecido onde as crianças iam descalças para a escola, quando esta existia a quilómetros de distância, e em casa quase ninguém sabia ler.
02.10.2025 | por Carla Baptista
Sem louvar a burocracia, dir-se-ia que a sala de espera, esse estádio intermédio onde se arrastam os corpos e as identidades, tem também potencial para ser um espaço de criação, um lugar excecional de pensamento e questionamento, artístico e político. Nesse sentido, as artes visuais e performativas, a música e o cinema, com os seus comentários mordazes, mais ou menos explícitos, são essenciais para expor a realidade dos sem papéis, para documentar os indocumentados, e tomar consciência que estes corpos existem e exigem dignidade.
19.09.2025 | por Tiago Lança
A história de Adilson inscreve a de muitos "crioulos sem chão" que carregam Portugal às costas sem nunca poderem pertencer. «Eu não sou português, sou Portugal», a frase manifesto que valeu a Dino de Santiago vários comentários de haters e bots de extrema direita. O espetáculo rompe com o mito da integração: a realidade é feita de esperas, recusas e silêncios, mães que morrem no desgoto antes de verem resolvidos a cidadania. As personagens desfazem o mito da identidade ligada aos lugares concretos, somos feitos daquilo que trazemos, das curvas do bairro. Os nossos corpos são pátria. O que é que me espera do outro lado do mar?, A luta chama, será que eu vou? De que lado estou? E a pergunta meio ameaçadora: Quer ou não quer ser português? Lembrei-me da banda Miss Universo, que parecem responder a esta pergunta com outra mais interessante «explica lá outra vez o que é que ser português?»
14.09.2025 | por Marta Lança
A criação é fluída, assim como foi o processo. O que começou com uma residência artística a solo de Sergio García (a primeira de um artista estrangeiro no Estúdio-V), rapidamente evoluiu numa conexão criativa com Mac Verkron, com a intenção deliberada de refletir em conjunto a crueza e dureza estética de fogo, ar, madeira e de outros elementos naturais, cada um com um significado espiritual.
11.09.2025 | por Pedro Cardoso
Um trabalho sobre a vida da Mulher saharaui exilada há 50 anos no deserto mais inóspito do planeta. Cada peça apresenta uma imagem da realidade que as mães saharauis viveram durante um verão e um inverno, no deserto hamada. “Esta coleção conta uma história de resistência que perdura há mais de cinquenta anos, convidando o público a entender uma realidade frequentemente ignorada. É uma oportunidade única de aproximação à riqueza cultural e humana do povo saharaui, despertando empatia e reflexão através da arte.”, declara o artista plástico.
11.09.2025 | por Maria Frederica
O termo “laboratório” carrega aqui um duplo sentido. Por um lado, evoca a condição histórica de São Tomé e Príncipe como território-experiência: nas roças ensaiaram-se formas extremas de exploração agrícola, racial e social, espelhando no Atlântico o que já acontecia nas plantações americanas. Por outro lado, o laboratório afirma-se hoje como espaço de criação, de ensaio artístico e de produção crítica, onde a experiência coletiva se converte em imaginação partilhada. De entreposto de corpos arrancados às suas terras, as ilhas tornam-se entreposto cultural, lugar de circulação de ideias, linguagens e estéticas que devolvem ao mundo a sua própria imagem.
09.09.2025 | por vários
Há, no entanto, um denominador comum: a necessidade de partir. Trata-se de uma região que viveu longos períodos de miséria, em que a vida era demasiado dura para ser sustentada, levando muitos a emigrar, sobretudo para França, de onde regressaram com condições melhores. Como se percebe nos testemunhos, a emigração não era uma simples aventura, mas uma inevitabilidade.
14.08.2025 | por Manuel Halpern
Mais de cem pessoas reuniram-se em Lagos no dia 26 de julho, para recordar e homenagear os antepassados encontrados em Lagos, num programa que incluiu uma cerimónia de atribuição de nomes, uma procissão musical e uma homenagem aos antepassados. Com a Sociedade de Arqueólogos Africanistas, Tributo aos Ancestrais, Vicky Olze, Anson Street African Burial Ground, Grupo Firmeza Batucadeiras de Almancil e a National Geographic. A Câmara Municipal de Lagos, apesar de ter sido convidada, esteve ausente neste dia histórico.
01.08.2025 | por vários