Orlando Sérgio, o jovem que todos queremos ser

Quando Orlando Sérgio comemorou 60 anos no ano passado, postei uma fotografia em que estamos juntos no Centro de Imprensa de Luanda. Umas dreads despontam no cabelo do aniversariante que olha de frente o telemóvel que o fotografa. O seu olhar é o de quem não dá muita confiança, ao mesmo tempo que se entrega aos imprevistos e possibilidades que o presente lhe vai oferecendo.

Assim escrevi: “O kota Orlando Sérgio faz 60 anos e é o jovem que todos queremos ser”.

Orlando SérgioOrlando Sérgio

Conheci-o em finais de setembro de 2005 na Mexicana luandense, de porta aberta 24 sob 24 horas, muitas delas da nossa vida, em frente ao apartamento Sete e Meio na Maianga1 onde me aninharia também, em modo de inesquecível vivência coletiva. Entre quatro Cucas, o Orlando fez-me logo um retrato esclarecedor de Luanda e do país, suas makas políticas, económicas e artísticas. Nesse momento percebi que não aterrara em território fácil, mas de densos e estimulantes enredos. Companheiro de conversas e confidências, nas inquietações da insónia, em almoços solares ou fins-de-tarde na Mutamba. Luanda e Lisboa, são nossos pontos de encontro, mas até a Maputo (quando trabalhei no Dockanema e organizámos um mostra dos filmes de Ruy Duarte de Carvalho, com a sua presença) e a Ourique (onde reabilitei um monte alentejano) me foi visitar. Como não admirar a sua atenção e curiosidade por tudo o que se renova, perspicácia assertiva e conspirações infinitas? Não fora o raio da Covid estaria aí num grande boda contigo, amigo para a vida!

E é isso, não consigo imaginar a vida sem o amigo Orlado Sérgio que, desde há quase vinte anos, acompanha cada viagem, projeto, dúvida, desamor, carreira e, assim o espero, eu acompanho o seu percurso. Penso que com a pandemia todos ficámos mais sensíveis ao valor da amizade no tempo, as pessoas que nos veem crescer devolvem-nos o que somos em espelho crítico e verdadeiro. Por vezes nem é preciso dizer grande coisa, só o facto de existir, de podermos ligar e mandar uma mensagem desesperada, de sabermos ler as flutuações de humor e de energia do outro.

A postura singular e imponente (sem ocupar demasiado espaço, equilíbrio que nem sempre é fácil) de Orlando Sérgio é impactante onde quer que ele esteja. A voz com um timbre de sábio e teatro não dramático, manifesta ponderação, profundidade e jovialidade. Gosta de andar pela cidade e reunir-se com artistas, criativos, intelectuais, pessoas com almas inquietas, gosta de sentar-se em conversas prolongadas e a partilhar histórias hilariantes. A sua apreciação sobre acontecimentos do momento, a vida cultural e política de Luanda, Lisboa ou Rio de Janeiro, é tida em conta. A experiência de quem viveu momentos fundadores como o 25 de abril em Portugal ou a independência em Angola é uma mais-valia para construir memória e lembrar-nos a todos porque estamos aqui nas liberdades que temos. O seu envolvimento político vai desde os movimentos de extrema-esquerda ligados ao MPLA quando era adolescente (quando Agostinho Neto morre e José Eduardo dos San- tos inicia o seu longo mandato no poder, Orlando era um dos mais novos prisioneiros da cadeia de São Paulo), até ao empenho na campanha do Liberdade Já e dos presos políticos 15 + 1 de 2015, passando pela constante análise independente e despudorada que vai fazendo no seu quotidiano.

Orlando Sérgio passou por importantes momentos teatrais: foi o primeiro actor negro a ser protagonista num país de dramaturgia branca, Portugal, por exemplo em Othello, de Shakespeare, encenado por Joaquim Benite em 1993 ou n’A Missão,- de Heiner Muller, por Luís Miguel Cintra. Orlando no elenco de Os Negros, de Jean Genet (encenação de Rogério de Carvalho em 2007 e em 2016) e as variadíssimas peças no Elinga Teatro, como Woza Albert, encenado por Miguel Hurst em 2003 (seu amigo e companheiro recente de programação de cinema e conversas no Espaço Sete & Meio, em Luanda). Também podemos encontrar o Orlando a actuar em muitos filmes, três exemplos: Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira (2016), Sandra princesa Rebelde (1995) ou Njinga Rainha de Angola (2013). Ou trazendo pertinentes reflexões em documentários como os de Ariel de Bigault em Afro-Lisboa, de 1996 ou, também da autora francesa que mais trabalhou questões lusófonas Os Fantasmas do Império (2020).

Orlando Sérgio e Ângelo Torres no filme 'Fantasmas do Império' de Ariel de Bigault (2020)Orlando Sérgio e Ângelo Torres no filme 'Fantasmas do Império' de Ariel de Bigault (2020)

[Um pormenor relevante da sua vida de ator: quando eu vivia em Luanda, o actor malanjino safava-me dos “pentes” da polícia quando surgia encarnando o respeitado Moisés Adão, da sitcom Conversas no Quintal da TPA.]

Outra das suas cumplicidades que gosto de apreciar é a sua amizade e companheirismo com o artista Kiluanji Kia Henda, desde os tempos da exposição Angola Combatente (2005) e da I Trienal de Luanda (2006, 7). Tem participado em várias das suas encenações fotográfircas e exposições internacionais, e acompanhado no bom sentido da crítica a sua carreira, além da revitalização da dinâmica cultural de Luanda, como o Espaço Sete & Meio ou as surpreendentes edições Fuck’ing Globo que, todos os anos, de forma independente, mostram e potenciam o trabalho de artistas angolanos.

Orlando Sérgio podia ser comentador político de televisões ou jornais, podia ter sido o médico consagrado se não tivesse trocado o curso de medicina para ser actor, podia ser diretor de um teatro ou ministro da cultura. Mas tenho poucas dúvidas de que prefere a liberdade de andar por aí pelos apelos da vida, semeando interrogações e provocando um espírito crítico, que sempre se reinventa, do que fazer vénias institucionais ou trabalhar em funções que o prendam muito a um só vínculo.

 

Depoimento para uma homenagem ao actor Orlando Sérgio no Cultura, Jornal Angolano de Artes e Letras, 1/9/2021.

mais infos sobre o ator.

 

  • 1. *O apartamento ficava num sétimo andar (e meio) de um prédio típico de arquitetura colonial que se foi degradando com a utilização e o desleixo na manutenção, a luz e água faltavam regularmente mas lá nos íamos entretendo. Bem localizado, dali podíamos rapidamente fugir para o aeroporto ou caminhar a pé para a Mutamba beber copos ou para trabalhar na Cidade Alta, na primeira Trienal de Luanda. O Sete e Meio tinha fama pelo seu ambiente animado e festivo. Proporcionávamos jantares e festas nos quais passavam amigos e artistas que andavam pela cidade. Era também poiso para quem já não conseguia chegar à sua própria casa. O Sete e Meio entra num capítulo do romance “As mulheres de meu pai”, de José Eduardo Agualusa e é referido no livro “Os brancos também sabem dançar”, de Kalaf. A sua informalidade e mistura de gentes, e partilha de casa entre amigos (não muito comum em ngola) chamava a atenção. Era ponto de encontro, troca de ideias e de experiências criativas, performativas e gastronómicas. Também não faltaram tensões de relacionamentos, entre amigos e amorados. Por lá passou muita gente e se conspiraram muitas histórias e obras de arte, muito debate político e vivencial. Ali se ouviram os primeiros kuduros, projectámos muitos filmes e fomos felizes na adrenalina de Luanda.

por Marta Lança
Cara a cara | 22 Setembro 2021 | angola, artistas angolanos, ator, Orlando Sérgio, teatro