Baralho de Cartas 22

Ricardo, 

É absurdo perder tempo a lamentar e a justificar o que não fazemos nem escrevemos. Há até livros inteiros de falsa modéstia (frouxa) sobre as razões de não se escrever. Creio que será sempre melhor incorporar as interrupções e as impossibilidades da escrita do que lamentá-la. Essa matéria aparentemente hostil à concentração, como escreveu a Virgínia Woolf sobre uma mulher, ou a mulher: «Todas as circunstâncias da sua vida, todos os seus instintos eram hostis ao estado de espírito necessário para pôr em liberdade o que habita no cérebro». 

Sobre a correspondência, há pouco recebi uma carta manuscrita, com selo lambido e tudo, de um grande amigo. A alegria adormecida de receber uma carta é idêntica à alegria de voltar a dançar após um longo período acamada num hospital. Pela sua perenidade e singularidade, por grafarem algo no espaço, as cartas são a mais bela e íntima prova de estima e dedicação. Uma carta doa-se, envia-se sem prova, não é uma carta registada: “Entrego ao destinatário a prova física das minhas palavras com toda a confiança”. Um gesto que segue de um a outro ponto sem deixar rasto. Lembras-te quando não se podia fazer search com lupa digital e era mesmo necessário usar os dedos por completo para abrir envelopes envelhecidos, mantendo frescas as palavras? 

Ando a ler cartas e telegramas de um desconhecido. Todo um espólio epistolar em caixa de fruta, comprado na Feira da Ladra por 20 paus. As parcelas de vida de um estranho Luís são-me desveladas através dos reparos, solicitações e análises de carácter dos seus remetentes. Nestas cartas ao Luís, só tenho acesso a um lado da história, mas as descrições dos outros são suficientes para desenhar a sua figura. Pelo modo como algumas mulheres, em diferentes fases da vida do rapaz (sobretudo na temporada de estudante em Coimbra nos anos 60), lhe dedicam tempo e se impacientam por notícias na volta do correio. Frenéticas cartas de uma moça de Viseu que passa férias na Figueira da Foz e está sempre a mandar o seu querido estudar, ansiando a sua companhia de fim-de-semana na Lousã, onde se perde nos seus braços; e uma outra, mais parca e menos maçadora a escrever-lhe, por quem ele parece caidinho e com quem desconfio que veio a casar-se. Também há postais deslumbrados de Madrid e evasivas notas de uma amante em Paris. Aventuras comezinhas e comentários sobre tudo e nada, cartas de um irmão preocupado com o arranjo do carro, a contar da tropa em Cascais e das idas aos fados, cartas de um padrinho sempre a desejar-lhe juizinho e que prepare O SEU futuro, chatices burocráticas de advogados e ainda, já com aquela caligrafia anos 80 que desenhava uma grande bola no i, os bilhetes de amor da filha.

Sinto-me voyeur de correspondência alheia. Será que este desconhecido apreciaria que uma estranha dos anos 2020 devassasse assim a sua intimidade? Não minimiza a minha bisbilhotice, mas há uma espécie de subentendido de que as cartas, por mais secretas e incognoscíveis, ficam à mercê de encontradas na sua materialidade e, logo, lidas por alguém. Mesmo que desinteressantes, o seu valor documental apura com o tempo. 

Por sua vez, ler o correio eletrónico de outrem parece mais invasivo e infrator. E tecnicista, pode-se pesquisar e reler as vezes que se quiser, ter provas do escrito e combinado, reencaminhar, gravar, deturpar. Quero acreditar que nenhuma password salvaguarda o pó das palavras de amor e de amizade nos emails. Um dia dissipar-se-ão na nuvem digital. 

Terá a realidade pesos diferentes conforme os meios e suportes?  

Não me importava se, daqui a 50 anos, certamente já defunta, lessem as cartas que recebi — deixei de trocá-las assiduidade em 2005 e daí, sem acederem à minha narração nem ao contraditório, decifrassem um pouco da pessoa jovem que fui através dos meus correspondentes e do mundo daquela altura. 

Na chuva de email podem estar presentes os dois pontos do correio, porém, não estou certa de que a apreciação seja mais interessante ou incontornavelmente mais justa nos pormenores do testemunho. De qualquer modo, preparemo-nos. Se ainda restar curiosidade pelo passado, quando formos mumificados na insignificância, os escafandristas virão, como canta o Buarque, “explorar sua casa, seu quarto, suas coisas, sua alma, desvãos / sábios em vão / tentarão decifrar / o eco de antigas palavras / fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos, vestígios…” 

Durante quatro anos, o Miguel Esteves Cardoso escreveu cartas desde Manchester a um amigo na Vila Berta, na Graça, sem este lhe ter respondido uma única vez. Apesar do seu interlocutor mudo e calado, MEC não desistiu da prática e treino de escrita, como um diário. É verdade que escrever, mesmo que seja mau, do pior, acaba sempre por deixar lastro, em última instância passa a ser um documento da merda que se pensa. Talvez seja isso que ando para aqui a fazer. 

Quando vivia noutro continente, alguém me fez este pedido: “Espero que não pares de me escrever. Os teus mails têm funcionado como capítulos nos meus dias por cá. Como se eu fosse uma personagem tua, que chega ao fim de cada capítulo e começa a andar às voltas sem saber muito bem o que fazer, à espera de novas instruções de mais um capítulo.”

 

Devolvo-te a ti o pedido. Conta-me de ti, como andas? Dá-me instruções, ilumina os próximos passos fora do calendário. 

 

stills dos fime 'News from Home', Chantal Akerman, 1976stills dos fime 'News from Home', Chantal Akerman, 1976  

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 (Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

por Marta Lança
Mukanda | 26 Maio 2026 | Baralho de Cartas