Baralho de Cartas 29
Marta,
A cidade recusa-se à compreensão, por vezes espectral como um pântano enevoado, outras de uma solidez que fere e me deixa do outro lado dos muros. Tenho a impressão de nunca ter abandonado esta povoação, de me ter misturado com as suas vielas, com as construções aberrantes dos anos oitenta. Na verdade, as viagens que fiz ganharam feições imaginárias, ao ponto de não saber se as realizei. Nunca saí desta cidade, apenas me afastei momentaneamente. Faço parte dos homens sem mundo. Viver sempre no mesmo lugar enfraquece esta percepção, o hábito matiza-me com as cores que estão à minha volta. Digo que me é familiar, como se soubesse o que estou a dizer. Estou tão pouco em casa como o pedreiro no prédio que construiu.
Imaginamos que o acontecimento nos espera algures, onde aconteceu aos outros. Talvez seja por isso que corremos de lugar em lugar, na esperança que aconteça qualquer coisa. A magia que atribuímos aos lugares não vem de um desconhecido que queremos explorar, mas de uma ficção que interiorizamos. Como a Índia para a geração dos ‘Hippies’. Há um documentário extraordinário do Louis Malle, chamado Índia fantasma, no qual parte à procura da Índia “profunda”. No primeiro episódio cruza-se com dois miúdos encantados, livres de todas as peias, ansiosos com as revelações por vir. Seis episódios mais tarde volta a encontrá-los, doentes, sem dinheiro, à espera que os papás lhes enviem dinheiro para voltarem para os Estados Unidos. A espectralidade do quotidiano, o flutuar sobre uma realidade sobre a qual não temos nenhuma agência, é magnetizada pela fantasia de um encontro que abstrai todo o esforço e movimento pelo qual passaram os que se transformaram. A sacralidade dos lugares é apenas um resíduo da superstição, da crença de uma mutação passiva. No entanto, até este resíduo já se transformou em cinza. Já ninguém espera encontrar Cristo em Jerusalém, nem o Buda nas margens do Ganges.
A minha vida é bifurcada entre a cidade onde durmo e o castelo onde trabalho. O castelo é uma casca oca, devorado pelas térmitas do turismo, não vive ninguém no interior. A cidade é a capital do comércio tradicional, apesar deste ter desaparecido. Junto à ESAD está um outdoor onde se lê: “bem-vindo à arte de comprar”. É a floresta que atravesso. Tento descobrir a minha autonomia, abandoná-la o menos possível, apesar de a saber num estado inquinado. A cidade é como uma pintura incompleta, com craquelês e imperfeições por onde um sopro se intromete. Nunca saí daqui. Entro e saio de casa com palavras em redor dos dedos. Procuro a inteligência bravia que tanto repugna os homens. Algo que tenha escapado à domesticação. O que cresce sem ser gerido, sem direção imposta, o que nunca se conhece por completo. Tento ver o que há de lobo nos cães, o que há de deserto nas palavras, o que há de danado nos homens que encontro.

(When I Woke Up in the Morning, the Feeling Was Still There1992, Angus Fairhurst)
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