Baralho de Cartas 31

Marta,

Ando a queimar fósforos enquanto olho para os fogos no ecrã. Por aqui ainda consigo queimar os dedos, ver um papel a consumir-se e pensar nas inflexões do ser. No ecrã é o mundo que se consome, que arde minuto a minuto, bairros que desaparecem num estalar de dedos. Há um encadear de coisas que nos trouxeram aqui. Gostava de perceber melhor o que é isto a que chamamos tempo. Será que ainda temos tempo para pensar no tempo? O que atravessamos, o que nos atravessa?
Vivo no avesso do tempo, num espaço tecido por hábitos e conjecturas. Houve uma altura em que caí dentro dele como uma mosca num frasco de compota. Queria saber do mundo, ou melhor, queria comer o mundo. O espaço abria-se e fechava-se debaixo dos pés, à frente dos olhos. Metiam-me medo. Acelerava. Tudo isto se vai desfazendo, perdendo contornos e definição. Vivíamos na tesão dos liberais. Com uma rede debaixo dos pés e palas em redor dos olhos. Falo nisto quando o tempo exige que me volte para o presente, não irei para a guerra com uma mochila de sonhos enjeitados. Preciso de saber como me serviram o tempo à compreensão. “Vós, agitadores da vida eterna, da juventude, de baixo custo, irremediavelmente barata, vós que fazeis uma vaidade da ausência de qualidade”, escreveu Pasolini, os senhores do tempo, a direita e a igreja, estavam sempre a agarrar-me na mão.

Mas o que é o tempo para eles? Crédito, dívidas e culpabilização, medida, princípio de acumulação. Para nós, o tempo não é uma régua com a qual medimos os dias, é um fogo com que acendemos a vida, o tempo só existe enquanto possibilidade de libertação. É um processo criativo, como para Espinosa, é conseguir abrir novas dimensões com a imaginação. O chamado “reino do bem-estar” é, como disse Vaneigem, um palácio dividido em quartos de criadas. O conforto e estabilidade repousa sobre estruturas de desigualdade profundas e persistentes. Longe de serem fruto de um erro evolutivo, fazem parte do esqueleto da sociedade, e nenhum ajuste dentro do sistema mudaria a sua condição. Todas as alternativas aparecem como utópicas. Apesar de nem sempre conseguirmos ler o que se passa ao nosso redor, tentamos continuar a nomear e a dar atenção aos que permanecem soterrados nas engrenagens da máquina.

Nasci e cresci numa sociedade dissolvida e pacificada, sem a força dos que passaram por conflitos colectivos, o meu corpo não tem o saber dos que os viveram. Tenho, no entanto, de encontrar a escala que me leve às questões de conjunto, que me arranque aos problemas individuais. É essa leitura — demorada, atenta, radical — que se impõe como tarefa. O mundo em que vivemos não nos pertence; é uma ficção que nos foi imposta, uma construção que nos castra, empobrece e diminui. Romper com essa ficção exige não apenas o desejo de outro mundo, mas a aposta concreta na sua criação.

Trata-se de inventar tempo, um tempo que não se deixe medir ou controlar — um tempo que fuja aos mecanismos de captura da norma e do capital. Reconhecer o gesto que nos violenta, é, talvez, o ponto de partida do pensamento crítico. Abrir os dedos, um a um, do punho que nos golpeia, encontrar a mão que o move. O discurso de quem detém o poder não se preocupa em esconder a divisão social nem a existência da miséria; pelo contrário, mostra desdém pelos dominados, como se a desigualdade fosse natural e imutável. Muitos são os que vêm para a cidade mas poucos são os escolhidos, como disse Cristo para o reino dos céus. Esse reino, céu ou inferno, não nos interessa, apenas conhecê-lo para o combater, aquilo que acreditamos nascerá da mão que não foi escolhida. 

O céu que nos vendem é um inferno. O céu dos poucos, que vivem no desprezo de todos. Onde se conta o tempo e tudo o que ele abarca. Um lugar sem apego, sem avesso, sem colinas para subir, sem montes onde se veja alguma coisa. Os filósofos deliram em penhascos imaginados, os analistas escavam poços fictícios de uma profundidade a controlar. Na planície construída pela cibernética, só os fluxos e os cortes, a superfície que nos obriga a respirar sofregamente. Será que vemos alguma coisa para além dum espelhar infinito, onde êxtase e aborrecimento estão em continuidade, no mesmo plano virtual? O tempo morto é arrancado como um dente podre, assim como tudo o que não está catalogado. Os homens são identificados, ordenados, rasurados, dentro de uma máquina eternamente presente, forçados a trabalhar naquilo que dispensa a sua participação. O próximo e o distante coincidem. As patologias nervosas que nos estilhaçam, fruto de uma humilhação, sempre a mesma, a de nos vermos excluídos da nossa vida, o sentimento de ser objecto, de trabalho, de exploração, de diversão.

To Draw Fire 1970, Barry FlanaganTo Draw Fire 1970, Barry Flanagan

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por Ricardo Norte
A ler | 28 Julho 2026 | Baralho de Carta