Baralho de Cartas 13
Marta,
Ouvir-te falar do teu passado, das histórias que viveste, do que te contaram, como isso tudo esculpiu o teu sentido de justiça, deixa-me confiante. Tudo se passou no tempo dos nossos pais. O meu pai nasceu em 31, viveu dois terços do sinistro século que passou. Dedicou a primeira parte da vida a cuidar de animais numa pequena aldeia perto de Alcobaça. Em 61 escapou à guerra, nunca me disse como. Aliás, desconfio que aqui começa uma grande diferença entre nós. Na casa onde cresci, tentavam deixar a história do lado de fora da porta, acabava por entrar, pelas frestas, agarrada às roupas, aos bibelôs e aos queixumes. Mas, ninguém falava dela. Ninguém nomeava nada. Falei-te noutra carta da alegria de nomear, naquela casa havia uma castração terrível do gozo de dar um nome a alguma coisa. De abril contaram-me o medo que tiveram, de irem buscar o meu irmão às Belas-artes. De África nunca se falou, e o comunismo era um monstro que os assustava. À sexta rezavam o terço com a aldeia na garagem. Havia uma mesquinhez senhorial no uso da religião. Talvez exagere, mas, fazê-lo é hoje parte da minha liberdade, a sua conduta orientava-se no repúdio ao diálogo. Só me resta falar com sombras, elas inclinam-se sempre para os exageros. Era demasiado novo para que fosse simples. O meu pai tirou um bacharel de engenharia, escapou-se às cabras e às ovelhas, e fez uma vivenda sobranceira, como as nortenhas dos emigrantes, numa aldeia perto das Caldas. Da vida com os animais ficou um galinheiro e um porco que se matava uma vez por ano. Cresci numa bolha de incenso. Fizeram da pobreza uma culpa, isso amargava os grelos no quintal. Não eram ricos, tinham mais coisas do que os pais deles, e uma mudez que os amedrontava. O que me salvou, uso o verbo em contra-mão, foram os montes e os pinhais. Os diabos que os habitavam, os bichos de fagulhas no pêlo. Mas era um mundo silencioso, tecido de breu e olhares esquivos, não foi aí que aprendi a falar.
Untitled Collage II, 1985, Damien Hirst
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(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)